Dois diálogos de um leitor da Veja

Postado em 28 de jun de 2012 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Cena 1:

Um sujeito passa pela rua quieto, cuidando da própria vida e de repente aparecem três meninas com bandeiras da UNE nas costas e um balde na mão.

- Pode dar um minuto da sua atenção?

- Claro! Estou sempre interessado no que membros da gloriosa União Nacional dos Estudantes tem pra dizer.

 - Então, estamos coletando doações para a UNE e...

 São interrompidas no ato:

- Fora a renda das carteirinhas?

- Então, as carteirinhas...

- Fora os 30 milhões para o prédio que nunca foi construído?

- Então, o prédio vai começar a ser construído...

- Fora a grana que a Procuradoria disse que foi gasta comprando roupas e bebidas?

- Já vi que você não vai dar, né?

Nessa hora o honesto cidadão chama um morador de rua que estava perto e pergunta:

- Bebe uma cachacinha?

- Bebo sim.

- Então toma 10 reais aqui pra você beber.

 O sujeito vai embora beber sua pinga e o patrocinador da bebedeira ainda completa para surpresa das três:

- Prefiro sustentar esse vagabundo.



Cena 2:

O mesmo personagem da historinha acima estava no metrô exercendo seu direito constitucional de ir e vir (que no Brasil não inclui conforto) e , de repente, vê um senhor de idade em pé, prontamente oferecendo o lugar.

O coroa sentou e retirou um exemplar da Veja (sei que o certo seria "de Veja", mas acho feio falar assim) e começou a ler.

 De brincadeira, o nosso pagador de impostos inicia um diálogo que terminou se mostrando recompensador:

- Lendo a sua Veja, né?

- Não perco uma edição.

- Nem eu, mas olha, se fosse a Carta Capital eu ia pedir o lugar de volta...

E ele rindo respondeu:

- Meu filho, se você fosse um desses comunistas de shopping center que lêem Carta Capital,
nem teria oferecido o lugar e se eu lesse Carta Capital, não te esperaria me oferecer, mas tentaria tomar de você.

 Os dois riem muito, o cidadão chega na sua estação, eles dão tchau um para o outro e seguem seu dia com um sorriso no rosto.

 

Moral das histórias: não tem moral, só que esquerdistas podem ser muito divertidos quando não estão tentando tomar alguma coisa de você.

Parabéns pra você...parabéns, mas por que?

Postado em 26 de jun de 2012 / Por Marcus Vinicius Nenhum comentário

Tudo bem, hoje é seu aniversário. Você recebeu os parabéns de todo mundo (cada vez menos pelo telefone e mais pelo Facebook), teve direito a uma torta no seu trabalho, uns presentinhos aqui e ali, um almoço ou jantar em família e no final aquela esticadinha em alguma boate.

E tirando o fato de que você está um ano mais velho, bem, até quem não curte muito essas datas acaba aproveitando, afinal, todo mundo tende a te tratar um pouco melhor nesse dia, ainda que existam 7 bilhões de potenciais aniversariantes espalhados pelo mundo.

Só fico me perguntando se o correto a dizer seria mesmo "parabéns".

Pra começar, todo o esforço inicial foi da sua mãe e seu pai. Precisaram paquerar, ficar, namorar, casar (ou não), resolver ter um filho (ou não). Em todo caso, você veio mesmo assim.

E junto contigo os ultrassons, a barriga crescendo, cremes contra estrias, os famigerados chás de bebê e, no final de tudo um neném berrando, cagando e, com sorte, dormindo e deixando eles dormirem também.

Aí vem o colégio, acordar cedo para te enxotar da cama e te levar pra escola, os deveres de casa, as suspensões disciplinares, as brigas com seus irmãos, as notas vermelhas, as recuperações, a bola quebrando a janela da vizinha. Se for uma filha, ainda tem a primeira menstruação, o primeiro namorado, o empréstimo das maquiagens, roupas e sapatos.


