Se beber, não volte no tempo

Postado em 27 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius

Dizem por aí (se você me perguntar, te respondo: sei lá quem "dizem"), mas voltando, dizem por aí que um bom filme nem sempre rende uma boa sequência.

Confesso que essa pérola da sabedoria popular veio à minha mente quando assisti a continuação de "Se Beber Não Case". Tudo que o primeiro filme tinha de bom, estava ali no segundo filme. As piadas escatológicas, as situações bizarras, os diálogos engraçados, tudo.

E talvez por isso mesmo eu tenha achado a sequência uma grande bullshit se comparada com o primeiro filme, porque tudo estava lá, igualzinho na primeira vez, só que agora em Bangoc, como diz a propaganda.

Perceber isso me fez pensar se tudo na vida não é um pouco como um filme. Esqueça o velho clichê que "sua vida daria um filme", não é disso que estou falando. Se sua vida desse realmente um filme, seria um desses do Glauber Rocha que ninguém aguenta assistir.

Estou falando de outra coisa, dessa tendência que temos de sempre querer reviver o passado de alguma forma.

Eu sei que o tempo do colégio foi legal, que seu primeiro beijo foi uma maravilha, que a primeira saída sozinho com os amigos foi inesquecível, a primeira volta de carro com carteira de motorista (e sem morrer de medo de ser pego pela PM) foi o maior hype e o seu primeiro porre, bem, foi só um porre mesmo.

A gente olha pra trás, lembra de tudo isso e aí tem a verdadeira noção de que tudo na vida muda (e nem sempre pra melhor). Só que as alternativas são morrer ou ficar por aí, envelhecendo e sentindo saudades. Mas pense se existisse outra, tipo, voltar no tempo e ficar por lá se quiséssemos.


Tal qual nas sequências de filmes, sua primeira namorada estaria lá, seus amigos do colégio, sua vontade de poder sair de carro, suas primeiras noitadas, tudo aquilo pelo qual você morre de saudade, legal, né?

Só que Nietzsche - sério, eu enfiei Nietzsche nesse post - perguntava uma coisa meio perturbadora (como aliás é quase tudo nele, a começar pela grafia do nome): você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?

Sim, porque você passaria o resto da eternidade tentando enfiar a mão no sutiã de uma menina que não te deixaria nem alisar os peitos dela por cima da blusa, andaria de ônibus para a auto-escola durante anos a fio, ouviria sua mãe dizer que é pra "não passar de meia-noite na rua" todo dia e vomitaria aquela cachaça com groselha horrorosa todo sábado à noite.

Convenhamos, tal qual uma piada que perde a graça depois de contada umas 10 vezes, isso também não seria muito divertido.

E vale pra tudo: aquele seu namoro que você sente falta mas esquece que ela dormia de calça jeans 6 vezes por semana, o seu antigo emprego maravilhoso que não te dava vale transporte e nem pagava hora-extra, aquele seu amigo que mudou pra Europa mas não te pagou os 20 Mc Lanches feliz que você emprestou pra ele durante os anos de amizade.

Moral da história? Sei lá. Não saia de casa para assistir "Se Beber, Não Case 2", perca esse tempo procurando seus amigos do colégio no Orkut, só pra ter certeza que todos os caras ficaram gordos ou carecas e que as mulheres ficaram iguais às mães.

Menos a filha daquela maravilhosa da professora de Educação Física.

6 Comentários:

Celene postou 27 de junho de 2011 07:26

Gostei! Você escreve bem. Fez de uma experiência ruim, de um filme péssimo, uma reflexão interessante e um ótimo texto! Parabéns!

Celene postou 27 de junho de 2011 07:28

Você fez de uma experiência ruim comum filme péssimo, uma boa reflexão com um ótimo texto. Gostei! Você escreve bem. Parabéns!

Aline Muniz postou 27 de junho de 2011 07:37

Gostei :)

**Wendy** postou 27 de junho de 2011 07:50

Se sua vida desse realmente um filme, seria um desses do Glauber Rocha que ninguém aguenta assistir.

VERDADE INCONTESTÁVEL.

Amei o post.

exceto o final meio machista (se é que entendi direito ¬¬)

Jimmi postou 27 de junho de 2011 09:51

Gênio!! Muito bom o post!

Ana Cristiana postou 27 de junho de 2011 15:34

Uaal, a minha irmã assistiu o filme ''se beber não casa 2'', e realmente ela não gosto,igual do modo que você descreveu, tudo estava repetitivo.Tudo tem seu momento.Poxa cara, parabéns a cada texto que leio seu me impreciona mas.*-*

 
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