É pro seu bem

Postado em 20 de mar de 2012 / Por Marcus Vinicius

O ser humano é egoísta. E violento. E auto-destrutivo algumas vezes. O ser humano é capaz de cada ignorância e idiotice que deixariam os asnos com vontade de entrar na justiça e pedir quebra de copyright. Mas se tem uma coisa que sempre foi motivo de orgulho para essa espécie naturalmente já tão orgulhosa, é o seu livre arbítrio.

Essa coisa esquisita e incômoda chamada liberdade. Só que do jeito que caminha tudo, é impossível não imaginar em como seria um passeio de sábado a tarde num futuro que nos espera ali na esquina.

Você sai de casa, mas antes confere se está usando filtro solar, afinal, aquele texto insuportável narrado pelo Pedro Bial virou lei. Pro seu bem, a Anvisa decidiu que ninguém mais poderia sair na rua sem um FPS 50.

Quem fosse pego em infração deveria participar de um programa de reeducação e, como punição, ter a sua cota mensal de Coca-Cola - que por engordar e fazer mal à saúde, onerando o contribuinte, agora tinha sua venda limitada a duas latas por cidadão - removida do cartão de racionamento.

Quando entra no elevador, percebe que o vizinho colocou muito perfume, coisa de quem não respeita a Lei da Camada de Ozônio. Anota um lembrete no celular para não esquecer de fazer uma denúncia anônima depois. Esse tipo de gente te deixa tão nervoso que dá até vontade de voltar a fumar, mas só vontade, afinal, você não é louco de ir parar na cadeia que nem aquele seu primo que cumpre 20 anos num presídio federal porque foi pego com um cigarro mentolado no bolso.

Foda, foi só falar em menta e deu vontade de tomar aquele sorvete delicioso que tem na praça de alimentação do shopping, mas aí você lembra que esse mês já tomou três e para tomar o quarto precisa apresentar o atestado médico e o termo de responsabilidade abrindo mão de atendimento pelo SUS em caso de diabetes e ambos estão vencidos. Vai ter que se contentar com uma das 20 lojas de alface e granola espalhadas pelo local.


É que depois que as prefeituras pararam de dar alvarás para cadeias de fast-food e pizzarias (faz mal à sua saúde e é pro seu bem), só é possível encontrar hortaliças e carne de soja em quase qualquer lugar, menos no mercado negro, onde são vendidos junto com emagrecedores que foram banidos em nome da cruzada para exterminar a preguiça, a indolência e a gulodice dos obesos.

Aliás, você precisa correr para completar seus 120 km de esteira ergométrica mensais, senão descontam 20% do seu salário conforme a "Lei da Atividade Física".

Mas não é hora de pensar em problema, você saiu de casa pra ir na festa de um ano do seu sobrinho e só quer se divertir.

Chegando lá, é quase impossível não sentir saudade da sua infância e daquelas festas com balões de gás, línguas de sogra e brigadeiros. Agora as festas não tem mais balões ( látex foi proibido em nome da sustentabilidade), nem língua de sogra (termo depreciativo para a progenitora do cônjuge dos seus pais), muito menos brigadeiro (muito chocolate, que aliás está em vias de ser proibido).

Numa roda as crianças brincam alegres, cantando a versão autorizada pela "Comissão para a Promoção da Virtude na Imprensa e nas Artes" de uma velha canção infantil:

"Não atire o pau no gato-to, porque isso-so, não se faz-faz-faz, o gatinho-nho, é nosso amigo-go, não devemos maltratar os animais. Miau!"

Você fica olhando aquilo com cara de babaca e apesar de só servirem canapés de kani, brigadeiros de açúcar mascavo e suco de clorofila, ataca as bandejas com voracidade, já que está sentindo uma grande "necessidade alimentar", termo que foi inventado para designar a velha fome sem que sua fome burguesa, branca e ocidental ofenda os povos oprimidos que realmente passam fome.

Isso porque antigamente diziam que a "fome é negra", mas se você falasse isso mesmo que fosse em tom de piada, terminaria enquadrado na Lei de Harmonia Racial.

Isso te deixa de saco cheio, já que no seu tempo o mundo não era tão paranóico. Mas se serve de consolo, pelo menos é tudo pro seu bem.

2 Comentários:

Isabel postou 20 de março de 2012 07:37

Muito bom! E muito assustador também, pois apesar do exagero, de certa forma estamos caminhando para uma sociedade controladora e opressiva sim (mas tudo para o seu bem, é claro).

Bia Navarro postou 20 de março de 2012 13:16

Achei mto bom o texto, de muita criatividade, eu acho a sociedade não tende a isso e sim a um consumismo ainda maior, mas achei demais o texto, bem escrito e ótima criatividade e cômico também.

 
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