As mesadas, o curso de inglês, as aulas de natação, as primeiras saídas, o primeiro porre, a hora de voltar para casa, ficar te esperando na esquina pra te buscar nas festas e não te envergonhar na frente dos amigos, lanches em praças de alimentação de shopping center, viagens de férias, passar protetor solar na praia, te obrigar a comer abóbora, te obrigar a escovar os dentes, te obrigar a tomar banho.

Pense nisso tudo e mais em todos os coeficientes que foram necessários para que você virasse a pessoa que é hoje - cheia de defeitos, problemas, neuroses, mas muito melhor do que se não tivesse o suporte dos seus pais - e me responda: é você mesmo que merece parabéns?

Trazer uma pessoa ao mundo, criar e no final ainda saber que ela tem vergonha de te beijar na frente dos amigos do colégio, isso sim é um feito e tanto. E ainda por cima ter como retribuição só um almoço no Dia das Mães e uma gravata no Dia dos Pais.

O máximo que nós fazemos é nos manter vivos e não ser presos ou ter o nome sujo no SPC no processo. O esforço mesmo não é nosso, afinal, nascer não é assim tão difícil quanto participar de reuniões de 4 horas no trabalho, cancelar algum serviço pelo telemarketing ou entender as aulas de física no colégio. E muito menos do que trocar fraldas, dar papinha e aturar o pré-adolescente que você foi um dia enchendo o saco.

Quem nasceu de parto normal ainda pode ter um desconto, aquela coisa de ser puxado lá de dentro e tal, mas quem veio ao mundo por uma cesariana, esse então não teve trabalho algum.

Por isso a cada aniversário as pessoas deveriam te dizer coisas como "ufa!", "até aqui tudo bem" ou "dê um parabéns pros seus velhos, porque se eu que te aturo 8 horas por dia no escritório mereço parabéns, imagina eles que te aturam desde que você nasceu".

Eles sim, são dignos de parabéns. Você apenas veio ao mundo e tem se divertido por aí enquanto se torna, bem, se torna você mesmo.

Convenhamos, nem você se daria parabéns só por isso.

Nada do que você aprende na vida jamais te prepara para um pé na bunda

Postado em 21 de jun de 2012 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Talvez uma das fases mais complicadas que uma pessoa passa é um término de namoro.

Quando você é criança e vai para a escola, para uma colônia de férias ou se junta aos escoteiros, aprende a ver estrelas, a fazer nós, desenhar usando carvão, cantar em rodinhas de violão, colar nas provas de matemática, mas ninguém jamais vai te ensinar algo que seja útil no momento em que você leva um pé na bunda.

Sem contar o fato de que todo aquele tempo ao lado da pessoa parece tempo perdido, que ninguém mais vai devolver aqueles anos, meses ou apenas semanas que você passou ao lado dela, fica aquela sensação de que os seus dias têm 72 horas e que cada hora tem uns 300 minutos.

As suas músicas preferidas te fazem lembrar da pessoa, seus livros, seu sofá, seu cachorro e até aquele filme com a Penélope Cruz, ainda que o apelido da sua ex fosse "gata russa".

Sendo assim, além de não poder fazer nada do que faz normalmente para passar o tempo (já que você jogava FIFA com ela, lia jornais junto dela, via TV ao lado dela e ainda por cima fazia sexo com ela), e esse vazio te deixa sujeito a pensar em coisas como "será que fui corno?", "será que ela está sofrendo?", "será que ela está no México com um moreno alto e musculoso que é mergulhador, tem uma lancha e ainda joga Guitar Hero melhor do que eu?".

Todo o seu tempo livre fica então restrito a olhar para as paredes, ouvir sertanejo universitário e sair com seus amigos, que no meio da noite geralmente já estão tão bêbados que nem prestam atenção quando você diz que "nem todas aquelas mulheres ali presentes aliviariam sua dor, por isso você vai se matar no banheiro" e começam a gritar "isso aí, leva todas elas pro banheiro!".

E depois de ser encontrado várias vezes chorando abraçado a um mictório e chamando o nome dela , você vira o mala, o xarope, o baixo-astral e sobram um ou dois amigos de verdade que se sentem na obrigação de te salvar dessa, talvez por já terem passado por algo semelhante.

