A Internetbras

Postado em 1 de mai de 2013 / Por Marcus Vinicius

Foram dias de muita ansiedade.

Juntar RG, CPF, título de eleitor, certidões de cartório, comprovantes de residência. Preencher todos os formulários em três vias, com bastante cuidado para não errar nenhum dos 50 campos, caso contrário poderia cair em exigência e demorar ainda mais.

Fora isso precisou abrir uma firma, autenticar copias das três vias da documentação e não esquecer de falar com o seu primo para dar aquele toque no chefe da repartição - que joga bola com ele no final de semana - para o cara dar aquela força no andamento do processo

Já tinha até comprado o whisky para presentear em agradecimento, sabe como é, nunca se sabe quando pode precisar de uma mãozinha de novo.


No dia da prova (sim, tinha uma prova para verificar se você adquirira conhecimentos sobre todas as regras e normas que a lei impunha para utilizar aquele serviço) chegou a levar até cola para não deixar nada passar em branco. As questões eram meio capciosas, mas aquele cursinho intensivo de final de semana ajudou bastante e tudo correu bem.

Logo depois teve o psicotécnico e a avaliação médica, também passadas com louvor.

E finalmente chegou o grande dia. A fila no escritório da agência governamental era imensa, mas uma senhora que ficava andando de um lado para o outro vendeu uma senha com número mais perto por R$10,00.



Descobriu naquela hora que tinha gente vivendo disso, depois que o governo resolveu dificultar o trabalho dos antigos despachantes. Eram vendedores de senhas. Mesmo assim as pessoas conversavam animadamente na fila, alguns ali pela primeira vez, outros retornando para renovar a licença. 

Quando finalmente chamaram seu número, nem acreditou. Deu bom dia ao funcionário (que era contratado, já que os concursados eram poucos e a maioria estava mesmo ali indicada pelo partido) e recebeu o sonhado objeto de desejo: sua permissão temporária para uso do Facebook. Dali a um ano, se tudo corresse bem, poderia mudar de categoria e tirar uma licença para Twitter, Instagram e também para comentar em sites de notícias.

Bastaria passar um ano sem repassar correntes e piadas proibidas pela legislação (principalmente conteúdo politicamente incorreto), cumprindo a obrigação de fazer três comentários sobre a novela ou o BBB para cada comentário que fizesse sobre política e jamais se esquecendo de compartilhar o número mínimo de conteúdo nacional, que receberia seu login definitivo.


A única preocupação a partir de então seria pagar a Taxa Anual de Vistoria de Contas da Internet e torcer para que o Congresso não aprovasse a tal "Lei da Função Social do Uso da Rede", que obrigaria todo usuário habilitado do sistema Internetbras a assinar uma petição do Avaaz por mês e a compartilhar pelo menos uma imagem por dia com temas relacionados a "movimentos sociais, diversidade, tolerância, homofobia, racismo, democratização da mídia, democratização dos meios de produção e ações afirmativas".

Mas tudo bem, afinal, pelo menos não privatizaram a internet e deram todo esse patrimônio de mão beijada para algum empresário burguês, que certamente iria prestar um serviço melhor, claro, mas que também iria (bate na madeira três vezes e fala bem baixinho) lucrar.

Bú! Dá arrepio só de pensar.

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