Um amigo, um convite, um pagode, um cachorro-quente e um nunca mais

Postado em 31 de jan de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Chega o final de semana e começa o perigo. Pior do que não ter o que fazer e ficar sozinho em casa vendo TV, são aqueles programas furados que sempre te chamam e você acaba indo.

Nunca se sabe quando algum convite pra um casamento de semi-conhecidos, um videokê ou uma reunião da Herbalife podem aparecer. Mas nesses casos, bem, ninguém aceita um convite assim e espera de diversão, né? Você já sabe que se fudeu logo ao aceitar, afinal de contas, qual é a chance de chegar num batizado e descobrir que o moleque é neto do Hugh Hefner e tudo será animado por garçonetes do Hooters?

Pior mesmo são aqueles convites que têm tudo para ser uma boa, mas na verdade não são. E esse tipo de programa furado fica à espreita, que nem emboscada de índio em filme de cowboy.

O telefone toca e é aquele seu amigo dos tempos da escola te chamando pra um programa "super maneiro". Você termina aceitando, ainda que a expressão "super maneiro" te lembre um desses comerciais de sucrilhos.

Aceita mas já entra no carro dele meio desconfiado de que vai ser uma noite daquelas (não num sentido legal) e quando vê na filipeta da festa as palavras "alternativo", "de raiz" e "hype", tem certeza que perder aquele especial sobre os suricatos no National Geographic não foi um bom negócio.

Mas como todo bom amigo, ele tem um arsenal de palavras de incentivo pra te deixar no clima: "a vida é uma só, cara, vai estar cheio de mulher lá", "a gente não é bonito, nem rico, nem nada demais, mas só vai ter mané ali, vamos nos dar bem" ou por último "deixa de viadagem, porra, você ia ficar em casa vendo National Geographic por acaso?".

Chegando no local você descobre que aquilo é um pagode organizado pela ex-promoter de uma boate alternativa que agora é namorada de um jogador de futebol, daí o "de raiz", "hype" e "alternativo".
O público é dividido entre bombados com cordões de prata e estudantes de ciências humanas com chinelos de couro. No meio disso tudo, você e seu amigo (que ainda por cima saiu usando uma sandálic Croc).

Toda movimentação desde que entram se resume a um batuque infernal, um bêbado de camiseta regata do Exaltasamba falando celular e chorando por causa da ex-namorada (e abraçando vocês com o suvaco suado jurando que "se ela voltar, ele casa"), três garotas que seu amigo chegou em cima e curiosamente "só vieram pra dançar" e aquelas doses de whisky falsificado que custam quase o preço de uma garrafa de Blue Label.

Com o avançar da noite, vocês resolvem abandonar alguns critérios e começam a caçar as gordinhas e as bêbadas. Mas descobrem que as gordinhas ainda não entraram em desespero a ponto de ficar com vocês e que as bêbadas já estão desmaiadas pelos cantos, o que provavelmente os enquadraria em algum artigo do código penal.

Finalmente depois das 4 da manhã a idéia de assistir "No Mundo dos Suricatos" não parece tão ruim assim nem para o seu amigo (e não teria custado aquele roubo em entrada e consumação).

Quando percebe já é quase de manhã e você está com um cachorro-quente em uma das mãos, ao lado de uma Kombi, ouvindo uma discussão entre dois torcedores de Vasco e Flamengo e jurando nunca mais cair numa dessas.

Até a próxima vez, é claro, porque sabe como é, seus amigos sempre têm uns programas "super maneiros" pra te chamar.

E se fosse hoje?

Postado em 26 de jan de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

"Tiramos o site da França do ar!"

"Vamos fazer uma petição online contra os alemães!".

Imagina que palhaçada seria a 2ª Guerra Mundial se fosse hoje em dia.

Sério, fiquei pensando nisso um tempão. Imaginei velhas fábulas tomando direções totalmente opostas, como o Romeu se matando porque não recebeu o SMS da Julieta a tempo (ela estava sem crédito no celular) ou então os Correios não entregando o sapatinho de cristal comprado no Mercado Livre, porque no lugar veio uma caixa com um tijolo dentro.

Só que como essas histórias são de ficção, não teria nada demais que fossem adaptadas aos dias de hoje, mas e aquelas de verdade, como no exemplo da 2ª Guerra?

Na revolução francesa tentariam fazer uma postagem no Facebook: quem apóia a monarquia "curte", quem prefere a república "compartilha" e no final, adivinha? Não ia dar em nada.

