Desinclusão digitalizada

Postado em 28 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius

Ler "Crepúsculo" certamente é melhor do que ser analfabeto, mas não muito. Assim como é melhor ouvir Chiclete com Banana do que ser surdo. Alguém pode argumentar que são artistas apreciados por milhões de pessoas, tudo bem, mas alguns milhões de pessoas também acreditam que o mundo deve se tornar um imenso Califado Islâmico e que todos os infiéis devem ser convertidos na base da espada, e nem por isso essa é uma boa idéia.

O Brasil comemora ano a ano o fenômeno da "inclusão digital". É um monte de gente que até outro dia achava que o monitor era o computador em si e hoje participa de redes sociais, vota em enquetes, baixa músicas, troca fotos, fala com parentes que moram longe. Obviamente esse fenômeno é apresentado como mais uma obra que faz parte da fundação do país, que na cabeça dos fãs do governo na imprensa e na população vivia na era da pedra lascada até 2003.

Mas não é bem assim. Como tudo no Brasil, essa inclusão digital tão festejada está mais para uma gambiarra, o famoso "jeitinho", do que para algo que pode ser considerado uma realidade sustentável e desejável.

Nem entro aqui no mérito do péssimo conteúdo que é gerado, acessado e replicado pelo internauta brasileiro. Correntes, piadas grosseiras, música ruim, polêmicas, sub-celebridades, transgressões de todos os tipos às leis, pedofilia, pornografia, ou seja, quase tudo que não presta. Isso é um problema educacional.

Somos um povo mal educado, com pouca bagagem cultural e que é mantido na idiotice pelos meios de comunicação de massa e pelo sistema educacional preguiçoso e ineficiente.

O problema com a tal inclusão digital é a forma como esta se deu. Uma reportagem publicada recentemente deu conta de que nada menos do que 32 milhões de brasileiros acessam a internet através de lan houses. Esse é o tamanho da desinclusão digitalizada, de gente que acessa a internet mas que está longe de poder aproveitar o que a internet realmente pode proporcionar.

Esses estabelecimentos oferecem conexão lenta, instalações precárias e com a impressionante média de 80% de clandestinidade. São lan houses de fundo de quintal, de garagem, de pequenos pontos comerciais sem alvará. Compartilham uma única conexão com vários computadores, o que torna sua velocidade bem próxima da experiência que os primeiros usuários de internet no Brasil tinham com a conexão discada.

Pra quem não viveu a época da discada uma dica: pense em sinais de fumaça.

Óbvio que elas ajudam as pessoas a pagar contas, tirar segunda via de documentos, digitalizar arquivos, elaborar e fazer cópias de currículos, consultar seu crédito, colocar as fotos da ex-namorada no "Caiu na Net", entre outras coisas. As lan houses atuam, como, por exemplo, flanelinhas ou o José Dirceu, naquela brecha gigantesca que o nosso estado sempre deixa aberta a quem quiser fazer ou usurpar o papel que seria dele.

Não defendo aqui (cruz credo!) que se criem lan houses estatais ou coisa parecida e nem que o governo ressuscite dinossauros como a Telebrás para distribuir conexão gratuita por aí. Assim como a solução para a educação não é a distribuição de cotas em universidades, a solução para a desinclusão digitalizada não é a distribuição de acesso à internet como se fosse alguma panacéia.

Nem falo dos computadores, porque hoje em dia é possível comprar um computador novo em 12 prestações de R$48,42. Falo da conexão mesmo, que ainda é cara.

É preciso infra-estrutura que barateie o serviço, concorrência, fiscalização. Se hoje qualquer cidadão pode ter um celular com linha habilitada por menos de 100 reais, isso acontece porque a concorrência nesse setor possibilitou isso. Se o governo tivesse se metido na história, teríamos filas quilométricas para o cidadão pagar 500 reais pelo seu telefone estatal subsidiado, com espera de uns 5 anos. Sem contar o gasto extra com os 10% do funcionário responsável pelo cadastramento para nos passar para a frente da fila.

Não se justifica o preço da conexão à internet no Brasil e principalmente, sua péssima qualidade. Se esta for adequada aos preços e padrões aceitáveis mundialmente, aí sim poderemos realizar a inclusão digital no país.

