Se beber, não volte no tempo

Postado em 27 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Dizem por aí (se você me perguntar, te respondo: sei lá quem "dizem"), mas voltando, dizem por aí que um bom filme nem sempre rende uma boa sequência.

Confesso que essa pérola da sabedoria popular veio à minha mente quando assisti a continuação de "Se Beber Não Case". Tudo que o primeiro filme tinha de bom, estava ali no segundo filme. As piadas escatológicas, as situações bizarras, os diálogos engraçados, tudo.

E talvez por isso mesmo eu tenha achado a sequência uma grande bullshit se comparada com o primeiro filme, porque tudo estava lá, igualzinho na primeira vez, só que agora em Bangoc, como diz a propaganda.

Perceber isso me fez pensar se tudo na vida não é um pouco como um filme. Esqueça o velho clichê que "sua vida daria um filme", não é disso que estou falando. Se sua vida desse realmente um filme, seria um desses do Glauber Rocha que ninguém aguenta assistir.

Estou falando de outra coisa, dessa tendência que temos de sempre querer reviver o passado de alguma forma.

Eu sei que o tempo do colégio foi legal, que seu primeiro beijo foi uma maravilha, que a primeira saída sozinho com os amigos foi inesquecível, a primeira volta de carro com carteira de motorista (e sem morrer de medo de ser pego pela PM) foi o maior hype e o seu primeiro porre, bem, foi só um porre mesmo.

A gente olha pra trás, lembra de tudo isso e aí tem a verdadeira noção de que tudo na vida muda (e nem sempre pra melhor). Só que as alternativas são morrer ou ficar por aí, envelhecendo e sentindo saudades. Mas pense se existisse outra, tipo, voltar no tempo e ficar por lá se quiséssemos.


Tal qual nas sequências de filmes, sua primeira namorada estaria lá, seus amigos do colégio, sua vontade de poder sair de carro, suas primeiras noitadas, tudo aquilo pelo qual você morre de saudade, legal, né?

Só que Nietzsche - sério, eu enfiei Nietzsche nesse post - perguntava uma coisa meio perturbadora (como aliás é quase tudo nele, a começar pela grafia do nome): você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?

Sim, porque você passaria o resto da eternidade tentando enfiar a mão no sutiã de uma menina que não te deixaria nem alisar os peitos dela por cima da blusa, andaria de ônibus para a auto-escola durante anos a fio, ouviria sua mãe dizer que é pra "não passar de meia-noite na rua" todo dia e vomitaria aquela cachaça com groselha horrorosa todo sábado à noite.

Convenhamos, tal qual uma piada que perde a graça depois de contada umas 10 vezes, isso também não seria muito divertido.

E vale pra tudo: aquele seu namoro que você sente falta mas esquece que ela dormia de calça jeans 6 vezes por semana, o seu antigo emprego maravilhoso que não te dava vale transporte e nem pagava hora-extra, aquele seu amigo que mudou pra Europa mas não te pagou os 20 Mc Lanches feliz que você emprestou pra ele durante os anos de amizade.

Moral da história? Sei lá. Não saia de casa para assistir "Se Beber, Não Case 2", perca esse tempo procurando seus amigos do colégio no Orkut, só pra ter certeza que todos os caras ficaram gordos ou carecas e que as mulheres ficaram iguais às mães.

Menos a filha daquela maravilhosa da professora de Educação Física.

Folga

Postado em 24 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius

Pois é, meus amigos, o blog resolveu enforcar o feriado. Um bom descanso a todos e até Segunda!

Sonho de consumo: um inverno de 11 meses

Postado em 22 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius 7 Comentários

Todo mundo tem um sonho. O meu é viver sempre no outono. Como sou modesto, nem peço aqueles maravilhosos dias frios de inverno, o outono com suas manhãs mornas e as tardes frescas já me satisfaz.

O fato principal, porém, não é essa minha adoração pelos períodos mais frios do ano, mas o meu horror aos períodos mais quentes. A primavera, para mim, é um verdadeiro outono sentimental, psicológico. Assisto com horror àqueles bichinhos de luz, que prenunciam os meses desconfortáveis e insalubres que estão adiante.

Se pudesse - e se jogasse - seria milionário da Megasena e viveria o ano inteiro no hemisfério contrário ao do verão. Tudo bem que você me ache exagerado, mas se tiver um pouco de paciência te explicarei meus motivos e, talvez, ao final, você há de concordar comigo.

