Um pouco mais cinzas, é verdade, mas ainda por aqui

Postado em 25 de out de 2012 / Por Marcus Vinicius

A noite é uma criança, mas envelhece também.

Olhando a frente de uma velha casa de shows numa sexta-feira qualquer, pude perceber isso com a dor de uma picada de abelha: o tempo passa até para mim.

Quando cruzamos a fronteira dos 16 anos, um mundo diferente se abre para nós. Começamos a descobrir que saídas, bebedeiras, beijos em semi-desconhecidos, ambientes esfumaçados, luzes piscantes e ressacas no dia seguinte fazem parte de um jeito diferente de se divertir.

Tudo é novo e, por mais que o tempo passe e você enjoe um pouco da brincadeira, tudo continuará sendo novo com o passar dos anos, menos você. Uma porta de boate, com pernas de fora e garrafas de cerveja na mão, será sempre uma porta de boate.

A batida da música, o cheiro de vômito do banheiro, a gostosinha do bar, o DJ que teima em tocar músicas que não dizem nada sobre sua vida, tudo isso vai te acompanhar até que você  resolva sossegar ao lado de alguém e ser pai (ou mãe) de alguém.

Mas a noite vai continuar ali, no mesmo lugar em que você a deixou, até que um show de um artista que anda lançando mais "Os Melhores de" do que inéditos - ou o revival de alguma festa que você frequentava - proporcione o reencontro.


Costumava brincar que a gente só fica realmente velho quando nossas bandas favoritas tocam mais em programas de flash back do que em lançamentos. Mas isso não é uma verdade assim tão incontestável.

Atualmente qualquer coisa com mais de um ano já é flash back, então é o público que curte determinada música que vai determinar a real idade dela. Se você chega num lugar onde está rolando um "Back to the 2000's" e vê um monte de gente dessa geração das bandas coloridas, com certeza ninguém ali estará bebendo nostalgia junto com goles de Sex On The Beach. Digo isso porque na semana seguinte todos estarão ali de volta para alguma "Back to the 2005's".

E essa foi, então, a grande diferença que eu vi enquanto observava o movimento naquela sexta-feira. Topetes, tatuagens, roupas loucas e comportadas, saltos altos, cabelos coloridos, mini-saias, a sensação de algo fervendo por cima e por baixo, de que tudo pode acontecer.

Só que, observando com mais atenção, também vi cabelos grisalhos no meio dos topetes, tatuagens já meio esverdeadas pelo tempo, roupas loucas que hoje já são consideradas comportadas e algumas comportadas que agora só são usadas pelos loucos, uma marca do tempo aqui, alguém falando sobre ter deixado os filhos com a avó ali, todo mundo igual, mas de certa forma totalmente diferente.

Não nos veríamos na sexta seguinte, não teríamos outra ressaca num sábado aleatório, estávamos ali para durante uma noite poder ser de novo quem sempre fomos. Não mais funcionários, chefes, pais, mães, tios, gente responsável e toda essa baboseira que a vida vai jogando em cima das pessoas, mas apenas nós mesmos.

Bêbados, loucos, galinhas, complexados, apaixonados, tarados, drogados, dançando, pulando, cantando velhas canções que hoje dizem muito sobre nossa vida porque estiveram ao nosso lado enquanto vivíamos, cheios de saudade e com aquela sensação de opressão que um passado vivo nos cobre.

Uma máquina do tempo, com tempo marcado para voltar ao presente.

Mas naquele momento, música alta, fumaça, luzes, gritos e abraços, somos livres de novo, eternamente jovens, cumprindo a promessa de não permitir que a festa termine.

Um pouco mais cinzas, é verdade, mas ainda por aqui.

2 Comentários:

Anônimo postou 31 de outubro de 2012 19:47

Marcus, cheguei a pensar em grafar seu nome como Marcos, imaginando se o "O" vindo -pela natural ordem- antes do "U" passaria, por si, minha mensagem, frente a mais um dos seus maravilhosos textos. Diria nas entrelinhas e pela simples substituição das letrinhas que às vezes basta mudar o ordem das coisas e já damos uma grande de uma rasteira no tempo. Pela sagacidade e leveza de seus escritos, voce jamais será apenas "cinza". Só acompanho 2 únicos blogs e um é o seu. Parabéns!

mvsmotta postou 31 de outubro de 2012 19:58

Poxa, fiquei curioso para saber quem é você.

Um abraço e obrigado!

Marcus

 
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