Requentado, reciclado, repetido

Postado em 31 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

"Nada se cria, tudo se copia". Podemos colocar à frente desta frase qualquer coisa: "em televisão", "na literatura", "na indústria automobilística", "no teatro", "na música", pense uma área de atuação que vá desde óperas até a venda de sacolés e sempre haverá alguém copiando, aperfeiçoando, mimetizando o outro.

Em recente entrevista a atriz e diretora francesa Fanny Ardant disse que "Todas as histórias já foram contadas. É o detalhe que faz a diferença. Há milhares de anos se contam histórias de amor. Mas, a cada vez, nos apaixonamos.". Não podia estar mais correta.

Quantas vezes já identificamos Romeu e Julieta até numa esquina de subúrbio? Uma breve pesquisa apontará que "Lucíola" de José de Alecar foi, para ser educado, "inspirado" na "Dama das Camélias" de Dumas Filho que por sua vez teve, aí sim verdadeiramente, inspiração no conflito moral de "Manon Lescaut", famosa ópera da Giacomo Puccini. Todas as 3 obras contando a luta entre o moral e o material, entre o amor verdadeiro e o bem estar financeiro, entre a inadequação e o desejo de ser aceito pela sociedade.

Todos estes valores e conflitos que há mais de três décadas são retratados diariamente nas intermináveis novelas de televisão. Acho até que se algum dia houver mesmo uma guerra nuclear e o mundo for destruído, sobrarão as baratas e as telenovelas na face da terra. Azar das baratas.

O amor, o ciúme, o dinheiro, a dor de corno, a inveja, as intrigas, tudo isso existe desde que lá no período quaternário alguns seres resolveram evoluir e se transformar no animal humano. E só o que impede que os seres humanos andem por aí matando uns aos outros como insetos são os códigos morais, a culpa e algo mais forte ainda: leis e punições. Não acreditem que é algo muito além disso.

Queremos o que é do outro, desejamos o que não podemos, sofremos por amor e fazemos os outros sofrerem.

E tudo isso precisa ser contado, cantado, rimado, retratado. Não tem como ser 100% original o tempo todo, e quem busca isso geralmente produz lixo. Basta ver esses artistas que batem em lata e sopram chaleiras. São originais, mas e daí?

A maestria de quem alcança o sublime está justamente em saber remontar o que já existe de uma forma pessoal, que se diferencie nas nuances, matizes, timbres. É aí que uma Anne Rice consegue falar sobre vampiros com a mesma sensualidade e sex appeal que faltam naqueles monumentos ao ridículo que são os livros da série "Crepúsculo". Ambos bebem na fonte das velhas histórias de vampiros, só que apenas um deles se afoga nessa fonte.

O problema é que a inspiração, a idéia, a referência são facilmente confundidas com a cópia grosseira. Uma coisa é um perfume criado a partir de notas de um outro famoso e consagrado, outra coisa bem diferente é uma falsificação de camelô com o mesmo nome, o mesmo rótulo e uma tonelada de álcool no lugar do fixador.

Durante muito tempo os japoneses foram conhecidos como exímios aperfeiçoadores de idéias. Seja o walkman, o vídeo cassete, os aparelhos de som ou até o limpador de pára-brisas (que segundo a piada foi inventado pelos portugueses e colocado do lado de fora do vidro pelos japas), eles emprestaram seu esmero, sua paciência, seu minimalismo a um sem número de invenções, tornando-as melhores. A maior prova disso são os automóveis japoneses, que até hoje são referência de estilo, conforto e confiabilidade.

Já a China, gigante econômico, é conhecida pela cultura milenar, pelas paisagens exuberantes, pela imensa população e por um governo autoritário. Mas também é conhecida por copiar tudo que existe pelo mundo afora. Tênis, roupas, eletro-eletrônicos, produtos de informática, basta que algo seja lançado que algum tempo depois já existirá no mercado o similar chinês: igual na aparência, mais barata e de qualidade infinitamente pior do que o original. É cópia pura e simples, pirataria.

Está aí uma boa forma de diferenciar artistas que tomam referências de simples copistas, plagiadores. Aqueles que se inspiram geralmente vão adiante, aperfeiçoam, dão um toque pessoal que acaba por conferir originalidade à sua obra.

O plagiador não, o plagiador é apenas um produto pirata chinês, desses que se custar um centavo de real ainda estará bem acima do preço que vale.

Desinclusão digitalizada

Postado em 28 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Ler "Crepúsculo" certamente é melhor do que ser analfabeto, mas não muito. Assim como é melhor ouvir Chiclete com Banana do que ser surdo. Alguém pode argumentar que são artistas apreciados por milhões de pessoas, tudo bem, mas alguns milhões de pessoas também acreditam que o mundo deve se tornar um imenso Califado Islâmico e que todos os infiéis devem ser convertidos na base da espada, e nem por isso essa é uma boa idéia.

O Brasil comemora ano a ano o fenômeno da "inclusão digital". É um monte de gente que até outro dia achava que o monitor era o computador em si e hoje participa de redes sociais, vota em enquetes, baixa músicas, troca fotos, fala com parentes que moram longe. Obviamente esse fenômeno é apresentado como mais uma obra que faz parte da fundação do país, que na cabeça dos fãs do governo na imprensa e na população vivia na era da pedra lascada até 2003.

Mas não é bem assim. Como tudo no Brasil, essa inclusão digital tão festejada está mais para uma gambiarra, o famoso "jeitinho", do que para algo que pode ser considerado uma realidade sustentável e desejável.

Nem entro aqui no mérito do péssimo conteúdo que é gerado, acessado e replicado pelo internauta brasileiro. Correntes, piadas grosseiras, música ruim, polêmicas, sub-celebridades, transgressões de todos os tipos às leis, pedofilia, pornografia, ou seja, quase tudo que não presta. Isso é um problema educacional.

Somos um povo mal educado, com pouca bagagem cultural e que é mantido na idiotice pelos meios de comunicação de massa e pelo sistema educacional preguiçoso e ineficiente.

O problema com a tal inclusão digital é a forma como esta se deu. Uma reportagem publicada recentemente deu conta de que nada menos do que 32 milhões de brasileiros acessam a internet através de lan houses. Esse é o tamanho da desinclusão digitalizada, de gente que acessa a internet mas que está longe de poder aproveitar o que a internet realmente pode proporcionar.

Esses estabelecimentos oferecem conexão lenta, instalações precárias e com a impressionante média de 80% de clandestinidade. São lan houses de fundo de quintal, de garagem, de pequenos pontos comerciais sem alvará. Compartilham uma única conexão com vários computadores, o que torna sua velocidade bem próxima da experiência que os primeiros usuários de internet no Brasil tinham com a conexão discada.

Pra quem não viveu a época da discada uma dica: pense em sinais de fumaça.

Óbvio que elas ajudam as pessoas a pagar contas, tirar segunda via de documentos, digitalizar arquivos, elaborar e fazer cópias de currículos, consultar seu crédito, colocar as fotos da ex-namorada no "Caiu na Net", entre outras coisas. As lan houses atuam, como, por exemplo, flanelinhas ou o José Dirceu, naquela brecha gigantesca que o nosso estado sempre deixa aberta a quem quiser fazer ou usurpar o papel que seria dele.

Não defendo aqui (cruz credo!) que se criem lan houses estatais ou coisa parecida e nem que o governo ressuscite dinossauros como a Telebrás para distribuir conexão gratuita por aí. Assim como a solução para a educação não é a distribuição de cotas em universidades, a solução para a desinclusão digitalizada não é a distribuição de acesso à internet como se fosse alguma panacéia.

Nem falo dos computadores, porque hoje em dia é possível comprar um computador novo em 12 prestações de R$48,42. Falo da conexão mesmo, que ainda é cara.

É preciso infra-estrutura que barateie o serviço, concorrência, fiscalização. Se hoje qualquer cidadão pode ter um celular com linha habilitada por menos de 100 reais, isso acontece porque a concorrência nesse setor possibilitou isso. Se o governo tivesse se metido na história, teríamos filas quilométricas para o cidadão pagar 500 reais pelo seu telefone estatal subsidiado, com espera de uns 5 anos. Sem contar o gasto extra com os 10% do funcionário responsável pelo cadastramento para nos passar para a frente da fila.

Não se justifica o preço da conexão à internet no Brasil e principalmente, sua péssima qualidade. Se esta for adequada aos preços e padrões aceitáveis mundialmente, aí sim poderemos realizar a inclusão digital no país.

Porque até aqui, a única coisa que fizemos foi exportar o puxadinho pra internet.

"Quem ama o feio...

Postado em 27 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

...bonito lhe parece."

Todo mundo com certeza já ouviu esse ditado popular do qual discordo totalmente. Eu acho é que a gente acostuma, por isso passa a achar bonito.

Mas afinal, o que é ser feio ou ser bonito? Vasta literatura trata do tema, mas quase todos concordam que a beleza ou feiúra é uma questão de referencial, de formação cultural, da época em que se vive e também daquele enigma que nos torna únicos, que é nosso gosto pessoal.

O que é belo para um pode não ser para outro e assim ocorre com o que é feio. Não conseguimos ser unanimes nem em relação a qual parte do corpo é a mais bonita. Uns acham que são os seios das mulheres, outros que são os braços fortes de um homem, tem que prefira as costas, a barriga, as coxas, os olhos, os pés. Eu prefiro tudo, desde que esteja bem encaixado.

Existe também o mito de que alguém bonito demais termina ficando feio com o passar do tempo e a convivência. Sobre isso vale o mesmo que disse lá em cima sobre a feiúra: a gente só acostuma.

Assim como a grama do vizinho é sempre mais verde, a esposa dele será sempre mais interessante, simplesmente porque não é a nossa.Mas quer saber um jeito de desejar sempre a mesma mulher? Uma vez por dia imagine que ela não é mais sua. É tiro e queda.

Somos acostumados pela literatura, pelo cinema e pela TV, a imaginar o feio como o "mau" da história e os bonitos como os heróis. É uma associação quase automática da feiúra à maldade, com raras exceções de vilões bonitos mas que em compensação são mais maus do que um pica-pau.

Daí o porque de nossa sociedade buscar esses valores nas suas relações pessoais e de negócios. Se tivermos duas pessoas igualmente competentes concorrendo a uma vaga, e uma delas em boa forma física e dentro dos padrões atuais de beleza e a outra acima do peso e considerada "feia", a chance da "bonita" levar a vaga é infinitamente maior.