Te levam para bailes funk, micaretas e até pra Igreja Universal, de onde você foge aos berros:

- Mesmo se ela for um encosto ainda assim eu a amo!


Depois de um tempo (e da viségima-nona conversa em que sua ex jura de joelhos com a mão sobre a Constituição que não vai voltar pra você), algo acontece. Pode ser um par de coxas no metrô, um decote no elevador, uma barriguinha bonita na praia, mas de repente você volta a notar que existem outras mulheres no mundo.

Resolve recuperar todo o tempo perdido. Entra em sites de relacionamento, passa a frequentar uma academia, cumprimenta pessoas aleatoriamente na rua, vai para tudo que é boate de quinta a domingo e só lembra mesmo da sua ex-namorada no meio da madrugada, bêbado, quando não consegue pegar ninguém (o que acontece em 90% das vezes e faz parecer que você ainda está meio obcecado por ela, o que nem é mentira, mas enfim, não era essa a idéia) e telefona pra casa dela.

Mas no fundo, o que te assalta é a sensação do fracasso. "Eu não servi para alguém". Por isso a sua maior preocupação é arrumar uma outra namorada e mostrar que o defeito era nela.

Só que o desespero fica estampado no seu rosto, como se você passasse a carregar um cartaz em neon escrito "Badoo" ou "Jogo do Add" na testa. E ficar com alguém desesperado é como abraçar um afogado, ou seja, não deve ser muito divertido nem te leva para algum lugar legal.

Um dia você se pega sabendo de cor e salteado todas as desculpas padrão para fugir de alguém (nesse caso usam pra fugir de você): estou saindo de um relacionamento longo, preciso de um tempo pra mim, é que vou viajar pra um intercâmbio semana que vem e vou passar um ano morando em outro continente.

Até que finalmente você relaxa. Não é algo perceptível. Um dia você acorda e não está pensando na ex-namorada, na eventual futura namorada e nem em uma casa com filhos, um cachorro e um gato, você está mais preocupado se o seu time vai passar da semi-final da Libertadores, se vai dar praia no sábado e se você vai conseguir viajar pra Patagônia nas férias.

Obviamente não deixou de gostar de mulheres, mas não está mais preocupado em ter alguma te perguntando onde vai e pra onde foi, brigando contigo porque a pipoca do cinema estava muito salgada e depois colocando a culpa na TPM ou se preparando para te dar um pé na bunda e arruinar sua vida.

Só que ela, a vida, é sacana. Quando tudo isso acontece é geralmente a hora em que você vai conhecer aquela menina legal, inteligente, viajada, que está doida pra namorar já que saiu de um relacionamento há pouco tempo e só consegue pensar em arrumar um novo namorado, uma casa, cachorro, gato, etc.

E nem é por sacanagem ou nada demais, mas o desespero dela te afasta, sabe? Parece que ela tem um cartaz luminoso na testa escrito "Par Perfeito" e isso meio que te assusta. Tanto que você nem queria, mas é obrigado a dizer:

- Sabe o que é? Eu saí de um relacionamento faz pouco tempo, preciso de um tempo pra mim, vou fazer um intercâmbio semana que vem e vou passar um ano morando na Barra da Tijuca...

Uma historinha ecológica

Postado em 19 de jun de 2012 / Por Marcus Vinicius Nenhum comentário

Nesse ano de 2012, chefes de estado e ecochatos, quer dizer, ecologistas do mundo todo se juntaram no Brasil para verificar tudo o que não foi feito desde a Rio 92 (conferência para o clima, etc, etc, blá, blá, blá).

Não deixa de ser curioso que o "centro nervoso" (adoro esses termos teatrais) da conferência seja no Riocentro, um local cercado por rios e lagoas tão poluídas que nem jacaré mais quer tomar banho ali.

Provavelmente as ONGs e os ativistas retornarão em 2032 para ver que tudo ainda continua igual. 

