Encosto de Calígula

Postado em 29 de nov de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Sei que é complicado começar qualquer conversa com a frase "como dizia a minha avó". Primeiro porque isso causa surdez instantânea em um monte de gente que logo pensa "lá vem chatice", depois porque, sejamos honestos, nossas avós eram/são uns amores, fazem pudim que é uma maravilha, mas também falam bobagem como qualquer outra pessoa.

Mas a minha avó era uma boa frasista (algumas são impublicáveis) e tinha uns conceitos de vida que eram interessantes. Ela dizia que é ruim "ter" que morrer, mas que também é útil, não somente para não encher o mundo demais, mas porque vamos nos perdendo nas gerações.

Envelhecemos e paramos de entender o mundo, que por sua vez também deixa de nos entender.

Nunca aceitei muito essa idéia, mas com o passar dos anos comecei a compreendê-la perfeitamente - e olhe que o espaço entre gerações que experimento agora nem é tão grande - é coisa de uns 15 anos, se tanto.

Por exemplo, um idoso diria que no tempo dele jogavam as bichas no chafariz, que homem fresco precisava de um banho pra tomar jeito. Eu já diria que é errado jogar as bichas no chafariz, afinal esse tipo de atitude é meio bárbara.

Essa rapaziada de hoje - quando digo hoje, deixo aqui para a posteridade o ano de 2011, porque sabe-se lá o que virá pela frente - diria que é errado chamar um "homoafetivo" de bicha.

Só que eles vão além. Não sei se é daqui de onde observo tudo, mas nunca vi tanta gente se assumindo bissexual antes. Talvez seja fruto da massificação desse estilo de vida pelos filmes e pela TV, talvez seja algo que colocaram na água domiciliar ou no Yakult, mas o fato é que já nem me espanto mais quando alguma amiga mais nova (e fazer faculdade de novo depois dos 30 e tantos me presenteou com muitos amigos e amigas mais novos) vira pra mim e diz:

- Comia essa Milena do terceiro período todinha.


Na minha época (e é estranho dizer isso, acredite), esse tipo de comentário era feito geralmente entre homens, raramente na frente de garotas (só as muito íntimas) e jamais por uma garota referindo-se à outra (e na frente da outra, olhos nos olhos, em tom de convite).

Nada contra (ou a favor, que fique claro), mas é curioso ver as pessoas experimentando desse jeito. Antes a gente meio que já tinha noção do que curtia, o que podia até nos engessar, mas deixava tudo um pouco mais claro.

Agora parece um desses pedidos do Mc Donald's. A garota é hétero mas não tem problema em experimentar ser bi, já que o ex-namorado que era bi resolveu virar só homo mesmo, e por aí vai.

- Me dá o Número 2, não, pera aí, pensando bem eu vou experimentar o 3, com sexo oral de acompanhamento.

Sem contar que todo mundo fala da sua sexualidade pra todo mundo. Não vou bancar o puritano aqui, nunca fui madre superiora, a gente fazia muita - imagine esse "muita" em caixa alta - putaria no meu tempo (e no tempo da sua avó também), mas simulávamos que era tudo escondido, o que talvez fizesse até ser mais gostoso.

Agora é tudo escancarado, ao invés da fofoca, a afirmação, a confissão orgulhosa. Todo mundo incorporado com um encosto de Calígula permanentemente.

Se antes era "acho que o Glauco tá comendo a namorada do Marcelo", agora é o próprio Glauco que anuncia, numa mesa de rodízio de petiscos com a galera:

- Comi a namorada do Marcelo. Com o Marcelo olhando. E depois o Marcelo queria me comer.

Como dizia minha avó: é o tempo me superando.

Amigos são amigos, não são comida

Postado em 24 de nov de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Sofremos de uma paixão pelo impossível. Somos - nós, os seres humanos - obcecados por transpor limites e chegar em lugares nunca dantes navegados. Só isso já explica, por exemplo, o fato de provarmos peixe cru e ainda por cima transformarmos isso em culinária de alto nível, chegarmos ao cume de uma montanha só para logo depois descer dali e também todos os mitos em torno sexo anal.