Pra começar aquelas pizzas embaixo do braço, sabe? Aquele suor provocado pela sensação térmica de uma cloaca de galinha que faz todo mundo parecer untado para ser assado, o que não deixa de ser uma verdade.

No inverno, não vemos pessoas com aquelas famigeradas e asquerosas toalhinhas para secar o suor e nem somos obrigados a sentir cheiro de desodorante vencido nos ônibus e trens do metrô, com o consequente contato com corpos suados.

Na boa, quem gosta de suor alheio que vá ser ralo de sauna.

Mas não só as sensações térmicas incomodam.

No inverno não tem músicas da Simone cantando nessa época de Natal que nada tem a ver com a roupa do Papai Noel. Também não tem especial do Roberto Carlos ou retrospectivas na TV.

Lá no Hemisfério Norte a coisa é diferente, mas não é lá que eu vivo, então não tenho nada com isso.


A nossa primavera-verão é tempo dos pavores, supertições e listas de ano novo. Aquela coisa de sair por aí de branco, cueca ou calcinha amarela, pulando ondas e fingindo que realmente acredita que alguma coisa muda do dia 31 para o dia 1º.

Mas quem dera fosse só isso, porque piora. Junto com o aumento da conta de luz - afinal não conheço um cretino que diga que adore verão mas também não ame um ar-condicionado - chegam as vinhetas da mulata Globeleza, os sambas de enredo e alguma moda imbecil vinda da Bahia.

Até entendo se o cara amar o verão e for um vagabundo que passa o dia na praia. Pra essa gente não importa muito a estação. Mas acordar de manhã, sair de casa com um calor de 35º e trabalhar o dia inteiro não é coisa que um ser humano normal goste.

Pode perceber (e aqui me repito sem o menor pudor), todo cretino que diz adorar verão e um "calorzinho" curte mesmo é ficar na água gelada do mar e trancado num ar-condicionado. Pra mim a coisa deveria funcionar assim:

- Curte um calorzinho, amigão? Então quero ver dormir à noite sem usar nem ventilador.

- Adora o verão? Então vai fazer footing na Avenida Brasil ou na Marginal Tietê ao meio dia.

E só pra completar, veja bem como a coisa é séria, além de não ter Globeleza, axés e todo o lixo carnavalesco, além, é claro, do calor, no outono-inverno não tem Big Brother Brasil.

Só por isso a estação já merecia durar uns 11 meses.

Me engane, por favor

Postado em 20 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Quase todo mundo adora comprar coisas. Mas todo mundo que adora comprar coisas prefere que estas coisas tenham alguma história. Já explico.

Você está andando pela calçada e encontra um vendedor de frutas e verduras. O carrinho caprichosamente arrumado, as hortaliças devidamente pulverizadas com água para parecerem mais frescas do que uma Halls preta e até o sujeito devidamente paramentado com um chapeuzinho de palha.

É quase instintiva a pergunta "de onde vêm estas frutas?" e ele quase certamente responderá "ah, é de uma roça que eu tenho lá em Ribanceira".

É muito melhor comprar alimentos plantados pelo próprio vendedor lá em Ribanceira do que alimentos que ele pega ali na esquina e revende.

Você pode sentir o cheiro de terra pela manhã, o café e o leite quente que ele toma às 4:00 horas antes de ir pegar na enxada e cuidar da roça, o sol da manhã na sua fronte, o suor do trabalho pesado, a colheita feita junto com a esposa e os filhos e, pronto, o que era simplesmente um ramo de chicória ou um amarrado de alfaces vira um capítulo de Ana Raio e Zé Trovão.

Talvez até o verdureiro plante o que vende e traga para a cidade grande naquele carrinho, mas a maior probabilidade é que ele compre tudo num Ceasa mesmo e saia por aí revendendo. Mas como as pessoas gostam de comprar coisas com história, bem, ele que não é bobo entra na onda e faz o teatro.


Imagino o cara no final do dia tirando o chapéu, colocando uma camisa da Oakley e indo pro seu apartamento num subúrbio qualquer, tomar um choppinho enquanto ouve pagode no rádio.

Isso tudo me lembra um episódio daquele seriado Friends, quando uma das personagens resolve comprar uma mesa de centro numa dessas lojas de móveis gigantes tipo a Tok&Stok. A sua companheira de casa, mais natureba, tem verdadeiro horror deste tipo de coisa produzida em série, preferindo comprar móveis e utensílios usados, porque "eles tem história".