Mas esses eventos - ainda que tão úteis para o meio-ambiente do planeta quanto uma alegoria de escola de samba é útil para uma expedição humana à Marte - sempre despertam nas pessoas aquela consciência, aquele espírito de defensor da Terra Gaia, aquela coisa Rainbow Warrior Greenpeace 3.0, enfim, todo mundo vira um pouco o Carlos Minc.

Por isso a cena a seguir é até desculpável, mas ainda assim não deixa de ser ridícula.

Num desses pavilhões cheios de ONGs, um garoto vê um copo de água mineral jogado no chão. Poxa, a pesquisa na aula de geografia, o trabalho na aula de história e a instalação do Vik Muniz ensinaram que aquilo não se faz.

Um bom militante é criado desde cedo, seus pais o ensinaram a botar a boca no trombone, se indignar, exigir, reclamar e fazer sua parte pelo bem do planeta.


Ele chama um dos ajudantes do evento e começa um interessante diálogo:

- Oi, tudo bem? Você está vendo esse absurdo aqui?

- Tudo bem, como vai, garotão? Flamenguista ou vascaíno?

- Não tenho tempo para essas futilidades, já tenho 14 anos e estou aqui para fazer minha parte na preservação do planeta.

- Nossa, mas que mal tem gostar de um futebolzinho?

- Isso é um instrumento da burguesia para alienar o protetorado explorado.

- Não seria proletariado?
 
- Não, proletariado é o que os estadunidenses faziam com a América Central com sua dominação.

- Isso aí é que seria um protetorado.

- Não interessa, não te chamei aqui para você me dar aula, meus pais já me ensinaram tudo.

- Qual foi o problema então?

- Estamos na Rio + 20 e estou vendo aquele copo de água mineral jogado no chão. Não na lixeira, mas no chão! E ainda tem um pouco de água dentro.

- Ah sim, aquele copo, foi por isso que você me chamou?

- Claro! O planeta precisa de água e ainda tem um pouco de água ali, você acha certo um absurdo desses acontecendo justamente no meio de uma conferência sobre o meio-ambiente?

- Mas eu não sou funcionário da limpeza, eu sou do receptivo dos turistas e...

- Você é funcionário do evento, não? Então! Não deveria se prender apenas ao que faz, seja menos democrático.

- Não seria burocrático?

- Isso, burocrático. Faça a sua parte! Eu já fotografei esse copo e divulguei no Facebook, já criei uma petição online contra o hábito de jogar copos no chão e vou escrever um texto no meu blog repudiando essa falta de consciência das pessoas.

- Caramba, tudo isso?

- Pois é, faça também a sua parte.

- Posso te perguntar uma coisa? Porque você não levantou seu traseiro daí, pegou o copo e jogou o lixo você mesmo? Por acaso não tem mão?

Silêncio.

- E então? Vai fazer sua parte, levantar daí e jogar o copo no lixo você mesmo?

- Manhê!

Conhecendo a vida perfeita

Postado em 14 de jun de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Quer saber como é uma vida perfeita? Fácil, encontre um velho amigo na rua e deixe ele falar tudo o que quiser que você saiba sobre a vida dele.

É verdade. Já notou como ninguém que você esbarra por aí depois de uns anos parece ter problemas na vida?

Nem digo por que acho que as pessoas deveriam sair pela rua fazendo qualquer "bom dia" ou "e aí, quando tempo!" virar sessão de psicanálise, mas também não precisava transformar a vida em álbum do Facebook, onde todo mundo é mais feliz do que "sommelier" de ecstasy.

Por isso e que eu queria muito ir morar no mundo que meus antigos amigos de escola moram. Lá não tem pneu furado, não tem enxaqueca, não chega taxa de iluminação pública e até os engarrafamentos servem para "ler e estudar pro mestrado". Tem coisa melhor? Até os engarrafamentos estão do seu lado!

Neste mundo paralelo, os juros do cheque especial e do cartão correm ao contrário, ou seja, quanto menos você paga, menos você deve até chegar ao ponto deles te pagarem pra sair por aí comprando. Só isso explicaria o "Honda baratinho", a "TV de plasma baratinha", o "iPhone dado pela companhia telefônica" e até a viagenzinha pra Europa "baratinha" de que eles tanto falam.