E talvez isso explique também nossa obsessão por relacionamentos que possuam o melhor da paixão (sexo selvagem, camas quebradas, encontros furtivos no meio da tarde) sem o seu pior (brigas homéricas, ciúmes, noites inteiras no terreno baldio em frente à casa do outro com um binóculo na mão).

Nossos pais chamavam esse tipo de relação tão ilusória quanto a rena do nariz vermelho de amizade colorida, nossa geração mais americanizada, cool e antenada chama de fuck buddy, mas a idéia é mais ou menos a mesma: manter uma relação que seja sadia, uma relação de total amizade, mas que ao mesmo tempo seja regada a doses cavalares de sexo animal (não pensem que "cavalar" e "sexo animal" são propaganda subliminar dos benefícios do bestialismo, por favor).

Vocês curtem Woody Allen, sorvete de graviola, livros do Bauman e sabem que Bic Runga não é um novo modelo de caneta. Não se acham feios, estão meio sozinhos, enfim, estão ali mesmo, porque não? Surge tão naturalmente quanto cenas de sexo num filme pornô.


E um dia, ambos bêbados sobram numa mesa de bar e depois que todo mundo vai embora ela pergunta:

- Acabou a calabreza? Pede outra? Porque você nunca quis ficar comigo?

Ficam. E combinam no primeiro momento que vai ser assim: só fuck buddies, nada mais. Só que a Disneylândia do sexo nunca dura muito tempo.

É o sexo certo do namoro sem as cobranças. É a companhia de uma amizade sem aquele lance de voltar pra casa sem comer ninguém. Teoricamente funciona que é uma maravilha, mas teoricamente a Seleção de 82 jamais teria perdido aquela Copa

E se antes nenhum dos dois ligava quando chamava o outro pra assistir de novo "Vicky Cristina Barcelona" e levava um "não" porque o outro já tinha programa, agora isso não é bem digerido. Se antes ela cortava o cabelo e você cagava solenemente, o sexo criou aquela obrigação de não só perceber isso, como fazer algum comentário.

De repente algum dos dois quer parar, ou sente ciúmes de quem antes não sentia, ou conhece alguém que vai render mais do que só amizade com privilégios e a coisa toda entra numa espiral que pode terminar em poemas soturnos ou capas do Meia Hora.

Por isso, quando se ver sozinho na tal mesa de bar, nem peça outra calabreza, pague a conta e vá pra casa, você deixa de comer um(a) amigo(a), mas mantém a amizade.

Desceu pra brincar e explodiu o play

Postado em 22 de nov de 2011 / Por Marcus Vinicius Nenhum comentário

"Quem não sabe brincar, não desce pro play". Não sei quem inventou essa frase, mas sempre que a escuto parece que é um desses bordões do "núcleo dos pobres" de alguma novela das sete.

Em todo caso, não deixa de ser um conselho de amigo, já que com muita gente por aí não convém brincar (ainda que por sua vez a pessoa seja chegada em sacanear os outros).

O grande problema é que dentre as brincadeiras maneiras e as brincadeiras vacilonas, o limite nem sempre é bem claro e tudo pode acabar em confusão (isso quando uma brincadeira maneira não vira uma vacilona no seu decorrer).

A internet é campo fértil pra isso, já que sem o auxílio do tom de voz e das expressões faciais, tudo pode ser levado por bem ou por mal, ainda que a intenção seja justamente o contrário. Você briga sério e recebe como resposta um "hauahauahauahaua" ou então brinca e acaba levando um esporro sério.

Ainda que nem mesmo um emoticon com uma carinha sorridente ajude muito depois de dizer "mostra seus peitos?" para a prima da sua namorada no msn.