Associamos sobrepeso à preguiça, pouca disposição, desânimo. Associamos uma pessoa fora dos padrões de beleza à desleixo, ao insucesso. Não digo que penso assim e nem que isso é certo, apenas retrato a coisa como acho que é.

Mas também a beleza sendo associada à bondade, à inteligência e ao sucesso é um peso para quem é considerado belo. Parece que existe uma obrigação de adequar-se ao que sua aparência física sugere nas mentes alheias. A pessoa precisa estar sempre de bom humor, estar em cargos de chefia, ter boa situação financeira, ser "bem sucedido".

Sem contar o igualmente preconceituoso estereótipo do "bonito e burro". Alguém muito bonito em uma posição de destaque numa empresa é constantemente associado ao uso do sexo ou da sedução para alçar aquele posto.

Se é um grande "fdp" e é feio, pronto, "está explicado!". Se é uma moça bonita e volúvel, claro, "toda mulher bonita demais é p*".

Qualquer pessoa que desvie muito do que consideramos a média tem esse trabalho extra para provar seu valor e romper estereótipos.

No entanto o que realmente mexe com todos nós é aquilo que não podemos enxergar com os olhos numa primeira vista, é aquela pessoa que contra todas as nossas expectativas e padrões ainda assim nos atrai. Quem nunca passou por isso? De pensar "mas o que será que ela tem? O que é isso que me faz antes até mesmo de ver alguma beleza, simplesmente querer?".

Isso é o tal "charme", que tem um monte de nomes por aí. Tchan, algo a mais, borogodó, mojo, seja lá quantos forem. Pode ser o charme do canalha, daquele safado, sem vergonha, pilantra, mas que é incrivelmente mais interessante do que o sujeito que é simplesmente "bom".

Pode ser o charme daquela mulher sedutora, que acima de qualquer coisa faz sua presença prevalecer sobre qualquer outro de seus aspectos físicos. A inteligência na medida certa, que torna-se interessante sem ser professoral. O charme que a adrenalina causa, através de qualquer esporte radical que exista, enfim, uma infinidade de características que fogem ao simples olhar que estabelece o que é "bonito" ou "feio" e que desafia nossos próprios conceitos.

Costumo dizer que a mulher quando é muito charmosa inspira umas 20 tragédias gregas por onde passa.

E o melhor de tudo é que não existe um cirurgião plástico capaz de dar charme a ninguém, afinal, ainda não inventaram prótese de silicone pra isso.

Admirável mundo novo

Postado em 26 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 14 Comentários

No livro de Aldous Huxley que empresta o título para este post, as pessoas são condicionadas psicologicamente a viverem dentro de certas leis e regras sociais sem contestá-las. Qualquer dúvida é dissipada com o uso de uma droga chamada "soma", distribuida para todas as pessoas gratuitamente.

A nossa sociedade ainda não distribui nenhuma droga química para padronizar as pessoas, mas já temos algumas outras drogas que tal qual a "soma" são inoculadas sistematicamente nas mentes das pessoas. O tal "politicamente correto" é uma tentativa de engessar o pensamento dentro de regras incontestáveis que marginalizem o incômodo. É o que chamo de radicalização da tolerância.

E no apogeu desse império dos "tolerantes", chegará o dia em que decretarão a abolição da gargalhada e a clandestinidade do espanto.

Se em outros tempos havia uma obscura ditadura de costumes conservadores, incluindo aí a marginalização de comportamentos e grupos minoritários como homossexuais, negros, judeus e outras assim chamadas "minorias", hoje o marginalizado é o indivíduo que ainda se choca.

O cidadão pode estar numa lanchonete num domingo à tarde e ver duas mocinhas se beijando na frente de todos que o seu espanto é que ofende. A regra agora é não se chocar com nada. Se servirem um prato de ração canina pra ele e ele não pegar um talher e começar a comer, dirão que não é um bom humano porque não come a mesma coisa que oferece ao seu cão.

Exageros de lado, a verdade é que o politicamente correto se define por duas linhas básicas de atuação. A primeira é que você não deve se ofender com nada que te ofenda. Você precisa ampliar sua tolerância cada vez mais para ser uma "pessoa boa".

A segunda é que você passe a considerar ofensivo tudo aquilo que você não considere assim. Uma piada, um termo, um conceito, uma idéia, qualquer coisa que era normal até ontem, deixa de ser no politicamente correto. Você precisa se tornar uma fábrica de eufemismos para viver bem nesse mundo novo.

Não existe mais opção sexual, é "orientação sexual". Grupo de risco é "comportamento vulnerável". Homossexual é "homoafetivo". Drogado é "usuário de drogas". Preto virou "negro" e depois "afro-descendente". Sexo, isso mesmo, se é masculino ou feminino, é "gênero". E por aí vai, a paranóia não tem limites.

Fico imaginando onde isso não vai parar. Corno pode virar "indivíduo casado com a namorada de outro". Baixinhos ou grandalhões passarão a ser igualmente chamados de "cidadãos de dimensões diferenciadas". Incompetente seria um "profissional com capacidade não definida". Vagabundo seria "cidadão com excessivo desapego pelo trabalho".

Fazem isso como se mudar o nome pelo qual alguma coisa é chamada fosse mudar sua essência.

Antigamente qualquer colégio tinha brincadeiras como jogar bolinhas de papel um no outro, pregar peças nos amigos, colocar apelidos. Hoje isso é "bullying". Não pode. É feio. Vai parar nos jornais e termina em processo. Professores dizendo que qualquer coisa é "burrice" então é um pecado. Inadmissível, deixa os alunos traumatizados. A mãe tem que "conversar" com os filhos. Se der esporro ou palmada a criança pode crescer com desvio de conduta e terminar até sendo frígida.

Termino achando que todas as gerações até hoje deram muita sorte. Nossos professores nos davam broncas homéricas, levávamos chinelada quase todo dia, colocávamos apelidos terríveis nos amigos, contávamos piadas cabeludíssimas e no entanto não produzimos mais imbecis, psicóticos e idiotizados do que a geração politicamente correta produziu, creio que eram até em menor quantidade.

Atualmente as piadas precisam ser "do bem", não podem ofender ninguém. Comer carne é feio, porque animais são amigos e não comida. A pesca também é cruel, porque algumas arraias são presas nas redes. Fumar charuto é feio porque dá mau exemplo.

Mais um pouco concluem que o futebol é ruim para a sociedade, sabe como é, às vezes um time sai vencedor e a sua torcida faz chacota com a do adversário. A outra torcida fica ofendida na sua condição de derrotada, fica traumatizada, pode causar uma tensão social desnecessária e a única solução será uma lei que determinará que todo jogo de futebol só pode terminar em empate. Assim nenhum tipo de igualdade será ferida.

É por isso que não consigo imaginar alguém politicamente correto que não tenha prisão de ventre. Tanta bosta na cabeça tem que vir de algum lugar.

O dia seguinte

Postado em 25 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

O Brasil passará esse ano por dois eventos que prenderão a atenção de toda a sua população, um é a Copa do Mundo que se realizará na África do Sul e o outro são as eleições em Outubro.

A Copa é quase uma unanimidade, todos sabem por quem vão torcer. A eleição não e, no entanto, infelizmente vejo em torno dela também apenas isso: torcida.

Temos um presidente da república que há muito abdicou da liturgia do cargo para se transformar em cabo eleitoral. Nada contra um mandatário no exercício da função ter um candidato próprio para sucedê-lo, mas existem limites que a prática republicana impõe e estes já foram chutados lá pros confins do Maranhão faz tempo.

Essa postura não-presidencial de Lula é notória e três ou quatro multas do TSE à sua pessoa estão aí para não me deixarem mentir, mas o que mais me incomoda em todo esse processo carnavalesco que se tornou a eleição de 2010 é a falta de preocupação total com o que acontecerá no dia seguinte a ela.

Dilma Rousseff não tem biografia e nem cacoete de presidente. Passa diariamente por um processo de modelação, tal qual uma alegoria de escola de samba. Os dias passam e o "carnavalesco" vai ordenando à sua equipe que coloque um paetê aqui, uma miçanga acolá, um jogo de luzes num canto, uma fumaça pra causar ilusão de ótica no outro e a alegoria vai tomando forma para o "grande espetáculo". Tudo feito sob medida para impressionar os jurados.

Só que todo carnaval tem a sua quarta-feira de cinzas e o Brasil não vai terminar no dia 3 de Outubro. O sol vai nascer no dia 4 e sob as toneladas de confetes e serpentinas da "festa da democracia" restará a pergunta fatal: e agora?

Bom, se a vontade imperial de Lula valer ele terá batizado sua sucessora. Haverá festa nas hostes petistas, os movimentos sociais vão se ouriçar, a "militância" vai se declarar vitoriosa e um país estará aguardando o seu destino.

O problema é que este "país" não parece estar nos planos do partido. O partido, que aparentemente está acima do país para os petistas, terá sim um destino, um futuro, que é o poder pelo qual ele existe, que é um fim em si mesmo. Mas o país não. O país estará aí, órfão de algo que vá além do dia da eleição.

Porque não tem muito mais para sair de onde veio essa candidatura da Sra. Dilma Rousseff. A candidatura é o plano em si. Uma vez feito vencedor, estará concluído.

Seria então uma continuidade da obra de Lula? Que continuidade, se a sua obra em já é uma continuidade do que foi feito em anos anteriores? Dilma não está se apresentando para dar continuidade ao que é feito no país e sim para dar continuidade a um mandato que foi impossível para seu chefe estender legalmente. Ela é a tentativa do terceiro mandato que não pôde vir.

A partir do momento que sentar na cadeira de presidente não terá mais o que fazer além de ser guardiã do legado pessoal de alguém a quem sucedeu, ser uma espécie de meirinho para que seu partido leve a termo uma guinada à esquerda que a sociedade não apóia e ser também um "entre - Lulas". E tudo isso nada tem a ver com o que será feito do Brasil nos anos que se seguirão. É tudo voltado pra dentro da cúpula, do politburo das bananas.

E algo de tal importância parece que será decidido como numa torcida de Copa do Mundo. Não vejo muita gente preocupada realmente com o país e sim com o seu "time". É um tal de "venceremos!" ou "vamos ganhar e mostrar pra eles no dia da eleição!".

Será que alguém que esteja fora da máquina partidária, do colchão assistencialista das "bolsas" e ainda assim se declara eleitor de Dilma Rousseff parou sequer cinco minutos para pensar nos quatro anos seguintes que terá para conviver com a culpa e as conseqüências de ter ajudado a alçar ao posto máximo de seu país alguém que provavelmente será um mero veículo de execução de idéias de gente como Antônio Palocci, José Dirceu, José Sarney, Renan Calheiros e outros tantos?