Já os pais fundadores dos Estados Unidos ficariam envolvidos numa questão mais grave, afinal, a enquete online terminaria empatada: um terço preferiria que o novo país se chamasse "Estados Unidos da América", outro terço preferiria "União dos Estados da América" e o último acharia melhor "Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos da América".


Depois de muita discussão eles provavelmente decidiriam que era melhor esquecer daquela briga com os ingleses, e todo mundo ia se juntar num encontro no Starbucks.

Noé, aquele da Bíblia, ao saber do dilúvio não ia correr para construir uma arca . Ao invés disso abriria uma ONG, um site, um blog e passaria as tardes pedindo doações e enviando fotos de filhotes de cachorro por email, em arquivos de Power Point com músicas do Kenny G. Depois que a chuva passasse e as águas baixassem, não teriam sobrado nem as baratas na face da terra (o que, no caso das baratas, de certa forma nem seria tão ruim).

Santos Dummont e os Irmãos Wright travariam uma batalha feroz para decidir quem afinal inventou o avião, quem conseguisse seguidores mais rápido no Twitter levaria a batalha. No final o inventor do avião seria conhecido para sempre como Charlie Sheen, que foi expulso de um seriado de comédia, conseguiu 1 milhão de seguidores em um dia (isso são fatos reais) e...inventou o avião.

Os alemães criariam um evento no Facebook: a festa da reunificação. 200 mil pessoas confirmariam presença, 20 apareceriam e o muro estaria lá até hoje, mesmo porque, a turma do lado Oriental não possuiria internet e nem saberia do evento.

E o Brasil? Provavelmente ainda seríamos Reino Unido de Portugal e Algarve (ou qualquer coisa parecida), já que Dom Pedro até pensaria em dar o famoso "Grito do Ipiranga" mas no fim iria parar mesmo num grito de carnaval, que além de ter whisky com energético liberado a noite toda, ainda era parte de uma promoção desses sites de compra coletiva.

Tudo por R$19,99. Bem melhor do que esse negócio de ser independente, afinal de contas, o príncipe só tinha 23 anos e hoje em dia antes dos 40 ninguém precisa mesmo sair da casa dos pais.

Só prestam atenção em você quando você queria ser esquecido

Postado em 24 de jan de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Já percebeu como todo mundo resolve prestar atenção em você justamente no momento em que tudo o que você mais queria é que te esquecessem, ou seja, quando faz alguma merda? E não venha dar uma de certinho, porque com certeza alguma você já aprontou.

Furar aquela fila do supermercado entrando no caixa rápido com 50 volumes dizendo como desculpa que "são 20 rolos de papel higiênico, logo só conta como um ítem". Fingir que não viu um vizinho e deixar o elevador ir embora só pra não ter que aturá-lo tentando te vender um kit Herbalife pela décima-nona vez.

Assistir filme pornô no trabalho, falar com voz de criança quando está apaixonado, criar apelidos para o órgão sexual do parceiro. Mentir sobre o seu trabalho, dizendo que é o "gerente para prospecção e relacionamento com mercados digitais" quando na verdade é pago por hora para enviar emails de SPAM para uma mailing list que foi comprada a 5,99 no Mercado Livre.


Pedir o carro do seu primo emprestado para sair com aquela gatinha e ainda dizer que "está meio enjoado desse Honda Civic e não vê a hora do seu Zonda Cinque ser liberado pela alfândega", mesmo que seu meio de transporte regular seja mesmo uma Motorella, uma velha bicicleta Monark adaptada com motor de Mobilete.

Comer uma caixa de Bis assistindo CSI enquanto disse pra sua namorada que ia pra academia para finalmente se livrar dessa pochete que carrega na cintura, aproveitar enquanto seu namorado foi pro banho e revirar a caixa de mensagens e o histórico de ligações do celular dele.

Aproveitar aquele sinal vermelho para realizar uma faxina nas cavidades nasais, olhar a bunda da mulher do vizinho, aquela loira que passa a tarde na academia e fez implante de silicone com o mesmo médico da Pamela Anderson. Fingir que está falando no celular para não ter que aturar vendedor chato, amigo chato ou qualquer outro chato e de repente o telefone tocar, arruinando completamente sua ligação imaginária.

