O pesadelo da casa própria (ou nem tão própria assim)

Postado em 2 de fev de 2012 / Por Marcus Vinicius

Mais do que um tsunami, do que os juros do cartão, muito mais do que o Jason para um casal que foi transar no meio do mato num local deserto (aliás, porque as pessoas fazem isso em filmes?), o que eu tenho medo mesmo é de mudança.

Pode me chamar de conservador, chato, monótono, o que você quiser, mudar de casa é uma experiência quase tão traumática quanto viajar num navio comandado pelo capitão Schettino. Nem acampar num local deserto ou resolver passar um tempo numa casa só com portas de vidro no meio do mato perto da casa do Massacre da Serra Elétrica (aliás, porque as pessoas fazem isso em filmes?) me causa tanto pavor. Pronto, o trauma é tanto que já estou até me repetindo.

E pra piorar, nada, veja bem, nada é mais medonho de lidar do que um corretor imobiliário. Esqueça flanelinhas, esqueça aquele proctologista que apelidaram "dedossauro", esqueça aquele agiota que você precisou pegar um emprestado para pagar uma dívida de jogo, esqueça até mesmo o bicheiro que te cobrava a dívida de jogo e ameaçava te fazer uma visita para te apresentar um negão chamado Jamanta, todos eles são o equivalente a uma manhã em casa comendo sucrilhos e assistindo Cartoon Network perto do que é um corretor imobiliário.

Só um corretor pode falar contigo no telefone e responder à pergunta "o que eu consigo alugar pagando mil reais?" com uma sonora gargalhada acompanhada de um "Pereira, vem cá, tem um piadista aqui do outro lado da linha".

Mas se você quer mesmo mudar (ou precisa), tem que começar procurando um apartamento que seja de um tamanho suficiente para caber alguns móveis e você dentro, e que dê para abrir a porta sem precisar empurrar a geladeira pro lado, colocar o sofá no banheiro e se pendurar no ventilador de teto para a visita entrar. Sua exigência nem é tão grande, você quer apenas um local que não seja distante do Centro, que possua meios de transporte mesmo depois das 10 da noite e que não seja famoso por ser território dos "irmãos necrófilos" ou algo parecido.


Procura no jornal e só encontra aquelas expressões características de qualquer mercado saturado de gente desesperada atrás de alguma coisa e de gente esperta e tranquila porque sabe que não falta gente desesperada procurando o que eles têm para oferecer, como "primeira locação", "sol da manhã", "tem elevador", "localização privilegiada" ou "massagem tailandesa e sueca" (este último provavelmente entrou na sessão errada dos classificados).

Chegando para a visita, aquele apartamento que foi anunciado como "excelente planta, todo reformado, é entrar e morar", mais parece com aqueles cenários de filmes da Segunda Guerra, mostrando o cerco de Berlim.

E o corretor sempre tem uma resposta pra tudo:

- Esse é o apartamento reformado?

- Ela reformou a cozinha, vê a pia nova?

- Embaixo do monte de entulho?

- Isso é só dar uma limpadinha que resolve.

- Mas e aquela vista ali? Aquilo é uma favela, não é?

- Favela não, comunidade, mas vai ser pacificada logo.

- Tudo bem, mas o que eu faço com aquela moça pendurando cuecas e meias num varal amarrado na grade da janela da sala?

- É que a vizinhança se dá bem, todo mundo se ajuda, mas olha, a planta é boa, não é?

- Só que no anúncio diz que tem vista da praia.

- Vai ali no banheiro, isso, agora sobe naquele banquinho, aquele ali, pronto, agora olha pelo basculante, não, mais pra direita, entre aquele prédio cinza e o outdoor do supermercado, tá vendo? Ali é a praia.

- Mas e o preço? Isso é preço de dois quartos.

- Só que pelo que você pode pagar, dois quartos real mesmo só se for no subúrbio ou numa comunidade, aliás, tem uma casa alugando do lado da casa da moça pendurando roupa no varal, quer dar uma olhada?

E pra completar, bem, digamos que você encontre algo que possa pagar e morar sem passar as noites dormindo como um bebê:  acordando de duas em duas horas e chorando enquanto se pergunta "porque eu?".

Ainda vai precisar arrumar os fiadores, o seguro, todas as cópias de seus documentos incluindo a certidão de batismo e a carteira do Clube do Mickey, além de um testemunho de idoneidade prestado por um tabelião, um delegado, um fiscal da receita, um sósia do Elvis e um rabino.

Pensando bem, acho que agora sei porque todas aquelas pessoas nos filmes vão parar no meio do mato.

2 Comentários:

jucieli postou 2 de fevereiro de 2012 12:15

que tal alugar uma barraca com muito espaço ou melhor comprá-la pagando suaves prestacões e quando for morar dentro aquele bom e velho amigo te visita. só não esperava q ele fosse entrar pelo telhado de plastico. amigos as vezes só dão recursos financeiros

Luiz Fernando postou 2 de fevereiro de 2012 13:38

Ás vezes fico absimado quando vejo alguns corretores tentando empurrar aqueles apartamentos de 50 metros quadrados por preços que chegam perto do 1 milhão e falam em prestações de 4 ou 5 mil reais como se fossem 400,00 ou 500,00.

Ou o Brasil ficou rico demais e eu não consegui acompanhar o ritmo ou as corretoras perderam a noção da realidade.

 
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