Tenho uma notícia para você, meu amigo: elas sempre te vencerão - Parte 3

Postado em 28 de fev de 2011 / Por Marcus Vinicius 10 Comentários

Pouca coisa é tão complicada quanto o relacionamento homem x mulher. Talvez a conjectura de Poincaré tenha sido resolvida com menos neurônios queimados do que a forma de lidar com o outro durante um relacionamento.

Passados a paquera, o primeiro beijo, a primeira transa, o dormir de conchinha e o hálito da manhã do dia seguinte, a maioria dos casais vira pó e ambos voltam para o mercado. Quer dizer, acontece muito, mas nem sempre.

Algumas vezes a coisa foi boa e acontece mais ou menos como um salgadinho de pacote: não existe muita certeza de que vai lhe fazer bem no longo prazo, mas já que é gostoso, você repete.

E começamos a sair com aquela pessoa, que vira o nosso "rolo". Tudo é muito legal, já que a idéia do rolo em si é uma coisa fantástica: você tem alguém para sair, para dormir junto, para tudo de bom que tem num relacionamento estável e ainda por cima não precisa dar exclusividade.

Mas como quase tudo na vida tem um lado bom e um ruim - exceto velhos discos de vinil do Raça Negra, que só tem lados ruins - a gente fica feliz porque nos livramos de dar exclusividade, mas esquecemos que faz parte do acordo não recebermos também.

Aí um dia, um belo lindo dia, você telefona pra sua gatinha, aquele seu "rolo" por quem você está se apegando, convida pra ir na praia e ouve algo como "não dá, hoje eu vou pra um churrasco-rave com o Paulinho".

Pera aí?! Paulinho? Quem será? Irmão? Tio? Amigo? O motorista do táxi que vai deixá-la no tal churrasco-rave? Hein? "Churrasco-rave"? Porra, ela vai ficar com alguém(ou alguéns)!


A partir daí, o sistema do rolo pára de funcionar.

"Pimenta nos olhos dos outros é refresco". Concordo, e exclusividade, fidelidade, monogamia, seja o nome que for, é a anti-pimenta. A gente prefere no nosso.

Mas como dizer isso para ela? Como chegar pra menina que, pelo visto, está muito bem só saindo contigo e dizer que você quer algo a mais?

Afinal de contas, elas é que são as sensíveis, às vezes carentes, sempre prontas para assumirem com gosto o papel de "patroa".

Mas essa em questão parece bem confortável na situação atual. Curte sair contigo, vocês se dão bem juntos, mas de uma hora pra outra aquela "sexta-feira entre amigas" começa a te incomodar, principalmente pelo fato de que essas amigas devem ter amigos, esses amigos devem ter uns 40cm de braço e uma coisa leva à outra.

A companhia é agradável, seus jantares são divertidos e vocês até conseguiram encontrar a medida exata de lidar com a conta. Sim, a conta do restaurante aqui é o parêntese: é uma arte encontrar o equilíbrio entre o que não te faça parecer um pão-duro que divide até fatia de pizza, ou um metido a besta que pensa que ela não é independente e precisa de homem para pagar até um picolé.

O sexo é delicioso e você até ficou feliz porque ela esqueceu uma calcinha na sua casa, o que confere um bom grau de intimidade entre vocês - mas não tanto a ponto dela te pedir o carro emprestado - mas o fato dela não indicar que deseja deixar de ser só um rolo está te deixando neurótico.

Será que ela não te acha bom o bastante pra isso? Será que só está afim de curtir a vida e te usa como uma espécie de entreposto entre o Paulinho e o Betão?

Daí quando você está prestes a virar um personagem de filme do Woody Allen, resolve que é hora de conversar com ela, perguntar o que ela sente por você, dizer que queria alguma coisa a mais, enfim, decide ser o que sempre ouviu dizer que as mulheres querem: um cara sensível.

Sempre que você só quis umas saidinhas, foi visto como canalha, safado, cafajeste, cretino. Pronto, conheceu aquela que vai te redimir disso. Você vai tomar a iniciativa, vai fazer algo a respeito.

Sentam num bar, você conta tudo o que sente, diz que quer alguém para dormir e acordar junto, para ligar no final do dia e até fazer planos. Ela ouve tudo atentamente, dá um risinho e responde:

- Que papo de mulézinha, hein?

Tenho uma notícia para você, meu amigo: elas sempre te vencerão - Parte 2

Postado em 25 de fev de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

A fase de conquista é perigosa. São muitas variáveis: você está afim, mas ela não. Ela está afim, mas você não. Ela tem horror de você, mas você não. Só que nem sempre dá errado, às vezes acontece de você e ela estarem afim e, milagrosamente, você não fazer nada para estragar isso.

