Se você tiver que ir para a PQP, tente pelo menos não ir de excursão

Postado em 28 de fev de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

A princípio toda viagem em grupo parece uma boa idéia. Seja o pessoal da faculdade, alguns velhos amigos ou mesmo aquela excursão.

Viajar com uma turma pode garantir que você terá sempre companhia para fazer um passeio, para dividir dicas sobre lugares transados e até para se perder num país de língua estranha e placas escritas em alfabeto cirílico. Uma excursão ainda te garante a tranquilidade de não se preocupar com nada, já que eles te buscam no aeroporto, te levam pro hotel, organizam seus passeios e dizem até os horários que você pode ir ao banheiro.

E aí é que a teoria inicia uma briga conjugal com a prática, porque convenhamos, essas viagens em grupo possuem todos os problemas de um casamento - debates sobre ir a um restaurante de massas ou um japonês, diferenças de temperamento, gostos distintos, tensões de uma convivência prolongada, aquela obrigação de ir junto ao mesmo lugar - sem ter nem pelo menos o sexo como compensação, o que nem é de todo ruim, se você pensar naquele casal de cabelo azul comemorando bodas de ouro que está na sua excursão no meio de um bacanal num ônibus fretado.

Os seres humanos são tão diferentes que podem transformar até um passeio na Europa ou no Caribe num inferno para seus semelhantes. Existem os que acordam cedo, os que dormem tarde, os que gostam de aventura, os que preferem programas sossegados, tem quem curta uma loja de eletrônicos, outros preferem um sexshop com dançarinas búlgaras e dromedários, enfim, é difícil atingir qualquer consenso racional, mesmo que não seja sobre nada tão radicalmente oposto quanto chegar até uma praia deserta confortavelmente num Land Rover com ar-condicionado ou descendo de rapel no meio de uma área infestada de tubarões.

Pense bem: você passou a noite numa rave em Barcelona, foi dormir às 8:00 da manhã e depois de 27 doses de alguma coisa misturada com gelatina que te fez achar uma versão de Chitãozinho e Xororó em romeno o maior barato, a única coisa que deseja é dormir.


Mas de repente seu colega de quarto te acorda para fazer uma caminhada e conhecer obras de Gaudí ao ar livre. Porra, seu amigo é gente boa, Gaudí é o maior barato, mas fala sério. E sim, isso estraga um pouco a viagem dos dois.

O mesmo acontece com aquela sua namorada viciada em informática, que depois de passar três dias contigo só visitando museus em Nova York resolve dar um xilique no meio da exposição do Andy Warhol:

- Chega dessas viadagens de latas de sopa e Marilyns coloridas, quero ir na Apple Store agora!

Mas ainda pior é estar num city tour com gente que só tem um interesse: comprar. Vão no Museu do Tubarão? Azar dos tubarões, eles querem é comprar golfinhos de pelúcia. Está no estádio do Barcelona? Problema seu, eles querem é comprar canetas oficiais do time para presentear os amigos do trabalho. Foram numa vinícola no Chile? E daí? Eles querem mesmo é saber onde está a lojinha que vende sabonetes com aroma de prosecco. Está diante de um Van Gogh? Porra, eles querem saber é onde podem comprar 20 Moleskines. E como geralmente guias turísticos ganham comissão por vendas, você ainda corre o risco de ouvir absurdos como:

- Chegamos em "El Caminito", local onde nasceu o tango, vocês terão 15 minutos para conhecer tudo e depois vamos para um passeio de duas horas no shopping.

Dá a maior vontade de mandar todo mundo pra putaquepariu. E de excursão.

Ah, os velhos carnavais!

Postado em 23 de fev de 2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Quem nunca ouviu da avó ou de um tio essa frase "ah, os velhos carnavais é que eram bons!"? E dá-lhe a falar de pierrôs, colombinas, melindrosas, batalhas de confete e escolas de samba "de verdade". Só que eu tenho uma teoria: aquela época não era melhor, eles pensam assim porque eram mais novos e ainda não tinham visto tudo.