Mas no mundo de "verdade" não melhora muito. Um bom exemplo é quando a brincadeira vira algo real, tipo aquelas brincadeiras de porrada da galera da sua rua. Um chega de zueira e manda "viado", o outro responde "boiola" e os dois começam a simular um UFC, até que um deles dá um chute bem real no saco do outro e a porrada que começou de brincadeira vira um distúrbio urbano de conseqüências imprevisíveis.

Dizem que foi durante uma brincadeira de porrada à sombra das pirâmides que começou a queda de Hosni Mubarak no Egito e levou Anakin Skywalker a decidir virar Lord Vader.

Outro exemplo são aqueles testes, em tom de brincadeira, que terminam mal. Como mandar algum amigo dar em cima da sua namorada "só de zueira", pra testar a fidelidade dela.

Dois resultados são possíveis numa situação assim: ela passa no teste, acaba descobrindo e manda alguma amiga gostosa dela te testar (e você termina reprovado), ou então ela curte muito seu amigo dando em cima, ele deixa a brincadeira de lado e começa a curtir muito ela dando mole pra ele e você termina num bar, com um desses videokês, cantando Reginaldo Rossi. Não é legal.

A única coisa que não pega bem é você utilizar brincadeira como desculpa. Vai pedir um aumento pro chefe, leva um esporro e diz "caiu!" ou então dizer coisas como "não me leve a sério" ou "relaxa, tô te pilhando" ao primeiro sinal de problema:

- Você tá gostosa, hein...

- O que???

- Calma! É zueira! Relaxa!

- Que pena, hoje eu tô carente e pensei em ficar com o primeiro que me chamasse de gostosa.

Viu? Como não soube brincar, pra você não vai ter play.

Selecionando uma filmografia confiável para chamar alguém pra ir no cinema

Postado em 17 de nov de 2011 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Não gosto tanto de filmes a ponto de ir fazer faculdade de cinema e conviver com pessoas que ainda usam bolsas de crochê, calças de Bali, fazem aquele gesto do enquadramento com os dedos e curtem passar o sábado assistindo a filmografia do Glauber Rocha, mas ainda assim posso dizer que gosto muito.

E por isso mesmo vivo procurando lançamentos no jornal, atrás de mostras de países obscuros como o Butão ou Bangladesh, festivais e sessões no meio da tarde, quando invento algum médico ou reunião para fugir e assistir a um filme.

Mas escolher algo para ver sozinho é tranquilo, você pode estar afim de ver "Transformers 10 - A volta da missão de vingança em resposta à primeira missão de vingança que não funcionou", ou então algum filme nepalês sobre monges que fizeram voto de silêncio e desenham mandalas de areia, filme que não conta com um diálogo sequer e que durante suas seis horas e meia de duração tem como o único som o barulho dos monges assoprando para desmanchar as mandalas.

Quando você é responsável somente pela sua experiência daquela ida ao cinema, nenhuma responsabilidade maior é envolvida. O problema é quando você resolve chamar alguém pra ir contigo.

Porque ainda que você seja um cara sensível, culto, educado, erudito e que até beba chá, chamar aquele parceiro do futebol para assisir "Bolshoi, o drama de uma bailarina" vai dar certeza a ele que você é realmente meio esquisitão e ainda por cima soar como um convite subliminar pra curtir uns momentos numa sauna.

Por outro lado, convidar a garota da faculdade que você está há seis meses tentando sair pra assistir "Orgia de Cérebros, o novo ataque das zumbis lésbicas" pode não ser uma boa idéia (e caso ainda assim você faça o convite e ela aceite, talvez convenha começar a se preocupar em mantê-la longe de facas e demais objetos cortantes).

Outra coisa são aqueles filmes com cenas de putaria aleatória.


Num minuto uma camponesa colhe alfazemas numa cena digna de rótulo de colônia de farmácia, logo depois ela aparece em sua bucólica choupana tomando sopa de tomate e em seguida já aparece nua, junto com seu meio-irmão e algumas cabras, numa cena em que o diretor queria monstrar como preencher o vazio existencial profundo, mas que ficou sem explicar o porque da necessidade das cabras.