E aí, meu camarada, é que seus problemas começam realmente.

Uns beijos numa boate ou na festa de aniversário daquele seu amigo são só a parte fácil. O dilema tem início no seu comportamento imediato após o primeiro beijo. Se for logo com a mão pra dentro do decote dela, com certeza vai levar com um copo de prosecco ou Malibu na cara e ser chamado de Silvio Berlusconi.

Mas também se você demorar muito a mostrar algo além das suas habilidades atléticas com o genioglosso (isso mesmo, a língua tem esse nome horrível), periga ficar conhecido como o Rubinho Barrichello da turma.

Digamos, porém, que a moça seja mais avançadinha e queira, como diz o popular, "dar de prima".

Aqui abro um parêntese para dar razão à elas nessa questão do "quando dar".

Se a menina demora pra ir pra cama com o sujeito, está "regulando", é metida a santinha. Se vai logo de uma vez, é piranha. Ou seja, nesse quesito, são elas que se dão mal.

Mas como você e ela são grandinhos e já passaram da fase de trocar chicletes mastigados para provar que se amam, resolveram de comum acordo partir para a conjunção carnal. Assim que chegam no motel, você fica na dúvida se tira a roupa e fica calçado ou se tira tudo e fica só com a sua cueca do Pernalonga.


E enquanto está entretido com os canais eróticos e elaborando uma teoria sobre o fato de que se todo mundo sente nojo e não entra, aquela piscina do motel não é tão imunda quanto dizem, ela sai do banheiro enrolada numa toalha.

Você só tem tempo de desligar a TV correndo, antes que ela veja o Kid Bengala em ação e isso fatalmente leve a comparações que só te trarão problemas e darão mais dinheiro para o seu analista.

Fica ali meio perdido, mas num segundo tudo se torna menos importante, porque ali, diante de você, está a única coisa que consegue prender mais a atenção de um homem do que uma partida de futebol, um carro possante, uma luta do UFC, videogame ou uma coleção de Playmobils: mulher pelada.

E o melhor nesse caso é que esta mulher pelada em questão não está na última edição da Playboy que chegou na sua caixa de correio ou no YouPorn, ela está ali, bem na sua frente. Linda, cheirosa, cabelos molhados e...nua.

Meu amigo, nada no mundo pode suplantar a visão de uma bela mulher totalmente despida. Eu sei que elas irão discordar de mim, dirão que um homem sem roupa também é bonito na opinião delas, mas vai por mim: só o fato de duas mulheres juntas excitarem um homem e, para a maioria  delas, dois homens juntos serem apenas dois integrantes do Village People, já prova que eu estou certo.

Sem roupa, elas nos dão de mil.

E o que você pode fazer depois de uma visão impressionante dessas? Me diga? Uma mulher dessa tira a roupa na sua frente, o que você poderia fazer para impressioná-la mais do que ela te impressionou?

Só mesmo aparecer montado num unicórnio...

Você vai precisar caprichar muito na sua "ação" para se equiparar ao que ela te causou apenas aparecendo nua na sua frente. Porque homem quer peitos, bunda, coxas. Mulheres querem fantasia, enredo, ação.

De novo, elas venceram.

Tenho uma notícia para você, meu amigo: elas sempre te vencerão - Parte 1

Postado em 23 de fev de 2011 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

No fundo, são elas que mandam.

E não adianta seu impulso de macho alfa superior dizer que não, porque você sabe que elas é que tem o poder.

Americanos falam em "pussy power"  e devo admitir que esse é um elemento poderoso na equação, mas isso seria superdimensionar nosso instinto primitivo - aquela coisa do "mim procura caverna" - e subdimensionar a força que elas tem.

Sempre que penso nisso lembro de conversas que tenho com um amigo (e acho que todo homem já teve esse tipo de conversa com algum amigo). Nós concluímos que mesmo uma mulher feia para nossos padrões estéticos conseguiria arrumar alguém para sair no final da noite com mais facilidade do que um homem bonito pelos mesmos padrões.

A única coisa que a mulher precisa fazer é sinalizar que está afim. Nós, pelo contrário, precisamos captar corretamente esse sinal, fazer uma aproximação que seja razoável e depois fazer toda aquela dança do acasalamento para que, finalmente, ela nos dê o seu "OK, você está convidado para conhecer partes do meu corpo".

Sim, porque o "todo" não está previsto inicialmente no contrato e isso pode levar algumas horas, alguns dias ou talvez nunca aconteça. Como sempre - a menos que você seja o Maniaco do Parque - depende dela.

Uma coisinha feita ou dita de forma errada e colocamos tudo a perder.

Ela está lá, com as amigas na boate, te olha, mexe nos cabelos, pisca o olho, começa a lamber os lábios e fazer gestos lacivos e você pensa: acho que ela está me dando mole.


