A constituinte exclusiva para fazer uma reforma política

Postado em 29 de mai de 2013 / Por Marcus Vinicius Nenhum comentário

Poeminha para quem acha que fazer leis, ao invés de cumprir leis, resolve tudo:

O rei
só descobriu 
o limite da lei
quando baixou decreto até proibindo a chuva
e ao sair na rua
se espantou,

- Ué, me molhei?

Vamos para a rua! Depois pensamos no porquê

Postado em 22 de mai de 2013 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Do lado de fora da faculdade a turma já se aglomerava na calçada do bar, todo mundo pintando os rostos, confeccionando cartazes, empunhando bandeiras vermelhas e testando palavras de ordem.

- Quem não pula, quer aumento! - Berrava uma moça de cabelos desgrenhados e saia hippie até o pé.

O restante respondia:

- Quem não pula, quer aumento, quem não pula, quer capitalismo, quem não pula, fica parado!

Só de entoarem esses cantos eles sentiam que o mundo começava a mudar magicamente . Alguém sugeriu que se abraçassem e cantassem a Internacional Socialista, mas um barbudinho de boina cubana disse que era melhor não.

- Ainda não, companheiros, não queremos assustar o povo revelando tudo ainda. Vamos por partes, primeiro é a indignação contra os vinte centavos de aumento na passagem!

Falou isso sem perceber que a confusão na porta do bar impedia que o faxineiro da faculdade e a tia da cantina passassem pela calçada, obrigando os dois proletários a andar no meio da rua, sob risco de serem atropelados por algum dos carros oficiais que passavam por ali indo para a inauguração de mais um estádio superfaturado construído para a Copa do Mundo.

Aqueles vinte centavos de aumento foram a gota d'água! O STF sendo loteado por advogados de defesa do PT, a Petrobras servindo de cabide de emprego para a companheirada e cobrando pelo litro da gasolina um valor que alimentaria uma família da Somália por um dia, os passaportes diplomáticos dos filhos do Lula, as escolas formando idiotas úteis esquerdopatas justamente como sonhou Paulo Freire, dentistas queimados por menores que são tratados como moleques travessos, um salário mínimo vinte vezes menor do que ganha um parlamentar, os monopólios das empresas de ônibus, os roubos das empreiteiras, enfim, o Brasil como o Brasil é, nada disso serviu para que aqueles revolucionários de calça jeans surrada, bolsinha peruana a tira-colo e óculos de John Lennon tomassem uma atitude, mas os vinte centavos, sim, aquilo ali é um absurdo!

O "primeiro passo" é a redução da passagem. Os passos seguintes são o "passe livre" e a derrubada do sistema. Não interessa que qualquer ser com polegares opositores saiba que não existe almoço grátis, uma das metas é um transporte "público, gratuito e de qualidade", o que basicamente é o mesmo que entrar numa churrascaria rodízio e pedir uma picanha de camarão vegetariana.

Marx morreu há bem mais de 100 anos, os países que adotaram suas teorias entraram em colapso há mais de duas décadas, sobrando apenas algumas ilhas de miséria e repressão, o marxismo, enfim, morreu há bastante tempo.


O problema é que os marxistas continuam todos por aí, lutando contra a história.

Mas a revolução não tem tempo a perder com bobagens como a lógica e os fatos, então todos os universitários ali presentes vão para a rua berrar contra o "sistema" e depois entrar nas redes sociais para xingar o Arnaldo Jabor, o Lobão, o Reinaldo Azevedo ou o William Bonner, com mais ódio e bile escorrendo do que jamais mereceram brasileiros respeitáveis como José Dirceu, José Genoíno ou Delúbio Soares, fora a Rose. Fora o resto.

Mensalão, uma PEC tolhendo o poder de investigação do Ministério Público, taxações que transformam a prestação de serviços e venda de produtos com qualidade Brasil custarem preços que não custam nem com qualidade Europa, artistas consagrados, como diria o Morgenstern, "rouanetizando" a grana dos nossos impostos, o "tudo" sucateado no país, nah, não interessa dar nomes aos bois, a turma reunida ali na frente do bar vai para a rua berrar "contra tudo isso que está aí", de forma "apartidária", desde que se exclua desse "todo" tudo o que realmente faria diferença.

