Pânico de semi-desconhecidos

Postado em 13 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius

- A gente não se conhece de algum lugar?

- Acho que vomitei no seu pé no casamento do Thiago.

Quem acha normal falar isso? Acho que só quem também ache normal ir pro cinema usando um chapéu seletor do Harry Potter. Quando a gente encontra alguém na rua e pensa que "já viu em algum lugar", geralmente não imagina que foi no meio de uma furada.

Comparo isso a essas regressões de vidas passadas. Todo mundo que faz um negócio desses descobre que foi uma princesa egípcia, um senador romano, um guerreiro celta. Nunca vi alguém voltar contando que descobriu que tinha um empreguinho meia-boca, ia do trabalho pra casa todo dia e ainda levava corno do vizinho.

Nessas horas ninguém imagina uma situação escrota, algo embaraçoso ou que faça a outra pessoa saber porque algo dentro dela dizia pra não ir lá falar com você.

- Oi, gata, sabe quem eu sou?

- Não, quem?

- Sábado passado você estava meio bêbada e eu aproveitei pra roubar seu celular na boate.


Eu sempre tive pavor de ser reconhecido por estranhos, não que isso seja sinal de timidez ou algo assim, mas porque acho que vão me confundir com outro e eu vou acabar me ferrando. Pense bem, uma gostosa jamais vai aparecer perto de mim e gritar "Hugh Jackman! Quero te dar agora!". O mais provavel que aconteça é isso:

- E aí, bróder, tranquilo?

- Err, tranquilo, tudo bem?

- Não sabe quem eu sou, né?

- Errr, não.

- Você deu umas porradas no meu irmão na micareta, agora quero ver você ser machão comigo e a minha pistola 45.

Entende o drama? E o pior é que para explicar a ele que nem sei quem é o irmão dele, teria que provar que jamais brigaria com alguém numa micareta, pelo simples fato de achar micareta coisa de retardado que não tem o mínimo bom gosto e curte ficar pulando ao som de música feita para babuínos.

No final da explicação ele se convenceria que eu não briguei com o irmão dele, mas me daria um tiro mesmo assim, afinal, ofendi a honra de chicleteiro dele.

Pânico de semi-desconhecidos é pior do que medo de barata, nada é tão incômodo quanto estar na rua e ver que alguém te observa com aquele ar de interrogação. É praticamente um duelo, quem piscar, está ferrado.

Pode ser qualquer pessoa, um ex-colega de colégio, um vizinho da sua antiga rua lá em Piraporinha, alguém que jogava RPG contigo e que vai te lembrar que um dia você já jogou RPG, um ex-professor, aquele nerd que você vivia dando pescotapa e cuecão no pré-vestibular, o tiozinho da sua locadora de vídeos que virou bomboniere, enfim, é apavorante e constrangedor.

Nessa hora você simula um toque no celular, começa a procurar coisas aleatórias na mochila, entra numa loja que vende panelas, resolve começar a ler aquele exemplar de "A Lógica da Pesquisa Científica" que estava na sua bolsa há três meses ou então muda correndo de calçada quase sendo atrolelado por um Fusca que vai buzinar fazendo o maior escândalo, chamando a atenção do objeto da sua fuga, que dá um adeusinho, se aproxima com um sorriso meio babaca no rosto e diz:

- Lembra de mim?

3 Comentários:

Xamanaty postou 13 de junho de 2011 11:40

Isso é extremamente frustante mesmo! Já aconteceu comigo algumas vezes, mas sempre digo a verdade: Não me lembro de você!

MBSantiagoJr. postou 13 de junho de 2011 11:41

:: Essa é uma das situações
sociais mais horrorosas que conheço.

Se a pessoa não me reconhece de
primeira eu finjo até que estava
olhando pra outra coisa.

E eu, se não reconheço, não
faço contato visual que é pra
não dar oportunidade.
Tipo como mendigo.

Isabel postou 13 de junho de 2011 13:43

Nunca tinha pensado desta forma, rss.
Ótimo texto!
Bjs

 
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