Porque até aqui, a única coisa que fizemos foi exportar o puxadinho pra internet.

6 Comentários:

Alberto Lozéa postou 28 de maio de 2010 10:57

Mesmo com todos os problemas que vc citou, só se encontram poetas fornecendo livros aos que querem ler. Mesmo que os livros sejam velhos, mal acabados e em alguns casos ruíns, aqueles que tem o dom para a poesia, conseguiram se desenvolver mesmo que sozinhos. O que temos ai em relação a inclusão digital não é o ideal, mas vai salvar muita gente que antes não possuia opção nenhuma!

Kash postou 28 de maio de 2010 11:13

É,eu não consigo ter uma opinião se isso é bom ou ruim.Porque é cada coisa que vejo nessa internet de meu Deus,que fico atônita.Tem gente que eu não sei o que faz nas redes sociais,juro,não tem a mínima ideia do intuito do negócio,distorce tudo...e o pior,é uma massa gigante de pessoas.Mas vaou fazer o que além de não me relacionar com elas? Nada,né.Enfim. Só um desabafo mesmo haha

@Angel_Azevedo postou 28 de maio de 2010 11:17

Gostei da abordagem do texto. Porque geralmente quando se fala dos males da inclusão digital, já se pensa nas bobagens e atrocidades que vêm sendo colocadas na rede (vide pérolas do orkut e afins), mas o verdadeiro problema é muito maior do que isso. Afinal, assim como no mundo real, no mundo virtual há muita coisa boa. E muita porcaria também. Só que enquanto a população tiver acesso somente à "falsa inclusão digital", traduzida em uma conexão lenta e cara, como é a brasileira, jamais poderá usufruir e, principalmente, riar o melhor que a internet pode oferecer.

Twittuka postou 28 de maio de 2010 11:19

Como vc memso disse, é melhor ler crepúsculo do que ser cego. O que temos é isto e temos que aproveitar da melhor maneira possível. Mas que a nossa internet é ruim e cara, isso é. Os Japoneses devem morrer de rir da nossa cara (ou de chorar)qdo se fala em conexão banda larga, já que a velocidade da nossa melhor conexão aqui equivale aos tais sinais de fumaça para eles. No mais, os outros problemas citados são fruto da falta de educação do nosso povo mesmo.

Ibraim postou 30 de maio de 2010 05:45

Um texto bastante abrangente, mas totalmente lúcido. Poderia adicionar mais críticas, sempre pode, sempre tem... Mas vou usar o momento para dar o devido mérito ao que foi escrito e a quem escreveu. Você não está sozinho "contra a correnteza", algumas delas, eu acho.

Sem mais.

Augusto postou 30 de maio de 2010 08:31

Caro Marcus, estou de acordo que a internet no Brasil é lenta e relativamente cara se comparada a países como Japão ou Coréia do Sul.
Mas, porém e outros mas isso não é culpa da suposta falta de bagagem cultural citada por vc (não vamos entrar na questão do que é cultura melhor ou pior)...
O serviço de telefonia é ruim, abrangente? É, mas ainda ruim e muito caro. Isso é o que a ANATEL diz, orgão criado para suposta fiscalização de serviço tão mal prestado não é a toa que a Oi é campeã de reclamações do PROCON.

Mas esse ano acontece um fato engraçado, o governo vai utilizar da estrutura do estado para criar uma empresa de internet, visando não atender todos os lares, mas priincipalmente criar concorrencia maior e tirar essas empresas da zona de conforto onde se encontram...
E lóóóógico muita gente se ouriçou, pq no mercado liberal aceitasse a concorrencia, mas não se for feita pelo governo a fim de beneficiar mais carentes.

Tão logo estará disponível uma internet 512 por menos de 40 reais. Certas CAPITAIS brasileiras o preço de um ponto 128 é de 140 reais. Bom ou não é? vai obrigar essas empresas a criarem estrutura e preço para atender de forma ampla, melhor e mais barata boa parcela da população, que é uma conquista ótima seja essas pessoas fãs de chiclete com banana ou "apreciadoras" de Bach

 
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