Ainda que você tenha lido tudo isso e pensado: ah, eu não faço isso, não. Posso garantir: ah, você faz sim. Se não alguma dessas coisas, outras que eu não estão aí e você sabe muito bem quais são, sabe mas não vai admitir, porque afinal de contas conseguiu esconder se safar até agora.

E no final das contas, a gente dificilmente se envergonha de fazer alguma coisa, o que a gente se envergonha mesmo é de fazer e os outros descobrirem. Você se arrepende é de ter sido pego.

Dos mitos e verdades sobre os mitos e verdades

Postado em 19 de jan de 2012 / Por Marcus Vinicius 3 Comentários

Todo mundo detesta mentira. Isso é quase um cartão de visitas, seja num primeiro encontro ou na hora de elaborar uma breve descrição sobre si próprio, geralmente sempre vai haver um "sou muito verdadeiro, odeio mentiras".

Mas isso é um mito.

O fato é que ninguém suporta muito ouvir a verdade e, na maioria das vezes, ouvir uma mentira é muito mais legal. Seu amigo pode achar suas roupas ridículas, seu corte de cabelo escroto, sua voz irritante e no fundo até se perguntar porque diabos ele ainda é seu amigo, já que tudo em você o irrita, mas desde que diga que você é o cara,bem, ele vai poder continuar te pedindo cinquentinha emprestado e você vai continuar emprestando, tudo em nome da amizade.

Quem nunca deu entrevista para a TV enquanto tomava banho? Você fica ali contando como foi difícil chegar ao sucesso, como valoriza seus fãs, qual seu prato preferido e até dá dicas para iniciantes, como se estivesse no Programa do Jô ou no David Letterman.

Agora me diga: quem toma banho se imaginando preenchendo notas fiscais enquanto o chefe berra lá da sala que aquela planilha de Excel que ele te deu há 5 minutos já era para estar pronta "ontem"? Novelas, seriados e filmes de Hollywood movimentam milhões explorando esse nosso gosto pela fuga da realidade.


Se você vai numa boate junto com um amigo e não pegam ninguém, existem duas possibilidades de contar isso no dia seguinte pro resto da turma. Vocês dizem que não arrumaram nada e ainda gastaram 150 reais cada um só para terminar vomitando numa loja de conveniência às 4 da manhã, ou então fingem que acreditam que um pegou mesmo uma loira na saída do banheiro e que o outro deu uns beijos na barwoman nos fundos da despensa.

Dali a uns anos nem vocês vão saber se aquilo aconteceu mesmo ou não.

Quando alguém te mostra um trabalho, te pergunta o que você achou do novo corte de cabelo ou simplesmente diz que te ama, nunca, me deixe repetir, nunca vai esperar ouvir que o trabalho está uma merda, que o corte de cabelo ficou parecido com algum personagem do Planeta dos Macacos do qual você não lembra bem, mas sabe que não era um dos humanos, ou que você agradece muito aquele amor, mas infelizmente só pode retribuir com simpatia.

Todo mundo diz que adora verdade, mas só fica feliz quando ouve uma mentira. Caso contrário, porque uma frase como "a verdade dói" seria tão repetida a ponto de virar ditado popular?

Por isso aprenda de uma vez por todas: ninguém liga para a sua opinião, todo mundo quer mesmo é um elogio.

Eu sou o pé ou o chinelo?

Postado em 17 de jan de 2012 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Depois de uma certa idade todo mundo quer saber porque você ainda continua solteiro. Não interessa o fato de metade dos seus amigos que casaram terem separado antes de dois anos de casamento, o problema é você, que continua por aí fugindo do enlace matrimonial.

E basta ir numa festa, batizado, coquetel de divórcio, seja onde for,  que fatalmente vai ter que explicar que sim, esta é uma opção sua e, sim, também é uma opção dos outros e, sim, também é porque você acha que não precisa unir seus defeitos intoleráveis com os defeitos intoleráveis de outra pessoa só para ser infeliz junto de alguém.

- Nossa, você é linda, independente, culta, porque tá sozinha?

- Ah, fui ficando mais exigente, sabe?

- Quem escolhe demais fica sem nada, viu?

Mas pense bem: você conhece uma pessoa que parece legal, rola aquela atração física, saem a primeira vez, ficam, resolvem que vão continuar e tal, e um belo dia a pessoa telefona e te chama pra uma micareta.


