Vá ao teatro, mas não me chame

Postado em 8 de mar de 2012 / Por Marcus Vinicius

Se tem uma coisa que dá medo é a frase "precisamos conversar". Depois dela, só mesmo "a gente podia sair pra dançar, né?" e logo em seguida, pelo menos para mim, é "vamos ao teatro?".

Sei que é quase um sacrilégio admitir isso, afinal, qualquer pessoa descolada, intelectualizada et al não deve dizer jamais tal coisa em público, mas sei lá, precisei compartilhar. Pior ainda é o fato de ser fã de Nelson Rodrigues, gênio que se confunde com o teatro, mas de quem eu, particularmente, gosto mesmo é das crônicas.

Mas se algo me redime é o fato do próprio Nelson fazer piada com o teatro em seus textos, quando dizia, por exemplo, que a platéia era basicamente composta de senhoras gordas com sacos de pipoca na mão, e que o tal "teatro moderno" ainda ia fazer um ator espirrar o sangue de um bife na cara do espectador, só para provocar emoções.

O que sei é que não acho muito legal as vozes empostadas, os gestos exagerados, as limitações do cenário (esqueçamos a Broadway  e algumas superproduções com seus efeitos especiais), aquela coisa meio caravana cigana que os próprios atores adoram. Outra coisa são aquelas interpretações livres, capazes de bolar uma montagem porno-escatológica da Branca de Neve.


 Tudo isso tem até o meu total respeito, mas sinceramente, me incomoda.

Causa um pouco de vergonha alheia assistir uma pessoa representando quase qualquer peça. A maquiagem, as caras e bocas, enfim, a menos que seja comédia - onde não só é permitido, como desejável, cair na gargalhada - eu fico meio desconfortável com Romeus, Julietas e Tios Vânias.

A comédia, aliás, é um capítulo a parte, já que conheço pessoas que dizem adorar teatro, mas que só vão mesmo assistir comédias (algumas, as mais estúpidas possíveis), afinal, com tanta coisa pra importar dos Estados Unidos, resolveram trazer logo o politicamente correto e o stand up comedy.

Claro que já assisti várias peças. Alguns musicais, alguns dramas e até algumas comédias. E em algum momento da apresentação eu até curti, mas sempre fazendo aquele esforço para dissociar o fato de que tudo aquilo representado ali seria muito mais realista, interessante e divertido se fosse no cinema.

E cheguei finalmente onde queria: pra mim, ainda que gente muito mais entendida diga que isso é bobagem, o cinema acabou com a graça do teatro. É como ouvir novelas no rádio depois que inventaram a TV.

Não resolvi contar isso tudo pra dizer que sou contra o teatro, que acho que o teatro deva acabar e nem que faço parte de uma parte da população geneticamente superior àquela que gosta de teatro, o objetivo é, talvez, fazer um apelo aos fãs da "nobre arte":

- Vá ao teatro, mas não me chame. Sério, por favor.

Não é que eu tenha aversão nem nada disso, pode ser até que eu me divirta, mas aposto que você consegue pensar em outra coisa melhor pra me chamar, como uma visita ao Museu do Cotonete ou um passeio pelo centro de Duque de Caxias, por exemplo.

1 Comentário:

Isabel postou 12 de março de 2012 13:03

Existem peças boas e ruins, assim como os filmes. E dependendo da peça e dos atores, uma apresentação pode ser diferente da outra, se souberem improvisar e aproveitar fotos do cotidiano para acrescentar algo de diferente. Mas, certamente, algumas peças são roubada, e fica mais difícil sair de fininho sem ser notado do que de uma sala de cinema.

 
Template Contra a Correnteza ® - Design por Vitor Leite Camilo