Falo isso porque cada vez que assisto a TV na época do Reinado de Momo - termo que, aliás, acaba com o glamour de qualquer monarquia - fico com a impressão de que já vi aquilo antes.

Reportagens sobre a Bahia, sobre o frevo em Pernambuco, a correria das escolas de samba para aprontar alegorias, o que comer e beber para se manter alimentado e hidratado durante a "folia", os blocos de rua, as fantasias criativas (quantas versões de um Darth Vader serão necessárias para que essa fantasia deixe de ser criativa, aliás?), tudo é rigorosamente igual ao que passou no ano anterior e no outro e no outro.

As bebedeiras, o movimento nas estradas, os engarrafamentos, os supermercados lotados (eventos que, diga-se de passagem, se unidos à varrição da casa de praia poderiam virar um enredo chamado "A Peregrinação Anual da Classe Média Praiana" ou algo assim).


Por falar em enredo, adoraria ver o que aconteceria com as escolas de samba se proibissem de falar sobre Bahia, Amazônia, África e Jorge Amado. Porque as únicas coisas que são menos surpreendentes do que esses enredos são os carros alegóricos que sempre quebram e as rainhas de bateria que passam a impressão de, juntas, possuírem um QI de 0,5.

Tenho quase certeza de que se as emissoras resolverem passar um VT de qualquer carnaval passado ao invés de transmitir ao vivo o desse ano, ninguém vai notar a diferença (exceção às escolas de samba de São Paulo, que sempre inovam falando de temas tão interessantes quanto óculos escuros, guaraná Dolly e nuggets).

O resto do Brasil não foge muito à regra. Quem não sabe que em Salvador o carnaval dura mais de uma semana, que em Olinda todo mundo passa quatro dias fingindo que adora frevo e que no final da festa o "bloco dos garis entra na avenida"?

Mais clichê mesmo só comentaristas de desfile de fantasias e entrevistadores tarados nos bailes (que sempre passam a impressão de estarem acontecendo sem cessar numa espécie de universo paralelo desde os anos 70).

E o amedrontador é saber que ano que vem vamos assistir a tudo isso outra vez, com um monte de gente se espantando como se estivesse diante de uma novidade de cair o queixo.

Não é a toa que até hoje verdadeiros exércitos de soldados do "pavê ou pacomê" repetem sem cansar a piada da Mangueira entrando.

Tenha muito respeito por quem tem o poder de cuspir na sua comida

Postado em 16 de fev de 2012 / Por Marcus Vinicius Nenhum comentário

Uma decisão que eu tomei há muito tempo é a de jamais mandar um prato de volta para a cozinha num restaurante.

O bife mal passado pode estar tão cru que vem com pêlos e mugindo, a comida pode ter uma aparência menos apetitosa do que uma tijela de Bonzo, mas eu jamais, sob hipótese alguma, chamo o garçom e peço pra levar de volta e trazer do jeito que eu queria.

Um garçom nada mais é do que um atravessador. A sua existência se baseia no fato de que um cliente não deseja ir até a cozinha do restaurante, abrir as panelas e pegar sua própria comida, como se estivesse na casa da sua tia num almoço de final de semana. Ele está ali para nos fazer sentir importantes, para dar a ilusão de que aquele almoço de terça-feira é um repasto imperial e, claro, para nos tomar 10% no final.

Outra função é evitar que você conheça as entranhas do restaurante. Notou como usei o termo "entranhas", que não remete a algo propriamente aconchegante? Sim, porque apesar daqueles avisos que dizem que a cozinha está "franqueada para a sua visita", acredite, na maioria das vezes ela não está.

E acredite também que nem você gostaria de fazer essa visita. Imagine a cena - não totalmente impossível - do cozinheiro com um esparadrapo no polegar, um avental mais sujo do que macacão de gari, monocelha, camiseta regata, suando e coçando a orelha com uma tampa de caneta Bic enquanto mexe num caldeirão de sopa. Perdeu o apetite, não é? Está aí mais uma explicação para a existência do garcom.