Filmes assim não são para ver com sua mãe, sua avó ou a garota que você quer sair há seis meses. E caso ela curta, bem, ofereça logo um contrato pra ser agente da carreira dela como atriz pornô.

Assistir coisas como "Jackass", "Pen & Ênis, dois detetives da pesada" ou "Vomitando Helena" te fazem parecer meio idiota, por isso convém ir ao cinema usando uma máscara.

Mas a pior situação é quando você quer impressionar.

Escolhe cuidadosamente um filme búlgaro que fala sobre as primeiras 17 horas de um relacionamento amoroso que durou apenas 24. O filme é todo em preto e branco e a câmera é embaçada, nova moda na Europa, e então chama a tal garota que queria sair há seis meses pra assisti-lo.

Já na saída, depois da dificuldade em se manter acordado e fazendo cara de interesse mesmo durante uma cena em que a personagem leva nove minutos e meio penteando o cabelo, você vira pra ela e diz:

- E aí? O que achou?

- Legal...

- Legal?

- É, legal, OK e tal, mas eu preferia mesmo é ter ido ver "American Pie".

Quem não for interesseiro que atire a primeira nota de cem

Postado em 15 de nov de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Eu tenho medo de gente interesseira, você tem medo de gente interesseira, todo mundo diz que tem medo de gente interesseira, mas confessemos: interesseiro todo mundo já foi, é ou será.

Não existe relacionamento sem interesse.

Desde aquele sujeito que você resolve comentar sobre a última vitória do Vascão só porque viu um escudo do time sobre a mesa da repartição e coincidentemente você necessita do carimbo e da assinatura dele, até aquela gordinha carente que pensa que te convenceu a participar das reuniões da Amway, mas que na verdade você se deixou convencer para tentar convencer a prima gostosa dela a ir contigo naquela festa no final de semana, tudo isso é ser interesseiro também.

Inclusive o fato da prima gostosa aceitar sair contigo só porque você é o único da rua que tem um carro e ela precisa que alguém a leve na festa para encontrar o Digão, seu namorado brutamontes de 2 metros de altura, que por sua vez só aceitou o fato dela ir contigo porque acreditou que você era só um "nerd babaca que o pai empresta o carro e ela precisava de carona".

Isso é um bom exemplo de alguém sendo interesseiro também, mas só que dessa vez não te favoreceu muito.

O garçom que vive te ouvindo reclamar da vida, da sua ex-namorada e do seu chefe, não deixa de manter contigo uma micro-relação por interesse. Da parte dele, em uma gorjeta melhor do que aqueles 2 reais que você deixou da última vez e da sua parte, porque ninguém que você conhece agüenta mais te ouvir falar mal do mesmo emprego durante 10 anos e nunca pedir demissão.

Aquele conhecido que assinou o Premiére Combate para a revanche dos pesos pesados do UFC, o mala do final da rua que comprou um videogame novo, o cretino da sua turma da faculdade que tem uma casa de praia em Ilhabela, todos sem exceção pessoas que você manteria distância, mas que, de repente, você resolveu descobrir que também possuem um lado bom.

Até aquele silêncio desconfortável que rola quando você se vê sozinho com um semi-desconhecido numa mesa de bar e lembra que só está ali porque não tinha o que fazer e por isso aceitou o convite de um amigo em comum pra sair em grupo (e no meio estava aquele cara que anda com seu brother pra tudo que é lado, mas que você não lembra nem o nome, principalmente porque sempre achou ele meio esquisitão).

No amor então nem se fala.

Pode ser apenas coincidência que um dos dois seja herdeiro de um sheik do petróleo, que aquela loira de 20 anos possa realmente ter se apaixonado pelo industrial podre de rico de 103, pode acontecer também de você só ter parado naquele casamento de muita procura em sites como ParPerfeito e Badoo (ciente de que foi só aquilo mesmo que você arrumou) e pode acontecer até mesmo o puro e simples interesse nos dotes sexuais do parceiro.