Quando a mesa chega, a amiga precisa inventar uma "história" para a tal mesinha e aí diz que era a mesa de um boticário, que vivia numa cidade onde queimavam bruxas ou algo assim. Quando perguntada sobre a época da mesa ela simplesmente responde "ah, de antigamente".

A natureba ainda vira e diz "consigo sentir até o cheiro das ervas medicinais que ele guardava aí, nossa, muito melhor do que aquelas horríveis mesinhas fabricadas em série". Pronto, era a história.


E tal qual quem compra verduras "da roça" ou a personagem que adorou a mesa de "antigamente", nós adoramos essas histórias.

É o hippie que vende pulseirinhas de concha mas diz que são "corais australianos" ou aquele velho telefone que o sujeito do antiquário jura que foi de uma "vizinha de Rui Barbosa".´

Funciona mais ou menos como essas réplicas chinesas de produtos famosos: compramos uma idéia e não a coisa propriamente dita.

Só que nesse caso, corremos menos risco da coisa parar de funcionar dali a uma semana.

Churrasco de gato no Lago dos Cisnes

Postado em 17 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Pode reparar: você nunca vê carro rebaixado, tunado, com o porta-malas aberto tocando Mozart aos berros. É sempre funk, axé ou pagode. Mas experimente falar isso na frente desse pessoal liberal meio de esquerda que hoje em dia parece ser o modelo do brasileiro consciente e engajado.

Talvez te chamem até de nazista, afinal de contas, sabe como é, ter bom gosto e não extrair nenhum prazer de batuques e frases de duplo sentido só pode ser coisa de gente que curte um campo de concentração.

Mas o fato é que certos gostos contribuem para os estereótipos que os cercam.

- Bora fazer um quarteto de cordas de fundo de quintal amanhã?

- Quero ver, quero ver, as bailarinas fazendo plié até o chão!

- Pega a Brasília lá e liga o som pra gente ouvir um Beethoven na calçada enquanto lava os carros.

- Viu a nova dos Rolling Stones? "Ah Moo Lee Kee"?

- Passa lá em casa amanhã que a gente vai assar um salmãozinho na laje.


Essas e muitas outras são frases que dificilmente você vai ouvir por aí, simplesmente porque ainda que o pessoal gente boa, liberal e meio de esquerda diga o contrário, certas coisas não se misturam.

Carro rebaixado, com vidro fumê, porta-malas aberto e com música aos berros, tem muito mais chance de tocar Exalta Samba, Latino, Tati Quebra-Barraco ou Ivete do que tocar João Gilberto, Cole Porter, Chopin ou Muse.

E esse assunto traz à tona outro dado curioso: só música ruim toca alto, só perfume barato é forte a ponto de empestiar um vagão inteiro de metrô, só carro escrotamente tunado pertence a motoristas que dirigem como babuínos amestrados, só manifestações populares incômodas são feitas no meio da rua, caviar não frequenta laje, champanhe tem alergia à boteco e uma bailarina pode até descer até o chão, mas jamais fará isso rebolando e se comportando como se fosse um espeto de maminha servido num rodízio.

Pronto. Pode me chamar de preconceituoso agora.

Mas na minha opinião, se você acha elitista gostar de música clássica, se acha coisa de gente metida preferir ambientes silenciosos, se pensa que perfume francês é pra frescos e carros originais de fábrica não tem tanta graça quanto carros transformados em caminhões do Corpo de Bombeiros, quem tem preconceito é você. Contra o bom gosto.

Acho que você precisa pensar seriamente em deixar essa bomgostofobia de lado.

Se essa rua, se essa rua fosse minha...

Postado em 15 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Li o Twitter de uma amiga outro dia e me diverti com ela dizendo que é possível reconhecer o bairro onde estamos sem ler nenhuma placa, basta que para isso observemos o aspecto das ruas e das pessoas que estão nelas.

Achei incrível, porque ela dizia que "você percebe que está em Realengo quando começa a ver barraquinhas na porta das casas vendendo Açai". Indeed, indeed. Só acho que esse Realengo aí está muito geração saúde, pessoalmente eu sei que estou ali só de ver as plaquinhas anunciando sacolé e coxinhas.

Na Central é mole reconhecer, porque ainda que tivesse dado tempo pro Bin Laden derrubar o prédio com o relógio, os moleques de rua, mendigos e camelôs em profusão anunciam que estamos nas cercanias da famosa estação de trem.

Se bem de que mendigo, moleque de rua e camelô no Rio de Janeiro são como pedras portuguesas: onipresentes em toda calçada que se preze.