E curiosamente, a despeito da sua blusa do Lanterna Verde e dos seus amigos brincando Mary Poppins com guarda-chuvinhas da Piña Colada, ela realmente se interessou por você.

Após algum debate e umas duas horas de cálculos para saber se deveria ir ou não até lá, você resolve que vai falar com ela. Limpa a garganta, ajeita o topete, confere se não tem nada nos dentes e caminha até a moça. Mas na hora de dizer alguma coisa me sai com algo como "você parece com a Bruna Surfistinha, sabia?".

Pronto. O que seria um golaço vira um frangaço e você vai terminar a noite jogando PS3 com aquele monte de retardados.

Mas digamos que você não seja um babaca que sai para a noite usando camisetas de super-herói, que saiba falar com mulheres, que tenha comido mais gente do que o Gene Simmons e que auto-confiança não seja um problema.

Ainda assim existe aquela que não te quer. Ela nem é tão bonita assim, é até um pouco sem graça, mas você resolveu que ia dar uns beijinhos nela "só por caridade", até que foi atropelado pela dura realidade: são elas que decidem.

Ela só foi ali dançar mesmo - acredite, elas fazem isso - e nem te achou grande coisa, mas é o que bastava: a rejeição fez ela virar a mulher da sua vida em 10 segundos. Homem adora isso e provavelmente você vai arrumar um jeito de pegar o telefone dela com alguém e começar uma busca infrutífera, porque quanto mais interessado você se mostrar, menos ela vai te querer.

- Alô, é o Fulano...

- Oi, Fulano, eu estou meio ocupada agora, pode ligar depois?

- Tudo bem, só queria saber se está afim de ir no cinema comigo hoje...

- Nem rola, tenho que estudar, depois fazer o jantar, depois dar comida pro hamster e depois vou contar os azulejos do banheiro...

- E amanhã?

- Olha, vou estar mais ou menos ocupada até 2050...

- Posso esperar até lá?

Por isso acredito que a tal teoria de que "elas dizem não até dizer sim" só faz com que você corra o sério risco de receber um mandato judicial estabelecendo uma distância de 500 metros entre os dois.

E mesmo quando é você que não quer nada, ainda assim elas mostram a sua força.

A menina é bonita, inteligente, gente boa e está afim de você. Só que por alguma razão desconhecida, todos esses atributos que ela reune não fazem a menor diferença: você não está nem um pouco interessado.

Ela te quer, você não. Todos os seus amigos ficam repetindo que ela é linda, que é "menina pra casar" e nada disso faz surgir em você o menor desejo por ela. Na realidade, você fica mais animado com a idéia de tomar um capuccino do que ficar com ela.

Se fosse o contrário, todos entenderiam, afinal, "a mulher não precisa estar afim". Mas não é esse o caso. E sabe o que acontece?

- Ah, com certeza ele virou bicha.

Viram? Não dá pra vencer.

O Zé das Tralhas

Postado em 21 de fev de 2011 / Por Marcus Vinicius 12 Comentários

Atualmente dão nome para todas as manias que sempre existiram. É síndrome disso, fobia daquilo, mania de não sei o que. Não estou duvidando das terminologias, só acho engraçado essa catalogação de esquisitices.

Uma delas é a síndrome de Diógenes, caracterizada pela "autonegligência involuntária e acumulação de objetos". Tudo bem que os casos extremos levam a pessoa a catar lixo pela rua e viver cercada de insetos e roedores, mas descobrir que a tendência de acumular velharias é motivo de estudo não deixa de ser curioso para alguém que era conhecido na infância como "Zé das Tralhas".

Tenho pena mesmo de me livrar de objetos e coisas que me lembrem alguma coisa. Mas precisa ser necessariamente alguma coisa boa. Contas, multas de trânsito e velhas estrelas do PT vão parar no lixo sem a menor dor na consciência.

Mas se aquilo me lembrar de algum momento feliz, alguma viagem, uma pessoa querida, fica difícil mesmo jogar fora. Uma foto da primeira namorada, um panfleto de um hotel em que me hospedei, um cartão postal que mostra Nova York ainda com as Torres Gêmeas tocando as nuvens, estão todos enfurnados em alguma caixa, em algum canto de algum armário.

E esse é outro aspecto hilário desse negócio de guardar velharias: na maioria das vezes, além de não prestar para nada, elas ainda ficam fora do nosso alcance. É como aquele tio que só aparece na festa de Natal, sabemos que ele está por aí, mas onde, não fazemos a menor idéia.


Para você ter uma noção, eu não consigo nem mesmo me livrar de uma terrível piranha empalhada, só porque ela me lembra uma viagem que fiz ao Amazonas há uns dez anos atrás.

