Algumas razões da proatividade ser mais valorizada do que realmente merece

Postado em 25 de set de 2012 / Por Marcus Vinicius

Proatividade é uma bosta.

Pronto, confessei. E hoje em dia não apreciar alguém proativo é praticamente um pecado mesmo, isso é tão valorizado que classificados de emprego geralmente trazem expressões como "desejável perfil proativo" ou "selecionamos pessoas proativas".

Só que tirando o cansaço que dá só de observar aquele sujeito que completa um relatório enquanto fala com o cliente ao telefone, vai assinando as três vias de um recibo dos Correios, coloca um documento para imprimir, despacha o cliente, levanta da mesa antes que a impressora termine o serviço e na volta ainda te pergunta se quer um cafezinho, a proatividade pode levar a pessoa mais bem intencionada do mundo a fazer enormes cagadas.

Vamos analisar alguns casos que certamente surgiram a partir deste mal que assola a humanidade como, por exemplo, aquela sua namorada que para te impressionar resolve arrumar a sua casa e te faz passar duas horas procurando o meião do Vasco que morava em cima do seu ventilador há 2 anos.

E o pior é que você nem pode ficar puto com ela, já que:

1) Ela fez de boa vontade.
2) Você não quer que ela comece a chorar na sua frente te chamando de coisas como grosso, insensível e troglodita ridículo de pinto pequeno.
3) Lugar de meia não é mesmo em cima do ventilador.

Só que a sua desarrumação era algo meticuloso, um ambiente inóspito para um visitante mas onde você se encontrava perfeitamente. Uma selva em que você era o rei.

Aquele caos era uma obra criada por meses e meses de negligência, ausência de uma faxineira e preguiça de tirar suas camisas das maçanetas das portas, suas cuecas de cima da televisão e aquele livro do Raymond Carver que você nunca terminou de ler do alto da sua geladeira.

Tudo isso destruído por alguém que ao invés de ficar curtindo um ócio resolveu "tomar a iniciativa".

Mas fosse só isso, a proatividade nem seria tão ruim e talvez pudesse ser enquadrada na mesma categoria do falar cutucando, fazer a piada do "pavê ou pacomê" ou repassar correntes por email. O problema é que o buraco é bem mais embaixo e certas coisas podem colocar a proatividade facilmente ao lado de bombas nucleares, ciclones e novas atrações da Record e da RedeTV.


Por exemplo, aquele integrante da sua banda preferida de heavy metal que teve a brilhante idéia de dar uma guinada na carreira deles e investir numa fusão heavy-pop-polca-baião é um sujeito proativo.

O gênio que achou uma boa idéia colocar limão na Coca-Cola e laranja no Guaraná não era proativo, mas o cara que resolveu transformar isso em regra a ponto de você ter que ajoelhar num restaurante e dizer com voz de desespero "sem limão, por favor, eu imploro!", esse era.

Tem vários casos. Vamos pensar num banheiro masculino. O lugar já normalmente já é sujo e mal cheiroso naturalmente, mas algum proativo pensou: "vou colocar bolinhas de naftalina no mictório!". Sei que deve haver alguma explicação científica, alguma interação química entre a amônia e o mata-baratas que cause algum benefício, mas a única coisa que consigo sentir é que o cheiro fica pior.

O máximo que aquilo serve é pro sujeito ficar brincando de acertar as bolinhas enquanto mija. Só. Mais ou menos como o gelo no mictório, que já me explicaram que "reduz o odor", mas pra mim continua sendo apenas urina on the rocks mesmo.

E o bacon na pipoca? Começou como uma opção, tipo colocar leite condensado, mas como tudo que é inventado por algum proativo, virou regra. Hoje em dia é impossível comprar uma simples pipoca salgada na rua sem que venha com uma feijoada de brinde, só faltam colocar um grupo tocando chorinho e te oferecerem cachaça pra acompanhar.

Mas de todos os proativos, nenhum supera aquele que trabalha contigo.

Você está há 5 horas numa reunião sobre fluxo de caixa e investimentos futuros da filial acreana da sua empresa. As pessoas ainda não almoçaram, a voz do palestrante começa a ficar pastosa como se o cara tivesse comido sucrilhos com Rivotril no café da manhã, você já usou todo seu estoque de frases feitas para fingir interesse, desde "vamos otimizar os custos" até "esse fluxo de caixa é vida loka total!".

O cafezinho acabou, alguns colegas estão roendo a borda do copo de plástico, outros jogando Bejeweled com o celular escondido embaixo da mesa e você, já em estado de pré-hipnose, tem certeza que viu soldados nazistas guardando a porta de saída.

Aí quando o palestrante finalmente diz aquela frase que faz o ar voltar aos seus pulmões, o sangue correr mais forte em suas veias, dançarinas suecas flutuarem no ar e o mundo parecer de novo um bom lugar para se viver, que é "então, pessoal, por hoje é só", o seu colega proativo vira e diz:

- Por que a gente pelo menos não começa a analisar os gráficos de Manaus logo e já deixa isso adiantado?

E nesse momento a única coisa que salva o cara é a existência dessa coisa chata chamada Código Penal.

1 Comentário:

Luciana postou 25 de setembro de 2012 10:44

Fui dar uma de proativa com um namorado. Fiz exatamente o que diz o texto: fui arrumar suas coisas.

Levei um belo pé na bunda.

Fim.

 
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