Churrasco de gato no Lago dos Cisnes

Postado em 17 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius

Pode reparar: você nunca vê carro rebaixado, tunado, com o porta-malas aberto tocando Mozart aos berros. É sempre funk, axé ou pagode. Mas experimente falar isso na frente desse pessoal liberal meio de esquerda que hoje em dia parece ser o modelo do brasileiro consciente e engajado.

Talvez te chamem até de nazista, afinal de contas, sabe como é, ter bom gosto e não extrair nenhum prazer de batuques e frases de duplo sentido só pode ser coisa de gente que curte um campo de concentração.

Mas o fato é que certos gostos contribuem para os estereótipos que os cercam.

- Bora fazer um quarteto de cordas de fundo de quintal amanhã?

- Quero ver, quero ver, as bailarinas fazendo plié até o chão!

- Pega a Brasília lá e liga o som pra gente ouvir um Beethoven na calçada enquanto lava os carros.

- Viu a nova dos Rolling Stones? "Ah Moo Lee Kee"?

- Passa lá em casa amanhã que a gente vai assar um salmãozinho na laje.


Essas e muitas outras são frases que dificilmente você vai ouvir por aí, simplesmente porque ainda que o pessoal gente boa, liberal e meio de esquerda diga o contrário, certas coisas não se misturam.

Carro rebaixado, com vidro fumê, porta-malas aberto e com música aos berros, tem muito mais chance de tocar Exalta Samba, Latino, Tati Quebra-Barraco ou Ivete do que tocar João Gilberto, Cole Porter, Chopin ou Muse.

E esse assunto traz à tona outro dado curioso: só música ruim toca alto, só perfume barato é forte a ponto de empestiar um vagão inteiro de metrô, só carro escrotamente tunado pertence a motoristas que dirigem como babuínos amestrados, só manifestações populares incômodas são feitas no meio da rua, caviar não frequenta laje, champanhe tem alergia à boteco e uma bailarina pode até descer até o chão, mas jamais fará isso rebolando e se comportando como se fosse um espeto de maminha servido num rodízio.

Pronto. Pode me chamar de preconceituoso agora.

Mas na minha opinião, se você acha elitista gostar de música clássica, se acha coisa de gente metida preferir ambientes silenciosos, se pensa que perfume francês é pra frescos e carros originais de fábrica não tem tanta graça quanto carros transformados em caminhões do Corpo de Bombeiros, quem tem preconceito é você. Contra o bom gosto.

Acho que você precisa pensar seriamente em deixar essa bomgostofobia de lado.

9 Comentários:

Celinha postou 17 de junho de 2011 13:11

Eu concordo com tudo q vc escreveu, infelizmente se vc n vai com a maioria tu é acusado de preconceituoso. E o que tem de gente boa,seguindo o curso do rio,para dizer que faz parte da modinha, é de dar pena.

Anônimo postou 17 de junho de 2011 13:21

100% apoiado

Luiz Junior postou 17 de junho de 2011 14:44

Seu texto me lembrou uma crônica que navega pela internet, dita do Luis Fernando Veríssimo, sobre o uso de drogas. E as drogas são as músicas que o Brasil (não o meu, nem o do seu, pelo visto...)consome. Vale a pena procurar para ler. Abraço!

Gustavo Ca postou 17 de junho de 2011 15:56

Aplausos.
E complemento adicionando mais um gênero musical que só é tocado em volume indecente: música religiosa.

Kika® postou 19 de junho de 2011 10:26

Me lembrei de uma "cantada" de trânsito que recebi. O carro rebaixado, tunado e outros "ados" de mau gosto parou do meu lado, vidro elétrico abaixou, olhar 43 e sorriso do cara e, de repente, ele apontou pra mim e soltou a música, supostamente em minha homenagem: "Glamurosa, rainha do funk, poderosa..."
Tudo que uma mulher adoraria...

Isabel postou 20 de junho de 2011 11:51

Hilário seu texto.

Tem muita coisa que não é preconceito, mas simplesmente fato!

Beijos

Paula Izabela postou 27 de junho de 2011 22:11

Adoro tudo q vc escreve aqui e no twitter. Estou linkando seu blog no meu. Abraços despenteados!

Adson postou 15 de julho de 2011 14:27

Concordo com você. Tem certas coisas que não se misturam mesmo! A realidade é que tudo que há de má qualidade tem que ser exposto da forma mais explícta e barulhenta possível!

Adson postou 15 de julho de 2011 14:29

Concordo com você. E ainda somos tachados de preconceituosos por não gostar de coisas ruins!

 
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