Torcedor de futebol é outro tipo de ser que adora guardar tudo relacionado ao seu time. Camisas velhas - qual vascaíno que não tem uma camisa que, de tão velha, deixou de ser preta e virou azul marinho? Ou Flamenguista com uma camisa tão desbotada que ficou cinza e rosa? - posters de times campeões, jogos de botão dos tempos de colégio, tudo vira museu.

Vivemos acumulando certas quinquilharias, algumas inclusive só na nossa cabeça. Caso contrário, porque acharíamos que o passado sempre foi melhor do que é o presente?

Tenho uma notícia pra vocês: o passado só parece melhor porque o mundo era menos populoso, logo, haviam menos cretinos sobre a face da terra.

No fundo, tudo o que passa só parece melhor porque a gente não lembra direito, mais ou menos como acontece quando a gente abre uma caixa guardada no sótão e se pergunta: porque foi que eu guardei esse negócio aqui mesmo?

Fã é bom mas é uma merda

Postado em 18 de fev de 2011 / Por Marcus Vinicius 18 Comentários

Tem muito artista por aí que eu não suporto, mas, na maioria das vezes, os fãs me irritam mais do que os próprios artistas.

Essas musas do axé, por exemplo. Eu acho simplesmente um pavor todo o conjunto da obra delas.

Desde as letras pobres, passando pelas rimas acochambradas até aqueles gritinhos e falsetes que me deixam arrependido de limpar as orelhas e ouvir bem, tudo ali me faz pensar que nenhum aterro sanitário está cheio o bastante sem montanhas de CDs delas ali.

Eu até acho que algum desses cantores de axé poderiam me fazer queimar a lingua e cantar uma única música que preste, só de sacanagem.

Mas o que dizer dos fãs? Ah, os fãs! Eles são mil vezes piores. Pense num trio elétrico com aquelas pessoas vestidas de cores fluorescentes e você me dará razão. O micareteiro consegue pior do que a micareta.

Quer ver como um fã consegue piorar um artista? Lembre todas as vezes em que você esteve num bar com música ao vivo, numa rodinha de violão (confesse, você já esteve em alguma) ou num show e ouviu algum cretino gritar o famigerado "Toca Raul!".

Sério. Por pior que possa ser tudo o que o Raul Seixas produziu, os fãs dele suplantaram a obra de longe. Ele ainda conseguia fazer algumas músicas e letras interessantes, já os fãs deles são praticamente todos chatos.

É como um exército de Oswaldos Montenegros berrando "Voa Condor! E toca Raul!".

A Legião Urbana é outro caso singular. Essa banda embalou a minha juventude, por mais clichê que isso possa soar (e soa mesmo). Mas os chatos de galocha que passaram a tocar, cantar e repetir frases do Renato Russo a esmo, para justificar desde carência emocional até dores de barriga me causa arrepios.

Tem artista que só de pensar nele eu já imagino os fãs, a música alta no celular (parece que só música ruim foi feita para ouvirem alto no celular), os gritinhos das adolescentes e os imbecis dormindo em porta de hotel esperando um aceno da janela e pronto, antipatizo de vez.

Fãs chatos são piores do que cupins, são mais amedrontadores do que as pragas do Egito. Destróem até o que é bom.
 
 
Pensem em Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e até no mestre Nelson Rodrigues. Tanto talento, tanta criatividade, tudo isso para terminar virando porta-voz de cretino na internet.

Cada perfil de Orkut, cada frase de MSN, cada tuitada inútil usando uma frase deles para dar lastro a lugares comuns e comportamentos imbecis me causa a mesma sensação de ver o Abominável Homem das Neves arrancar as orelhas do Coelhinho da Páscoa.

Aposto que se eles soubessem o que seria feito da sua obra, teriam virado médicos, engraxates, ladrões de banco, qualquer coisa, mas não escreveriam uma linha na vida.

Muitos artistas são bons e os fãs estragam. Mas a maioria é ruim mesmo e os fãs só pioram. Artista e admiradores se merecem totalmente. Justin Bieber está aí para provar isso.

Veja o caso dessas bandas indie. Aquelas músicas, aquelas letras, aquelas barbas, enfim, tudo aquilo acabou virando o maior catalizador de palermas desde, sei lá, a seita de Jim Jones.

A coisa é tão séria, que certas bandas, cantores, séries, livros e filmes viraram uma espécie de Medusa. Se olhar, viro estátua de sal.

Tome como exemplo a saga "Crepúsculo". Não consigo ver aquilo nem como passatempo, porque no meio dos primeiros dez segundos de filme lembro da horda de aborrecentes histéricas e do ator que faz o vampirão declarando ter alergia "às partes íntimas femininas" e penso: já doei dinheiro pra Cruz Vermelha, não avanço sinal, pago meus impostos, não preciso fazer mais esse sacrifício.