Sim, porque parece sacanagem, mas amigo que você encontra depois de um tempo sem ver está sempre indo ou voltando da Europa, já notou? Se for Estados Unidos, só pra te humilhar, eles vão a trabalho. E você aí, crente que estava abafando porque foi lá tirar foto com o Mickey e parcelou em 12 vezes.

Sério, tem gente que eu encontro e chego a ficar com inveja dos problemas deles. É um tal de "minha mulher não me deixa emagrecer, ela me entope de cerveja e batata-frita porque diz que minha barriga é sexy" ou então "não sei mais o que faço, meu filho é viciado em só tirar 10 na escola", que não sei porque nenhum deles joga na Mega Sena. Do jeito que são, estava arriscado acertarem umas 3 vezes por ano.

Ninguém pede vale no emprego para pagar nada, ninguém se preocupa com o aluguel, nenhum deles parece sequer usar cupom de desconto, mesmo se ganhar um monte deles.


Se você está todo empolgado porque começou um cursinho de espanhol e outro de fotografia, pode ter certeza de que todos os seus amigos da antiga rua estão terminando pós-doutorado em coisas como neuro-cirurgia, filosofia alemã e física quântica. Dos dois que não estão fazendo nada disso, um casou com uma americana rica e vai começar uma volta ao mundo no iate dela semana que vem e o outro é ator pornô na russia e, bem, pra quem conhece as mulheres russas que não preciso dizer mais muita coisa.

Quando meu humor não está muito bom e por acaso eu vejo um velho conhecido na rua, corro pra dentro da primeira loja que estiver na frente (o que já me obrigou a comprar um sutiã numa loja de lingerie, já que era isso ou pensarem que sou um tarado que se esconde atrás de araras de camisolas para espionar as mulheres), invento ligações imaginárias no celular ou simplesmente faço sinal para o ônibus que estiver passando (o que me ajudou a conhecer as belezas do Cubango, em Niterói).

Não tenho a menor vergonha de fazer isso, porque se de bom humor já é difícil aguentar tanta gente bem sucedida, imagina aturar isso quando acabei de levar um esporro de um cliente?

Só que como nem sempre dá pra fugir, um dia encontrei um sujeito desses e no meio da sua longa explanação sobre a reforma de 50 mil no apartamento novo eu fui obrigado a disparar:

- Porra, porque você não muda pra Ilha de Caras?

Ele interrompeu a história sem entender nada, deu tchau e foi embora provavelmente pensando que eu fiquei meio doido.

Mas curioso mesmo é que até hoje jamais encontrei alguém que eu perguntasse "como vão as coisas?" e me respondesse algo como:

- Na verdade sou um merda, cara, nem falo isso pra te pedir dinheiro nem nada, mas é isso mesmo. Não tenho projetos, minha pós foi uma furada, estou vendendo Havaianas pela internet e morando na casa dos meus pais, mas pelo menos estou pegando uma maconheirinha de 17 anos do meu prédio escondido da mãe dela.

Se bem de que ouvir isso também seria meio constrangedor.

Sorria, hoje é dia das, dos, de...

Postado em 12 de jun de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Hora do almoço. Na TV do restaurante de comida a quilo a repórter fala de dentro de um shopping center, mostrando escadas rolantes entupidas e lojas cheias de clientes, avisando que o comércio ficará aberto até depois da hora para dar tempo dos atrasados comprarem seus presentes.

Algum diretor de alguma associação de lojistas diz que o movimento cresceu desde o ano passado e a reportagem termina com dicas de presentes.

Natal? Dia das Crianças? Dia das Mães? Dos pais? Não, dia dos namorados, mas tanto faz, essas reportagens não mudam mesmo. Meu medo é começarem a exigir troca de presentes no tal dia do amigo também.