Mas a Central tem sua característica própria, muito bem lembrada aliás por ela: só ali você terá chance de tentarem arrancar o celular das suas mãos, seja caminhando pelas ruas ou mesmo através da janela de um ônibus.


Quando você chega na Barra também é fácil perceber.

Primeiro porque as ruas estilo "freeway", quase sem calçadas, deixam claro que aquele bairro não foi feito para a existência desse exótico animal chamado pedestre. Mas outra coisa que também chama a atenção é a profusão de coroas plastificadas, usando roupinhas de ginástica que caberiam muito bem nas filhas delas, exercendo seu esporte preferido: estouro de cartão de crédito.

Na Tijuca existem as filas na entrada de pizzarias (ou, segundo a minha amiga, na porta do Subway). Mas também vemos um maior número de camisas de times de futebol e, se não tanto quanto nos suburbões distantes, um ou outro Chevette circulando. Mas a Tijuca é aristocrática à sua maneira, lar da típica classe média carioca, por isso haverão patys e playboys em profusão, misturados à multidão de favelados que desce dos 300 morros que cercam o bairro para cuidar das suas vidas.

Qualquer subúrbio carioca, desde os da Central até os da Leopoldina são iguais: portões anunciando que ali vende-se pipas e pessoas soltando pipas no meio da rua. Um botequim com uma gaiola de passarinho pendurada numa amendoeira em frente e crentes com a Bíblia embaixo do braço indo pra algum culto no final de semana completam o cenário.

Ipanema também tem seu diferencial. As mulheres ali brilham. Sim, é uma coisa meio inexplicável, não sei se a pele, o cabelo ou o dinheiro contido em cremes e shampoos que eles trazem, mas você vê que as moças de Ipanema são diferentes já no trato.

O Leblon é uma novela do Manoel Carlos, só que não tão ruim e muito mais caro.

E pra finalizar, já que não tenho a pretensão de dizer todos os bairros da cidade (que são muitos e em muito se parecem, à exceção da Ilha do Governador, que é como uma cidade à parte), chegamos à "Princesinha do Mar".

Para saber que chegamos em Copacabana, basta olhar pela janela do ônibus ou do carro e ver o porteiro no meio da rua, conversando com o juiz aposentado sobre futebol e falando mal do prefeito, que manda rebocar os carros na calçada mas não tira os travestis e as putas do calçadão.

Sei que, ao ler isso, muita gente vai dizer coisas como "estereótipo!", "rótulo!", "elitista!", mas fazer o que? Cada um vê o mundo pela sua janela da maneira que melhor lhe convém.

E a minha janela mostra isso.

Pânico de semi-desconhecidos

Postado em 13 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

- A gente não se conhece de algum lugar?

- Acho que vomitei no seu pé no casamento do Thiago.

Quem acha normal falar isso? Acho que só quem também ache normal ir pro cinema usando um chapéu seletor do Harry Potter. Quando a gente encontra alguém na rua e pensa que "já viu em algum lugar", geralmente não imagina que foi no meio de uma furada.

Comparo isso a essas regressões de vidas passadas. Todo mundo que faz um negócio desses descobre que foi uma princesa egípcia, um senador romano, um guerreiro celta. Nunca vi alguém voltar contando que descobriu que tinha um empreguinho meia-boca, ia do trabalho pra casa todo dia e ainda levava corno do vizinho.

Nessas horas ninguém imagina uma situação escrota, algo embaraçoso ou que faça a outra pessoa saber porque algo dentro dela dizia pra não ir lá falar com você.

- Oi, gata, sabe quem eu sou?

- Não, quem?

- Sábado passado você estava meio bêbada e eu aproveitei pra roubar seu celular na boate.


Eu sempre tive pavor de ser reconhecido por estranhos, não que isso seja sinal de timidez ou algo assim, mas porque acho que vão me confundir com outro e eu vou acabar me ferrando. Pense bem, uma gostosa jamais vai aparecer perto de mim e gritar "Hugh Jackman! Quero te dar agora!". O mais provavel que aconteça é isso:

- E aí, bróder, tranquilo?

- Err, tranquilo, tudo bem?

- Não sabe quem eu sou, né?

- Errr, não.

- Você deu umas porradas no meu irmão na micareta, agora quero ver você ser machão comigo e a minha pistola 45.

Entende o drama? E o pior é que para explicar a ele que nem sei quem é o irmão dele, teria que provar que jamais brigaria com alguém numa micareta, pelo simples fato de achar micareta coisa de retardado que não tem o mínimo bom gosto e curte ficar pulando ao som de música feita para babuínos.

