Se a vida passasse num filme nacional

Postado em 24 de mai de 2012 / Por Marcus Vinicius

Desde a época do "Bye Bye Brasil" até o tempo da retomada dos anos 90, sempre achei que se alguma reforma ortográfica eliminasse o "porra" e o "caralho" da língua portuguesa, o cinema brasileiro não conseguiria produzir 15 minutos de filme sequer.

Afinal de contas ficaria meio difícil escrever um roteiro só com "putaqueparius".

Imagine como seria no mínimo estranho se a vida passasse num filme nacional:

- Me dá meia dúzia de pães, porra!

- 2 reais, seu merda!

Eu sei perfeitamente como todo mundo fala palavrão o dia inteiro (quer dizer, quase todo mundo), mas nosso cinema cria um universo paralelo onde até um padre no meio da Missa pode virar de repente uma Dercy Gonçalves.

Quem mora num país distante - no Nepal, por exemplo - e assiste um filme brasileiro, vai ter algumas idéias estranhas sobre o país. Primeiro, vai pensar que todas as mulheres daqui têm nome de drag queen ou de personagem de núcleo pobre da novela das oito, tipo Britney Carla, Kellyane, Pamela Suellen ou Daiane Carla.

Depois vai achar que, seja rico ou seja pobre, todo brasileiro invariavelmente tem mau gosto e se comporta como um bicheiro de botequim num subúrbio da Leopoldina, com cordões de ouro e palitos de dente na boca enquanto fala. 


Se não for isso, com certeza será um desses novos ricos que bebe licor em xícara de cafezinho levantando o dedo e tem uma esposa perua que vive pra cima e pra baixo com uma poodle rosa chamado "bijú".

Outra coisa que o confuso nepalês vai ter certeza é de que todo o país gira em torno de uma favela. Desde o Eike Batista até o João Borracheiro, todos têm algum assunto para resolver ali. Seja comer o melhor pastel da cidade, consertar o carro, procurar namorada ou jogar uma sinuquinha, a favela é o lugar para se estar.

Se a vida passasse num filme nacional, em torno de 5% da população trabalharia num botequim, 5% passaria o dia em escritórios tomando whisky enquanto o dinheiro flui naturalmente para suas contas bancárias e os outros 90% estariam indo ou voltando da praia.

Se vivesse num filme brasileiro, você também encontraria todas as pessoas que conheceu no curso da sua vida no mesmo vagão de um trem da Central, ainda que estas pessoas fossem seu patrão que mora na Barra, seu primo que mora em Muriaé e sua namorada, que está fazendo intercâmbio nos EUA e passeando de trem da Central nas horas vagas.

A tomar pelos nossos filmes, um nepalês, indiano ou sueco possivelmente também acharia que o Brasil é um gigantesco elevador ou consultório de dentista, tocando chorinho como som ambiente o dia inteiro.

São tantos clichês bananenses, que posso até imaginar um desses gringos chegando no aeroporto pra conhecer o país depois de aprender o comportamento dos nativos através desses filmes:

- Um táxi, Senhor?

- Senhor é o caralho! Meu nome agora é Zé Pequeno!

3 Comentários:

Luiz Fernando postou 22 de maio de 2012 11:47

Não deixa de ser curioso notar que no cinema nacional eles carregam nos palavrões, mas nas dublagens e legendagens de filmes gringos ocorre o oposto, onde 90% de todos os "fuck" e demais palavrões são omitidos ou "suavizados".

Também tem lá sua graça ver que nos filmes gringos o Brasil é retratado como um país de festa, belas paisagens, mulheres de biquini e lindas praias enquanto no cinema nacional o que predomina é a vida bandida com guerra do tráfico nas favelas e bandido de bermudão e havaianas carregando um fuzil.

Lex Oliver postou 23 de maio de 2012 23:03

Certamente, ambas as visões, tanto a do gringo, como a do cidadão brasileiro são dispares!!! São duas realidades totalmente distintas, e o mais interessante é que uma parcela das pessoas vive tanto uma, como outra!!! Mas a realidade ideal, ainda estamos longe de alcançar!!!

Flávia Dias postou 28 de maio de 2012 22:33

kkkkk... pior que é viu... Fiquei aqui pensando em um gringo falando"-Senhor é o caralho!Meu nome agora é Zé Pequeno" ri muuito!

 
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