  É aí que começam seus problemas (e os dele). Como já disse, o sujeito que serve a sua mesa é um intermediário. Ele vai até você, fica sabendo o que você precisa, vai até a pessoa que fornece o que você precisa e volta trazendo o que você precisa, ou seja, a comida.

Ele não está na sua cabeça para adivinhar que você gosta do seu peixe fresco, mas não tão fresco a ponto de vir num balde nadando, e não faz a sua comida, a ponto de ter culpa porque o seu omelete não veio tão bonito quanto o da foto do cardápio. Mas como é a parte visível de tudo o que ocorre longe do seu olhar, ele é que vai ouvir seus desaforos.

Isso sem contar clientes que dão xilique por tudo:

- Nunca fui tão humilhado na minha vida! Pedi calda de chocolate e colocaram de caramelo!

Numa situação dessas, você estará lidando com a frustração de alguém que não fez a cagada (no caso a comida), mas que está levando toda a culpa pelo ocorrido. Não esqueça que ele não pode te mandar para onde deseja, já que o cliente "tem sempre razão", nem brigar com o cozinheiro, que pode ostantar um título de "chef" ou pelo menos andar com facas por aí o dia inteiro, o que o transforma em alguém com quem não convém muito se meter.

Por isso, durante todo o trajeto de volta para a cozinha, o garçom estará puto, chateado e sem tempo para uma sessão de análise onde descarregaria toda a sua raiva. O que sobra para ele então?

Sua comida. Já se perguntou o que pode acontecer com ela numa situação dessas? Vai por mim, de tudo o que já imaginei, cuspe é lucro.

Por isso um conselho - que se fosse bom venderiam - mas que te dou mesmo assim, sem nem cobrar gorjeta: jamais irrite um garçom.

Porque fotografar comida não é um pecado capital, mas pode ser evitado

Postado em 14 de fev de 2012 / Por Marcus Vinicius 6 Comentários

Já notou como ninguém normal chega no motel, tira foto da outra pessoa e posta no Facebook, mas curiosamente vivem fazendo isso com o que vão comer no restaurante? Basta navegar um pouco pela internet que você nota como, às vezes, tudo se parece com um "caiu na net" gastronômico.

Entre chamar os outros de porcos enquanto joga lixo no chão; alimentar, dar banho e sair por aí catando as fezes de um animal e ainda assim dizer que é seu "dono", frequentar micaretas e tirar fotos na frente do espelho do banheiro, com certeza fotografar comida seria um hábito humano passível de estudo por alienígenas. Eles se perguntariam em desespero "porque eles fazem isso, porque?".

Como não sou um E.T. (pelo menos eu acho) confesso que já caí nessa muitas vezes (ainda hoje tiro muitas fotos de comida), mas tenho procurado evitar, porque o melhor da comida é mesmo o gosto, logo em seguida vem o cheiro, a aparência ajuda, claro, mas numa foto sempre vão faltar dois dos três elementos principais do prazer da comida.

Lógico que queremos eternizar momentos, deixar uma lembrança pelo menos visual daquele gosto que pode nunca mais ser o mesmo, porque podemos não voltar mais ali, o lugar pode fechar, podem tirar aquela bomba de maracujá de linha, algum acidente com radiação pode te fazer só sentir gosto de biscoito Trakinas em tudo - seja uma picanha ou um biscoito Trakinas - mas o que explica fotos de coxinhas de galinha, mistos-quentes e pratos de arroz com feijão?


E ainda que popularizassem um cinema 5, 6 ou 7D, com cheiro e tudo - o que sempre me causa certo nojo quando penso em filmes de zumbis - não seria aquele Mc Lanche Feliz que estaria em cartaz, não é? Porque assim como ninguém compra um ingresso para assistir "Aniversário do Pedrinho 2 - O Retorno do Animador de Festas", não creio que alguém pagaria um ingresso do tal cinema com aromas para assistir "Tentativas de Bife Acebolado da Tati - A Saga do Arroz Queimado".