Como você quer dar uma chance, até pensa em ir, sabe como é, só pra agradar, mas depois pensa "E se isso der em namoro? Porra, eu vou ter que ir a micaretas o resto da vida". E então comete aquele erro fatal que faz as pessoas gostarem bem menos de você: é honesto. Vira e diz "pô, micareta não rola, eu simplesmente tenho mais horror disso do que de um tsunami de bosta". Pronto, lá se vai aquela possível relação embora atrás do trio elétrico.

O problema é que isso tudo soa muito razoável na hora, mas quando você vai contar para alguém sempre fica parecendo que foi um exagero seu:

- Qual o problema? Uma micaretinha de vez em quando? Você é muito intolerante.

Dito isso a mocinha resolve deixar de ser "tão intolerante" e cede às cantadas de Reginaldo Rossi do filho do vizinho. Combinam uma saída no domingo (programa mais light e tal) e quando entra no carro dele nota que o MC Jibóia está tocando no volume máximo, olha os CDs tentando achar algo que se salve, mas só encontra Parangolé, Chiclete, Revelação e Swing & Simpatia (ou seja lá como se chamam essas coisas), aí pensa: preciso mesmo namorar alguém que ouve a trilha sonora do Domingão do Faustão?

 Mas a cobrança nunca termina:

- Se você não escolhesse tanto.

- É, acho que é chatice mesmo, pronto, eu escolho demais, admito. Agora vamos falar mal de outra pessoa que esteja ausente? É mais divertido.

- Não se irrite, sempre tem um chinelo velho pra um pé cansado.

- Sério? Então me diz, você acha que eu sou o pé ou o chinelo?

O Brasil é assim, muito legal, sabe? Menos nas férias

Postado em 12 de jan de 2012 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Nunca entendi essa turma muito bem definida pelo Antônio Prata como "meio intelectual, meio de esquerda". Sério, porque até desculpo o gosto deles por botequins imundos, afinal é uma opção pessoal, mas o que me deixa meio intrigado é a preferência deles por transformar o mundo num botequim ruim.

Pode notar: sempre que alguma prefeitura de qualquer lugar do Brasil resolve ordenar alguma área, eles aparecem. Se é uma operação para coibir camelôs, é porque o governo mancomunado com os poderosos e os interesses ianques quer destruir o "comércio popular".

Se é uma ação para transformar algum pedaço de chão chamado de "Cracolândia" num conjunto de praças e prédios, é porque o governo mancomunado com os poderosos e os interesses ianques quer fazer uma gentrificação da área.

Quando a polêmica gira em torno da remoção de alguma favela, bem, é porque o governo mancomunado com os poderosos e os interesses ianques quer promover higienismo. Se for retirada de população de rua, é porque o governo mancomunado com os poderosos e os interesses ianques quer atentar contra o sagrado direito de morar e defecar na calçada.

Se é para coibir a prostituição em algum rua, claro! Será o governo mancomunado com os poderosos e os interesses ianques querendo sequestrar nossas prostitutas para trabalhar como missionárias mórmon nos EUA.

É curiosa essa fixação deles pela manutenção do lixo, ratos, depententes químicos, barracos, valas negras, prostituição, como se fossem bens antropologicamente intocáveis. Afinal, se isso é que faz o Brasil ser Brasil,  essa "mistura" que deu certo (???), a terra da "tolerância", porque não deixar como está?


Gente boa, esclarecida, assim "meio intelectual, meio de esquerda", curte é pobreza, mas não o pobre que trabalha na portaria do seu prédio ou o que lava o seu carro importado em troca de 5 reais, tem que ser aquela pobreza alegórica, de pés no chão, casa de sapê, aquela coisa vanguardista, social, engajada.
 

Um lixão jamais pode deixar de existir, favelas então nem pensar, afinal, rendem umas fotos maneiras, uns curta-metragens legais para apresentar por aí em algum festival. Gera debate e, acima de tudo, proporciona uma forma deles se mostrarem moralmente superiores aos outros (esses insensíveis que não curtem lixo na calçada, vala negra, essas coisas tão brasileiras).

Imagina só: sem uma favela para comer uma feijoada e bater palmas num "samba de raiz", como essa gente ia se mostrar assim...de raiz? Como iriam esfregar na cara da sociedade elitista que eles são tão bons que até se misturam com o populacho? Claro que na hora de fazer um mestrado eles preferem a Europa, afinal, virar advogado com diploma de uma faculdade de fundo de quintal financiado pelo crédito educativo é coisa de pobre metido a besta e eles não são nem uma coisa nem outra.