Por isso esse negócio de fama é complicado, ainda mais por ser um clube que já não é mais tão exclusivo assim. Houve um tempo em que para ser reconhecido era preciso inventar algo, curar algo ou descobrir algo, hoje em dia basta uma câmera, uma sextape, um monte de besteiras para falar ou então ficar confinado numa casa comendo, defecando e falando bobagem o dia inteiro.

Parece prudente pensar bem antes de entrar nesse negócio de fama.

O militante satisfeito

Postado em 16 de fev de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Assim como no passado muita gente achou que comprando a estrela do PT e votando no Lula estaria automaticamente subindo num expresso rumo a um país sério, atualmente ainda existem pessoas que acreditam na força do gesto simbólico além da força que ele realmente possui.

Muitos dos que compraram aquela estrelinha pensando que ajudavam um partido "ético" a enfrentar os poderosos coronéis da política brasileira, posso me incluir nessa pelo menos num par de eleições, esqueceram que o seu apoio não significava um fim, mas um meio.

Uma vez no poder, o partido da ética estava ombreado com Sarney, Renan Calheiros e outros representantes de tudo aquilo que eles juraram combater. A ética acima de qualquer suspeita foi substituída pela teoria do "roubo pelo bem do país".

A tal militância então se dividiu entre os comprados e os desiludidos, e talvez essa ressaca da pseudo-ética, que já dura uns bons oito anos, tenha anestesiado o brasileiro até o ponto em que chegamos hoje.

É muito bonito colocar uma tarja verde na foto do Messenger em apoio à causa oposicionista no Irã.

É legal saudar a influência das redes sociais e criar abaixo-assinados contra ou a favor tudo, abrir petições online, passar para frente o último texto do Jabor (ou de um de seus clones).


Esse ativismo globalizado e, digamos, seguro da internet, é inegavelmente um mobilizador e facilitador da organização de protestos e da sua divulgação, mas precisamos não esquecer que suas consequências são nulas caso não influenciem o lugar onde tudo importa, que é o "mundo real".

O militante satisfeito coloca uma foto de uma jovem assassinada no Irã ou algum jornalista preso no Egito na sua página do Twitter e pensa que está tudo bem, que ele fez sua parte.

Não quero dizer que a pessoa deva sair por aí formando grupos armados para tomar o poder - ainda que um dia isso possa render frutos, como a Presidência da República - mas que todo esse ativismo precisa desembocar em alguma coisa mais concreta do que os Trending Topics (assuntos mais comentados do dia) no Twitter.

Os tunisianos, os egípcios, os iranianos estão aí fazendo alguma coisa. Alguma coisa real.

Os brasileiros pensam que estão fazendo algo real quando resolvem promover uma hashtag (a melhor definição que consigo pensar para hashtag é: assunto candidato à Trending Topic), quando fazem sátiras aos nossos nobres políticos em blogs, no próprio Twitter, no Facebook, mas na realidade continuam a conviver com alguns dos maiores cretinos que a nossa política já produziu em postos chave da República, com as sucessivas tentativas de desqualificar o mensalão, com a impunidade.

Por isso toda vez que alguém vem me perguntar o que penso da Palestina, o que acho do Iêmen ou se estou preocupado se o Egito seguirá um modelo turco ou um modelo iraniano, eu fico tentado a perguntar:

- E o Tocantins, hein?

- E a pobreza em Duque de Caxias?

- E os custos das obras da Copa e da Olimpíada?

- E as milhões de casas que foram prometidas, mas que ninguém entregou?

- E o Sarney? Esse parente de Nosferatu que parece ser imune ao sol, água benta e a qualquer denúncia?

Mas aí o militante satisfeito torce o nariz, faz uma careta e me responde que eu sou reacionário, que minha mentalidade é pequena e que eu não enxergo além do meu horizonte.

Sabe como é, Trending Topic não mata a fome, mas diverte.

As costas largas do stress

Postado em 14 de fev de 2011 / Por Marcus Vinicius 11 Comentários

O stress, considerado verdadeiro mal da vida moderna, é uma espécie de pochete ou ombreira psicológica: você nunca vai admitir que já teve, mas ainda assim terá.

Só que diferente dos famigerados ítens do vestuário, o stress parece nunca sair de moda.

Segundo a mãe dos burros, a Wikipedia, ele é "a soma de respostas físicas e mentais causadas por determinados estímulos externos, pode ser causado pela ansiedade e pela depressão devido à mudança brusca no estilo de vida e a exposição a um determinado ambiente".

Simplificando: é uma espécie de saco cheio com embasamento científico.

