Comprando como se não existisse o amanhã

Postado em 21 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius

Normalmente eu já entro na loja andando na ponta dos pés que é pra ver se passo despercebido, mas não adianta, quando menos espero ouço a voz me surpreendendo: "Posso ajudar o Senhor?".

A resposta vem no piloto automático, esteja eu numa loja de roupas, numa sapataria, num sexshop, onde for, e quase nunca muda: "Obrigado, só estou olhando". Dessa vez era uma livraria e apesar de me ouvir dizer aquilo a mocinha continuou ali atrás de mim.

Olhei de rabo de olho e resolvi fazer um teste. Andei pra um lado, andei pro outro lado e ela me seguia como se fosse uma vendedora da Amway. Vou um pouco mais pra longe de onde ela me abordou e então resolvo encará-la mais fixamente. Dou um sorriso, ela corresponde e fala "Está procurando algum livro em especial?". OK, você venceu.

"Você por um acaso teria 'A Cabra Vadia' do Nelson Rodrigues aí?" ela responde "Nelson Rodrigues? Não, mas tem um que está saindo pra caramba, o “Diário secreto de uma ex-BBB”, da Fani, conhece? Aquela do 'U-hu Nova Iguaçu' ? ".

"Não, não conheço, mas obrigado mesmo assim".

Saio dali rapidamente antes que ela me atire algum livro do Paulo Coelho na nuca e curioso com o que teria pra contar a tal Fani, autora de tão lapidado diamante da língua portuguesa.

Quantas vezes entramos em alguma loja e somos abordados por vendedores? Uns usam essa tática pitbull que leva o cliente a pensar que vai ser linchado no estacionamento do shopping se não comprar nada.

Mas outros são mais espertos, eles nos seduzem da melhor forma que um ser humano pode ser envolvido: ouvindo mentiras a nosso respeito. Não sei se vocês já pararam pra pensar, mas eles sorriem, dizem o que queremos ouvir, a loja geralmente tem um perfume irresistível no ar que faz com que as roupas fiquem ainda mais desejáveis.

Você chega e pede pra ver o conjunto de três pares de meias que está em promoção, pretende aposentar aquelas meias furadas que a sua namorada tanto fala mal. Aí a vendedora lança a pergunta fatal "O que acha de ver umas blusas pra combinar com as meias?".

Porra, blusa pra combinar com meia? Mas antes que você diga que não ela já aparece com três camisetas na sua frente e pra sua danação uma delas é maneira pra caramba (normalmente será a mais cara das três). Você coça a cabeça pensando "Putz, essas meias vão ficar caras...", mas experimentar não custa nada, então você se dirige ao provador já pensando nas desculpas que dará pra não ter que levar nada que ultrapasse seu magro saldo bancário.

A moça aproveita que você ficou balançado pela blusa e te oferece uma calça, um tênis todo vermelho que é incrivelmente bonito e uma bermuda, afinal, ela deve pensar que você pode decidir viajar assim que sair do shopping e desse jeito nem vai precisar fazer as malas.

Experimenta item a item e gosta de tudo, mas está decidido a não ceder à tentação do consumista que mora dentro de você.

Só que a blusa que parecia maravilhosa na mão da vendedora fica melhor ainda com você dentro dela. O espelho fica repetindo "Vai chamar atenção das mulheres, hein..." e você sai dali convicto de que se não comprar aquilo nunca mais vai pegar ninguém enquanto o Corinthians não vencer uma Libertadores.

Resolve chutar o balde, mas aí lembra da fatura do cartão, da viagem que quer fazer e começa a inventar desculpas pra si mesmo até que vira pra mocinha e diz "Olha, é linda a blusa, mas eu tô quebrado esse mês".

"Mas eu posso parcelar pra você em 2 vezes no cartão e até em 4 no cheque e você ainda leva um porta-óculos para moto de brinde". A empolgação volta, você tira o talão e ainda leva um cinto de lambuja. Todos sorrindo, te oferecendo coca-cola, cafezinho e você lá, fazendo a transfusão de boa parte do seu salário atual e futuro pra conta bancária deles.

Quando sai da loja está com aquela adrenalina consumista correndo nas veias e o perfume que eles espalham no ambiente ainda está no seu nariz.

E é nessa hora que você geralmente lembra que não precisava de mais uma bermuda, que aquele par de tênis vermelho não combina com nada, que a calça vai precisar de bainha e que nem moto você tem pra usar o tal porta-óculos que te deram de brinde.

14 Comentários:

Otávio Pacheco postou 21 de maio de 2010 10:57

Olha, vivi recentemente uma história parecida, mas inversa à sua.

Estava andando no centro de SP, depois de resolver pepinos burocráticos, e procurava um pandeiro para comprar, sim, um pandeiro para tocar um chorinho, sambinha, etc.