Assim como grandes diretores, somente grandes "chefs" apareceriam no cinema, então, continua a dúvida: pra quê fotografar comida e colocar na internet?

Some-se a isso o fato de geralmente pedirmos comida quando estamos com fome, o que torna ainda mais inexplicável essa auto-tortura de atrasar sua degustação para tirar uma foto. É como ter sede, abrir a geladeira mais esbaforido do que um pastor alemão na praia, pegar um copo d'água e dizer:

- Não, pera aí, vou tirar uma foto porque esse é um belo copo d'água.

E se você não faz isso com água, não deveria fazer com um brownie. Porque assim como aquela pessoa que você leva pro motel faria se você parasse de dois em dois minutos para tirar uma foto, se o brownie falasse, certamente ele te diria:

- Me come logo, e esquece a porra da foto pro Facebook.

A menos, é claro, que vá você, a pessoa, o brownie, um sorvete, cenourinhas americanas e uma melancia, mas aí já seria um bacanal gastrômico e uma foto seria ainda mais inaceitável.

A história de uma ação de anti-marketing muito bem sucedida

Postado em 9 de fev de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Todos os dias milhões de profissionais do marketing fazem de tudo para conectar a marca do seu cliente às exigências do mercado. Pesquisas qualitativas, testes, amostras grátis, enfim, toda aquela atenção, competência e uma boa dose de puxa-saquismo sem os quais é praticamente impossível fazer sucesso na vida.

Mas assim como tem gente que dá sorte ganhando na Mega Sena, nascendo ou, derradeira tentativa, casando, existem pessoas que fazem tudo para que sua forma de ganhar dinheiro dê errado e no final acabam dando certo (e nem estou falando de alguém que compõe algo como "Ah, Moleque!" ou a "Dança da vassoura", com versos tão poéticos quanto "me diga aonde você vai, que eu vou varrendo" e fica rico com isso).

E num sábado, num pequeno bar comandado por seu dono e único funcionário, Zé Barba, que usava um tapa-olho de pirata que nunca descobrimos se era por necessidade ou só para assustar os clientes, conheci a maior ação de anti-marketing da história (pelo menos da minha história).

- O que é aquilo naquela garrafa no canto?

- Ah, é uma merda aí que eu fiz, deixa pra lá que é um lixo.

- Mas porque você mergulhou aquela planta numa garrafa de cachaça?

- Não é planta, é boldo, e não é cachaça, é vodka, whisky, campari e conhaque. Ah sim, tem um resto de cachaça ali também.

- Porra, você saiu misturando tudo pra que?

- Tava cheio de bebida quase vazia aqui e eu quis jogar fora, fui despejando tudo naquela garrafa Pet e joguei um boldo pra ver se dava uma cor.

- E deu, uma cor de bosta.

- Foi o que eu disse no início, é uma merda.

- Mas qual é o gosto?

- E você acha que eu sou maluco de provar isso? Só ficou ali porque eu esqueci de jogar a garrafa no lixo, mas se quiser experimentar, é 10 reais.


Não arrisquei dar um gole naquilo, ainda mais tendo que pagar, mas uma semana depois, quando voltei lá (até hoje não sei porque a gente voltava naquele lugar, que ainda vendia Crush, coxinha de galinha com osso e ovo cozido colorido), fiquei assustado: o tal lixo vendia mais do que KY em casa de swing.

- Não acredito que você realmente esteja vendendo isso.

- Eu não acredito é que tenha otário que compre - disse ele, enquanto enchia o copo de um dos otários - mas esses idiotas dizem que o boldo previne a ressaca.

- Será?

- Como eu vou saber? Tenho nojo de beber isso, mas já vendi umas 10 garrafas só hoje.

Enquanto isso, um sujeito vira pra mim e diz:

- Ele só fala mal pra deixar a pessoa curiosa e acabar provando.

- Mas é bom?