Mas de uma coisa ninguém se livra: sempre haverá alguém de olho em alguma coisa do outro, a menos que esse outro seja um completo zero à esquerda.

Moral da história: melhor ter interesseiros por perto, pelo menos é sinal de que pra alguma coisa você presta.

Cuidado ao sair por aí carregando qualquer livro

Postado em 10 de nov de 2011 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Outro dia estava no metrô e uma garota entrou no vagão carregando um livro chamado "Ninguém é de ninguém". Na hora pensei, com um sorriso malicioso "essa é chegada numa suruba".

Mas nada, é um livro sobre os problemas que o ciúme pode causar numa relação, etc. Quer dizer, ela não era mesmo chegada numa suruba, pelo contrário, provavelmente era uma possessiva-barraqueira-anônima fazendo algum programa de 12 passos.

E é realmente curioso como carregar um livro por aí pode dizer muito sobre você, voluntária ou involuntariamente. Sei de gente que nunca leu uma linha sequer na vida (nem da revista Caras, onde só olha as figuras), mas gosta de sair de casa com algum livro debaixo do braço só para parecer mais inteligente.

Imagem é tudo, por isso um sujeito vestido de branco carregando um tratado de neurocirurgia vai ser automaticamente identificado como médico, ainda que seja só um vendedor de cuscuz que usa o calhamaço como apoio pro seu tabuleiro.

Dizem (não sei se é verdade, nunca testei) que levar qualquer obra do Chico Buarque te ajuda a conquistar menininhas, pois passa a imagem de um cara sensível, mente aberta, erudito sem deixar de ser popular, progressista, enfim, aquele tipo de poser pseudo-esquerdista que algumas delas adoram.


Mas ser visto devorando um livro de auto-ajuda, vai te dar fama de carente, problemático, dessas pessoas que chegam num restaurante e dizem pro garçom:

- Me traz uma Coca? Quer dizer, se puder, senão pode ser Pepsi mesmo, ou será que eu prefiro um suco? Desculpa, por favor, se não for incomodar pode ser só uma água mineral sem...com...sem gás, não, pera aí, traz uma Coca mesmo, o que você acha?

Adulto lendo a saga Crepúsculo com certeza é idiotizado. Livro do Paulo Coelho, denuncia grande possibilidade de tratar-se de um mala.

Qualquer um com a biografia do Justin Bieber me causaria vergonha alheia, ainda mais porque o moleque escreveu (escreveram) aquilo quando tinha 16 anos, o que só justificaria o livro caso ele se matasse no dia no lançamento.

A biografia do Steve Jobs causa duas reações: "macfag" em uns e "esse é o cara" em outros.

Poesia? Gente romântica. Romance? Gente intensa. Ficção científica? Só é menos nerd do que mangás, HQs ou um "Manual de Redes Linux". Livros de dieta? Seriam mais úteis se você emagrecesse lendo. Nelson Rodrigues? Hum...

Só não ficaria encarando demais se um dia esbarrasse por aí com alguém lendo "The Serial Killer Files", porque sabe como é, com gente que usa faixa ou tarja preta, é melhor não se meter.

A hipótese Mega-Sena

Postado em 7 de nov de 2011 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Se a Rainha Elizabeth tivesse quatro rodas e um volante, não seria a Rainha Elizabeth, seria um Rolls Royce. Ainda assim, pouca gente consegue resistir às conjecturas. Gostamos de imaginar os "ses" e os "como seria" o tempo todo.

É quase uma daquelas brincadeiras de criança onde fingimos ser o Batman, o imperador de Roma, um jogador de futebol, um piloto de Fórmula 1, bailarina, princesa, esposa de magnata russo. Depois de um tempo a gente desiste de voar usando capas, de pilotar em corridas ou de viajar para o espaço e nos concentramos em coisas mais mundanas, tipo iates, mulheres, carros de luxo, mulheres, dinheiro, mulheres.