Mas quando voltam da Europa eles chegam cheios de saudade. Correm logo pro botequim pra se empanturrar com caipirinha e farofa, botam o CD de forró pra tocar sem parar no Citröen, se envolvem com alguma ONG que luta contra a construção de um shopping center onde antes existia um cortiço e se dedicam sem pausa à manutenção de todas essas coisas tão legais que fazem o Brasil ser Brasil, como trocar o Halloween pelo Dia do Saci.

Porque o Brasil é assim, muito legal, sabe? Menos nas férias, porque aí eles vão visitar os velhos amigos que fizeram durante o mestrado na Europa.

Como seu email pode arruinar uma entrevista de emprego

Postado em 10 de jan de 2012 / Por Marcus Vinicius Nenhum comentário

Uma entrevista de emprego funciona mais ou menos como aqueles questionários de sites de encontro: você tenta mostrar suas qualidades para impressionar alguém que procura por alguém.
A maior diferença é que você talvez não termine a entrevista nu (mas isso o Seinfeld já disse mais ou menos desse jeito) e também no caso do site de encontro, você provavelmente não vai receber um salário caso tudo corra bem.

Em todo caso, impressionar é a questão. Colocamos uma roupa legal, penteamos o cabelo, fazemos a barba, as mulheres se maquiam.

Outra semelhança de uma entrevista de emprego para um primeiro encontro é que tudo sempre parece muito melhor antes de você conseguir. A pessoa parece bonita, charmosa, interessante, o emprego parece legal, o ambiente sensacional. Só que depois que já são seus (a pessoa e o emprego) é que você vê o bafo de manhã, as TPMs, o futebol de todo sábado a tarde, o tiozinho do faturamento que sempre faz piadas sexuais até mesmo envolvendo clipes e papel, o salário que nunca chega a conhecer o dia 20 de cada mês.

Mas como na entrevista a intenção é entrar (num primeiro encontro não deixa de ser a mesma coisa), então você faz de tudo para isso.


Aumenta suas qualidades, sua experiência. Aquele estágio no mercadinho do seu tio em Santo Antônio de Pádua vira uma "sólida vivência em atendimento ao consumidor e em distribuição", aquela festa infantil que você ajudou sua amiga a fazer vira "proficiência em produção de eventos", mais ou menos como você preenche aquele formulário do "Love Encontros" dizendo que faz musculação 3 vezes por semana quando na realidade você não passa na frente da academia há 3 anos.

Mas o legal é que pode ser que dê certo. Você deixa lá seu currículo e sai da entrevista praticamente com o emprego garantido e é aí que tudo fica bem diferente do tal site de encontros.

Porque é justamente quando o cara resolve te mandar um email avisando que você foi aceito para a vaga que ele vai lá e lê que o seu endereço eletrônico é algo como marcelogatinho69@sexmail.com, tatixuxinhafunk@maeloira.org ou luizinhowXD@clubedomickey.us.

Nessa hora, você que poderia até arrumar um encontro, acaba de perder o emprego.

Faça de conta que sua intimidade é dinheiro e guarde só para si

Postado em 5 de jan de 2012 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Pense que durante um tempo não existia intimidade entre seres humanos. Isso mesmo, essa coisa de ter seu "espaço" é novíssima e, antes e durante um bom tempo, vivíamos em casas com um único cômodo, fazíamos nossas necessidades na frente de todo mundo, enfim, nesse quesito éramos só um pouco melhor do que cupins.
Nossa intimidade foi uma conquista, ter nosso canto, nossa vida, ser dono do próprio nariz, tudo isso veio depois de anos de evolução. Ditaduras tentam invadir sua privacidade vigiando a sua vida.

Grampeiam telefones, colocam arapongas atrás de você, violam sua correspondência, entram na sua casa no meio da noite, controlam sua internet.

E no Irã? Mandam até na roupa que você usa, na música que você escuta, no que você diz e quase até no que você pensa.

Se você for levado para uma prisão, por exemplo, a primeira coisa que vão tirar de você é a sua privacidade. Revistas íntimas, visitas controladas. Isso porque nem preciso dizer que nossas cidades estão virando verdadeiras janelas indiscretas com suas câmeras espalhadas por toda parte.

Por onde vamos, seja no shopping ou no elevador do nosso prédio, lá estão elas a nos vigiar, tomando conta da nossa vida que nem vizinhas fofoqueiras.


