Sonhos e embalos de uma noite de sábado

Postado em 15 de mai de 2013 / Por Marcus Vinicius

Já era quase uma hora da manhã quando a campainha tocou e um rapaz uns 20 anos mais novo entregou aquela pizza - meia marguerita, meia presunto - e sorriu quando recebeu o troco como gorjeta.

Voltei para dentro esfaimado, afinal era um sábado frio e eu tinha passado o dia inteiro enfiado em casa baixando músicas, vendo filmes e seriados e lendo livros que estavam para ser lidos há tempo demais.

Música, filmes, livros, whisky e agora a noite, vinho para abrir o caminho para a pizza. Junte isso a alguns comprimidos (old habits die hard) e quando deitei com aquela última fatia na frente da TV para acompanhar mais um episódio de Californication já estava meio tonto e com o raciocínio mais bagunçado do que a vida sexual do Hank Moody.

No seriado tocava uma antiga música do Whitesnake enquanto uma stripper dançava no capô de um Porshe e foi quase impossível não pensar que há uns anos - mais ou menos quando tinha a idade do entregador - seria impossível que estivesse num sofá, num sábado à noite, comemorando um pedaço de pizza.

Mais alguns minutos e aquele inconformismo com o conformismo me jogou no meio da rua, já vestido como nos velhos tempos, exalando perfume e vodca, chegando numa calçada cheia de gente que não via há muito, muito tempo.

Cabelos vermelhos, tatuagens, piercings, uma loira alta na portaria cumprimentando todo mundo, uma fila para entrar. Fazia tempo que eu não dava tantos "ois" e "olás" assim, que saudade de conhecer tanta gente assim numa noitada!


Fui para a fila e um casal com pinta de metaleiro puxou assunto, me deram um flyer para uma festa na semana seguinte (oba, não vai faltar programa) e a fila foi andando até que entrei num corredor iluminado que levava a uma pista escura, luzes piscantes, fumaça, uma batida gostosa, todo mundo pulando, gente abraçada, gente se beijando, mais amigos perto do bar, alguém que eu nem sabia que sentia tanta saudade, um abraço apertado, um cheiro no pescoço, uma olhada nos olhos, um beijo na boca, a galera em volta gritando, alguém sai para vomitar no banheiro e aquela sensação de que nada daquilo jamais ia acabar.

De repente toca aquela música, aquela, que todo mundo sabe que é "a música", que pode nem dizer muito sobre cada um em particular, mas que diz muito sobre nós todos, sobre o que vivemos, sobre essa época que é tão nossa e por isso mesmo a gente sai correndo para a pista e pula mais, dança, canta, se abraça mais, se sente especial, se reconhece inesquecível, somos nós, é isso aí, ontem e amanhã serão outros, mas hoje, hoje somos nós.

Vamos relaxar numa darkroom, uma cama gigante, todo mundo ali junto, meninas tão lindas, gente tão querida.

Caímos no sono, já é quase de manhã, mas tudo bem, semana que vem tem mais, afinal, vamos durar para sempre, nada (nem o tempo) nos derrotará, e a festa tem que continuar e vai continuar.

Sinto o sol no meu rosto, abro os olhos para a ressaca, como tantas outras vezes, feliz, afinal eu não era mais alguém que ficava sábado em casa ouvindo música por não ter nada melhor para fazer, o tempo não tinha passado e a calçada, a fila, a boate, a pista, a galera, todo mundo ainda estava lá.

Meu olhar foi desembaçando, fui enxergando melhor em volta, vi que estava na minha sala, a TV ligada sem emitir nenhum som - a temporada do seriado toda tinha passado e eu não vi nada, havia dormido - tudo não tinha passado de um sonho.

Levantei, lavei o rosto para o domingo e sorri um daqueles sorrisos que a gente sorri para dentro, só para nós, afinal, mesmo quando era de verdade, tudo aquilo não deixou de ser um sonho.

A juventude é isso: um sonho rápido, gostoso, numa noite de sábado.

5 Comentários:

Isabel postou 28 de maio de 2013 07:38

Infelizmente o tempo passa, e não adianta querer curtir de novo o tempo de antes. A música que faz a galera toda ir pular na pista agora já não nos é mais familiar...

josefine sawaarya Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ . postou 28 de maio de 2013 13:20

que lindo! mas olha eu vivi isso sexta passada! hahaha, opa, realizei um sonho e pretendo surtar vez ou outra pra ser mais feliz! é muito bom viver, sonhar, ser feliz!!!!

Excavanha! postou 18 de junho de 2013 14:00

odiava quando vc ia 'dormir' nessa camona e eu queria ir embora, pra casa... ô fogo no cê-u que vc tinha... rs
abs

Excavanha! postou 18 de junho de 2013 14:01

(ah, essa foto era da Bunker???! - q saudade...)
:-)

mvsmotta postou 18 de junho de 2013 14:36

É sim, daquele corredor que dava na pista maior. ;)

Tempo muito bom.

Abração, véio!

 
Template Contra a Correnteza ® - Design por Vitor Leite Camilo