E assim surge a hipótese Mega-Sena.

Todo mundo sabe que na realidade a Mega-Sena é um jogo de azar que nunca é ganho pelo seu colega de trabalho, pelo seu vizinho e muito menos por você, mas ainda assim cada vez que acumula um prêmio, filas de gente que acreditam que dinheiro não traz felicidade se formam na frente das casas lotéricas.


E todos fazem o mesmo exercício de masturbação mental que até os mais pessimistas, como você e eu, também já fizeram um dia: e se eu ganhasse esse prêmio? Porque tanto dinheiro assim te possibilita fazer um monte de coisas que você gosta, mas principalmente te possibilita não fazer coisas que detesta, o que, convenhamos, é muito mais legal.

Não ir a festas de fim de ano da firma, não participar de amigos ocultos, não precisar puxar papo com ninguém na hora do cafezinho, não andar de metrô, não ter vizinho de cima e nem do lado, só presenciar um engarrafamento de cima do seu helicóptero, viver preocupado com jet-lag, com os efeitos do consumo excessivo de Blue Label e caviar de beluga, coisas assim.

Mas o que eu faria mesmo é patrocinar certas invenções, como uma tecla mute pra gente chata, uma nave para transportar todos os ecochatos pro Planeta Pandora, uma máquina do tempo pra despejar todos os esquerdistas de butique num Gulag do Stalin

Agora, nem se anime muito com a hipótese Mega-Sena, porque a menos que você more no interior Piaui, do Maranhão, de Mato Grosso ou de Goiás (que é de onde sempre saem os ganhadores desse negócio), estatisticamente suas chances de ganhar alguma coisa são nulas.

Homem e mulher: dois mitos da cozinha

Postado em 3 de nov de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Sempre achei meio injusta a relação da sociedade com o papel do homem da mulher na cozinha. Primeiro, lógico, é a história de que "lugar de mulher é com o umbigo no fogão", depois é a idéia que pessoas formam ao se deparar com uma mulher que cozinhe bem em comparação a um homem que faça o mesmo.

Se ela é uma cozinheira de mão cheia, dessas que a família toda não perde um almoço, todo mundo chega, senta, se empanturra e depois vai pra frente da televisão ver Domingão do Faustão, ninguém vai dizer claramente, mas todo mundo vai achar que é uma grandissíssima Dona Maria.

Ela pode saber fazer coq au vin, suflê de lagosta e mousse de graviola de sobremesa, não adianta, se fizesse frango com polenta ou angu daria no mesmo.

Ainda que seja uma profissional de sucesso, chefie 300 imbecis numa repartição ou escritório qualquer, a namorada do filho dela vai dizer, sussurando no ouvido do pobre coitado:

- Não fique achando que você vai casar comigo e eu vou passar o domingo na cozinha que nem uma empregada. Nunca vou ser igual a sua mãe.

Mas tudo isso muda se acharem um homem de avental na cozinha. Ele pode saber fazer só um Miojo com creme de leite ou uma fritada de ovo de codorna com Arisco que na hora vira o Jamie Oliver.


Tudo bem que alguns cozinham muito mesmo, vão para o fogão e fazem tudo até melhor do que suas esposas (ainda mais porque geralmente é um evento raro na vida de ambos), mas o que conta é a imagem que um homem cozinhando passa para a sociedade, que é a de um cara habilidoso, culto, sensível, provavelmente viajado, cosmopolita.

Já ouvi dizer que é um ótimo chamariz pra pegar mulher (não pude comprovar isso porque basicamente preciso ler as instruções até dos sucrilhos).

Não importa que ele só tenha começado a cozinhar porque a mãe o colocou pra fora de casa aos 38 anos e ele já estava ficando cor de laranja de tanto comer Doritos, um homem que cozinhe bem é um cara bem sucedido, provavelmente faz isso como hobby para aliviar o stress de algum trabalho que envolva liderança e tomada de decisões, enfim, como não admirar um cara desses?

