Uma historinha ecológica

Postado em 19 de jun de 2012 / Por Marcus Vinicius

Nesse ano de 2012, chefes de estado e ecochatos, quer dizer, ecologistas do mundo todo se juntaram no Brasil para verificar tudo o que não foi feito desde a Rio 92 (conferência para o clima, etc, etc, blá, blá, blá).

Não deixa de ser curioso que o "centro nervoso" (adoro esses termos teatrais) da conferência seja no Riocentro, um local cercado por rios e lagoas tão poluídas que nem jacaré mais quer tomar banho ali.

Provavelmente as ONGs e os ativistas retornarão em 2032 para ver que tudo ainda continua igual. 

Mas esses eventos - ainda que tão úteis para o meio-ambiente do planeta quanto uma alegoria de escola de samba é útil para uma expedição humana à Marte - sempre despertam nas pessoas aquela consciência, aquele espírito de defensor da Terra Gaia, aquela coisa Rainbow Warrior Greenpeace 3.0, enfim, todo mundo vira um pouco o Carlos Minc.

Por isso a cena a seguir é até desculpável, mas ainda assim não deixa de ser ridícula.

Num desses pavilhões cheios de ONGs, um garoto vê um copo de água mineral jogado no chão. Poxa, a pesquisa na aula de geografia, o trabalho na aula de história e a instalação do Vik Muniz ensinaram que aquilo não se faz.

Um bom militante é criado desde cedo, seus pais o ensinaram a botar a boca no trombone, se indignar, exigir, reclamar e fazer sua parte pelo bem do planeta.


Ele chama um dos ajudantes do evento e começa um interessante diálogo:

- Oi, tudo bem? Você está vendo esse absurdo aqui?

- Tudo bem, como vai, garotão? Flamenguista ou vascaíno?

- Não tenho tempo para essas futilidades, já tenho 14 anos e estou aqui para fazer minha parte na preservação do planeta.

- Nossa, mas que mal tem gostar de um futebolzinho?

- Isso é um instrumento da burguesia para alienar o protetorado explorado.

- Não seria proletariado?
 
- Não, proletariado é o que os estadunidenses faziam com a América Central com sua dominação.

- Isso aí é que seria um protetorado.

- Não interessa, não te chamei aqui para você me dar aula, meus pais já me ensinaram tudo.

- Qual foi o problema então?

- Estamos na Rio + 20 e estou vendo aquele copo de água mineral jogado no chão. Não na lixeira, mas no chão! E ainda tem um pouco de água dentro.

- Ah sim, aquele copo, foi por isso que você me chamou?

- Claro! O planeta precisa de água e ainda tem um pouco de água ali, você acha certo um absurdo desses acontecendo justamente no meio de uma conferência sobre o meio-ambiente?

- Mas eu não sou funcionário da limpeza, eu sou do receptivo dos turistas e...

- Você é funcionário do evento, não? Então! Não deveria se prender apenas ao que faz, seja menos democrático.

- Não seria burocrático?

- Isso, burocrático. Faça a sua parte! Eu já fotografei esse copo e divulguei no Facebook, já criei uma petição online contra o hábito de jogar copos no chão e vou escrever um texto no meu blog repudiando essa falta de consciência das pessoas.

- Caramba, tudo isso?

- Pois é, faça também a sua parte.

- Posso te perguntar uma coisa? Porque você não levantou seu traseiro daí, pegou o copo e jogou o lixo você mesmo? Por acaso não tem mão?

Silêncio.

- E então? Vai fazer sua parte, levantar daí e jogar o copo no lixo você mesmo?

- Manhê!

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