Você fica puto, mau-humorado, sem paciência ou simplesmente prestes a explodir por motivos variados, desde o seu vizinho ouvindo funk todo sábado de manhã, até sua esposa resolve discutir relação justo na hora que você queria ter sua sessão mensal de sexo, passando pelo seu chefe que não te dá aumento de salário mas triplica sua carga de trabalho e até o fato de deputados ainda respirarem.

Tudo isso é colocado na conta do stress.

Mas o pobre coitado, devivo à sua ampla definição, acaba levando culpas que não são dele.

Chuck trai a esposa, bate nos filhos a troco de nada, mistura lixo orgânico ao inorgânico e ainda por cima olha pro decote da mulher do vizinho no elevador. Ele não está estressado como gosta de dizer quando questionam seu comportamento. E nem é o emprego de bosta cheio de retardados que ele tem que aturar todo dia que o faz ser assim, ele é só um filho da puta mesmo.


Maria Lúcia, ou Marilu para os íntimos, sai, enche a cara, fica com 30 na bwatch, acorda todo sábado e domingo de ressaca e na cama de um desconhecido, ela atribui sua atitude auto-destrutiva ao stress com a monografia que ela passa a semana escrevendo. Mas o fato é que ela é só bêbada e fácil mesmo.

Maicoul Jaquisson é taxista. Ele vive dando fechadas nos outros motoristas, estaciona o carro onde bem entende, urina no acostamento de viadutos, xinga até a velhinha que está demorando demais pra atravessar a rua e vive dando trombadas nos outros porque dirige falando no celular, não é um pobre trabalhador estressado com a violência do trânsito, é só um péssimo motorista e um cidadão de merda.
Alicinha come sete fatias de torta por dia, toma dois litros de Coca-Cola no jantar, se alimenta basicamente de nachos e lasanhas, mas explica que só é gorda porque está estressada e deprimida. Até acredito, mas se ela experimentar remover aquela torta prestígio que come todo dia no lanche, talvez mate alguns quilos de fome.

Muitos dos nossos problemas acabam com o nosso humor. E eu sei que todo mundo tem os seus, mas os meus são piores justamente pelo fato de serem...meus. Por isso não defendo essa coisa de pensar positivo, de rir dos meus problemas, porque sei que não funciona.

Se for pra rir, prefiro rir dos problemas alheios.

Mas acredito que devemos dar um refresco pro stress, porque nem tudo é culpa dele.

Eu, por exemplo, admito que sou mau-humorado e ranzinza. Talvez reclamar pra mim seja um esporte, vai saber. Mas não me justifico pelo fato de ter recebido um filé delicioso para almoçar e ainda assim preferir reclamar do arroz servido ser parboilizado.

Não coloco a culpa no stress, admito que sou reclamão mesmo.

Acho que todo mundo poderia fazer o mesmo admita que é mau-humorado, fácil, beberrão, problemático, indeciso, egoísta, comilão, preguiçoso, enfim, seja o que for. Admita, ainda que internamente e tire a culpa das costas do stress.

Só, por favor, não venha encher o meu saco.

O algorítimo da teledramaturgia

Postado em 11 de fev de 2011 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Você também pode ser um autor de novelas.

Talvez não hoje, talvez isso nem ocorra realmente, mas baseado num breve olhar sobre os roteiros das novelas de TV, é possível a cada simples mortal escrevê-las sem muito esforço, basta que uma alma caridosa crie o Novela-Maker ou Noveloshop.

O nome não importa, mas um software criador de capítulos ajudaria cada um de nós a concorrer com o Manoel Carlos, o Sílvio de Abreu e até com a Glória Perez.

Entra ano, sai ano, e não cessa o desfile de clichês como a bonitona que deseja subir na vida, a mocinha boazinha que sofre mais do que biscoito de maizena em boca de velho, a coroa desgovernada que separa do marido e passa a colecionar garotões, o núcleo suburbano, as esposas ciumentas, os maridos paus-mandados, o comedor de esposas, os pobres que ficam ricos, os ricos que ficam pobres, enfim, não é difícil imaginar a composição da próxima novela quando você já assistiu uma ou duas antes dela.

O que muda basicamente são os cenários.

Você assiste uma novela e acompanha a história de vendedores de empadinha árabes que estão envolvidos numa trama de tráfico de órgãos junto com russos que dançam axé.

Em outra novela, a história gira em torno de uma família de holandeses que veio para o Brasil fugindo do nazismo mancomunados num esquema de tráfico de órgãos com hackers japoneses que tocam pagode.

E quando falta assunto, sempre se pode recorrer aos italianos. Novela de italianos é uma espécie de "ôôô" e "lá-laiá" de letra de samba: quando você não sabe mais o que colocar ali para tapar um buraco, recorre a eles.