Porque esse tipo de "vitória" não é igual à de uma escola de samba ou de um time de futebol, que a pessoa vai comemorar com bandeiras na rua e no dia seguinte vai seguir sua vida normalmente, como se nada tivesse acontecido. Esse dia seguinte é bem mais longo.

Mas parece que não tem muita gente se dando conta disso.

Touradas ou ETs canibais?

Postado em 24 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 13 Comentários

Na sexta-feira, 21 de maio, ocorreu um grave acidente com um toureiro durante uma exibição na Plaza de Toros de Las Ventas, na Espanha. Segundo o noticiário, o toureiro Julio Aparicio levou uma chifrada que "entrou por baixo da mandíbula, pelo lado direito, quando ele se levantava após ter sofrido uma queda e saiu pela boca, atravessando a língua. Ele sofreu fratura no maxilar superior, foi operado e depois levado para uma unidade de tratamento intensivo. Se encontra em condição de saúde estável, porém grave".

Depois de duas cirurgias, uma ainda na enfermaria da arena, ele foi para uma UTI e segundo afirmaram seus médicos terá uma recuperação lenta porém total e sem seqüelas. A imagem diz muita coisa, por isso resolvi colocá-la abaixo:

As touradas (Corridas de Toros) são muito populares em vários países do mundo como Portugal, México, Peru, Venezuela, Equador, Colômbia e até na França. Porém a Espanha é o mais famoso deles, ainda que lá existam entidades e pessoas contrárias à prática.

Com duração de cerca de 2 horas, uma tourada normal ocorre em sessões de mais ou menos 15 minutos, chamadas faenas, que se dividem em 3 partes: apresentação do touro e entrega da capa para o toureiro, a suerte de varas que envolve os picadores (que do alto de cavalos dão estocadas com lanças no pescoço do touro) e os banderilleros, que irão espetar 3 banderillas nas costas do animal. No terço final da faena o matador então entra na arena para enfrentar o touro sozinho, terminando com a morte do touro ou o seu indulto, caso este mostre coragem e sensibilize a platéia.

Na Espanha e nos países que tem essa tradição, as touradas são acontecimentos. Desde a roupa usada pelo toureiro, o "traje de luces", até os pasodobles executados por uma banda ao vivo, tudo é feito para provocar emoções.

É violento sim, como são violentas as lutas de boxe e vale-tudo e provocam os intintos mais básicos, causando reações que vão da euforia ao horror, todas justificadas.

Algumas pessoas acham tudo apenas um espetáculo cruel e bárbaro e é direito de cada um gostar ou não de uma tradição que envolve a matança de animais. Mas nesse caso aconselho que parem de comer churrasco e abstenham-se até mesmo de um simples sushi de churrascaria (coisas do Brasil), já que os "grupos ecológicos" também consideram muitas modalidades de pesca "cruéis", inclusive a do salmão utilizado para preparar o prato japonês.

Pronto, cheguei onde queria: nos "defensores dos animais", os "vegans", os "ecologistas", essa gente boa, amorosa e pacífica que só quer defender os direitos do miquinho, do boizinho, do golfinho (minha enteada quando tinha 5 anos achava que o nome do animal era "golfo" e o diminutivo é que era "golfinho"), revolucionando até a cadeia alimentar.

Logo que soube do acidente com o toureiro minha curiosidade mórbida me fez correr pro YouTube para assistir o vídeo. É, como dizem os espanhóis, uma cena escalofriante (e mesmo que você não fale uma palavra do idioma, concordará que é um bom termo para o que se passa ali). Porém mais arrepiantes ainda eram os comentários dos animais humanos, felizes com a chifrada que o animal bovino deu em um de seus semelhantes.

Eram coisas como "Tomara que nem morra, mas que viva aleijado pra sempre" ou então "Bem feito, tinha que levar mais chifradas", "Quem gosta disso merecia ser morto junto com a família inteira numa arena dessas" e ainda "Lindo isso, imagem maravilhosa!".

Sim. Teve gente que achou a imagem "maravilhosa". É ou não é escalofriante? E pode acrescentar "Espeluznante" também. E isso acabou me lembrando de uma história que ouvi sobre um vegan que batia boca com um carnívoro e dizia que os seres humanos são egoístas, porque "não tratam os animais como amigos, e sim como alimento" e completava "tomara que ETs canibais comam a família de todos".

Sentimento bom, né? Só falta dar as mãos pros tais ETs e cantar "We Are The World".

Não julgo aqui o direito de qualquer um gostar de touradas ou não. Acho que é algo muito pessoal. Tem safari na Africa, pesca de marlin, existe temporada de caça nos EUA, tem o espetáculo anual brasileiro onde mulheres são expostas como carne no açougue, tudo isso pode ser considerado chocante dependendo da cultura de onde a pessoa venha, mas o que parece escapar à compreensão é que uma opinião não pode ser imposta às outras.

Não interessa o que digam ecologistas e defensores de direitos dos animais, a verdade não pertence a eles. Tem coisa bem pior pelo mundo afora.

Mutilações de meninas em países africanos, assassinatos de mulheres no Afeganistão e demais países muçulmanos, repressões das mais diversas, tudo que afeta um ser humano sai dos limites da mera "tradição" de um país e passa a ter a ver com toda a humanidade.

Extinção de espécies animais também. Baleias, tartarugas, grandes felinos, todos devem ser protegidos porque podem desaparecer. Mas touros? Esses de tourada então são criados exclusivamente pra isso. Desde o momento em que entram na arena até o seu abate não se passam mais do que 15 minutos. Com tanta criança passando fome, com tantas guerras dizimando populações inteiras, doenças, crimes, com tanta coisa pra resolver por aí, eu não acho que a tradição espanhola seja uma preocupação que tenha espaço num mundo que não seja o de quem tem a cabeça na lua.

Se formos pela onda dessa gente daqui a pouco não se pode mais nem usar casaco de lã, porque imagina o dano psicológico que as ovelhas sofrem ficando carecas daquele jeito. São confundidas com o Marcelo Tas durante meses!

Mas esses comentários sobre o toureiro demonstram uma espécie de mau-caráter travestido de bondade. Quer dizer então que a pretexto da "defesa dos animais" devemos desejar que pessoas envolvidas numa tradição secular sejam "mutiladas" e que seres humanos que comem carne sejam "devorados por ETs"(Vamos fazer de conta que ignoramos a parte dos ETs)?

Resumo: comer carne de animais é ruim, muito ruim. Seres humanos sendo devorados é uma coisa boa, muito boa!

É um pensamento tão radical quanto o de um fundamentalista Talibã ou um desses comunas de butique. Aliás não é à toa que muitos vegans e defensores dos animais sejam também comunas de butique.

Lendo e ouvindo essas coisas que eles dizem acho que consigo identificar pelo menos um ponto de afinidade entre essa turma da alface e a sua comida predileta: o adubo usado na plantação provavelmente vem da cabeça deles.

Comprando como se não existisse o amanhã

Postado em 21 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 14 Comentários

Normalmente eu já entro na loja andando na ponta dos pés que é pra ver se passo despercebido, mas não adianta, quando menos espero ouço a voz me surpreendendo: "Posso ajudar o Senhor?".

A resposta vem no piloto automático, esteja eu numa loja de roupas, numa sapataria, num sexshop, onde for, e quase nunca muda: "Obrigado, só estou olhando". Dessa vez era uma livraria e apesar de me ouvir dizer aquilo a mocinha continuou ali atrás de mim.

Olhei de rabo de olho e resolvi fazer um teste. Andei pra um lado, andei pro outro lado e ela me seguia como se fosse uma vendedora da Amway. Vou um pouco mais pra longe de onde ela me abordou e então resolvo encará-la mais fixamente. Dou um sorriso, ela corresponde e fala "Está procurando algum livro em especial?". OK, você venceu.

"Você por um acaso teria 'A Cabra Vadia' do Nelson Rodrigues aí?" ela responde "Nelson Rodrigues? Não, mas tem um que está saindo pra caramba, o “Diário secreto de uma ex-BBB”, da Fani, conhece? Aquela do 'U-hu Nova Iguaçu' ? ".

"Não, não conheço, mas obrigado mesmo assim".

Saio dali rapidamente antes que ela me atire algum livro do Paulo Coelho na nuca e curioso com o que teria pra contar a tal Fani, autora de tão lapidado diamante da língua portuguesa.

Quantas vezes entramos em alguma loja e somos abordados por vendedores? Uns usam essa tática pitbull que leva o cliente a pensar que vai ser linchado no estacionamento do shopping se não comprar nada.

Mas outros são mais espertos, eles nos seduzem da melhor forma que um ser humano pode ser envolvido: ouvindo mentiras a nosso respeito. Não sei se vocês já pararam pra pensar, mas eles sorriem, dizem o que queremos ouvir, a loja geralmente tem um perfume irresistível no ar que faz com que as roupas fiquem ainda mais desejáveis.

Você chega e pede pra ver o conjunto de três pares de meias que está em promoção, pretende aposentar aquelas meias furadas que a sua namorada tanto fala mal. Aí a vendedora lança a pergunta fatal "O que acha de ver umas blusas pra combinar com as meias?".

Porra, blusa pra combinar com meia? Mas antes que você diga que não ela já aparece com três camisetas na sua frente e pra sua danação uma delas é maneira pra caramba (normalmente será a mais cara das três). Você coça a cabeça pensando "Putz, essas meias vão ficar caras...", mas experimentar não custa nada, então você se dirige ao provador já pensando nas desculpas que dará pra não ter que levar nada que ultrapasse seu magro saldo bancário.

A moça aproveita que você ficou balançado pela blusa e te oferece uma calça, um tênis todo vermelho que é incrivelmente bonito e uma bermuda, afinal, ela deve pensar que você pode decidir viajar assim que sair do shopping e desse jeito nem vai precisar fazer as malas.

Experimenta item a item e gosta de tudo, mas está decidido a não ceder à tentação do consumista que mora dentro de você.

Só que a blusa que parecia maravilhosa na mão da vendedora fica melhor ainda com você dentro dela. O espelho fica repetindo "Vai chamar atenção das mulheres, hein..." e você sai dali convicto de que se não comprar aquilo nunca mais vai pegar ninguém enquanto o Corinthians não vencer uma Libertadores.

Resolve chutar o balde, mas aí lembra da fatura do cartão, da viagem que quer fazer e começa a inventar desculpas pra si mesmo até que vira pra mocinha e diz "Olha, é linda a blusa, mas eu tô quebrado esse mês".

