O suposto suspeito

Postado em 8 de mai de 2013 / Por Marcus Vinicius

"Cheguei em casa, encontrei minha mulher com outro na cama, cutuquei o cara e perguntei "oi, tudo bem, você sou eu?" e ele respondeu "não, eu sou outro". Suspeito que sou corno".

Se esta historinha parece estranha e o personagem um idiota, saiba que é mais ou menos desse jeito que insistem em te tratar hoje em dia. Talvez seja essa época do positivismo levado ao extremo, do relativismo lisérgico e da tolerância inegociável em que vivamos, vai saber.

Você chega para um estudante médio de qualquer universidade federal e diz "atos obscenos na presença de crianças são errados e merecem punição" e corre o risco real de ouvir respostas como "mas o que é obsceno?", "o que seriam crianças?", "a partir de qual idade alguém deixa de ser?", "o que é obsceno para você pode não ser para outro", e por aí vai.

E não adianta tentar ser o mais claro possível, dizendo "dois homens se pegando num banheiro do Mc Donald's em um Mc Dia Feliz é algo muito errado e merece punição". Ainda assim o estudante progressista médio vai retrucar "então se fosse um homem e uma mulher seria aceitável, sua homofobia me assusta".

Ao que você responde "então esqueça os dois homens, pense num casal praticamente transando ao lado do Ronald McDonald", e o mediano prosseguiria "eu acho que só o fato de uma criança estar num Mc Donalds, esse símbolo do imperialismo estadunidense e da má alimentação, por si só já é mais criminoso do que testemunhar uma cena de acasalamento de sua própria espécie, que só é um ato obsceno na mente da classe média conservadora".

Coloca-se assim um sundae na mesma categoria das Brasileirinhas. Não é a toa que um cartunista brasileiro recentemente começou a se vestir de mulher realmente e a reivindicar o "direito" de frequentar o banheiro das mulheres, com adolescentes ali dentro e tudo, afinal, "o que é uma estrovenga escondida sob um vestido"?

Mas não era sobre isso que eu queria falar, era sobre a fixação da imprensa e da sociedade em geral pelo "suposto". Um político é pego num vídeo empalhando a própria cueca com milhares de dólares e alguns euros, todos tomados diretamente das mãos de um traficante internacional que acabou de ser beneficiado por uma lei que este mesmo político propôs.


A cena vai ao jornal noturno da TV com a seguinte manchete "deputado suspeito de receber dinheiro de suposto traficante". 

Se ficar provado logo depois que o mesmo deputado estava à frente de um grupo de outros dez parlamentares que agiam em prol dos interesses de um cartel de drogas, os jornais continuarão dizendo que é uma "suposta quadrilha", e por aí vai.

Não pense que é apenas exagero meu, que sou confessadamente chegado a exageros. Um muçulmano retalhou um sujeito que achou ser um soldado no meio da rua em Londres, em plena luz do dia. Não satisfeito em fazer isso, correu para a frente de um cinegrafista amador e, peixeira em uma das mãos e o sangue da vítima pingando da outra, explicou calmamente porque resolveu fazer picadinho do outro. Assim mesmo, na TV, para todo mundo ver.

No entanto foi apresentado como "suspeito" pelo assassinato, ou seja, o cara vestido a caráter para o "Massacre da Serra Elétrica" era o "suposto assassino".

Acabaram-se os culpados, os condenados irrevogavelmente, os salafrários de carteirinha, os corruptos que não podiam nem entrar num restaurante sem merecer uma vaia e uma chuva de tomates, os pilantras que serviam de exemplo para qualquer criança "não ficar igual a ele quando crescer".

Agora todo mundo é "suposto" e "suspeito", até que que se auto-flagele em praça pública, repetindo mil vezes "fui eu, fui eu", com direito a transmissão ao vivo e atestado por escrito com firma reconhecida. Até lá, não pode ser apresentado simplesmente como "o criminoso", "o assassino" ou "o corrupto".

E talvez mesmo nesses casos ainda aparece algum progressista mediano e diga "pera aí, mas o que é culpado? Isso depende do ponto de vista e da realidade antropológica do sujeito".

São os supostos cornos que o politicamente correto espalhou pela sociedade.

1 Comentário:

Luciana Rodrigues postou 27 de maio de 2013 09:21

Marcus, eu implico direto com isso. Parece que as pessoas têm medo de assumir alguma coisa. Fulano CONFESSOU que matou sicrano e ele é tratado como suspeito. Realmente não entendo, igual a foto do post. O cara tá falando, é a prova viva do crime que ele mesmo cometeu e é tratado como... suspeito. Não é de se admirar que a impunidade se baseia também nesse pressuposto: que todos são suspeitos até prova contrária, mesmo que eles sejam a própria prova. É quase uma forçação para que eles se autodeclarem inocentes, porque mesmo que confessando, ainda são suspeitos. Imagino Hitler capturado ainda vivo sendo tratado como suspeito de genocídio, assim como tantos outros diabos históricos como Stalin e Fidel Castro.

"...eu acho que só o fato de uma criança estar num Mc Donalds, esse símbolo do imperialismo estadunidense e da má alimentação, por si só já é mais criminoso do que testemunhar uma cena de acasalamento de sua própria espécie, que só é um ato obsceno na mente da classe média conservadora"." Isso é próprio desses "progressistas", que não enxergam o próprio rago, senão, não estariam no... Mc Donalds escolhendo o lanche mais caro.

 
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