Longe de mim falar mal de consumismo. Ninguém precisa de um iPhone, por exemplo. Você pode ter qualquer outro telefone que entre na internet, baixe jogos e aplicativos, tire fotografias, seja tocador de MP3 , faça ligações e não tenha uma maçã desenhada na parte de trás. Mas e daí? Eu adoro o iPhone do mesmo jeito, sem precisar mesmo.

O negócio é que certas datas viram obrigação. Por exemplo, o que me impede de ganhar chocolates no Natal? Será que o Papai Noel não enche o saco dos especiais com filmes no estilo "O Espírito do Natal Passado" e da Simone cantando "Então é Natal" e preferiria aparecer, sei lá, no dia das crianças?

E o dia dos namorados é assim também. Uma repetição de clichês que começam nos desesperados buscando alguém (ou qualquer coisa) em sites de encontros e termina em restaurantes japoneses lotados.

Quem decidiu que dia dos namorados é pra ser passado num restaurante japonês, aliás? Sim, porque existem outros restaurantes também, mas parece que aquela coisa de sopa de missô com peixe cru e gengibre te faz parecer mais sexy.


Está certo que pegar a gatinha e parar numa barraca de angu não é muito legal, mas e se você estiver afim de comer cheeseburger? Qual é o problema? Vamos combinar que a refeição principal da noite jamais será no restaurante mesmo.

Nunca precisei do dia 12 de junho pra comer sushi nem pra dar uma calcinha comestível pra minha namorada, mas tem gente que parece que liga um botão: agora é hora de ser romântico.

Daí o sujeito (ou a guria, tanto faz) corre para comprar um presente (o impostômetro avisa que o preço dos relógios tem 54% de taxas embutidas) e ainda precisa inovar. Nada de best-sellers, nada de camisas sem graça, nada de sapatos, óculos também não, porra, e se os fósseis de T-Rex não são tão fáceis de achar, como surpreender?

Fazer uma compilação de músicas num CD vai fazer você parecer pão duro. Se colocar a compilação num pendrive vão achar que você comprou no Paraguai. Você termina parcelando aqueles brincos na Monte Carlo Jóias mesmo e sua namorada vai te dar alguma coisa comprada numa tabacaria. Pronto, resolvido.

Quer dizer, nem tanto. Depois dos presentes e do sushi,  tem sempre as filas nos motéis.

Sério, o que é aquilo? As pessoas ficam dentro do carro ouvindo Good Times 98 e esperando as outras desocuparem os quartos como se não soubessem que dali a alguns minutos vão deitar numa cama ainda meio quente. Se vivêssemos num país onde o sexo precisasse de cupons de autorização tudo bem, mas em se tratando da terra do "sexo até na rua", pra quê isso?

Não sei se alguém já avisou, mas você pode ir com as sua namorada para um motel sem fila no dia 13, quando todos os babacas já terão ido pra casa. Sem contar em como é estranho todo mundo saber exatamente o que você foi fazer na rua nesse dia, até os seus avós.

Mas pior do que esses clichês só mesmo a auto-ajuda dos encalhados que corre solta nessa época. Aquela história de que dia dos namorados é só um e a periguete-que-ficou-pra-titia tem "quatro dias pra zuar no carnaval" ou então a velha frase "antes só do que mal acompanhado".

O fato é que se você passou (ou vai passar) o dia dos namorados sozinho, isso obviamente pode ser sua opção, mas também pode ser que tenha sido opção dos outros, como aquela sua ex-namorada que  colocou como status do Facebook a frase "antes só do que naquela companhia", que no caso é a sua companhia, sabe como é?

É uma data que até facilita alguns rompimentos:

- O problema não é você, sou eu. Eu não consigo achar um presente a sua altura, por isso quero terminar tudo.

Pensando bem, isso sim, seria surpreendente.

Bolas de sorvete que valem muito mais do que dinheiro

Postado em 5 de jun de 2012 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

As duas histórias que vou contar agora são reais. Na verdade, nem sei o que preferia, se ter inventado ou ter realmente vivido tudo isso (como vivi), mas tenho a leve impressão de que viver é mais maneiro, porque mostra que nem sempre nossa imaginação supera tão fácil assim a realidade.