"Mas eu posso parcelar pra você em 2 vezes no cartão e até em 4 no cheque e você ainda leva um porta-óculos para moto de brinde". A empolgação volta, você tira o talão e ainda leva um cinto de lambuja. Todos sorrindo, te oferecendo coca-cola, cafezinho e você lá, fazendo a transfusão de boa parte do seu salário atual e futuro pra conta bancária deles.

Quando sai da loja está com aquela adrenalina consumista correndo nas veias e o perfume que eles espalham no ambiente ainda está no seu nariz.

E é nessa hora que você geralmente lembra que não precisava de mais uma bermuda, que aquele par de tênis vermelho não combina com nada, que a calça vai precisar de bainha e que nem moto você tem pra usar o tal porta-óculos que te deram de brinde.

O lado bom

Postado em 20 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Quem nunca ouviu de outra pessoa que precisava se esforçar mais para "ver o lado bom das coisas"? Acho que todo mundo. Os livros de auto-ajuda incutiram essa mentalidade de estação de tratamento de esgoto nas pessoas.

Faz lembrar até daquele filme "Mad Max", onde o baixinho que ficava em cima do "Blaster" formando a dupla "Master-Blaster" dizia "Cocô não! Energia!" direto das profundezas da sua fossa-usina.

Se formos pensar bem, tudo que demanda esforço demais para mostrar um "lado bom" talvez não tenha lado bom algum. Maquiar o lado mau não vale.

Digo isso porque um dos maiores calhordas do mundo é o otimista inveterado, aquele cara que te vê na rua, empurrando uma Brasília velha, pau da vida e vira pra você e diz "Pense positivamente, você está fazendo exercício!".

Não estou defendendo aqui uma visão negativa sobre tudo, não é essa a questão, o que defendo é uma análise isenta dos fatos e, se formos realistas, essa análise geralmente nos levará a um certo mau humor.

Óbvio que a única saída para o desespero parece ser atirar-se de uma ponte, então ele não é desejável, mas também acredito que a negação está longe de nos salvar. O primeiro passo para você melhorar qualquer situação é sentar, respirar fundo, olhar decididamente para o horizonte e declarar: "Estou na merda!".

Tendo consciência disso, você pode até não saber pra onde quer ir, mas com certeza saberá onde não quer ficar. É ou não um começo?

Eu sei que o mundo precisa contribuir um pouco, ainda que ele pareça ter sido construído para frustrar cada uma das suas espectativas. Mas não pense que você é a pior pessoa do mundo por isso, porque nem sob esse aspecto você é melhor do que ninguém. O mundo distribui pauladas a esmo, como um guarda municipal dispersando manifestação de camelôs, e não está muito interessado em quem apanha. Você é apenas um dano colateral.

O mundo é cão, não duvide disso. Mas não pense num poodle, ele está mais para um pitbull que toma anabolizante. Ciente disso você pode se defender.

Frases como "só depende de você" ou "fracassos são oportunidades" são platitudes ditas como se fossem um "abracadabra". Não, não depende "só de você", depende de que te reconheçam também. E fracassos são só isso mesmo: fracassos. Excelentes oportunidades para você descobrir tudo o que nunca mais quer para si.

"Pense positivo!". É, realmente, isso resolve tudo. O sujeito que acabou de ser assaltado acordou de manhã pensando assim "Tomara que me roubem 10 mil reais!", por isso que aconteceu, quem mandou ele não pensar em ganhar a Mega Sena, não é verdade? Se querer fosse mesmo poder, a Mega Sena sempre seria dividida entre todos os apostadores.

Infelizmente (infelizmente mesmo) dependemos das outras pessoas para que nosso valor (caso exista) seja reconhecido. Pobre e mal-sucedido é interesseiro, rico e bem sucedido tem bom networking. É assim que funciona.

Certas espectativas são como essas regressões de vidas passadas. Não conheço uma pessoa que faça essa experiência e não diga que foi um príncipe, um gladiador famoso, um mago, uma sacerdotisa. Incrível, mas parece que não existiam ladrões, prostitutas e verdureiros no passado.

Essa história de "mirar alto" parece mais coisa de quem joga pedra em avião. Às vezes é isso aí mesmo, não tem muita "coisa guardada pra você" em lugar algum e só quem descobre ou entende isso é que resolve ir e pegar por conta própria.

Ninguém gosta de sofrer, se "sofrimento nos ensina" prefiro morrer analfabeto, mas encarar as coisas com um pouco de realismo (diriam pessimismo) evita decepções e colabora na perspectiva.

Sabe quando você está na praia, vê uma gostosona e pensa "nunca daria mole pra mim" e ela não dá mesmo? Pois é. Você aprendeu que a vida não é um filme.

Mas o que diferencia o otimista do pessimista nessa situação é que o otimista que leu "O Segredo" vai mentalizar que está se dando bem com a gostosona, chegar em cima dela, levar um toco e pensar "pelo menos tentei, mirei alto, algum dia consigo porque está guardado pra mim".

O pessimista olharia em volta e veria a priminha da gostosona (que se não é tão boa mas pelo menos dá um bom caldo), chegaria em cima e como todo mundo só quer saber da prima bonita, suas chances de se dar bem seriam multiplicadas de forma considerável.

Moral da história: seja um pouco mais pessimista que a vida te deixará menos na mão. Algumas vezes literalmente.

Cidade grande ou cidade pequena?

Postado em 19 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 17 Comentários

Afinal, o que é melhor? Conheço gente que sonhou a vida inteira em se aposentar e ir morar numa choupana lá no mato. Os que ficaram mais tempo voltaram em 1 ano. Mas também conheço quem diga que adora uma cidade grande, só que não sai do próprio bairro nem pra fazer transplante de cérebro.

Certas metrópoles (Dilma Rousseff diria "Metrópolis") ficaram tão grandes que terminaram virando amontoados de pequenas cidades. Tomem a Barra da Tijuca como exemplo. Lá tem shoppings com tudo que existe no mundo, hospitais, bancos, centros comerciais e empresariais, centro de exposições, supermercados, a tal cidade da música, praias e até uma fábrica de emergentes escondida em algum lugar.

Uma pessoa que consiga morar e trabalhar ali e não tenha amizades ou familiares em outros bairros pode ficar meses sem precisar sair do bairro para nada. Se você eliminar as falsas loiras e as próteses de silicone é praticamente a mesma coisa do que morar numa cidade pequena.

No interior todo mundo se conhece, mas em prédio de cidade grande todo mundo conhece a vida do outro (e fala mal). Lá não tem poluição, mas em compensação parece que o tédio adora cuidar dos pulmões e faz questão de viver por lá.

Mas tem suas vantagens, é claro, como a conta na padaria, na lanchonete, no açougue, na peixaria. Até o cinema se ainda existisse nos deixaria ter conta, mas parece que quase toda cidade pequena resolveu franquear suas salas de exibição para o "bispo" Macedo e assim a versão evangélica de "O Grande Mentiroso" é o que fica em cartaz ad infinitum.

Em cidade grande não faltam cinemas, pra todos os gostos, assim como restaurantes, cafés e açougues que vendem até carne mico leão se você tiver dinheiro pra pagar. Pendurar a conta no entanto só com a administradora do seu cartão.

O trânsito também é infernal. Não conheço ninguém que diga que "adora um engarrafamento", só mesmo vendedor de biscoito. E filas. Cidade grande é sinônimo de fila. Seja pra entrar em uma boate, pra pagar sua conta de luz no banco, pra comprar 100 gramas de queijo no mercado, pra onde você vai tem sempre uma fila esperando.

E não deixa de ser um grande teste tudo isso, porque você só conhece o verdadeiro cordato na fila ou no engarrafamento. Aqueles sim, são testes pra qualquer cavalheirismo e talvez por isso mesmo este seja quase extinto nas metrópoles (A candidata do Lula escreveria "Metrópolis").

Pra mim o que mais incomoda em grandes cidades é a sensação de nunca conseguirmos ficar sozinhos de fato. É a solidão mais bem acompanhada que existe. Por onde quer que se vá tem sempre um monte de pessoas, rostos fáceis de confundir, mas que estão sempre lá, esbarrando em você o tempo todo. É como morar num quarto e sala com uns 50 chineses.

Mas o que mata mesmo é a rotina. Seja pegar um engarrafamento monstro todo dia, seja morar numa cidade que só tem movimento uma vez por ano durante alguma "Festa da Padroeira", a repetição diária de hábitos e obrigações é que deixa qualquer um de saco cheio.

O que me leva a concluir que seja de que tamanho for, boa mesmo é a cidade dos outros.

O que ser quando crescer?

Postado em 18 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Chega uma época da nossa vida (atualmente isso chega cada vez mais cedo) em que começam a perguntar pra pessoa o que ela vai "querer ser quando crescer". É mais ou menos o ritual que acontecerá alguns anos mais tarde com o "E aí?Casa quando?", posteriormente com o "E quando vem o bebê?", um pouco depois com "Não vai encomendar um irmãozinho?" e ainda com o "Nossa, tá ficando velho, hein", terminando com o "Fulaninho não morre, já viu?".

Mas voltando à nossa escolha profissional, é uma injustiça que tenhamos de fazê-la tão cedo. Pensem comigo, o vestibular acontece perto do final cronológico da adolescência (cronológico porque hoje em dia ela dura cada vez mais, algumas adolescências chegam aos 40 anos), uma época em que o indivíduo não consegue escolher direito nem um sabor de pizza. E justamente nessa época cheia de hormônios, conflitos, dúvidas, falsas certezas e boy bands é que a sociedade chama o indivíduo a decidir o que ele vai fazer teoricamente pelo resto da vida.

Esse aliás é outro ponto interessante, porque parece que pra pessoa ser considerada bem sucedida essa escolha tem que ser mais longeva do que o Oscar Niemeyer. A garota escolhe fazer medicina, cursa a faculdade toda, se forma, faz residência e no final desiste daquilo pra ser designer de jóias. Dirão "Pena que não deu certo, né?" ou "Tadinha, fazer faculdade pra não servir de nada depois".

Eu diria: não e não. Melhor ser um peixeiro satisfeito do que um urologista frustrado com a vida (ainda que eu não consiga entender como alguém consegue ser feliz e ser urologista ao mesmo tempo).

Mas isso não impede que nós, que já vivemos um pouco mais do que o sucesso da banda de axé do último verão, fiquemos observando e nos divertindo com certas idealizações que a garotada faz em torno das profissões que pretentem escolher. É um prazer quase sádico.