No final da explicação ele se convenceria que eu não briguei com o irmão dele, mas me daria um tiro mesmo assim, afinal, ofendi a honra de chicleteiro dele.

Pânico de semi-desconhecidos é pior do que medo de barata, nada é tão incômodo quanto estar na rua e ver que alguém te observa com aquele ar de interrogação. É praticamente um duelo, quem piscar, está ferrado.

Pode ser qualquer pessoa, um ex-colega de colégio, um vizinho da sua antiga rua lá em Piraporinha, alguém que jogava RPG contigo e que vai te lembrar que um dia você já jogou RPG, um ex-professor, aquele nerd que você vivia dando pescotapa e cuecão no pré-vestibular, o tiozinho da sua locadora de vídeos que virou bomboniere, enfim, é apavorante e constrangedor.

Nessa hora você simula um toque no celular, começa a procurar coisas aleatórias na mochila, entra numa loja que vende panelas, resolve começar a ler aquele exemplar de "A Lógica da Pesquisa Científica" que estava na sua bolsa há três meses ou então muda correndo de calçada quase sendo atrolelado por um Fusca que vai buzinar fazendo o maior escândalo, chamando a atenção do objeto da sua fuga, que dá um adeusinho, se aproxima com um sorriso meio babaca no rosto e diz:

- Lembra de mim?

Mensagem na garrafa, mensagem na garrafa...

Postado em 10 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Você já parou para pensar em como seria estranho cantar isso por aí? Mais ainda, em como é bizarro alguém gravar um álbum, fazer sucesso e ficar mundialmente conhecido cantando isso? Pois o The Police conseguiu, bastou ficar repetindo "mensagem na garrafa, mensagem na garrafa".

Aqui no Brasil isso seria, no máximo, alguma propaganda de cerveja estrelada pelo Zeca Pagodinho.

O Kiss é outra banda que tem como grande sucesso "Love Gun", a "Arma do Amor", uma ode de Paul Stanley ao seu próprio pênis. Convenhamos: em português vira letra do Wando, se tanto.

Me desculpe pela possível visualização do pênis de um membro do Kiss (com trocadilho, por favor), OK? Apesar de você merecer dormir sem essa, o exemplo é imperdível.

Foi cantando "como uma virgem, tocada pela primeira vez" que a Madonna virou Madonna, a diferença é que ela fez isso em inglês, o que explica muita coisa.

Me pergunto se para os nativos do idioma anglo-saxão essas letras soam tão estranhas quanto soam para nós, faladores da maltratada flor do lácio.

Porque até certos nomes em inglês são estranhos, ou você acharia normal conhecer pessoas chamadas Abril, Maçã ou Cadência? Mas existem Aprils, Apples e Cadences por aquelas bandas.

Sempre curti rock'n'roll, e faço parte do time que acha difícil digerir rock em outro idioma que não o inglês, e ainda que curta um monte de coisas em português e espanhol, não adianta, as pedras não rolam com a mesma desenvoltura.


Lúcia num Céu com Diamantes e a Banda do Clube de Corações Solitários do Sargento Pimenta poderia até fazer sucesso assim mesmo, em português, mas não sei se os Besouros iriam muito além do Domingão do Faustão com essas letras.

Do mesmo jeito que fica estranho pagode em japonês - ainda que para o meu gosto pagode é estranho em qualquer idioma - e, apesar de todas as tentativas, fazer fusion de rock com baião e caranguejo não é muito a minha praia (com trocadilho, de novo), fazer rock em outros idiomas requer cuidado de neurocirurgião: qualquer deslize, por menor que seja, vira desastre.

Você não namora a Adriana, sua vizinha loirona que usa calça da Gang e frequenta bailes funk todo final de semana só porque ela não te dá mole, você não a namora porque ela já tem um bruta-montes com 50 cm de braço e um cordão de prata mais grosso do que correia de bicicleta no pescoço e também porque, ainda que ela quisesse alguma coisa contigo, você não aturaria quatro finais de semana seguidos ouvindo proibidões, nem mesmo por uma bunda daquelas. Não combina.

Assim são os estilos musicais e certos idiomas. Não dá pra fazer música baiana em russo só porque em Moscou não tem Carnaval, mas porque não combina e o máximo resultado que você consegue é ser exótico, talvez bizarro.

Letras de rock em português não chegam a tanto, mas letras em inglês traduzidas para o português, sim.