- Não, é uma merda, mas eu continuo trazendo meus amigos aqui pra eles cairem nessa também...ah sim, a história da ressaca é verdadeira, você acorda bonzinho no dia seguinte.

- Acho que é porque passa mal na véspera, né?

Silêncio.

Mulher Nota Mil

Postado em 7 de fev de 2012 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

 Muito prazer, eu sou a Tati. Mas poderia ser Júlia, Isa, Márcia e até mesmo Lu. Sou uma dessas meninas-mulher que tanto fazem sucesso em filmes e biografias de perfil de internet. Mas não só da boca pra fora, sou assim mesmo.

Falo palavrões, mas também sei dizer coisas fofinhas. Curto pop rock, heavy metal, punk. 

Como pizza, chocolate, bebo cerveja, mas tal qual essas modelos e atrizes que dão entrevista por aí, consigo manter essa minha barriga lisinha quase sem esforço.

E mesmo curtindo Ramones e Iron Maiden, eu não me visto como se fosse figurante de "Jovens Bruxas" ou de "Walking Dead". Uso roupas estilosas, não tenho uma tatuagem tosca e nem vou ao cinema num domingo à tarde usando uma coleira com spikes e batom preto.

Curto filosofia e ficção científica, mas isso não me impede de ir na praia e em festas de verdade (nada de Campus Party) e, pra ser sincera, acho que essa moda babaca de cultuar nerds é invenção dos próprios nerds, que de burros não têm nada.

Mas nem por isso curto homens bombados, com aquela pinta de Alexandre Frota depois do filme pornô. Gosto de homens que contam piadas, que curtam um filme europeu e saibam que, antes de botar de quatro e chamar de cachorra, toda mulher merece um bom oral (que retribuo com prazer e técnica apurada, diga-se de passagem).


Jogo video game todo dia e se você quer saber, dificilmente vai me superar no GTA. Curto também jogos antigos, tipo Super Mario, Space Invaders e adoro jogar Ultimate Fighting e FIFA. Não ligo - e pra dizer a verdade até prefiro se estiver muito calor - de ficar em casa num sábado à noite, jogando, vendo seriados na TV e falando bobagem com os amigos.

Sei falar quatro idiomas e agora estou estudando chinês, mas nem por isso fico me exibindo ou esfregando na cara dos outros aquele pedantismo acadêmico que, pra falar a verdade, me enoja um pouco. Falo sobre futebol, sobre o Super Bowl, sobre teorias mirabolantes e até escatológicas,  e até sobre balé clássico.

Em relacionamentos sou equilibrada. Cuido sem sufocar, dou espaço sem parecer que não ligo. Não cobro, acredito que todo homem precisa de amigas mulheres para exercitar sua sensibilidade (e melhor que sejam bonitas, só assim sei que meu namorado tem bom gosto) e não sei porque haveria algum problema dele fazer uma viagem pela Europa sozinho. Ah sim, e não traio.

Sim, eu sei que pareço perfeita, boa demais pra ser verdade. E na realidade, sou mesmo. Não perfeita, mas boa demais pra ser verdade, muita areia pra qualquer caminhão.

Sei disso principalmente porque não sou mesmo de verdade. Sou uma invenção do autor deste texto, uma espécie de Mulher Nota Mil que só poderia existir num filme, numa biografia de perfil de internet ou aqui nessa página.

E convenhamos, se eu existisse mesmo, o que talvez não existisse seria um homem que me merecesse, muito menos você, que vive me inventando aí na sua imaginação, né?

O pesadelo da casa própria (ou nem tão própria assim)

Postado em 2 de fev de 2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Mais do que um tsunami, do que os juros do cartão, muito mais do que o Jason para um casal que foi transar no meio do mato num local deserto (aliás, porque as pessoas fazem isso em filmes?), o que eu tenho medo mesmo é de mudança.

Pode me chamar de conservador, chato, monótono, o que você quiser, mudar de casa é uma experiência quase tão traumática quanto viajar num navio comandado pelo capitão Schettino. Nem acampar num local deserto ou resolver passar um tempo numa casa só com portas de vidro no meio do mato perto da casa do Massacre da Serra Elétrica (aliás, porque as pessoas fazem isso em filmes?) me causa tanto pavor. Pronto, o trauma é tanto que já estou até me repetindo.

