Me engane, por favor

Postado em 20 de jun de 2011 / Por Marcus Vinicius

Quase todo mundo adora comprar coisas. Mas todo mundo que adora comprar coisas prefere que estas coisas tenham alguma história. Já explico.

Você está andando pela calçada e encontra um vendedor de frutas e verduras. O carrinho caprichosamente arrumado, as hortaliças devidamente pulverizadas com água para parecerem mais frescas do que uma Halls preta e até o sujeito devidamente paramentado com um chapeuzinho de palha.

É quase instintiva a pergunta "de onde vêm estas frutas?" e ele quase certamente responderá "ah, é de uma roça que eu tenho lá em Ribanceira".

É muito melhor comprar alimentos plantados pelo próprio vendedor lá em Ribanceira do que alimentos que ele pega ali na esquina e revende.

Você pode sentir o cheiro de terra pela manhã, o café e o leite quente que ele toma às 4:00 horas antes de ir pegar na enxada e cuidar da roça, o sol da manhã na sua fronte, o suor do trabalho pesado, a colheita feita junto com a esposa e os filhos e, pronto, o que era simplesmente um ramo de chicória ou um amarrado de alfaces vira um capítulo de Ana Raio e Zé Trovão.

Talvez até o verdureiro plante o que vende e traga para a cidade grande naquele carrinho, mas a maior probabilidade é que ele compre tudo num Ceasa mesmo e saia por aí revendendo. Mas como as pessoas gostam de comprar coisas com história, bem, ele que não é bobo entra na onda e faz o teatro.


Imagino o cara no final do dia tirando o chapéu, colocando uma camisa da Oakley e indo pro seu apartamento num subúrbio qualquer, tomar um choppinho enquanto ouve pagode no rádio.

Isso tudo me lembra um episódio daquele seriado Friends, quando uma das personagens resolve comprar uma mesa de centro numa dessas lojas de móveis gigantes tipo a Tok&Stok. A sua companheira de casa, mais natureba, tem verdadeiro horror deste tipo de coisa produzida em série, preferindo comprar móveis e utensílios usados, porque "eles tem história".

Quando a mesa chega, a amiga precisa inventar uma "história" para a tal mesinha e aí diz que era a mesa de um boticário, que vivia numa cidade onde queimavam bruxas ou algo assim. Quando perguntada sobre a época da mesa ela simplesmente responde "ah, de antigamente".

A natureba ainda vira e diz "consigo sentir até o cheiro das ervas medicinais que ele guardava aí, nossa, muito melhor do que aquelas horríveis mesinhas fabricadas em série". Pronto, era a história.


E tal qual quem compra verduras "da roça" ou a personagem que adorou a mesa de "antigamente", nós adoramos essas histórias.

É o hippie que vende pulseirinhas de concha mas diz que são "corais australianos" ou aquele velho telefone que o sujeito do antiquário jura que foi de uma "vizinha de Rui Barbosa".´

Funciona mais ou menos como essas réplicas chinesas de produtos famosos: compramos uma idéia e não a coisa propriamente dita.

Só que nesse caso, corremos menos risco da coisa parar de funcionar dali a uma semana.

6 Comentários:

Géeh postou 20 de junho de 2011 13:13

Excelente texto...
Sou msm uma dessas pessoas que compra coisas (muitas vezes inúteis) simplesmente por conterem estórias...

Isabel postou 20 de junho de 2011 13:36

É como esses vendedores de mel que tem aos montes no Catete, todos eles devidamente vestidos a rigor, com seu chapéu de palha e fala "caipira".

E essas réplicas chinesas são uma graça. As miniaturas de cadeiras de designers famosos custam o preço de uma cadeira de verdade, mas são tão fofinhas, rsss.

Ravick postou 20 de junho de 2011 15:21

Embora concorde com a idéia do texto, conheço algumas dúzias de produtores rurais que, de fato, vendem aquilo que colhem. E posso afirmar com certeza pq sou consultor deles, e sei o q cada um produz.

Porém, também tem quem invente história.

Ninon postou 20 de junho de 2011 17:28

Sei de uma vez uma história de uma pessoa que sempre comprava mel do produtor, o mais puro mel que havia. Passado um tempo, o dito cujo chegou com o pote de mel e disse que tinha subido o valor do mel, porque estava fora de época, as abelhas não estavam produzindo tanto. A pessoinha comprou o mel e continuou conversando com o colono produtor, até que logo em seguida, ele soltou a pérola:
- É mas do jeito que subiu o açúcar, não dava mais para manter mais barato.

Eu comprei uma jaqueta no Paraguai, e paguei R$15,00 de uma imitação de camursa. Na mesma semana minha tinha chegou na minha casa com uma igualzinha, que ela comprou de um vendedor que foi vender na casa dela. Ele estava pedindo R$ 200,00 pela jaqueta e acabou deixando por R$120,00. Ela NUNCA usou a jaqueta de raiva!!!!

Me engana que eu gosto!!!!!!!

Gustavo Ca postou 22 de junho de 2011 08:15

É a essência da propaganda. E as pessoas gostam de viver num mundo ilusório.

Tatá postou 22 de junho de 2011 20:27

E como já disse Clarice Lispector: "quero uma realidade inventada".

 
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