Ah, só pra esclarecer: sua vizinha gostosa não vai te dar mole, foi só um exemplo.

Indústria pornô: antes e depois

Postado em 8 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Milhares de garotos de uma geração que não está tão distante conheceram o sexo através de desenhos eróticos e experiências pagas. Talvez isso não tenha mudado tanto hoje, quando os desenhos foram substituídos por vídeos e o bordel cheio de polacas por sessões pagas na webcam.

De Carlos Zéfiro até o RedTube, muita água passou pelas descargas desses banheiros onde adolescentes se trancam para dedicar-se ao prazer solitário.

O corpo feminino - perdoem-me as meninas, mas não posso fingir que já tive qualquer interesse pelo corpo masculino - era, ainda no meu tempo de moleque, um verdadeiro tesouro sem mapa. Não sei se hoje em dia alguém pode acreditar nisso, mas eu juro: uma simples alça de sutiã já era motivo para delirium tremens de nossa parte, que dirá um polêmico mamilo.

Não canso de contar como era a engenharia necessária para conseguir uma Playboy antigamente. Eu chegava na banca de jornal e pedia um Recruta Zero, um jornal O Globo, uma dúzia de balas juquinha e uma Playboy, "porque meu pai mandou comprar pra ele", sempre na esperança da revista de mulher pelada passar desapercebida no meio do pedido.

O jornaleiro ria, me entregava aquele monte de coisas e eu ia embora pra casa correndo, para ficar ali olhando peitos, bundas e a segunda coisa que mais nos deixava curiosos depois de um par de mamilos: os pentelhos das modelos. Vai entender, adolescente se contenta com pouco, né?


Na TV, ainda havia um certo puritanismo e não era normal ligar na novela das seis e dar de cara com beijos gays, incesto e nem orgias com mulheres barbadas e asnos como acontece hoje em dia.

O Fausto Silva (esse mesmo chato dos domingões) era um revolucionário porque falava "porra", "merda" e de vez em quando até "cu" nas madrugadas de sábado. Mas o espetáculo mesmo vinha depois dele, no saudoso "Comando na Madrugada", apresentado pelo jornalista Goulart de Andrade.

Nunca vou esquecer daquelas madrugadas com a TV no menor volume possível, um olho na tela e o outro na porta para a minha avó não me pegar acordado, e a torcida para que as reportagens sobre gastronomia e consumo passassem logo para que chegasse o último bloco do programa.

Ah, o último bloco! Ele sempre ia numa peça de teatro meio alternativa, num motel, numa festa mais liberal, em qualquer lugar que permitisse mostrar no meio da reportagem uma mulher sem roupa. O incrível é que tudo durava, sei lá, uns 20 segundos, mas eu esperava a noite de sábado inteira para ver aquilo.

Um pouco mais tarde a aventura era nos fundos das locadoras, atrás das coleções do Buttman e dos filmes da Tracy Lords. Virei amigo dos donos da "Atrevídeo", locadora especializada no assunto em Nova Friburgo, onde morava.

A internet apareceu democratizando de vez a sacanagem, ainda que a conexão discada funcionasse como uma censura informal, já que era preciso perseverança e paciência de monge tibetano para esperar rápidos 15 minutos pelo loading de uma foto de 100kb, que ainda corria o risco de vir truncada justamente no pedaço que era para mostrar a xoxota da modelo vestida de colegial.

Hoje tudo ficou tão diferente que você consegue saber até se a ex-namorada do seu vizinho faz depilação simples ou virilha cavada, basta achar o site de sex tapes em que ele postou o vídeo feito naquele celular escondido no cesto de roupa suja.

A velocidade das conexões e a variedade das práticas torna tarefa impossível não encontrar conteúdo erótico qualquer que seja sua fantasia. Princesa Leia é coisa do passado, o negócio agora é mais embaixo e qualquer coisa desde Smurfs eróticos até Muppets sadomasoquistas é normal.

E por mais que isso seja repetido várias vezes e previsto desde os tempos da sua avó, se antes a indústria pornô vivia de vaginas e mamilos, não demora muito e viverá de bizarrices como mulheres vestidas e biquinis estilo calçolão.

A maior fantasia sexual imaginável será a Sasha Grey toda coberta, usando uma roupa de esquimó.

Se bem de que se formos pensar bem, essa não é uma idéia tão ruim.

O download da sua piada não foi concluído

Postado em 6 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

- Você me acha gorda?

- Não, na boa, não acho mesmo.