Inflação? Coisa da mídia. Corrupção? Preocupação da "classe média" puritana. Impostos que nos obrigam a trabalhar meses para sustentar um paquiderme ineficiente estatal? Coisa de elite que hoje tem raiva porque os pobres podem comer, afinal, nada causa mais alegria em ricos do que a fome dos pobres.

Esqueça iates, jatinhos, viagens, hotéis de luxo, banquetes. Bom mesmo é ver os outros passando fome. Deve ser por isso que em Cuba e na Coréia do Norte existe tanta gente que os marxistas tupiniquins torcem para continuar se alimentando com uma dieta que faria um hamster emagrecer.

Mas vamos para a rua quebrar tudo porque as passagens aumentaram 20 centavos. Tudo aumenta (só quem efetivamente faz a compra do mês, ao invés dos pais, sabe disso), mas a preocupação agora é passar a tesoura nesses 20 centavos e depois passar a foice no sistema.

A martelada na "burguesia" fica para o segundo tempo.

O fim do monopólio garantido pelo Estado para as linhas de ônibus seria o método mais seguro para melhoria da qualidade do serviço e redução do preço das passagens, mas a turma na porta do bar não quer saber disso, eles querem é mais Estado, pedem mais Estado, sonham com mais Estado.

Tudo isso enquanto protestam contra o Estado.

Texto inspirado no inspirador texto do Flávio Morgenstern, disponível aqui: https://www.facebook.com/flaviom/posts/10201360884013975

Sonhos e embalos de uma noite de sábado

Postado em 15 de mai de 2013 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Já era quase uma hora da manhã quando a campainha tocou e um rapaz uns 20 anos mais novo entregou aquela pizza - meia marguerita, meia presunto - e sorriu quando recebeu o troco como gorjeta.

Voltei para dentro esfaimado, afinal era um sábado frio e eu tinha passado o dia inteiro enfiado em casa baixando músicas, vendo filmes e seriados e lendo livros que estavam para ser lidos há tempo demais.

Música, filmes, livros, whisky e agora a noite, vinho para abrir o caminho para a pizza. Junte isso a alguns comprimidos (old habits die hard) e quando deitei com aquela última fatia na frente da TV para acompanhar mais um episódio de Californication já estava meio tonto e com o raciocínio mais bagunçado do que a vida sexual do Hank Moody.

No seriado tocava uma antiga música do Whitesnake enquanto uma stripper dançava no capô de um Porshe e foi quase impossível não pensar que há uns anos - mais ou menos quando tinha a idade do entregador - seria impossível que estivesse num sofá, num sábado à noite, comemorando um pedaço de pizza.

Mais alguns minutos e aquele inconformismo com o conformismo me jogou no meio da rua, já vestido como nos velhos tempos, exalando perfume e vodca, chegando numa calçada cheia de gente que não via há muito, muito tempo.

Cabelos vermelhos, tatuagens, piercings, uma loira alta na portaria cumprimentando todo mundo, uma fila para entrar. Fazia tempo que eu não dava tantos "ois" e "olás" assim, que saudade de conhecer tanta gente assim numa noitada!


Fui para a fila e um casal com pinta de metaleiro puxou assunto, me deram um flyer para uma festa na semana seguinte (oba, não vai faltar programa) e a fila foi andando até que entrei num corredor iluminado que levava a uma pista escura, luzes piscantes, fumaça, uma batida gostosa, todo mundo pulando, gente abraçada, gente se beijando, mais amigos perto do bar, alguém que eu nem sabia que sentia tanta saudade, um abraço apertado, um cheiro no pescoço, uma olhada nos olhos, um beijo na boca, a galera em volta gritando, alguém sai para vomitar no banheiro e aquela sensação de que nada daquilo jamais ia acabar.

De repente toca aquela música, aquela, que todo mundo sabe que é "a música", que pode nem dizer muito sobre cada um em particular, mas que diz muito sobre nós todos, sobre o que vivemos, sobre essa época que é tão nossa e por isso mesmo a gente sai correndo para a pista e pula mais, dança, canta, se abraça mais, se sente especial, se reconhece inesquecível, somos nós, é isso aí, ontem e amanhã serão outros, mas hoje, hoje somos nós.

Vamos relaxar numa darkroom, uma cama gigante, todo mundo ali junto, meninas tão lindas, gente tão querida.

