Arara no bafo

Postado em 25 de mar de 2011 / Por Marcus Vinicius

No final do ano eu fui num almoço de confraternização -daqueles em que todo mundo que se detesta o ano inteiro finge que foi tomado pelo espírito de Natal só pra comer de graça - realizado numa dessas churrascarias que cobram o rodízio em arrobas de boi gordo.

Acostumado com praças de alimentação e restaurantes a quilo, confesso que cheguei lá munido da mais prosaica das ambições: várias fatias de picanha sangrando, daquelas que você espeta o garfo e ouve o boi mugindo.

Só que depois que os pãezinhos de queijo regulamentares foram embora, os garçons começaram uma espécie de safari gastronômico.

- Uma fatia de picanha de javali, Senhor?

- Aceita um quitute de avestruz?

- Essas coxas de marreco estão especiais, o Senhor deseja provar?

- Capivara?

De uma hora pra outra eu achei que estava no Serengueti e que a qualquer momento me ofereceriam iscas de Leopardo ou Babuíno a passarinho. O que aconteceu com as coxas de frango,  os corações de galinha e a picanha maturada argentina? Viraram coadjuvantes.

Soube que já existem churrascarias finas que servem jacaré e tatu. Não confirmei a informação, mas não duvido.


Foi difícil não lembrar daquelas reportagens sobre a China e seus espetos de escorpião e sopas de inseto que passavam durante a Olimpíada de 2008. A diferença talvez seja que lá isso é hábito, aqui é excentricidade.

No meio do almoço, já rindo daquela profusão de excentricidades, resolvi entrar na brincadeira e dar uma sacaneada no garçon. Mas antes que eu perguntasse se tinha caldo de arraia eles interromperam meu almoço pedindo gentilmente que eu fosse embora.

Calma, não me expulsaram literalmente de lá, mas todo mundo sabe o código para quando querem que a gente vá embora do restaurante, né? É mais ou menos quando chegam perto de você e perguntam "O Senhor deseja mais alguma carne em especial?".

É uma senha para dizer: "E aí? Vamos pagar a conta e liberar a mesa?".

Respondi:

- Vocês tem arara no bafo?

E ele:

- Como?

- Arara no bafo, é uma delícia, comi lá em São Paulo.

- Por enquanto não temos, mas vou falar com o gerente e na próxima vez que o Senhor vier talvez já tenhamos alguma novidade.

Pobres das araras...

4 Comentários:

Mônica postou 25 de março de 2011 10:47

Achei muito bom
Acho que a ultima vez que fui numa churrascaria foi na comemoração da minha primeira comunhão...
Faz MUITO tempo.
Lembro que até virei vegetariana depois, mas essas coisas não duram muito tempo quando o seu pai faz churrasco todo o domingo e vem com aquele pedacinho de costela gritando pra ser comida.

Tuka Siqueira postou 25 de março de 2011 11:02

O brabo é os caras acharem que "arara no bafo" é matar os bichinhos com o bafão de cachaça e servir cru com pena e tudo. Isso sim seria bem exótico!
Mas a tal picanha de boi mugindo me deu água na boca!
Beijos

Maysa postou 25 de março de 2011 17:35

Marcus, esta picanha maturatta eu como todo sábado e quem faz é meu filho de 29 anos. Chef? Ele é mais do que isso. É muito sangue francês para regar a manteiga e não deixar a carne dar água...
Ainda te convido rsrsrsrs
Excelente texto pra gozar a cara dos restaurantes que andam piorando cada vez mais...
O bom eu como em casa!!!
Beijos
Angela

Bruno Cruz postou 28 de março de 2011 09:38

"...várias fatias de picanha sangrando, daquelas que você espeta o garfo e ouve o boi mugindo."

Cara, isso deu até água na boca...

Você já comeu carne de lagarto, o réptil? Pois vou te dizer: não sei quanto às araras, mas lagarto é ótimo! Ainda mais morto no sítio pelo seu tio a pauladas e assado na churrasqueira. Hmm... Delícia...

 
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