A gente vivia bem assim

Postado em 18 de set de 2012 / Por Marcus Vinicius

Você consegue lembrar o que fazia com seu tempo livre e suas horas de tédio antes da existência da internet?

Minha sobrinha, nascida já no mundo pós-rede, uma vez me perguntou:

- Tio, é verdade que tinha uma época em que não existia internet?

E eu:

- É sim, meu amor, não tinha nem internet, nem celular e nem TV a cabo.

- Minha nossa, como vocês conseguiam viver?

O espanto dela é, talvez, muito parecido com o que eu experimentava quando me contavam que houve uma época em que as pessoas se reuniam em volta do rádio, porque não existia TV e provavelmente tenha sido o mesmo que essa turma do rádio sentiu quando descobriu que houve tempo em que não existia eletricidade.

Antes que eu chegue em alguém se espantando porque houve um tempo em que não existia a roda e nem o fogo, deixe-me seguir adiante.

A partir da pergunta da minha sobrinha, comecei a lembrar como passávamos nosso tempo. Eu e meus amigos nos reuníamos na casa um do outro e fazíamos coisas tão anacrônicas quanto ouvir discos, escrever coisas, ver filmes no vídeo-cassete e até conversar uns com os outros sem ser em alguma janela do computador.


Conseguíamos a proeza de varar uma noite inteira vendo revistas de rock e de mulher pelada (lógico) ou simplesmente falando bobagens, como todo mundo parece que só faz hoje numa mesa de bar.

Hoje em dia ninguém precisa ter um adolescente em casa para ver como eles se comunicam, basta ir num shopping center qualquer para ver um monte de jovens reunidos em torno de uma mesa...digitando coisas nos seus celulares! Ninguém olha direito a cara de ninguém, todos permanecem fixados nas telas e talvez até conversem por ali.

Tiram foto da comida, contam no Twitter ou Facebook com quem estão, trocam idéias com algum amigo que mora no Japão, deixando para conversar com os amigos que estão ali na mesma mesa talvez para quando estiverem no Japão visitando o que está lá.

E toda essa realidade gera essa nostalgia dos tempos em que não existia internet que cada vez se faz mais presente e se mostra mais forte. Nos EUA grupos de amigos criaram uma brincadeira: colocam o telefone numa cesta na mesa do bar e o primeiro que não resistir e for lá pegar o aparelho para aquela checada no email, paga a rodada.

Filmes mostram toda hora um mundo pós-apocalíptico, onde pessoas sem celulares e sem a internet precisam manter contato umas com as outras forçadamente, como única forma de sobrevivência.

Mais e mais pessoas falam da saudade que sentem em trocar cartas, em receber visitas, em conversar com alguém olhando nos olhos. Ao que parece, é o senso de sobrevivência evitando que a humanidade pereça em meio a solitários em seus quartos fazendo sexo virtual e, consequentemente, não fazendo filhos.

Pode ser também que a quantidade de imbecilidade que circula na rede nos traz essa saudade do tempo em que não sabíamos que a humanidade inteira pode ser tão idiota quanto o seu primo ou o vizinho de baixo.

Sei que é exagero, mas uma foto de Lisboa, uma relato sobre Lisboa, um vídeo pelas ruas de Lisboa jamais vai substituir a sensação de estar em Lisboa.

E o mundo inteiro, Lisboa, Paris, Rio, São Paulo e a sua própria esquina, estão logo ali, basta você desligar o computador, abrir a porta e olhar para fora.

Acredite: a gente conseguia viver bem assim.

1 Comentário:

Isabel postou 18 de setembro de 2012 14:37

Que bom que vc está começando a perceber como é chato ficar na mesa de um restaurante com o outro com a cara enfiada no celular. :)

 
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