Caímos no sono, já é quase de manhã, mas tudo bem, semana que vem tem mais, afinal, vamos durar para sempre, nada (nem o tempo) nos derrotará, e a festa tem que continuar e vai continuar.

Sinto o sol no meu rosto, abro os olhos para a ressaca, como tantas outras vezes, feliz, afinal eu não era mais alguém que ficava sábado em casa ouvindo música por não ter nada melhor para fazer, o tempo não tinha passado e a calçada, a fila, a boate, a pista, a galera, todo mundo ainda estava lá.

Meu olhar foi desembaçando, fui enxergando melhor em volta, vi que estava na minha sala, a TV ligada sem emitir nenhum som - a temporada do seriado toda tinha passado e eu não vi nada, havia dormido - tudo não tinha passado de um sonho.

Levantei, lavei o rosto para o domingo e sorri um daqueles sorrisos que a gente sorri para dentro, só para nós, afinal, mesmo quando era de verdade, tudo aquilo não deixou de ser um sonho.

A juventude é isso: um sonho rápido, gostoso, numa noite de sábado.

O suposto suspeito

Postado em 8 de mai de 2013 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

"Cheguei em casa, encontrei minha mulher com outro na cama, cutuquei o cara e perguntei "oi, tudo bem, você sou eu?" e ele respondeu "não, eu sou outro". Suspeito que sou corno".

Se esta historinha parece estranha e o personagem um idiota, saiba que é mais ou menos desse jeito que insistem em te tratar hoje em dia. Talvez seja essa época do positivismo levado ao extremo, do relativismo lisérgico e da tolerância inegociável em que vivamos, vai saber.

Você chega para um estudante médio de qualquer universidade federal e diz "atos obscenos na presença de crianças são errados e merecem punição" e corre o risco real de ouvir respostas como "mas o que é obsceno?", "o que seriam crianças?", "a partir de qual idade alguém deixa de ser?", "o que é obsceno para você pode não ser para outro", e por aí vai.

E não adianta tentar ser o mais claro possível, dizendo "dois homens se pegando num banheiro do Mc Donald's em um Mc Dia Feliz é algo muito errado e merece punição". Ainda assim o estudante progressista médio vai retrucar "então se fosse um homem e uma mulher seria aceitável, sua homofobia me assusta".

Ao que você responde "então esqueça os dois homens, pense num casal praticamente transando ao lado do Ronald McDonald", e o mediano prosseguiria "eu acho que só o fato de uma criança estar num Mc Donalds, esse símbolo do imperialismo estadunidense e da má alimentação, por si só já é mais criminoso do que testemunhar uma cena de acasalamento de sua própria espécie, que só é um ato obsceno na mente da classe média conservadora".

Coloca-se assim um sundae na mesma categoria das Brasileirinhas. Não é a toa que um cartunista brasileiro recentemente começou a se vestir de mulher realmente e a reivindicar o "direito" de frequentar o banheiro das mulheres, com adolescentes ali dentro e tudo, afinal, "o que é uma estrovenga escondida sob um vestido"?

Mas não era sobre isso que eu queria falar, era sobre a fixação da imprensa e da sociedade em geral pelo "suposto". Um político é pego num vídeo empalhando a própria cueca com milhares de dólares e alguns euros, todos tomados diretamente das mãos de um traficante internacional que acabou de ser beneficiado por uma lei que este mesmo político propôs.


A cena vai ao jornal noturno da TV com a seguinte manchete "deputado suspeito de receber dinheiro de suposto traficante". 

Se ficar provado logo depois que o mesmo deputado estava à frente de um grupo de outros dez parlamentares que agiam em prol dos interesses de um cartel de drogas, os jornais continuarão dizendo que é uma "suposta quadrilha", e por aí vai.

Não pense que é apenas exagero meu, que sou confessadamente chegado a exageros. Um muçulmano retalhou um sujeito que achou ser um soldado no meio da rua em Londres, em plena luz do dia. Não satisfeito em fazer isso, correu para a frente de um cinegrafista amador e, peixeira em uma das mãos e o sangue da vítima pingando da outra, explicou calmamente porque resolveu fazer picadinho do outro. Assim mesmo, na TV, para todo mundo ver.