Um programador mais descoladinho e sacana pode muito bem inventar então o tal software, onde você lança alguns dados e no final tem uma novela prontinha, bastanto para isso fazer o teste do sofá com algumas aspirantes a modelo e atriz.


Você pode inventar as situações mais absurdas do mundo, desde que sempre respeite a presença obrigatória de ricos que servem para mostrar ao telespectador como a vida dele é uma bosta, e dos pobres que o permitam saber que tem gente por aí pior do que ele.

De um vilão ou vilã onde todos os noveleiros possam exercitar seu sentido ético e odiar sem peso na consciência e, claro, de um herói ou heroína que seja uma espécie de alter-ego dos fãs.

A partir daí, gêmeos que lançam raios-laser pelos olhos e a probabilidade do seu (sua) namorado (a) ser um irmão que você não sabia da existência é maior do que pegar uma gripe serão apenas elementos para encher lingüiça (sim, a minha tem trema) e garantir o tamanho dos capítulos.

Aí, entre gêmeos que obrigatoriamente serão mais diferentes do que o Jô Soares e o Tiririca, entre pessoas que nunca trabalham mas sempre tem dinheiro, donas de casa que comem o pão que o diabo amassou mas se preocupam mesmo é se o feijão vai queimar e indianos que vivem no Brasil e comem churrasco, o sucesso é garantido.

Restará a você aparecer na revista Caras e no Faustão, sempre reforçando o bordão do momento:

- Mamma Mia! Hare Baba! Inshalá!

Arigatô.

O que as futuras gerações dirão de você?

Postado em 9 de fev de 2011 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Quando penso que a minha tataravó se casou com 13 anos, não posso deixar de me espantar com o fato de eu nunca ter casado mesmo já tendo passado (um tantão) dos 30.

Junto com a expectativa de vida que faz com que nosso sistema previdenciário seja um problema real, e com que as filas de banco demorem uma eternidade com todos aqueles sexagenários retirando suas pensões, as comparações entre gerações escancaram o tamanho da imaturidade - e não digo isso num sentido ruim ou crítico - das pessoas, digamos assim, mais contemporâneas.

Como a minha e a sua avó diziam, somos verdadeiros crianções.

Crescemos ouvindo histórias sobre um tataravô que fugiu aos 16 anos da fazenda com sua namoradinha de 12 que estava prometida para outro e foi morar na cidade grande, num quartinho do tamanho de uma solitária de presídio, trabalhando num armazém de secos e molhados carregando caixas de bacalhau na cabeça e que, depois de labutar não sei quantos anos dia e noite, hoje é aquele senhor de cabelos brancos sentado na sua frente na ceia de Natal.

Você sinceramente se imagina fazendo tamanhas loucuras hoje, com 20, 30 ou 40? Imagine então aos 16. Se fosse hoje em dia talvez houvesse até uma lei transformando isso em contravenção ou pelo menos em algo politicamente incorreto e reprovável.

Nossos pais foram vendedores, trabalharam de dia para estudar à noite, casaram por volta dos 18 e aos 25 já tinham filhos, casas, todos os amigos casados e alguns cabelos brancos e entradas na testa.

Já faz alguns anos que meu pai desistiu de me dizer que "com a sua idade, eu já era seu pai". Daqui a pouco ele me avisa que com a minha idade "já era avô".

As gerações passadas, com todos os seus defeitos, estão repletas dessas histórias de amadurecimento, que na época deles nem era precoce, histórias de renúncia, de sacrifício, de trabalho duro.

E nós? Nós fazemos parte do mundo globalizado, de infâncias e adolescências cada vez mais longas, das viagens de férias, dos playgrounds, shoppings e condomínios.


Jogamos vídeo game até os 40 e tantos, curtimos engenhocas eletrônicas, nos acostumamos à famílias tão heterodoxas quanto aquelas formadas pelos nossos pais, com seus novos cônjuges e filhos, todos reunidos em volta de uma mesa na festa de aniversário.

Eles não. Eles chamavam divórcio de "desquite" e mulher divorciada passava automaticamente a ser "aquela ali". Não era legal, mas imagine viver com essa pressão à sua volta.

Não lutamos nem derrubamos nenhuma ditadura, não corremos da polícia a não ser para jogar a ponta do baseado no bueiro mais próximo, ouvimos rock pesado e música eletrônica, ostentamos cortes de cabelo estranhos e roupas coloridas, com frases engraçadinhas e talvez continuemos assim por um bom tempo.

Temos até um certo orgulho de nossa imaturidade.

Não me imagino de chapéu, de terno xadrez ou curtindo passar as manhãs numa praça vendo as babás e jogando damas numa mesa. Não tive e nem sei se teria a tenacidade suficiente para passar pelas coisas que meus bisavós ou avós passaram na vida deles.

