Os problemas de comunicação inerentes às refeições

Postado em 30 de out de 2012 / Por Marcus Vinicius


Todos os conflitos que o homem cria poderiam ser resolvidos caso não houvessem tantos problemas de comunicação.  Tudo bem, talvez nem todos, mas a grande maioria deles.

Quando quis castigar os homens no Gênesis, O Criador resolveu fazer com que todos falassem línguas diferentes, assim os homens jamais poderiam se entender novamente. Tudo bem que depois ele aliviou o castigo e permitiu a proliferação dos CCAAs, Brasas e Culturas Inglesas, mas pro ser humano não se achar espertinho demais outra vez, ele também criou o mau entendedor.

O mau entendedor pode falar o mesmo idioma do seu interlocutor e ainda assim a comunicação será tão truncada quanto se um falasse farsi e o outro gaélico irlandês. 

Nos casos menos graves a pessoa não consegue pescar uma ironia, um sarcasmo, uma piada sutil ou mesmo uma figura de linguagem, daí se alguém diz:

- Nossa, minha mãe ficou com um nó na garganta no show do Roberto Carlos.

O idiota responde:

- Sua mãe se enforcou por causa do Roberto Carlos?

E ainda faz aquela cara de espanto que só os palermas têm.

Só que nem sempre são exageros assim que entram para a enciclopédia dos problemas de comunicação, tente pedir uma Coca-Cola sem limão para ver como eu estou falando a verdade.

O limão na Coca-Cola pra mim faz tanto sentido quanto colocar queijo parmesão na Coca-Cola ou colocar uma batata frita na Coca-Cola, mas por alguma estranha razão isso virou regra e hoje você praticamente precisa implorar para não vir um limão de brinde.

- E para beber?

- Uma Coca, por favor.

- Com gelo e limão?

- Não, só com gelo, por gentileza.

- Só limão? - Note aqui que a presença do limão virou uma regra tão forte que o sujeito acha melhor tirar o gelo, se for para tirar alguma coisa.

- Não, chefia, só com o gelo e sem o limão.

- Prefere então uma laranja? - Sim, agora é a laranja que inventaram para o guaraná que entra em campo.

Nesse momento você já está ajoelhado no chão do restaurante, fazendo uma mímica de talibã rezando misturada com dança da chuva:

- Não, meu amigo, eu te juro por tudo nesse mundo que só quero mesmo uma Coca-Cola com gelo e nada mais.

- Tá bom, tá bom, já entendi. Uma Coca só com gelo.

E dali a cinco minutos chega a sua Coca-Cola. Com limão. E sem gelo.

Acontece o mesmo com as azeitonas na pizza e a salada no sanduíche  "Sem azeitona" e "sem salada" parecem se transformar em "azeitonas extra, por favor" e "com bastante salada" no ouvido do garçom.

O problema é que a comunicação nunca te favorece, mesmo quando você quer pedir para acrescentar algo e não tirar.


Sei que redes de fast-food são conhecidas pela padronização e que, hoje em dia, até serviços considerados mais "personalizados" envolvem uma certa produção em série que faz as porções serem praticamente idênticas e o gosto dos produtos ser o mesmo no Rio de Janeiro e em Trípoli.

Também sei que os atendentes falam todos com aquela linguagem robotizada "Boa noite, Senhor, seja bem vindo, obrigado, um bom lanche" que parece esconder algo como "morra, maldito consumidor de junk-food". 

Todos treinados para falar igual, se comportar igual e te servir do mesmo jeito, mas, porra, custa caprichar no sundae?

Não adianta chegar num Mc Donald's e oferecer propina, favores sexuais ou mesmo ameaçar o atendente com uma pistola d'água, que você jamais conseguirá um sundae diferente do sujeito que veio imediatamente antes de você ou do que virá imediatamente após.

- Capricha nesse sundae, aí, hein, meu chapa - Nesse momento você apela para a simpatia e para aquele sentimento de "atendente de botequim" que pode estar escondido debaixo daquele uniforme e do bonezinho com um "M" amarelo bordado.

- O Senhor vai querer qual sabor?

- Caramelo, mas pô, dá uma incrementada nessa calda aí, tudo bem?

Sem nem olhar na sua cara ele continua:

- Com ou sem amendoim?

- Com bastante amendoim, coloca aí uma quantidade imoral de amendoim, por favor.

Já te entregando o sundae:

- Boa tarde e um bom lanche, Senhor.

E quando você olha, vê o mesmo sundae que viria caso tivesse chegado ali chamando ele de filho da puta, só que sem o cuspe.

Finalmente tem a questão do preço. Tudo tem seu preço, claro, mas nem sempre o preço combina com o que seria o valor real do produto. Se você estiver no meio do deserto e quiserem te vender uma lata de Soda Limonada por 50 reais, provavelmente você achará o preço justo perante a situação, mas numa praia de uma cidade pesqueira te cobrarem 200 reais por um peixe, cria aquele mal estar no estilo "estou sendo feito de babaca".

Você até tenta argumentar, dar uma melhorada, mas nessas horas a comunicação dificilmente ajuda:

- Quanto é a anchova?

- 200.

- Posso parcelar no carnê?

-...

- Sério, se eu pagar em dinheiro você não diminui isso?

- 200 é no dinheiro, meu amigo, eu só aceito dinheiro.

- Porra, mas 200 reais por um peixe? Vem com um jet-ski de brinde?

- Alugando um jet-ski sai tudo por 300. E aí? Vai querer?

Chega a ser incrível como esse casamento do ouvido de mercador com o desejo do consumidor dá tão certo.

Menos pra você, é claro.

4 Comentários:

wifail postou 30 de outubro de 2012 14:19

Pode crer. Como diz a frase que ja ficou na memória dos internautas "a ignorancia é uma benção", todos ja estam bem abençoados.

Muito bom seu post. Parabéns. (:

Pascoa Moterle postou 31 de outubro de 2012 05:24

Muito bem escrito e ilustrado. Divertido. Deixa a gente pensando.

Bernardo postou 31 de outubro de 2012 20:02

Pq vc acha que todos devem pagar o mesmo preço no sundae, mas vc deveria ganhar um sundae mais incrementado? Só pq vc deu um sorriso e fingiu ser o grande "parcero" do atendente? Acho que vc foi enganado pelos comerciais de pasta de dente.

mvsmotta postou 31 de outubro de 2012 20:06

Bernardo,

Acho que você tem um ponto aí.

Abraços,

Marcus

 
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