Até vejo a filha dele dizendo pro namorado:

- Espero que você um dia seja que nem o meu pai e não igual aquele inútil do seu, que só sabe viajar por aí operando crianças na África e não presta nem pra colocar uma lasanha no microondas.

O silêncio que precede o esporro ( e o resto que vem depois)

Postado em 1 de nov de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Se tem uma coisa que eu detesto é que chamem a minha atenção. Deve ser coisas de encarnações passadas, trauma de uma infância dividida entre as salas de aula e a sala da cordenadora, problema com autoridade, sei lá.

Mas o fato é que depois de adulto passei a respeitar um monte de regras só para não ter que aturar ninguém vindo falar comigo e me pedir para não ultrapassar a faixa amarela, não entrar naquela festa de formatura para a qual eu não fui convidado, não colocar a garrafa de whisky no bolso e tentar sair sem pagar e por aí vai.

Mas tem gente que nãoé assim e por isso acaba levando um esporro de vez em quando. E o mais incrível é a diversidade de reações de uma pessoa para a outra ao ser devidamente esculhambada.

O primeiro tipo é o que se faz de desentendido. Pode ser apanhado no meio da maior cagada do universo que nunca vai passar recibo:

- Hã? O quê? Ninguém me avisou que se eu faltasse uma semana sem trazer atestado médico eu seria demitido.

Existem aqueles que simplesmente ignoram o que a outra pessoa diz, como se não tivessem a menor obrigação de saber alguma regra, de cumprir alguma regra e muito menos de ser repreendido por não cumpri-la:

- A Senhora poderia, por favor, colocar o cinto e permanecer sentada até a aterrissagem?

- Não, obrigada, eu já tenho um cinto Channel aqui, pode me trazer uma água sem gás?


Os que mudam de assunto também são bem interessantes, talvez bem lá no fundo eles fiquem um pouco envergonhados e esse seja o motivo de desviarem o foco, mas talvez eu esteja sendo otimista:

- Cara, preciso te dizer que é uma atitude totalmente escrota e sem noção você se aproveitar que eu estava em coma para tentar agarrar a minha namorada no quarto do hospital.

- E o Vascão, hein? Será que esse ano vai?

Um tipo bem curioso é o que se sente realmente culpado. Ele sofre, chora, pede desculpas, exagera tanto que acaba invertendo a situação:

- Eu quero morrer! Me perdoa, por favor! Se eu pudesse escolher entre nunca ter nascido e viver isso que estou vivendo agora, preferia não ter vindo a este mundo! Eu sou um verme, não valho nada,merecia ser chicoteado em praça pública, como você vai me perdoar? Como? Como?

- Porra, Guto, eu só te perguntei se foi você que comeu meu Miojo, desculpa, mano, não queria te deixar assim, sério, me desculpa? Por favor?

Mas ninguém supera o sujeito que é partidário da teoria da "melhor defesa é o ataque". Ele está completamente errado, ele não tem razão alguma, ele merece totalmente levar um esporro e ser submetido á execração pública, só que tem um problema: ele grita mais alto.

- Você é um filho da puta que roubou seu sócio, nunca pagou nem a sua parte da conta, fala mal de todo mundo pelas costas, avança sinal vermelho e agora me diz que me drogou e roubou meu rim pra vender no mercado negro e pagar um cruzeiro pra Aruba? Sério, o que você acha que eu deveria fazer contigo?

- QUER DIZER QUE VOCÊ NUNCA AVANÇOU UM SINAL VERMELHO NA VIDA? VAI TOMAR NO CU, SEU HIPÓCRITA!

E isso tudo só serve pra mostrar que pedir desculpas até pode ser uma virtude, mas que a verdadeira virtude é não fazer nada que te leve a tomar esporro e ter que pedir desculpas depois (ou agir que nem um babaca).
 
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