Pense só nisso: essa gente viveu uma guerra mundial. Nós vivemos o que? Os paredões do BBB? Não tenho esse conceito de que só porque o sujeito é coroa passa a ser mais sábio automaticamente. Pode ser que ele tenha passado a vida inteira fazendo merda e só deu sorte de não se ferrar, quem garante?

Nossos netos terão avôs e avós tatuados e que além de saberem o que é, nem vão se horrorizar ao ouvir alguém falar de coisas como "casa de swing", "casamento homosexual" ou a Família Sarney (essa não conta, porque até nossos avós já conhecem).

Não vai deixar de ser legal sentar um dia com um neto (se eu viver para conhecê-los) e contar sobre um show do Morrissey, sobre a era da internet discada, sobre a primeira TV a Cabo ou mesmo sobre como minha geração pode perder a virgindade sem ser com uma prostituta com idade para ser nossa tia.


Mas de qualquer forma é de se admirar as histórias que eles todos contam sobre o que viveram.

A menos, é claro, que tudo isso seja uma grande pegadinha coletiva que eles criaram para nos enganar, e que nós vamos passar adiante para nossos filhos e netos, como uma espécie de trote da tal "faculdade da vida".

Viajantes são ETs

Postado em 7 de fev de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

O viajante é uma espécie de ser de outro planeta.

Ele não deixa de ser humano, é claro, ainda mais quando resolve largar garrafas pet e embalagens nas praias por aí afora, mas com certeza quem viaja deixa de ser um pouco quem é.

Desde a antecipação do saguão de embarque, passando pelas rezas discretas, quase escondidas, durante a decolagem e chegando na visão de um lugar totalmente novo (ou no reencontro com um querido lugar antigo), ainda somos nós, mas com certeza somos outros.

O tempo do viajante passa diferente. Enquanto no escritório, seja numa imitação de Champion de 20 reais ou num Rolex de 5 mil, as horas passam junto com o rastro de uma lesma, quando viajamos as horas se tornam minutos e os dias viram piscadas de olho.

Piscou, você está num city tour qualquer (que uma antiga professora de espanhol gostava de chamar de "shit tour"), piscou novamente você já está no dia seguinte, visitando algum museu ou feirinha de artesanato.

As próximas duas piscadas fatalmente nos levam ao aeroporto e à viagem de retorno.

Não invejo quem tira férias porque sei bem a depressão que os espera na volta. E não adianta vir me dizer que a vida é assim, que é preciso voltar à rotina, que o trabalho engrandece o homem, etc, etc.


Se rotina fosse essa maravilha toda e trabalhar feito um mouro fosse a beleza que dizem que é, com certeza não te pagariam pra fazer isso todo dia, nem mesmo essa merreca que você acha que ganha.

Felizes são os viajantes, que pairam por sobre as rotinas alheias, que atropelam os problemas que cada cidade certamente possui com sua curiosidade e suas máquinas fotográficas. É preciso viver num lugar para ser atingido por suas mazelas, quem está ali só de passagem, acha graça até das filas, do trânsito e da chatice das pessoas.

Viajantes são sociáveis, fazem amizades com a facilidade das crianças. Seja a família tomando sol ao lado na praia, o casal que está na piscina do hotel, as pessoas que passam um dia inteiro em conviência meio forçada numa van refrigerada, enfim, não falta assunto, não faltam os "de onde eu venho é assim..." e os "lá na minha cidade...".

Talvez a minha rotina é que seja um saco, talvez seja a sua rotina que é esse pavor. Se nós fossemos milionários russos, ganhadores da Mega Sena ou Sultões de Brunei pode ser que nossa rotina nem seria assim tão chata.

Não consigo imaginar o George Clooney ou a Madonna pensando assim "segunda-feira começa tudo de novo, aquele café requentado, aquelas conversas idiotas no corredor da empresa, aqueles clientes enchendo o saco...putz, já quero férias de novo".

Mas não somos sultões, milionários e nem astros de cinema, sendo assim, tenho verdadeiro horror do tal dia a dia e acredito fortemente que pro mundo ser justo, deveríamos trabalhar um mês e tirar férias onze, se possível com direito a alguns abonos por falta.

Seríamos todos viajantes. Cariocas em Pernambuco, pernambucanos em Curitiba, curitibanos em Manaus, manauenses em São Paulo, paulistas no Sul, sulistas no Centro-Oeste, todos de bom humor, passeando, pairando sobre os problemas alheios, sem estresse, sem correrias, sem chefes, vizinhos do lado e nem poltronas do meio.

Desse jeito nem teríamos tempo pro mau humor, ou talvez até arranjássemos algum, mas só pra não perder o hábito.
 
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