O rapaz que resolveu ser publicitário achando que seria o próximo Washington Olivetto e hoje escreve textos para literatura médica sobre hemorróidas é um bom exemplo.

Ou a garota que queria ser dentista pra aparecer na propaganda da Colgate e terminou numa clínica popular, ouvindo 20 vezes por dia a pergunta "quanto que tá pra arrancá?".

Mas são todas decepções legítimas, difícil mesmo é imaginar certas escolhas. Quem consegue pensar num garotinho dizendo "Papai, quando eu crescer quero ser ongueiro e ganhar a vida tomando dinheiro do governo pra fingir que ajudo os pobres"? Será também que alguém acorda um final de semana, vai pra mesa do almoço e anuncia pra família: "Quero ser laranja do Sarney"?

Toda profissão tem seu lado bom e seu lado ruim, mas vamos falar apenas do melhor: as férias.

Haverá quem diga que isso é um absurdo, que o trabalho engrandece o homem e que uma vida sem responsabilidades é vazia. Mas aí eu pergunto: se puder escolher, você prefere ser feliz na sua atual profissão ou virar um milionário da Mega Sena? Não precisa responder, seu silêncio já basta.

No final das contas o único que não é enganado é o cara que trabalha limpando fossas, esse desde o primeiro dia já sabe que o seu trabalho será literalmente uma bosta.

Não.

Postado em 17 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Segundo Saramago, o "não" é a palavra mais bonita do dicionário. A Barbara Curlee me disse que o "não" é libertador e poupa tempo. Concordo em partes com o português, já que conheço palavras mais bonitas, e concordo totalmente com a bela. O "não" liberta mesmo.

O único problema é uma questão que eu mesmo levantei outro dia numa conversa: quantas pessoas estão preparadas psicologicamente para ouvir um "não" (assim mesmo, sem nem exclamação) quando perguntam se "podem te pedir uma coisa" ?

A maioria só gosta de ouvir "não" quando é conveniente. Por exemplo, você está dormindo num sábado, 7 horas da manhã e te ligam perguntando "te acordei?", ou então a pessoa chega atrasada no cinema, derruba pipocas em cima de você, te pede pra levantar umas três vezes pra se ajeitar do seu lado, rouba um dos apoios de braço pra colocar um balde de Coca-Cola e no fim solta um "estou te incomodando, né?". Nesse caso o "sim" toma a forma insidiosa de um "não" e ofende igualmente.

Certas perguntas deveriam ser proibidas por lei de serem feitas. "Você já me traiu, ainda que em pensamento?", "Você acha que eu engordei?", "Essa festa está boa, né?".

Outra coisa importante nisso tudo é que o "não" além de ser libertador ainda é estimulante. O cara está dando em cima da menina e ela diz "não". Ao invés de tomar a decisão mais correta nessa hora, que é desistir, ele lembra de todos os livros de auto-ajuda que não leu (mas contaram pra ele) e encara aquele "não" como uma oportunidade de convencer a pobre coitada de que ela na verdade quer dizer "sim".

Sabe como é, aquela história do "Segredo", dos livros do Paulo Coelho, que o universo inteiro conspira a seu favor quando você quer realmente algo. Vocês conseguem imaginar mesmo o universo inteiro preocupado com um iogurte ou com a ida de alguém ao motel ?

Termina com a menina de mão na Bíblia, dizendo pra ele "É 'não' mesmo! Eu te juro por tudo que existe de mais sagrado!".

Essa nossa necessidade quase patológica de agradar a todos é que complica tudo. Como as pessoas adoram ser elogiadas e receber afagos no ego, aplicam a máxima do "é dando que se recebe" e sentem obrigação de dizer algo "legal" para ouvirem algo "legal" em troca.

Só que às vezes não temos o que dizer. Você acha a pessoa feia. Mas não é só você achar, ela é feia mesmo. E um belo dia resolve te perguntar "você me acha bonito?". A solução libertadora é o "não", mas talvez você queira preservar a amizade, então sai com um "eu te acho exótico" ou então "ahhh, você é uma fofa!".

Acredite: qualquer elogio que precise de explicação posterior vira palestra. Melhor sair dessa de um jeito libertador, porém não tão "pé no peito" quanto o "não". Diga simplesmente algo como "No humor que eu estou hoje, não acho nem a Megan Fox bonita". Pronto, se livrou de uma boa.

Agora, se a pessoa em questão for um mala (dessas malas vagabundas, vendidas em camelô de rodoviária) você conseguiu uma boa oportunidade de despachá-la no próximo ônibus pra Imperatriz do Maranhão: diga o "não", que nesse caso será duplamente libertador.

Mas não só o "não", todos seriam mais felizes se abusassem mais dos monossílabos e frases simples. "Sim", "não", "vem", "não enche". Seria o fim das discussões de relação, dos amigos ocultos de final de ano e talvez até dos chás de panela.

Vai com calma...

Postado em 14 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 12 Comentários

Pouca coisa assusta mais o outro num início de relacionamento do que o velho erro de "ir com muita sede ao pote". Não adianta, por mais que você esteja afim, por mais que até cogite algum futuro com aquela pessoa, se você perceber que um laço foi atirado para te segurar que nem novilho de rodeio, geralmente vai correr.

Amor à primeira vista é uma beleza, mas depois dê um espaço porque senão ele morre sufocado.

Só que muita gente não entende isso e faz exatamente o contrário. Imagina, você conhece alguém, sai, dá uns amassos e na primeira ida ao motel a pessoa vem com uma frase pós-sexo no estilo "nunca mais quero fazer isso com outra pessoa". Tudo bem que até pareça bonitinho num primeiro momento, mas "nunca mais"? Tipo, e se você tiver outros planos? Atração fatal mode on?

Tem gente que adora esses arroubos, tipo "Ou você será minha ou não será de mais ninguém" ou "Tenho certeza de que passaremos o resto da vida juntos, custe o que custar". Na boa, esse tipo de declaração só me faz colocar o telefone da delegacia anti-sequestro na discagem rápida do celular.

Óbvio que ninguém começa nada pensando em terminar, mas essas promessas às vezes parecem mais ameaça. Sem contar que às vezes você quer mesmo é uma saidinha e só. Acabou de sair de um namoro de 8 anos, está na sua, conhece alguém interessante e avisa: "tô fora de relacionamento agora".

A pessoa ouve, diz que tá tudo bem e aí na terceira saída vira pra você e diz "vamos no batizado da filha da minha prima sábado?". Você se pergunta naquele momento desde quando batizados e festas de família entraram no rol de programas em um relacionamento casual, mas inventa uma desculpa e ouve em seguida "não precisa ficar com medo, vamos só como amigos".

Acredite: ninguém te leva pra conhecer a família "só como amigo".

Falando isso assim do nada dá a entender que sou um baita coldheartbreaker, né? Nada disso. É que dificilmente alguém passa dos 20 anos sem ser psicopata numa relação e sem se relacionar com um psicopata em outra. Claro que às vezes ocorre de ser e se relacionar ao mesmo tempo, mas aí é o que a gente chama de casamento.

E ninguém está livre dessa atração fatal. Tenho um amigo que contou que foi com a namorada viajar e no meio de uma noite acordou com ela olhando pra ele fixamente, olhos vidrados. Se assustou e perguntou o que era aquilo, e ela respondeu: "É que sonhei que você estava com outra. Você sabe que você é meu, só meu, não é? Nunca se esqueça disso".

Ele disse que pensou seriamente em passar a dormir com uma faca embaixo do travesseiro e só desistiu da idéia porque concluiu que ela o mataria antes já que ele estaria dormindo mesmo, então a faca poderia até ajudar no crime.

Mas sério, é muito chato você conviver com gente intensa demais. Não defendo de jeito nenhum frieza, distância, mas essas pessoas que tem ciúmes até de artista na televisão são um saco. Você é assim? Cheio de energia para gastar? Vai fazer triatlon e deixe o outro em paz!

Porque toda hora discutir relação esgota qualquer um. Imagina, parece a assistência técnica do cupido. "Quero devolver esta mercadoria porque ele dorme depois de fazer sexo e isso não consta no manual".

Será que existe alguma regra? Tipo, só a partir da 5ª saída é permitido mencionar se tem irmãos ou não? Ou então só depois da 10ª é que é de bom tom ir no McDonald's num sábado de tarde (vai dizer que você também não acha isso programinha de namorado?).

Um coeficiente é fácil: se você anda frequentando a casa da pessoa e te oferecem um lanche, desista, estão namorando. É a lei do misto-quente.

Brincadeiras à parte, tem coisas que assustam mesmo. Você lá, na segunda saída, cineminha domingo à noite e a pessoa te pergunta "tem programa pro reveillon?". Detalhe: vocês estão em março.

Um outro amigo me disse para radicalizar, entrar na maluquice pra ver se assusta mais ainda a pessoa e a coloca pra correr. Por exemplo, o (a) louco (a) te diz algo como "vou passar o resto dos meus dias com você!" e ao invés de se assustar você responde "vamos fazer um pacto e combinar de nos matar antes que o mundo nos separe!".

O problema é se o doido não sair correndo e te disser "boa idéia!".

O Alpino de beber

Postado em 13 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Estava passeando no supermercado procurando besteiras pra rechear o armário da cozinha (aliás, homens fazendo compras rendem um post, porque só compramos inutilidades e bobagens), quando encontrei uma garrafinha com o visual e a logomarca do Alpino. Meio caro pra um desses leites prontos, mas interessante.

Comprei, levei pra casa e fiquei maravilhado com o gosto. É diferente de um Toddynho ou Nescau Fast, mas lembra bastante o chocolate Alpino. Cheguei até a comentar no Twitter, e achei graça até, porque foi só mencionar o tal produto que recebi uma saraivada de comentários dizendo que eu fora enganado, que aquilo não era Alpino coisíssima nenhuma, que era golpe da Nestlé.

Me senti um um idiota completo depois dessa, mais ou menos como um fã do Marcos Mion, e resolvi pesquisar na internet o porque de ter sido enganado tão facilmente.

Procurei e descobri que fizeram a bebida usando produtos que dão sabor similar ao Alpino, alguns até usados na fabricação do chocolate em si, e que o fabricante inclusive avisava isso no rótulo.

Mas não foi o bastante, as pessoas queriam na verdade chocolate derretido dentro de uma garrafinha. Ninguém pensou na impossibilidade disso, como se fosse fácil manter um chocolate em estato líquido só esperando alguém resolver bebê-lo.

E a história tomou proporções surreais quando li na Folha que o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), o Ministério Público e o Procon entraram em cena para apurar a "enganação" que o consumidor estaria sofrendo.