Entrei em uma loja que tinha dois pandeiros pendurados sobre a estante de CDs, com bons preços e aparentemente bons.
Perguntei ao vendedor se ele tinha outros modelos além daqueles, quando o senhor me respondeu que somente tinha os dois expostos. Então perguntei pra ele se poderia experimentar um deles para ver se iria comprar ou não. Então tive uma resposta bastante surpreendente. Ele me olhou um tempo, olhou para os pandeiros, pensou alguns segundos e me disso:
"Ah, esses pandeiros aí é só pra vender, não dá pra tirar daí não..."
Então eu olhei os pandeiros pendurados, olhei incrédulo para o rosto do senhor, que me olhava com uma cara bem estranha e disse:
"ah tá, achei que vocês quisessem vender esses pandeiros, fazer comércio, ganhar dinheiro..."

Ele ficou mudo, olhando para a mim com cara de bunda. E eu fui embora.

charlene postou 21 de maio de 2010 11:10

hahahha
eu vi uma amiga minha lendo seu post...ela é compulsiva por comprar tenho até medo de sair com ela!!!
mas eu não sou assim...fico meia hr dizendo não pra vendedora ¬¬
não sei oq é pior aquela vendedora que não te vê dentro da loja e não sabe te ajudar..só responde sim ou não...
ou aquela que tem miiiil opções pra vc e fica no seu pé!
não achei uma perfeita até hj =P

@Angel_Azevedo postou 21 de maio de 2010 11:17

Nofundo a gente adora ser mimado...mesmo pagando caro por isso

Danilo B. postou 21 de maio de 2010 12:20

"Uma vez eu só fui usar o banheiro da loja e saí com mil reais a menos na minha conta".

Quando algum vendedor pergunta pra mim "posso ajudar?", eu respondo "sim, pegue um cafézinho pra mim com açúcar, por favor". Quando ele volta com o café, geralmente já estou saindo da loja.

Aline postou 21 de maio de 2010 12:22

Hahahahaha... adorei!!!

Desculpe o meu comentário, mas esse post parece escrito por uma mulher!!! Hahaahah... consumistas mór! É assim mesmo que acontece!!!

Mto bom! Mto bom!

Denise postou 21 de maio de 2010 12:51

ahahahahahahahahahaa!!! Meu, eu cheguei a comprar numa loja com uma vendedora exatamente do jeito que vc descreveu. Tanto que eu passo longe de lá, mas como Murphy me ama.. Estava no metrô, boiando total, de repente senta uma moça do meu lado. Continuo viajando, quando percebo, a moça estava falando comigo quando eu olho... A VENDEDORA DOIDA ahahahahaha!!! E ela falando ''vc não lembra de mim, mas eu lembro de você!! Sou a fulana da loja tal lembraaaa?.. ''vc sumiu! estou te esperando lá tá'' e bla bla bla..
Por fim eu até ri da situação depois.. ehehehehehe

Twittuka postou 21 de maio de 2010 12:51

Ri muito com esse post!!! Já vivi muitas histórias parecidas, mas uma especialmente curiosa em que quase apanhei da vendedora. Eu parei na frente da loja pra me abrigar de uma chuva repentina e a moça praticamente me obrigou a entrar na loja mesmo eu dizendo enfáticamente que tinha saído de casa sem a carteira e não iria comprar nada, me fez experimentar um monte de coisas e quando a chuva diminuiu e eu agradeci e fui embora ela queria me bater, furiosa por EU ter feito ela mostrar um monte de coisas que eu não pedi, não queria, nem sequer serviam em mim e não levar. Até hoje atravesso pro outro lado da rua quando passo em frente dessa loja.

Kátia Güttler Siqueira postou 21 de maio de 2010 12:57

Quem é que não tem uma história parecida com essa?

@brunacereja postou 21 de maio de 2010 13:01

Sou uma puta duma consumista, mas não deixo vendedor me empurrar produto não hehehe

Tadeu postou 21 de maio de 2010 13:11

Boa =)

Acho que já aconteceu com todo mundo.
Ano passado foi a minha vez, entrei pra comprar 1 tennis, sai com o tennis, camisa e cueca da adidas e uma garrafinha de agua =(

Vinicius postou 21 de maio de 2010 13:56

Muito bom o texto, é exatamente o que acontece! sempre isso! Parabéns cara, escreve muito bem!!

Anaísa postou 21 de maio de 2010 14:02

A adrenalina consumista existe!rs
é maravilhosa até o peso da consciência ficar maior!rs
amei o post
beijos

TARDE postou 21 de maio de 2010 18:15

kkkkkkkkkkkkkkkkk
sensacional este texto. Toda vez que minha mulher quer ir ao cinema me arrepio todo, pois no caminho, entre o carro e a bilheteria, tem no mínimo uma Gregory, Dunes ou Arezzo...

Arthur Alves postou 23 de maio de 2010 10:25

Cara mt bom o texto. Escreve bem pacass. Parabéns!

 
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