Touradas ou ETs canibais?

Postado em 24 de mai de 2010 / Por Marcus Vinicius

Na sexta-feira, 21 de maio, ocorreu um grave acidente com um toureiro durante uma exibição na Plaza de Toros de Las Ventas, na Espanha. Segundo o noticiário, o toureiro Julio Aparicio levou uma chifrada que "entrou por baixo da mandíbula, pelo lado direito, quando ele se levantava após ter sofrido uma queda e saiu pela boca, atravessando a língua. Ele sofreu fratura no maxilar superior, foi operado e depois levado para uma unidade de tratamento intensivo. Se encontra em condição de saúde estável, porém grave".

Depois de duas cirurgias, uma ainda na enfermaria da arena, ele foi para uma UTI e segundo afirmaram seus médicos terá uma recuperação lenta porém total e sem seqüelas. A imagem diz muita coisa, por isso resolvi colocá-la abaixo:

As touradas (Corridas de Toros) são muito populares em vários países do mundo como Portugal, México, Peru, Venezuela, Equador, Colômbia e até na França. Porém a Espanha é o mais famoso deles, ainda que lá existam entidades e pessoas contrárias à prática.

Com duração de cerca de 2 horas, uma tourada normal ocorre em sessões de mais ou menos 15 minutos, chamadas faenas, que se dividem em 3 partes: apresentação do touro e entrega da capa para o toureiro, a suerte de varas que envolve os picadores (que do alto de cavalos dão estocadas com lanças no pescoço do touro) e os banderilleros, que irão espetar 3 banderillas nas costas do animal. No terço final da faena o matador então entra na arena para enfrentar o touro sozinho, terminando com a morte do touro ou o seu indulto, caso este mostre coragem e sensibilize a platéia.

Na Espanha e nos países que tem essa tradição, as touradas são acontecimentos. Desde a roupa usada pelo toureiro, o "traje de luces", até os pasodobles executados por uma banda ao vivo, tudo é feito para provocar emoções.

É violento sim, como são violentas as lutas de boxe e vale-tudo e provocam os intintos mais básicos, causando reações que vão da euforia ao horror, todas justificadas.

Algumas pessoas acham tudo apenas um espetáculo cruel e bárbaro e é direito de cada um gostar ou não de uma tradição que envolve a matança de animais. Mas nesse caso aconselho que parem de comer churrasco e abstenham-se até mesmo de um simples sushi de churrascaria (coisas do Brasil), já que os "grupos ecológicos" também consideram muitas modalidades de pesca "cruéis", inclusive a do salmão utilizado para preparar o prato japonês.

Pronto, cheguei onde queria: nos "defensores dos animais", os "vegans", os "ecologistas", essa gente boa, amorosa e pacífica que só quer defender os direitos do miquinho, do boizinho, do golfinho (minha enteada quando tinha 5 anos achava que o nome do animal era "golfo" e o diminutivo é que era "golfinho"), revolucionando até a cadeia alimentar.

Logo que soube do acidente com o toureiro minha curiosidade mórbida me fez correr pro YouTube para assistir o vídeo. É, como dizem os espanhóis, uma cena escalofriante (e mesmo que você não fale uma palavra do idioma, concordará que é um bom termo para o que se passa ali). Porém mais arrepiantes ainda eram os comentários dos animais humanos, felizes com a chifrada que o animal bovino deu em um de seus semelhantes.

Eram coisas como "Tomara que nem morra, mas que viva aleijado pra sempre" ou então "Bem feito, tinha que levar mais chifradas", "Quem gosta disso merecia ser morto junto com a família inteira numa arena dessas" e ainda "Lindo isso, imagem maravilhosa!".

Sim. Teve gente que achou a imagem "maravilhosa". É ou não é escalofriante? E pode acrescentar "Espeluznante" também. E isso acabou me lembrando de uma história que ouvi sobre um vegan que batia boca com um carnívoro e dizia que os seres humanos são egoístas, porque "não tratam os animais como amigos, e sim como alimento" e completava "tomara que ETs canibais comam a família de todos".

Sentimento bom, né? Só falta dar as mãos pros tais ETs e cantar "We Are The World".