Aliás, já que mencionei as vizinhas (e porque não vizinhos) aposto que você já reclamou ou já ouviu alguém reclamar disso, de alguém te vigiando, tomando conta da sua vida. Até inventaram uma expressão, "não me acompanha, que eu não sou novela", que eu acho boa só em parte, já que só acompanho novela se for sob a mira de um revólver.

Para você ter seu sagrado direito de cuidar da própria vida sem nenhum cretino xeretando, a coisa ficou tão séria que até a Constituição usou um de seus artigos para garantir a todo cidadão o seu "direito à privacidade".

Golpes de estado, manifestações, ações na justiça, gerações inteiras queimadas na fogueira, cruzadas, filmes do Hitchcock, anti-virus e firewalls, aquele aviso no computador da sua empresa alertando que eles sabem o que você fez no RedTube na tarde passada, enfim, todo mundo lutando como pode em torno do tema "privacidade".

E é por isso mesmo que eu juro que não entendo porque você pega toda essa história, toda essa luta da raça humana, e joga na lata do lixo quando pega esse seu celular ou Nextel e fica por aí falando aos berros sobre o churrasco no final de semana, sobre seu exame de fezes ou sobre a confusão que deu quando a Martinha esqueceu a calcinha no seu quarto e sua namorada pegou.

Sério, dá um tempo nisso.

Histórias impossíveis (tomara)

Postado em 3 de jan de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

- Pô, desculpa aí, Cisper...

- Não tem desculpa, não, mano.

E o sujeito seguia implorando por desculpas. Cisper era um sujeito famoso pela sua violência. Enforcava gatos, espancava fracotes, pendurava  vira-latas nos fios de alta-tensão e era pichador. Quer dizer, não era bom negócio se meter com aquele Chuck Norris do Tremembé.

No final, depois de muito implorar, finalmente ouviu a sentença:

- É o seguinte, mano: "tu" vai lá e escreve assim no muro "Desculpa aí, Cisper".

Falou assim mesmo, sílaba a sílaba "des-cul-pa a-í Cis-perrrrr", com forte sotaque paulistano. O pecado? O cara tinha pichado o apelido dele no mesmo muro que Cisper já tinha grafitado.

Sabe o que essa história tem que eu jamais esqueci? Simples: nesse mundo de absurdos inacreditáveis, nunca descobri se era ou não verdade. Me foi contada pelo primo de um amigo que era tão valentão que se fosse num bairro mais pobre, tirava o tênis e saltava do carro descalço por medo de ser roubado.
Mas foi um desses casos que a gente ouve e fica pra sempre na memória, que vai acrescentando detalhes. Hoje, pra mim, o Cisper já é um cara meio mulato, que usa boné, nem forte e nem fraco, mas com um bigodinho de meter medo. O cara que fazia o pedido falava fazendo biquinho quando pronunciava o "Cis" de "Cisper" e a conversa se deu numa rua cheia de concreto e vazia de árvores, meio escura, no meio da fumaça da noite de um subúrbio de São Paulo.

É incrível como nossa mente consegue imaginar o inimaginável e tornar real.

Outra história quem me contava era um colega de escola. Dizia que conheceu um garoto de 3 anos chamado João Gabriel. O que teria de especial o pentelho de 3 anos? Simples: já nasceu falando.

Aliás, falando só não. Já nasceu chamando o médico que deu-lhe a palmada de filho da puta, a enfermeira de gostosa e o resto da molecada do bercário de "bando de filhos da puta". Com 1 ano já tinha cabelo no peito e no suvaco, com 2 já tinha voz grossa e aos 3, idade que o meu amigo o conheceu, ele disse assim para uma professora tentava fazer com que ele cantasse "atirei o pau no gato":

- Vou cantar essas babaquices não,  vai à merda.

Foi inevitável a minha mente imaginá-lo tal qual fez com o Cisper.

Meio gorducho, cara de mau-humorado (com pinta de membro da família daquele ditador norte-coreano, só que sem os olhos puxados), cabelo no suvaco (claro) e jeito de que poderia me dar um chute nas canelas a qualquer momento.

Torci sinceramente para que nenhum vazamento nuclear não noticiado tenha realmente produzido tal figura, afinal, era impossível existir uma criança assim.

Mas caso eu estivesse errado, de uma coisa eu tinha certeza: João Gabriel é filho do Cisper. Nem precisa fazer exame de DNA.
 
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