- Então me acha cheinha?

- Na verdade pra mim você está muito bem.

- Dizem que eu sou voluptuosa...

- Voluptuosa é eufemismo pra quem quer te chamar de gorda, não curto isso não, me lembra do Botero.

- Ainda bem que você não me acha digna do Botero.

- Na verdade, eu acho que você tem grip.

- Hahahahaha, grip? Taí, adorei essa. Isso mesmo, eu sou mulher com grip.

- E eu adoro gente que entende piada, sabia? Pra 90% eu teria que mostrar uma raquete de tênis, explicar o que é grip, associar isso ao corpo da pessoa, etc, etc etc.

- Ah, é?

- É sim, vem cá, vem...

Não vou falar do que aconteceu depois, afinal, o diálogo acima é semi-fictício, mas serve muito bem para mostrar como a piada é uma espécie de transmissão de arquivo. Se os dois envolvidos - quem envia e quem recebe - não tiverem uma boa conexão, a transferência não se completa, o arquivo vai truncado e perde-se o objetivo.

Porque nada é mais cretino e irritante do que precisar explicar uma piada para alguém. Mas pouca coisa é tão constrangedora quanto simular riso para uma piada sem graça.


Sei que tem gente que faz de sacanagem, mas a maioria é lenta no pensamento mesmo ou então o contador de piadas é que tem problemas nas sinapses:

- O cara entra no avião, vira pra aeromoça e começa: "Me dá uma porra de um travesseiro!", "Eu quero uma merda de uma dose de whisky!", "Acabou o cocô do gelo!".

- Hum, e aí?

- Aí a aeromoça vira pra ele e pergunta: "Vamos servir o jantar, o senhor vai querer as putas das batatinhas fritas ou cozidas?".

- Putas das batatinhas? Porque a aeromoça falou palavrão?

- Pô, cara, é que o sujeito estava xingando e tal, enchendo o saco dela e ela resolveu devolver a grosseria.

- Mas porque batatinhas putas? Uma aeromoça jamais falaria isso.

- Ah, vai à merda.

Contar piadas é uma arte mas se você não tiver muito talento ou um interlocutor que te entenda, nem a beleza das "putas das batatinhas" vai ajudar muito:

- O cara entra num ônibus, né? Não, pera aí, não era ônibus, era avião. Bom, aí ele vira pra enfermeira lá, e pede uma dose de whisky com gelo.

- Enfermeira num avião?

- Enfermeira não, aeromoça, mas então, o cara xingava pra caralho, né? Aí rola um negócio lá e ele pede as putas das batatinhas.

- Cara, isso é uma piada, é uma história ou você está tendo um derrame?

Só mais uma coisinha...

Postado em 3 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Certas pessoas simplesmente não sabem a hora de parar. Você pode fazer o maior sucesso na festa de final de ano da sua firma contando nove piadas sobre loiras, mas na décima provavelmente você ficará over e o chefe do departamento pessoal vai começar a se perguntar porque foi mesmo que ele te contratou.

Saber a hora certa de parar é uma arte, é geralmente o que separa você daquela gafe monumental ou de ser o "tio de final de festa", que fica perambulando entre as mesas tentando tirar a bisavó de alguém pra dançar.

Gente que não sabe parar é como o sujeito que lança sempre aquele comentário residual, que ele crê ser a cereja no bolo, mas que na verdade é a azeitona que faz a empada ficar indigesta.

- Nossa gata, será que você não tem coração?

- Tenho, porque?

- E porque não entrega ele pra mim?

- Nossa, que lindinho!

- Então aproveita e mostra esses peitões também.

Notaram como começou mal, sem nenhuma razão plausível acabou dando certo (mulher tem dessas coisas), mas piorou no final?

Só que nesse caso o único prejudicado será ele mesmo (a menos que esteja numa maré de sorte e termine o diálogo vendo mamilos), mas por vezes esse comportamento atinge outras pessoas também.

É o que acontece naquela aula de hermenêutica erudita clássica aplicada, que começou pontualmente às 7:30 da manhã e se arrasta, sem intervalos, até mais ou menos umas 2 da tarde.


Aquele CDF da sua turma já discutiu, opinou e levantou dúvidas sobre Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e até sobre aqueles alemães que quase ninguém consegue pronunciar o nome como Schleiermacher, Weishaupt, Eschenmayer, Weischedel e Chucrute.