Eu até admiro o interesse de tantos órgãos públicos no assunto, afinal, depois que prendemos o último dos corruptos, depois que executamos o último dos chefões do crime organizado, erradicamos o trabalho e a prostituição infantil, eliminamos as sobretaxas, abusos e práticas leoninas de concessionárias de serviços públicos e bancos, nossas instituições ficaram sem muitas funções e puderam então se dedicar a tarefas tão complexas quanto ser a "polícia do leite".

Mas ainda assim é um exagero. Tem que diga que achou o gosto ruim, nada a ver com o Alpino chocolate. Respeito e acredito nisso, mas eu gostei e o rápido sumiço das prateleiras sempre que o produto chega mostra que muita gente também gostou.

Chega a ser incrível que nessa altura do campeonato ainda seja preciso explicar para as pessoas que gosto é algo pessoal e cada um encara de forma diferente. Na minha opinião enganação é venderem suco de soja e dizerem que aquilo tem sabor de qualquer outra coisa que não seja uma meia suada ou a tal "ração humana", que até no nome mostra que gostar daquilo é coisa de animal.

Mas o assunto já virou polêmica e a discussão rendeu 354 comentários num blog que trouxe o assunto para a internet, o que me dá a certeza de que o Brasil jamais vai dar certo.

Você consegue reunir centenas de pessoas para ver um acidente, para ouvir as bobagens de um comediante stand up, pra discutir se o sabor do Alpino Fast é ou não uma enganação, mas não junta meia dúzia pra ir no Congresso dar uma surra num deputado ou senador daqueles.

E nessa levada qualquer um vai poder processar uma editora porque colocou a Geisy Arruda na capa de uma revista sobre Boa Forma ou então alguma revista de música se colocar uma banda de axé nas suas páginas centrais.

E note que quando fazem isso eles nem colocam um aviso do tipo "Nesta revista contém uma pessoa feita com todos os ingredientes de uma mulher gostosa, porém apenas similar" ou então "são instrumentos, são notas musicais, tem até um palco, mas é apenas algo similar à música".

Isso é mais enganação do que o Alpino Fast.

Tapa com luva de pelica

Postado em 12 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários

Já ouvi essa expressão umas mil vezes, você provavelmente também. Não tem nada a ver com o bíblico "dar a outra face", mas com responder a uma cretinice que fazem contigo com outra cretinice, só que supostamente educada.

Eu sou meio cético pra essas coisas, eu acredito no palavrão. O palavrão, ainda que socialmente condenável, libera tensões. Uma pessoa que fala logo um quanto está irritada tem menos chance de pegar um fuzil e dizimar o público de uma filial do Mc Donald's numa tarde qualquer.

Cordialidade cínica é pior do que grosseria, porque ainda por cima é mentirosa.

Você está numa festa com sua namorada, uma prima dela metida a besta começa a fazer comentários desagradáveis sobre a roupa que ela está usando, sobre o penteado dela e até sobre aquele concurso que ela não conseguiu passar.

Você sabe que as duas não se dão bem desde que uma arrancou a perna da Barbie da outra quando tinham 6 anos. Sua namorada teve uma educação castradora, dessas que dizem que é feio soltar um "pqp!" até quando damos uma topada na mesa de centro e por isso fica ali, ouvindo as idiotices quieta. Com certeza ela vai chorar de raiva em casa mais tarde e estragar a noite que você preparou com tanto esmero, comprando calcinha nova pra ela e até cortando as unhas, o que você faz?

Vai ser superior, pedir licença e fazer um comentário homo-fashionista no estilo "esses sapatos que você está usando são tããão verão passado"? Ou vai mostrar porque você não nasceu ectotérmico e falar algo do tipo "Porque você não faz bronzeamento artificial e vai trabalhar como cover da Preta Gil? Sua fdp?!".

Sim, será um barraco. Mas ao invés de você passar uma semana pensando nela, no que poderia ter respondido e no que ela merecia ter ouvido, será ela que vai passar uma semana sem te tirar da cabeça, com a sua cara feia engasgada na mente até na hora de ir dormir.

Não acredito muito em convivência forçada, nessa história de gente que "se atura" e fica dando alfinetada uma na outra. Ao contrário da maioria das pessoas, eu duvido muito do caráter de alguém que ouve um monte de ofensas, diretas ou veladas, e não manda o outro tomar num lugar bem feio, relacionado à profissão de um médico temido por homens de meia idade.

Essa obsessão pelo controle de emoções, tão anti-latino, virou febre de uns tempos pra cá. Não é mais bonito pagar mico por amor, escrever cartas melosas e ter arroubos de ciúme. Atualmente o admirável é ser informado sobre um chifre pelo próprio parceiro, de preferência sentados num café, e perguntar logo depois "o (a) outro (a) é boa gente?".

Se o passional demais assusta, o passional de menos oprime.

Viver de verdade é estourar o limite do cartão, é dever ao cheque especial. Não se iluda: o amor é um jogo de "perde,perde", assim como a vida também é, mas de vez em quando ganhamos uma aqui e outra ali, e é por isso que tudo vale a pena.

Quem briga de uma vez, faz as pazes de uma vez. Não fica aquele azedume pairando, aquela intolerância a conta-gotas, acumulando-se até virar uma ironia mais grosseira do que um xingamento. Porque quando você chama alguém de "fdp", você não quer ofender a pessoa e nem a digníssima mãe dela, você está desabafando, é quase uma ofensa de domínio público. Todo mundo é, já foi ou ainda será "fdp", é da vida.

Mas dizer coisas que atingem, que ferem de verdade, mesmo sem usar de espressões grosseiras, é muito mais mal-educado. Elegância é saber o que machuca o outro e não usar isso nem na hora da raiva. Melhor proferir generalidades, desabafar, fazer as pazes e seguir adiante. Esquecer xingamento é fácil, difícil é apagar as verdades da memória.

Por isso a minha teoria é simples: se for pra dar tapa, que seja com luva de boxe. Melhor depois dar pontos no supercílio do que na alma.

Dunga, convoca o Romário!

Postado em 11 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 8 Comentários

Hoje finalmente saiu a convocação da SeleDunga. Podem chamar também de Selenike se preferirem, pra mim é indiferente, porque nesta Copa eu vou torcer pra Argentina. Um time burocrático e de "operários", ainda que levar craques-vagabundos não fosse também uma grande solução.

Mas tenho certeza que muita gente vai xingar o Dunga por mim, prefiro falar de um assunto mais agradável. Outro dia meu amigo @luckfaber me chamou no MSN pra falar da participação do Romário num programa de TV. Comentou comigo sobre como era bom vê-lo em campo, o gênio da grande área, e como era melhor ainda ouvi-lo falar fora do campo.

Ainda recordo a véspera da Copa de 1994 e o clamor nacional pela sua convocação. O Brasil aos trancos e barrancos nas eliminatórias até que na última partida, contra o Uruguai, o teimoso da vez Carlos Alberto Parreira resolve ceder (não ao clamor, mas ao medo de não se classificar) e convoca aquele que sem dúvida alguma era o melhor jogador em atividade no mundo.

Show naquela partida, show na Copa, 24 anos de fila terminavam e ninguém duvidava: aquela era a vez do Romário. Naquele futebol burocrático da Seleção de 94, ele foi o lampejo de genialidade, de arte, de leveza.

Não me entendam mal! Eu não desprezo aquele time como fazem os "comentaristas" esportivos. Pra mim aquela foi a melhor Seleção Brasileira que eu já vi, simplesmente porque foi a primeira que eu vi ser campeã e que tirou da nossa boca o gosto amargo das derrotas de 82, 86 e 90. Foi por ela que vibrei em frente a um aparelho de televisão no quisque Viajandão, na Barra da Tijuca, o mesmo que o Romário ia pra jogar futvolei.

Mas o time de 94 não teria sido o que foi sem o seu craque, sem o seu futebol objetivo e refinado e sem a sua personalidade única.

E é aí que Romário se distancia anos luz dos jogadores que foram seus contemporâneos e dos que o sucederam. Ele é um cara verdadeiro, sem essa falsa máscara da humildade e do "coletivismo" que nivelam tudo por baixo.

"Não fui eu que ganhei nada, foi o grupo". Mas pera aí! O time fez 20 gols no campeonato e você foi responsável por 19! "Não sou melhor do que ninguém, o grupo e o professor é que são importantes". Assim falam os bagres de hoje em dia, que se não são totalmente bagres com a bola nos pés, são verdadeiros pernas de pau quando abrem a boca.

Ele não. Romário teve a ousadia de dizer que Deus apontou o dedo para ele e disse "você é o cara!". Todo mundo tem direito de achar isso, afinal das contas, todos nós vencemos uma luta contra alguns milhões de outros espematozóides, mas quem tem coragem pra dizer isso? O Baixola tinha e ainda tem.

Suas histórias e suas frases antológicas provam isso.

"Se eu for à Copa do Mundo, deve ser pelo que estou fazendo, não por aquilo que fiz. E por isso penso que é normal que eu vá, já que agora sou o melhor."

"Estou com 72 quilos, sim, e daí? O elefante é gordo, mas quando tem incêndio na floresta ninguém ganha dele na corrida"

"Parar? Nunca! Quando vejo em campo esses garotos de 19, 20 anos... Eles são muito ruins. Aí eu penso: não vou parar de jogar tão cedo"

Não consigo imaginar nenhum desses jogadores robotizados dos dias de hoje tendo cojones para dizer nada disso aí em cima.

E isso nos traz de volta a essas convocações do Dunga, nessa Seleção sem graça e tão contestada que o Brasil possui atualmente. Essa opção pelo "coletivo", pela "aplicação", pelo "sacrifício" é explicada pelos tipos de jogadores que existem. Uns, ruins de bola porém dedicados, os populares carregadores de piano. Outros que são bons de bola, mas verdadeiros vagabundos, moleques no que diz respeito à postura profissional.

Faltam, jogam mal, prejudicam suas equipes e acham que isso é "malandragem". Eis aí a grande diferença entre essa turma da bebedeira e da balada e o Romário: ele ia pra noitada sim, tinha um monte de mulheres no pé, chegava tarde nos treinos, mas quando entrava em campo resolvia a parada. Foi artilheiro do Campeonato Brasileiro com 39 anos. Ele funcionava.

E ainda que não jogue mais, ainda que não tenha condições físicas para entrar em campo como em outras épocas, bem que o Dunga podia convocá-lo para, quem sabe, a sua presença lembrar a todos ali, inclusive ao próprio Dunga, do porque o Brasil ser Brasil no futebol.