E pra piorar, nada, veja bem, nada é mais medonho de lidar do que um corretor imobiliário. Esqueça flanelinhas, esqueça aquele proctologista que apelidaram "dedossauro", esqueça aquele agiota que você precisou pegar um emprestado para pagar uma dívida de jogo, esqueça até mesmo o bicheiro que te cobrava a dívida de jogo e ameaçava te fazer uma visita para te apresentar um negão chamado Jamanta, todos eles são o equivalente a uma manhã em casa comendo sucrilhos e assistindo Cartoon Network perto do que é um corretor imobiliário.

Só um corretor pode falar contigo no telefone e responder à pergunta "o que eu consigo alugar pagando mil reais?" com uma sonora gargalhada acompanhada de um "Pereira, vem cá, tem um piadista aqui do outro lado da linha".

Mas se você quer mesmo mudar (ou precisa), tem que começar procurando um apartamento que seja de um tamanho suficiente para caber alguns móveis e você dentro, e que dê para abrir a porta sem precisar empurrar a geladeira pro lado, colocar o sofá no banheiro e se pendurar no ventilador de teto para a visita entrar. Sua exigência nem é tão grande, você quer apenas um local que não seja distante do Centro, que possua meios de transporte mesmo depois das 10 da noite e que não seja famoso por ser território dos "irmãos necrófilos" ou algo parecido.


Procura no jornal e só encontra aquelas expressões características de qualquer mercado saturado de gente desesperada atrás de alguma coisa e de gente esperta e tranquila porque sabe que não falta gente desesperada procurando o que eles têm para oferecer, como "primeira locação", "sol da manhã", "tem elevador", "localização privilegiada" ou "massagem tailandesa e sueca" (este último provavelmente entrou na sessão errada dos classificados).

Chegando para a visita, aquele apartamento que foi anunciado como "excelente planta, todo reformado, é entrar e morar", mais parece com aqueles cenários de filmes da Segunda Guerra, mostrando o cerco de Berlim.

E o corretor sempre tem uma resposta pra tudo:

- Esse é o apartamento reformado?

- Ela reformou a cozinha, vê a pia nova?

- Embaixo do monte de entulho?

- Isso é só dar uma limpadinha que resolve.

- Mas e aquela vista ali? Aquilo é uma favela, não é?

- Favela não, comunidade, mas vai ser pacificada logo.

- Tudo bem, mas o que eu faço com aquela moça pendurando cuecas e meias num varal amarrado na grade da janela da sala?

- É que a vizinhança se dá bem, todo mundo se ajuda, mas olha, a planta é boa, não é?

- Só que no anúncio diz que tem vista da praia.

- Vai ali no banheiro, isso, agora sobe naquele banquinho, aquele ali, pronto, agora olha pelo basculante, não, mais pra direita, entre aquele prédio cinza e o outdoor do supermercado, tá vendo? Ali é a praia.

- Mas e o preço? Isso é preço de dois quartos.

- Só que pelo que você pode pagar, dois quartos real mesmo só se for no subúrbio ou numa comunidade, aliás, tem uma casa alugando do lado da casa da moça pendurando roupa no varal, quer dar uma olhada?

E pra completar, bem, digamos que você encontre algo que possa pagar e morar sem passar as noites dormindo como um bebê:  acordando de duas em duas horas e chorando enquanto se pergunta "porque eu?".

Ainda vai precisar arrumar os fiadores, o seguro, todas as cópias de seus documentos incluindo a certidão de batismo e a carteira do Clube do Mickey, além de um testemunho de idoneidade prestado por um tabelião, um delegado, um fiscal da receita, um sósia do Elvis e um rabino.

Pensando bem, acho que agora sei porque todas aquelas pessoas nos filmes vão parar no meio do mato.
 
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