 Todo mundo já deu aquela forcinha pra engrandecer o debate, já citaram todos os termos apropriados para encher lingüiça nesse tipo de ocasião, desde "lúdico" até "dialético", passando por "conceito", "metafísica" e, claro "data venia", mas parece que nada disso adiantou para abreviar a conversa.

Quem estava com fome, já comeu todo o seu estoque de Mento's, quem é fumante, já roeu até a unha do dedão do pé, a bateria do último iPhone disponível para ler notícias ou jogar Plants vs Zombies terminou faz uns 15 minutos e nada, nada parece dar a entender que aquela tortura vai terminar.

Até que chega o momento em que o professor diz as palavras que você mais esperou ouvir na vida depois de "eu te amo" e "promete que se doer você tira?", que são "para concluir...".

Algo dentro de você parece viver novamente, o castelo da Disney, a fada Sininho e os fogos de artifício aparecem sobre a imagem de um gráfico que está projetada no quatro e finalmente você vai se livrar daquela sensação de que seu cérebro está sendo devorado por Smurfs zumbis.

Mas enquanto você começa a guardar suas coisas na mochila para sair correndo dali o mais rapidamente possível, algo mais aterrorizante do que gás de mostarda ataca seus sentidos. O seu colega CDF levanta a mão, vira pro professor e diz:

- Eu acho que antes de ir embora a gente poderia discutir esse último tópico sob uma ótica nietzscheana, a menos que o pessoal não esteja muito interessado na aula.

Nesse momento você entende perfeitamente porque certas pessoas preferem virar homens-bomba.

Status: namorando

Postado em 1 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Nem sei quantas vezes eu já falei sobre relacionamentos na internet, seja de forma escrita, falada ou mesmo aos berros, xingando aquele 13556034º email do Badoo que insiste em poluir minha caixa postal jurando que tem alguém ali "louca pra me conhecer".

Mas o fato é que a internet mudou tudo e nossos namoros, casos e ficadas são muito diferentes hoje do que eram no tempo em que você existia socialmente mesmo que não possuísse nenhum apetrecho iniciado por "i", como iPod, iPhone ou iPad.

Não trocamos mais telefone, trocamos MSN e a primeira vez de muito casal por aí não foi num motelzinho numa tarde de sábado e sim de madrugada, à meia luz, com um dizendo pro outro "coloca a câmera mais pra cima", "pera aí que congelou a imagem".

Do mesmo jeito, antes a pessoa era considerada "namoro sério" no momento em que era apresentada para nossa mãe.

- Essa eu apresentava pra mamãe...

Mas, ao que parece, isso deixou de ser o bastante a partir do momento que o Sr. Orkut Büyükkökten resolveu colocar a opção de mostrar o status de relacionamento naquela que é a mãe de todas as redes sociais, o Orkut, e depois foi acompanhado por tudo o que surgiu, como o Facebook e outras redes sociais (menos o Badoo, que, ao que parece, é meio como uma micareta virtual).

Hoje, se você não está com ninguém oficialmente antes de alterar o seu relacionamento no perfil do Orkut ou do Facebook. Não demora (se é que já não aconteceu) e receberemos convites de casamento pelo Twitter.


- Você não me leva a sério...

- Mas como? Eu te apresentei pra minha família, você tem as chaves da minha casa, a minha senha do banco e eu até doei sangue pro seu primo travesti quando ele foi implantar silicone, como você pode dizer isso?

- Eu vi que seu status no Facebook está em branco! Nunca fui tão humilhada em toda a minha vida!

Mas o contrário também acontece:

- Eu sei que você ainda me ama.

- Paulinha, eu estou mudando pra Europa, quero aproveitar a vida, ficar solteiro, além do que nunca mais te liguei ou te procurei, de onde você tirou que eu te amo?

- Eu sei que você me ama, você só não admite isso.

- Olha, por mais que você não acredite, eu não te amo mais e não será o fato de você morar num furgão do outro lado da rua que fará com que isso mude, eu juro pra você.

- Então porque você deixou no seu perfil do Orkut que ainda está comprimetido? Isso só pode ser um sinal...

- Ou então isso só quer dizer que eu perdi a senha, certo?

Se pensarmos bem, é quase um casamento, que nada mais é do que uma satisfação à sociedade, um rito de passagem, usado para mostrar pro mundo que um relacionamento é pra valer, com a diferença de facilitar um futuro divórcio, que fica oficializado com dois ou três cliques.

Ainda ouço alguém dizer:

- Conheci uma garota muito linda. Inteligente, charmosa...essa é pra alterar o status de relacionamento.
 
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