A diferença entre humildade e falsa humildade é essa: uma distingue o vencedor, a outra o apequena.

O anti-tudo

Postado em 10 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 11 Comentários

Sou rabugento mesmo, não nego. Quem me conhece (pessoalmente ou não) sabe que tenho uma postura extremamente crítica em relação a quase tudo, mas se serve de consolo, sou assim até comigo mesmo, então não é implicância com os outros, com seus ídolos, suas crenças e nem seus gostos pessoais.

Eu sei que a vida é curta e que a existência de 4 segundas-feiras por mês a torna ainda mais complicada, mas não é por isso que eu tenho que fingir que gosto de coisas pelas quais sinto horror só pra dizer que "sei viver". Acreditem: mesmo não achando graça nas piadas do CQC, não assistindo BBB, não sendo "cervejeiro" e nem indo a micaretas, eu consigo ser feliz em várias ocasiões.

Não sou rico (gostaria muito de ser acintosamente rico, mas não sou) e sempre penso que diversão de pobre é castigo de rico. Churrasco na laje, cerveja de 1 real, funk, pagode...só pode ser tortura, né? Mas tem quem se divirta com isso, fazer o que? Acho o maior barato e quase invejo quem consiga tirar satisfação do que custa tão pouco.

Mas o assunto é sobre eu e mais algumas pessoas serem consideradas "anti-tudo". Os ranzinzas, os estraga-prazeres, os reclamões, os que não sabem viver. Pra manter a fama, permitam-me discordar disso.

Alguém já pensou que uma pessoa considerada anti-tudo pode ser na verdade a favor de um monte de coisas? Eu mesmo não sou anti quase nada e sim a favor. Por exemplo, acham que eu sou anti-PT. É mentira. Eu sou é a favor da transparência e da ética na política, da democracia representativa, da alternância de poder.

Dizem que eu sou anti-funk, anti-favela (o que seria quase a mesma coisa), mas uma outra forma de enxergar isso é me ver como alguém a favor de uma cidade mais bonita, mais organizada e de todos os estilos agradáveis de música, que definitivamente não passam perto do funk.

Claro que também tem o pagode e o axé, mas eu não sou "anti" nenhum dos dois também. Eles podem ser colocados ao lado de sub-celebridades e novelas da Globo. Sou a favor de todos! A favor de que participem da missão da NASA para Marte e fiquem por lá.

O mesmo acontece com lugares cheios, não é que eu odeie multidões, é que prefiro lugares mais vazios. Não detesto o calor escaldante do verão, prefiro o frio. Viram como é só uma questão de ponto de vista?

Pense em mim como alguém que é totalmente favorável a um ambiente refrigerado, com pessoas bonitas e cheirosas, boa conversa e companhias que me façam ser alguém melhor depois de alguma convivência.

Viver e evoluir é abrir portas e aproveitar as portas que nos abrem. Ficar parado no mesmo lugar, gostando das mesmas coisas e acompanhando a maioria é mais confortável, com certeza, mas nem por isso é melhor.

Se eu curtisse jogar uma pelada no final de semana, enchendo a cara de cerveja e depois saindo pra um pagodinho com certeza teria uns 100 amigos a mais. Teria programa pra fazer todo sábado à noite, ouviria rádios FM sem precisar trocar de estação de 10 em 10 minutos e ainda por cima economizaria a grana da mensalidade da TV a Cabo.

Mas não posso trair minha personalidade, afinal de contas, aí eu seria "anti-eu" e isso sim, é imperdoável.

Dilma e a "Operação Cavalo de Tróia"

Postado em 8 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Através do Twitter do @Gravz recebi este vídeo retirado daqui, que exibo abaixo.

Assistindo isso, fico impressionado com a vaidade de Lula, que entendeu que mesmo ao arrepio da lei, da ética e da liturgia do cargo de Presidente da República tentará batizar essa mulher como sua sucessora. "Sou popular, renego o passado, brinco de descobridor do Brasil, porque não? Dane-se o país".

Só mesmo o PT na sua inesgotável pusilanimidade para se sujeitar a isso e somente um indivíduo já sem a menor noção da realidade para apresentar uma pessoa tão desqualificada e despreparada para ser candidata a presidência.

Espero estar errado, afinal é apenas uma teoria, porém não acho que seja tão mirabolante assim: só consigo enxergar essa mulher como um Cavalo de Tróia. Sério.

Trata-se de uma pessoa que não tem história política e nem biografia para preservar e que muito bem pode vir a servir como o veículo para a guinada à esquerda radical e ao chavismo mais nefasto.

Reinaldo Azevedo já utilizou esse termo para uma outra teoria sobre Lula, Dilma e o PMDB, mas ele é tão apropriado ao que penso, que não o sacrificarei em nome da originalidade.

Se tudo correr como eles planejam, depois de 4 anos de uma presidência fraca, volta o "Grande Mestre", aí sim, do jeito que ele tanto sonha, como um Fidel Castro do acarajé com farofa.

Procura-se a Coca-Light

Postado em 6 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Desde criança adoro um refrigerante. Eu sei que "faz mal", que "engorda", "dá celulite","estraga os dentes" e também clareia mármores e desentope encanamentos, mas eu gosto, fazer o que? Pelo menos não uso drogas, não sou adepto da zoofilia e nem voto no PT.

Mas o fato é que depois de uma certa idade, nosso metabolismo fica menos rebelde e nos obriga a cortar calorias, caso contrário colecionaremos quilos a mais.

Daí a opção pelos refrigerantes Diet ou Light. Não vou mentir pra você: o gosto não é igual. Parece muito com o açúcar, mas quem disser que é igual não sabe a diferença entre um iPhone e um HiPhone.

Mas já é alguma coisa, então eu que sou fã de Coca-Cola, aderi à Coca Light. Mas um dia apareceu a Coca Zero, com gosto bem mais parecido com açúcar, um rótulo estiloso e a mesma promessa de eliminar o peso na consciência e na balança.

Até que recebi uma dessas correntes de internet, mais ou menos parecida com as que nos avisavam sobre os riscos de cobras e escorpiões em brinquedos do Mc Donald´s, de pessoas abduzidas na fila do Mc Donald´s que acordavam sem um rim ou dos assaltantes que marcam os carros das pessoas no Drive Thru do Mc Donald´s para nos roubar depois.

Como se nota a partir desses alertas repassados de email em email, as propriedades alimentícias da comida do Mc Donald´s são o menor risco que um cliente pode estar sujeito ali.

Mas essa tal corrente curiosamente não falava do Mc Donald´s e sim da Coca Zero. O texto em questão avisava que ao invés do aspartame usado na Coca Light, a Zero utilizava entre seus edulcorantes o ciclamato de sódio, que seria uma substância cancerígena proibida nos EUA, no México e em mais alguns países nos quais a Coca Zero utilizava outro produto adoçante na sua fórmula. Diziam que o ciclamato só era utilizado no lugar do aspartame porque seria bem mais barato.

Até na Venezuela, pasmem, o ciclamato foi proibido, ainda que eu ache que eles deveriam proibir outras coisas igualmente letais por lá, como o Hugo Chávez, por exemplo.

Fui pesquisar mais sobre o assunto e encontrei uma lista de produtos divulgada pelo FDA, órgão de saúde pública dos EUA, chamada "Generally Recognized as Safe (GRAS)", traduzindo seria algo como "reconhecidos como seguros". Nesta lista o ciclamato aparece com a seguinte observação: "Sodium cyclamate - NNS, ILL - Removed from GRAS", quer dizer, ele não é considerado seguro para consumo nos EUA.

Não sou repórter, mas fui atrás do tal "outro lado da história" e encontrei um comunicado da Coca-Cola dizendo que o ciclamato é liberado para consumo em mais de 50 países, inclusive na União Européia, e que só foi proibido nos EUA devido a testes realizados com ratos na década de 1970, onde os roedores receberam quantidades equivalentes a 700 latas de refrigerante por dia e que estudos posteriores provaram que o ciclamato não era uma substância perigosa.

Avisavam ainda que nos EUA já há um pedido para reaprovar o ciclamato e que este está sob revisão da FDA.

Até aqui, mais um boato internético desvendado, não é? Não. A parte que ainda ficou me incomodando foi a que dizia que a opção pelo ciclamato se devia a este ser mais barato.

Pensemos: mais barato, mais lucro. Qual empresa não gosta disso? E qual o problema se alguns clientes vierem a morrer por conta disso depois? Os valores pagos em indenizações sempre serão infinitamente menores do que os lucros.

Só que tudo isso pode não passar de teoria da conspiração levantada por um blogueiro sem assunto numa sexta-feira entediante. Mas um último dado que me deixa ainda mais desconfiado é o sumiço da Coca Light do mercado.

Pra quem já bebeu as duas, é fácil diferenciar seu gosto. Cada uma tinha seus clientes fiéis e ninguém brigava com ninguém tal como sunitas e xiitas. Porque então a Coca-Cola resolveu dar um sumiço na Cola Light?

Seja em shoppings, lanchonetes e até alguns supermercados, ela sumiu. Você encontra a tal Coca Zero ou então no máximo uma tal Coca Light Plus que vem numa lata menor e com preço igual ou até maior.

A boa e velha Coca Light sumiu do mercado por uma "estratégia de marketing" da empresa. Estratégia que obriga a pessoa que quiser continuar consumindo os refrigerantes da companhia, que diga-se de passagem é dona de uma fatia de mercado imensa no Brasil, a optar pela tal Coca Zero que usa um adoçante suspeito e barato.

Não sei o que você pensa disso, mas eu desconfio muito quando uma empresa resolve me oferecer um produto que diz ser tão bom quanto outro mas que tem um custo bem menor para eles. Afinal, por mais respeito que essa empresa possa ter por mim, não sou ingênuo e sei que a parte do meu corpo que ela preza mesmo é o meu bolso.

Os veículos de imprensa e a política

Faz um tempo que eu escrevi aqui sobre a postura de blogs, portais, jornais e revistas frente a qualquer eleição que aconteça em qualquer país. Contei (e demonstrei com fotos) que nos EUA os jornais declaram apoio abertamente e que isso é uma coisa boa, visto que os leitores e eleitores não são enganados com a falsa neutralidade que vemos aqui no Brasil.

Hoje, 5 de Maio de 2010, é dia de eleições gerais no Reino Unido. Eles votarão a nova composição do Parlamento e o partido que conseguir maioria ou formar uma coalizão, indicárá o primeiro-ministro.