As duas histórias envolvem sorvetes, vagabundos e dinheiro. Como pode perceber, poderia ser um filme sobre a máfia traficando drogas em latas de Haagen Dasz. Só não poderia ser um filme erótico sobre a máfia traficando drogas em latas de Haagen Dasz porque, bem, faltam as prostitutas russas chamadas Tatjana, Nataja e Nadejda, apesar de ter sorvete no meio.

Mas acabei divagando, vou voltar ao assunto. As duas histórias mostram como um simples sorvete pode ser muito ou muito pouco, dependendo das suas expectativas.

A primeira aconteceu numa bela tarde de sol - quem eu quero enganar, era uma dessas tardes de calor infernal mesmo - e eu estava indo pra uma sorveteria quando encontrei meu amigo Olavo no meio do caminho (claro que não conheço nenhum Olavo, mas prefiro omitir o nome e ainda por cima sempre quis saber como deve ser conhecer um Olavo).

Rolou aquele velho papo de elevador no estilo "e aí?", "beleza?", "como está todo mundo lá em casa?" até que ele disparou:

- Então, me empresta 20 reais?

Assim mesmo, na lata, como se a gente tivesse se visto pela última vez ontem (e não há uns 2 anos atrás).

- Pô, cara, nem tenho, senão até emprestava.

- E 10? 10 você empresta?

- Olavo (não era Olavo, mas finge que era), eu não tenho nem 5, estou com 2 reais aqui pra comprar um sorvete e só.

- Pô, então me paga só um sorvete que já tá bom, tô com o maior calorão.

- Cara, eu tenho DOIS reais, pro MEU sorvete.

- Foda. Mas se eu for contigo até lá, me deixa dar uma lambida?

Precisei fingir que recebi uma ligação no celular e sair dali correndo com as mãos pro alto, gesticulando e gritando "eles fugiram, eles fugiram!". Tudo isso pra me livrar do sujeito.


Sei que preciso jurar por tudo que existe pra você acreditar que isso é verídico, principalmente porque precisei jurar pra mim mesmo que isso aconteceu, mas vai por mim, acredite.

A segunda história aconteceu quando parei o carro na porta de um Mc Donald's em Copacabana para comprar um sundae. Pra quem não conhece, Copacabana é um bairro que, à noite, é praticamente proibido para quem não for gringo, prostituta ou pedinte.

Como não sou gringo e já deixei claro lá no início que as prostitutas estão fora dessa história, sobrou para mim o pedinte. Estacionei bem na porta e fui comprar o sundae (caramelo com amendoim, como sempre).

Quando voltei, decidi que era melhor tomar o sorvete com o carro parado ao invés de sair por aí dirigindo e tomando sorvete, já que, ainda que não exista uma lei específica sobre isso, calculei que seria pior do que dirigir falando no celular e tal...mas acabei divagando outra vez.

Pois bem, estou lá tomando meu sorvete quando sinto uma presença na janela do carro. Sabe aqueles caras de preto que ficam atrás do presidente americano que nem estátua, só que com a diferença que eu não sou um presidente americano e o flanelinha não era um agente secreto?

Pois é. Tentei disfarçar mas juro que aquilo estava me incomodando, então perguntei:

- Quer saber as horas, se vai chover amanhã ou o resultado da Copa do Mundo de 82?

- Tô tomando conta do seu carro, chefia.

- Tomando conta comigo dentro?

- É que eu sou guardador aqui e você parou na minha rua, então tem que me dar 5 reais.

Respondi fazendo a melhor cara de palerma possível, com a boca cheia de sorvete:

- Olha, dinheiro eu não tenho, mas se você quiser eu te arrumo uma colherada do sorvete.

O sujeito foi embora xingando até o fabricante do meu carro.

Moral da história: se o Olavo (não era Olavo, mas vamos fazer de conta) não der pra mais nada na vida, pode virar flanelinha em Copacabana.

Pelo menos o sorvete ele arruma.
 
Template Contra a Correnteza ® - Design por Vitor Leite Camilo