Não julgo aqui o direito de qualquer um gostar de touradas ou não. Acho que é algo muito pessoal. Tem safari na Africa, pesca de marlin, existe temporada de caça nos EUA, tem o espetáculo anual brasileiro onde mulheres são expostas como carne no açougue, tudo isso pode ser considerado chocante dependendo da cultura de onde a pessoa venha, mas o que parece escapar à compreensão é que uma opinião não pode ser imposta às outras.

Não interessa o que digam ecologistas e defensores de direitos dos animais, a verdade não pertence a eles. Tem coisa bem pior pelo mundo afora.

Mutilações de meninas em países africanos, assassinatos de mulheres no Afeganistão e demais países muçulmanos, repressões das mais diversas, tudo que afeta um ser humano sai dos limites da mera "tradição" de um país e passa a ter a ver com toda a humanidade.

Extinção de espécies animais também. Baleias, tartarugas, grandes felinos, todos devem ser protegidos porque podem desaparecer. Mas touros? Esses de tourada então são criados exclusivamente pra isso. Desde o momento em que entram na arena até o seu abate não se passam mais do que 15 minutos. Com tanta criança passando fome, com tantas guerras dizimando populações inteiras, doenças, crimes, com tanta coisa pra resolver por aí, eu não acho que a tradição espanhola seja uma preocupação que tenha espaço num mundo que não seja o de quem tem a cabeça na lua.

Se formos pela onda dessa gente daqui a pouco não se pode mais nem usar casaco de lã, porque imagina o dano psicológico que as ovelhas sofrem ficando carecas daquele jeito. São confundidas com o Marcelo Tas durante meses!

Mas esses comentários sobre o toureiro demonstram uma espécie de mau-caráter travestido de bondade. Quer dizer então que a pretexto da "defesa dos animais" devemos desejar que pessoas envolvidas numa tradição secular sejam "mutiladas" e que seres humanos que comem carne sejam "devorados por ETs"(Vamos fazer de conta que ignoramos a parte dos ETs)?

Resumo: comer carne de animais é ruim, muito ruim. Seres humanos sendo devorados é uma coisa boa, muito boa!

É um pensamento tão radical quanto o de um fundamentalista Talibã ou um desses comunas de butique. Aliás não é à toa que muitos vegans e defensores dos animais sejam também comunas de butique.

Lendo e ouvindo essas coisas que eles dizem acho que consigo identificar pelo menos um ponto de afinidade entre essa turma da alface e a sua comida predileta: o adubo usado na plantação provavelmente vem da cabeça deles.

13 Comentários:

http://twitter.com/SophiaJones2020 postou 24 de maio de 2010 08:41

Acho as touradas tão primitivas e idiotas quanto os rodeios.

giseli postou 24 de maio de 2010 08:55

Perfeito como sempre Marcos...parabéns pelo post :)

Daniela Pedrinha postou 24 de maio de 2010 10:26

Ahh vc não sabe que todo chato precisa se agarrar em alguma coisa e defender isso até o fim da vida como se nada mais existisse? A única verdade é a dele...

Não gosto de assistir rodeio e touradas, pela violência da coisa. Violência contra o animal e contra quem pratica o bendito "esporte". Sou humana oras, como não me compadecer da dor e sofrimento do próximo?

Mas... como sempre digo, opinião, time de futebol, religião, partido político e toda a sorte de diferença é como bunda, cada um tem a sua! Mas não me diga o que fazer com a minha..hehe!

Pati postou 24 de maio de 2010 10:33

Acho que são ideologias... Radicalistas precisam "chocar" as pessoas de algum jeito, por isso o uso da "metáfora" com os ETs e tal. Muitos radicalistas fazem apologia e não devem ser levados a sério, só isso.

LARISSA FERNANDES postou 24 de maio de 2010 11:05

Como sempre, texto muito bom e argumentos melhores ainda. Pessoalmente, não defendo nem o ser humano que se diverte com crueldades sobre os animais, e nem os animais como se fossem objetos "sagrados" e intocáveis - como defendem os "ecochatos"...rsrs. Só acho que algumas tradições ainda são muito primitivas - inclusive lutas de vale-tudo, esbanjamento de testosterona como forma de autodeterminação. O fato é que o ser humano me parece que evolui pouco e ainda vê necessidade de simbologias como esta para se manter no topo da "cadeia de poder". Chifradas em toureiros ou touro abatido, não importa. Ambos, no meu ponto de vista, estão no mesmo limiar de merecimento (causa e consequência).