No entanto foi apresentado como "suspeito" pelo assassinato, ou seja, o cara vestido a caráter para o "Massacre da Serra Elétrica" era o "suposto assassino".

Acabaram-se os culpados, os condenados irrevogavelmente, os salafrários de carteirinha, os corruptos que não podiam nem entrar num restaurante sem merecer uma vaia e uma chuva de tomates, os pilantras que serviam de exemplo para qualquer criança "não ficar igual a ele quando crescer".

Agora todo mundo é "suposto" e "suspeito", até que que se auto-flagele em praça pública, repetindo mil vezes "fui eu, fui eu", com direito a transmissão ao vivo e atestado por escrito com firma reconhecida. Até lá, não pode ser apresentado simplesmente como "o criminoso", "o assassino" ou "o corrupto".

E talvez mesmo nesses casos ainda aparece algum progressista mediano e diga "pera aí, mas o que é culpado? Isso depende do ponto de vista e da realidade antropológica do sujeito".

São os supostos cornos que o politicamente correto espalhou pela sociedade.

A Internetbras

Postado em 1 de mai de 2013 / Por Marcus Vinicius Nenhum comentário

Foram dias de muita ansiedade.

Juntar RG, CPF, título de eleitor, certidões de cartório, comprovantes de residência. Preencher todos os formulários em três vias, com bastante cuidado para não errar nenhum dos 50 campos, caso contrário poderia cair em exigência e demorar ainda mais.

Fora isso precisou abrir uma firma, autenticar copias das três vias da documentação e não esquecer de falar com o seu primo para dar aquele toque no chefe da repartição - que joga bola com ele no final de semana - para o cara dar aquela força no andamento do processo

Já tinha até comprado o whisky para presentear em agradecimento, sabe como é, nunca se sabe quando pode precisar de uma mãozinha de novo.


No dia da prova (sim, tinha uma prova para verificar se você adquirira conhecimentos sobre todas as regras e normas que a lei impunha para utilizar aquele serviço) chegou a levar até cola para não deixar nada passar em branco. As questões eram meio capciosas, mas aquele cursinho intensivo de final de semana ajudou bastante e tudo correu bem.

Logo depois teve o psicotécnico e a avaliação médica, também passadas com louvor.

E finalmente chegou o grande dia. A fila no escritório da agência governamental era imensa, mas uma senhora que ficava andando de um lado para o outro vendeu uma senha com número mais perto por R$10,00.



Descobriu naquela hora que tinha gente vivendo disso, depois que o governo resolveu dificultar o trabalho dos antigos despachantes. Eram vendedores de senhas. Mesmo assim as pessoas conversavam animadamente na fila, alguns ali pela primeira vez, outros retornando para renovar a licença. 

Quando finalmente chamaram seu número, nem acreditou. Deu bom dia ao funcionário (que era contratado, já que os concursados eram poucos e a maioria estava mesmo ali indicada pelo partido) e recebeu o sonhado objeto de desejo: sua permissão temporária para uso do Facebook. Dali a um ano, se tudo corresse bem, poderia mudar de categoria e tirar uma licença para Twitter, Instagram e também para comentar em sites de notícias.

Bastaria passar um ano sem repassar correntes e piadas proibidas pela legislação (principalmente conteúdo politicamente incorreto), cumprindo a obrigação de fazer três comentários sobre a novela ou o BBB para cada comentário que fizesse sobre política e jamais se esquecendo de compartilhar o número mínimo de conteúdo nacional, que receberia seu login definitivo.


A única preocupação a partir de então seria pagar a Taxa Anual de Vistoria de Contas da Internet e torcer para que o Congresso não aprovasse a tal "Lei da Função Social do Uso da Rede", que obrigaria todo usuário habilitado do sistema Internetbras a assinar uma petição do Avaaz por mês e a compartilhar pelo menos uma imagem por dia com temas relacionados a "movimentos sociais, diversidade, tolerância, homofobia, racismo, democratização da mídia, democratização dos meios de produção e ações afirmativas".

Mas tudo bem, afinal, pelo menos não privatizaram a internet e deram todo esse patrimônio de mão beijada para algum empresário burguês, que certamente iria prestar um serviço melhor, claro, mas que também iria (bate na madeira três vezes e fala bem baixinho) lucrar.

Bú! Dá arrepio só de pensar.
 
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