Como sou fissurado em processos eleitorais de forma geral (até eleições na Irlanda, na África e na Ucrânia), fui ler algumas notícias sobre o dia da eleição e me deparei com essas duas capas que reproduzo abaixo:




Pra quem não sabe inglês, explico rapidinho: o The Sun traz em sua manchete os dizeres "Em Cameron (líder do Partido Conservador) nós confiamos, é nossa única esperança". Já o Daily Mirror traz em sua primeira página a seguinte convocação: "Primeiro-Ministro? Tem certeza? Não deixe que David Cameron  engane você, vote no Partido Trabalhista".

Como vocês podem notar, nenhuma pessoa que possua pelo menos duas sinapses comunicantes terá dúvida alguma sobre qual partido este ou aquele jornal apóiam.

Aqui no Brasil temos esse apoio velado, essa coisa cínica da "isenção" que na verdade não existe. Alguns veículos são claramente opositores ao governo. Outros, fingem uma neutralidade.

Órgãos de imprensa, ou pelo menos muitos destes órgãos de imprensa, necessitam de verbas federais que chegam em forma de anúncios, logo não podem adotar postura independente em relação ao governo. Só que não podem exagerar no apoio, senão, quando e se houver uma troca no poder, a torneira fecha.
Então eles transitam naquele terreno meio doido em que para elogiar um, precisam elogiar o outro e para falar dos defeitos de um, precisam achar algum defeito no outro.

"Serra fez um ótimo discurso na pré-convenção do PSDB". "Dilma conseguiu concluir brilhantemente pelo menos uma das 300 frases que iniciou em seu pronunciamento para os líderes do MST".

"Ato de Centrais Sindicais pró-Dilma recebeu milhões de estatais em patrocínio e Lula discursou pedindo votos para ela". "Prefeito de Camboriú pagou uma coxinha para Serra e ele disse que fumantes são idiotas".
E por aí vai.

Não seria melhor que os jornais fizessem como nos EUA e no Reino Unido e tirassem de uma vez a máscara?

Tenho certeza que a democracia não precisa de simulacros para ser forte, precisa apenas de transparência.

Nos tempos do Fotolog

Postado em 5 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Não sei se alguém ainda lembra de quando o Fotolog era o Twitter. Não, não fiquei maluco, houve uma época em que a "moda" na internet era o site-álbum, que teve seus 15 minutos de fama antes mesmo do Orkut.

Costumo brincar dizendo que o Orkut está para o Fotolog assim como o Twitter está para o Orkut. Um atropelando a fama do outro.

A rotina era quase invariável: a pessoa saía na sexta feira para alguma festa, boate, show, velório, baile da terceira idade, seja o que for, e levava sua câmera fotográfica, que na época nem precisava ser digital (scanner era equipamento obrigatório), tirava fotos fazendo pose, corria pra casa e publicava no Fotolog.

Muitas noites de tédio apareciam como baladas incríveis mais tarde no álbum.

Naquela época as câmeras digitais estavam no início de sua popularização, celular com câmera então nem pensar, o mais moderno que existia era um aparelho com tela colorida que não sabíamos pra que servia, já que não tirava fotos, não acessava a internet e se bem me lembro não se comunicava com o computador, logo nem fotos podíamos colocar no display.

Quem tinha uma câmera de 1.3 megapixels era ídolo e lixos como Breeze Cam e uma tal de TecPix (que vendia até no programa do João Kléber) eram levados a sério.

Mas voltando ao Fotolog, sabe como hoje causa estranheza alguém não possuir uma conta ou pelo menos não conhecer o Twitter? Pois é, naquela época era difícil quem não tivesse um Fotolog.

Era uma mistura de álbum do Orkut com microblog, ainda que o termo nem existisse. A pessoa colocava uma foto sua, um texto (podia ser maior do que 140 caracteres) e tinha um espaço para comentários de quem acessasse. Havia ainda um sistema de favoritos, que parecia muito com o sistema de followers do Twitter (havia também aquela coisa do "me favorita que eu te favorito?"), além do que a popularidade era medida pelo número de comentários, ainda que o sistema limitasse esse número.

Era comum a frase "conheço fulano só do Fotolog". E rolava aquela coisa tácita do elogio recíproco, sabe como é? Você podia postar uma foto com duas batatas-fritas enfiadas no nariz, peruca de palhaço e a boca aberta mostrando comida mastigada que sempre apareciam comentários dizendo que você é lindo, a foto é linda e tudo aquilo é um barato. Lógico que você tinha que retribuir elogiando o álbum alheio também.

A eterna busca de carinho virtual para substituir carências reais.

No rastro do Fotolog apareceram vários serviços idênticos como Flogão, Fotoblog e até Sexlog.

Mas por incrível que pareça, a afetação era menor. A inclusão digital também, então por pior que o nível pudesse ficar, não podia ser comparado com o charco que existe hoje.

Agora, 5 anos depois da última vez que coloquei uma foto ali, só quando alguém me lembra é que penso no Fotolog. Geralmente algum amigo daquela época, falando sobre fatos que estranhamente já estão tão distantes.

Visitei o site para escrever esse texto e encontrei tudo parado no tempo. Muita gente ainda atualiza seus perfis, mas a maioria parou mais ou menos na mesma época, entre 2005 e 2006, deixando tudo como estava, sem se preocupar em deletar o perfil. Até meu velho Fotolog (www.fotolog.com/mvrj) está lá, como se eu jamais o tivesse abandonado.

As mesmas festas, os mesmos sorrisos, as observações, os comentários, todo mundo mais novinho, tantas noites boas (ou pensam que só era tédio disfarçado?), tantos amigos que ficaram pelo caminho. A impressão é que alguma estranha invenção parou o tempo e que você está visitanto seu passado ali intocado, real, mas ainda assim intangível.

E o mais incrível é que mesmo sem fazer tanto tempo assim, já parece que passaram séculos.

Será que vai acontecer o mesmo com o Twitter? Será que daqui a alguns anos estaremos visitando nossos velhos hábitos, pensamentos, piadas, amigos e sentindo falta de tudo isso também?

Certeza mesmo é que só a saudade dura pra sempre.

Que falta de sacanagem!

Postado em 3 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius 19 Comentários

Primeiro vamos ao vídeo que inspirou este post, volto logo em seguida:


Isso que você acabou de assistir (ou que já havia assistido em algum outro lugar) virou hit no You Tube, Trending Topic no Twitter e sensação na internet, merecendo os seus 5 minutos de fama. Sim, porque nesse mundo virtual de celebridades efervecentes, os 15 minutos foram diminuídos para 5, caso contrário não caberia todo mundo.

Vou fazer uma pausa pra você poder parar de rir de tanta coisa ridícula junta. Pronto, melhor? Então vamos falar o mais próximo de "sério" que é possível sobre esses pré-adolescentes e adolescentes de hoje em dia.

Já dizia Nelson Rodrigues que o jovem tem "todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade". Concordo com ele e acrescento: alguns adultos continuam adolescentes mesmo depois de velhos.

Mas eles não são o assunto, o assunto hoje são os adolescentes propriamente ditos, esta geração tão bem representada nesse vídeo. Já tive essa idade e quem me lê, se não morrer antes ou se não estiver me acompanhando através de uma sessão espírita, também já teve ou terá. Lá pelos 12, 13 anos começamos a descobrir o mundo. Tudo é novidade, portas, janelas e zíperes começam a se abrir à nossa frente e, na ânsia pela liberdade necessária para tantas descobertas, viramos pequenos e insuportáveis rebeldes. Era assim no tempo dos nossos avós, foi durante o nosso tempo e assim será enquanto o sol brilhar.

Curtimos ouvir bandas de rock no último volume, nos trancamos no quarto, sofremos paixonites, só andamos em turma, tudo isso é comum, o que não é comum é a imaturidade extrema, a idiotice estratosférica, o linguajar de silvícola e a comunicação escrita digna de babuínos treinados que essa "galera" atual exibe com o orgulho de uma besta quadrada babando sua saliva asinina.

Escrevem como imbecis, comportam-se como imbecis e nem pra demonstrar rebeldia conseguem sair do circuito MTV. Podem me chamar de saudosista, podem falar o que bem entenderem, mas a turma que foi adolescente junto comigo tinha sim, ídolos roqueiros, enchia salas de espetáculo, andava atrás deles, mas era diferente.

Basta pegar uma letra, qualquer letra de qualquer música, da Legião Urbana, Plebe Rude, Camisa de Vênus, Paralamas do Sucesso, Titãs, Ira! e comparar com essas bandinhas cultuadas agora como Restart, NX Zero, Hori e o escambau, e teremos quase certeza que as mulheres grávidas de 1995 pra cá sofreram os efeitos de algum tipo de radiação.

Eram ídolos pela atitude, pelo que diziam, pela qualidade das suas letras e só. Porque vamos combinar, Renato Russo, o Nasi do Ira!, Herbert Vianna e Bi Ribeiro, a maioria dos Titãs, Marcelo Nova ou o Ameba da Plebe Rude não eram o que se pode dizer bonitos e nem seriam "ídolos teen" nesse atual cenário que parece exigir três talentos para se chegar ao sucesso: androginia, roupas ridículas e um péssimo corte de cabelo.

São bandas de rock tão rebeldes quanto um comercial da Nívea.

Cadê a cara de mau que os roqueiros exibiam em outros tempos? Imagino um adolescente de hoje em dia num show do Ozzy em que ele babava sangue ou num show do Kiss com o Gene Simmons mandando aquele sinal feio do dedo para a platéia. Acho que eles iriam chorar e correr pro Twitter dizendo que estão traumatizados.

Maldade pra esses adolescentes de hoje seria o Júnior se separar da Sandy.

Eu assisto um vídeo desses e fico preocupado, sério. Porque se esses serão os brasileiros de amanhã, fatalmente seremos governados por algum chimpanzé que fugirá do zoológico e se elegerá presidente. Preocupação nem tanto por eles, que provavelmente aprenderão um bocado e evoluirão através dos exemplos do primata, mas comigo, que serei velho num país dominado pelos imbecis.

Não sei se por causa da violência e da criação desses jovens, que são mais presos, vivendo em condomínios e prédios cercados por segurança, não sei se devido ao maior acesso à informação fácil (e inútil) na internet, se à ausência de boa leitura ou simplesmente porque andam colocando idiotizol na ração que dão pra eles, mas o fato é: não se fazem mais adolescentes como antigamente.

Esses de hoje, com essa cabeça que têm, quando muito andariam com as crianças de 3 ou 4 anos da minha época e isso é o mais grave: quando tiverem 30, terão chegado aos 15.

 
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