Isabel postou 24 de maio de 2010 11:12

Caríssimo, matar um animal apra comer é bem diferente de matar por diversão. Como eu te disse em outra ocasião, o ser humano é o único que mata outros seres por diversão, e isso é extremamente cruel. Além disso, usar de justificativa "crianças passando fome" para não se debater a questão das touradas é demais...

mvsmotta postou 24 de maio de 2010 11:17

A questão não é "usar" um fato para tentar não discutir o outro,mas sim até onde vai o limite para as proibições que os ecochatos querem impor à sociedade.

Quem não é a favor das touradas que não vá, simples. O que não pode é o conceito de "humanidade" de uns sobrepor-se ao dos outros.

Nem mesmo dizer que a "maioria das pessoas" é contra serve como justificativa. A democracia existe justamente para isso: proteger quem tem uma posição minoritária da ditadura da turba.

E como disse, tem coisas mais importantes para nos preocuparmos do que as Corridas de Touros.

Abs

Isabel postou 24 de maio de 2010 11:25

Não é bem assim. Em qualquer democracia existem limites. Se for decidido que as touradas representam uma crueldade para os animais, elas podem vir a ser proibidas. Se o toureiro se acidenta, como no vídeo, a questão não é se divertir com isso a achar que ele mereceu. Porém, ele está lá por espontânea vontade, e sabe dos riscos. E ganha alto pra isso. O touro simplesmente foi colocado lá. É a mesma coisa de briga de galo, que é proibido em vários lugares pela violência com os animais. Se virasse moda torturar gato na rua, vc também iria ser o primeiro a defender os gatinhos e virar um ecochato de primeira. É muito fácil taxar as pessoas de chatas por defenderem causas que não são as suas. São causas válidas sim.
Beijos

mvsmotta postou 24 de maio de 2010 11:27

Esses touros são criados pra isso. Se não existissem as touradas, provavelmente os "toros de lídia" nem existissem mais também.

É diferente de pegar animais na rua e torturar.

E quando eu for à Espanha faço questão de assistir a uma corrida em Las Ventas. ;)

Beijos

Isabel postou 24 de maio de 2010 11:33

Ué... Não entendi a diferença entre touros criados para isso e os outros... Eles sentem menos dor?
¬¬

Pode ser até que eu te acompanhe na tourada, visto que não terei muita escapatória... E já sabe por quem estarei torcendo, né? hahaha

@Angel_Azevedo postou 25 de maio de 2010 06:26

Penso que, independente de ser uma tradição, as touradas são, sim, episódios de crueldade. Obviamente o argumento dos "ETs" é ridículo, mas não pode ser levado como o símbolo do pensamento de todas as instituições sérias que defendem a proteção aos animais.
Assim como diversos exemplos históricos mencionados no texto, as touradas também têm que ser repensadas, uma vez que não se justificam nos dias atuais.

Twittuka postou 25 de maio de 2010 06:46

Touradas são uma tradição tão estúpida qto muitas outras que tem por aí. Estúpida por se maltratar e matar um animal só por diversão, nem sequer aproveitam a carne do bicho pra alimentar ninguém, e estúpida pelos acidentes, sempre graves, com os "humanos" que se divertem com isso. Não acho graça nenhuma, nem na morte do touro, nem na desgraça do toureiro. Perdem todos.

Jubarulho postou 25 de maio de 2010 19:47

Primeiro de tudo, gostaria de lembrar nós somos animais carnívoros. Temos enzimas digestivas para este fim e dentes caninos. O vegetarianismo é opção, consciente ou não.

Porém, a crueldade, seja ela direcionada ao que quer que seja (seres humanos, animais, muros, patrimônios) é uma vergonha. Sendo ela uma tradição cultural ou não.

Por fim, a questão de prioridade é muito pessoal. Temos outros problemas? Sim. Cada um começa por onde pode.

Eu acho que um erro não justifica o outro e um problema não diminui a importância de outro.

Não é por termos crianças passando fome que a crueldade de touradas tem que ser deixada pra depois.

Eu penso que devemos estar abertos para discutir todos os problemas, mesmo não sendo prioridade no meu ponto de vista. Quem sabe assim não consigamos resolver UM.

Já é um a menos...

 
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