Filhos que são amigos, amigos que são filhos

Postado em 30 de mai de 2011 / Por Marcus Vinicius

Sempre soube de histórias de pessoas que acabam sendo "adotadas" pelos novos companheiros do pai ou da mãe. Na minha família mesmo conheço vários casos. Tios, tias, avós, que um belo dia conheceram alguém que trazia junto o famoso "pacotinho" e no final das contas abriam suas vidas para recebê-los.

Também lembro que achava isso lindo, uma espécie de altruísmo inatingível, algo digno de aplausos e considerações, afinal, nossa mente é e sempre será povoada por histórias de madrastas malvadas e padrastos bêbados que tratam a casa inteira pior do que Judas no Sábado de Aleluia.

Pra mim essas pessoas eram especiais.

Mas a verdade é que conhecer alguém que já tem filhos e receber esta pequena família como parte de um todo não é nada demais, é apenas o que qualquer pessoa normal faria.

Ainda que faltem momentos de intimidade - em tanta quantidade nos outros casais sem filhos - uma mulher que já é mãe nos mostra como valorizar os poucos momentos de intimidade possíveis.

Ela não deixa de ser mulher, de desejar coisas de mulher. Muitas vezes quer casar novamente, ser mãe novamente, só que - diferente daquelas que têm todo o tempo do mundo para a relação, mas pouco tempo restante para realizar estes sonhos de ser esposa e mãe - ela chega com calma e nos convida a construir algo que já tem fundações, alicerces e um projeto que precisa ser terminado.


Chega e nos convida a entrar numa família semi-pronta e terminá-la juntos. Sem pressa, sem angústias, com aquele passo seguro que só quem "já esteve lá" pode ter.

Ela não deixa de ser menina, não deixa de ter o seu "eu", mas como também traz junto de si um outro "euzinho" menor, frágil, dependente, ela geralmente foge com mais delicadeza do egoísmo daquelas que não precisam se preocupar com outro umbigo além do seu.

E como não amar este pequeno "eu" que se aproxima de nós e torna-se também nosso a cada dia? Como não segurar uma criança no colo, levá-la sobre nossos ombros, colocá-la para dormir, dar comida na boca, aturar malcriações, receber sorrisos, beijos e abraços e ainda assim não se apaixonar perdidamente?

Costumo dizer que no início nós buscamos gostar da criança porque ela é "filha da namorada", mas em pouco tempo - e ainda que não deixe de ser o "filho da namorada" ou a "filha do namorado", tanto faz - construímos uma relação nossa, independente da figura materna-paterna que nos apresentou àquele pequeno ser humano.

Nosso amor, nossa amizade, nosso carinho, nossas saudades, nossos segredos, passam a ser particulares e não tem mais nada a ver com o fato de sermos companheiros dos seus pais.

Finalmente, eles viram também nossos filhos. Sim, ainda que sem carga genética, são filhos por escolha, por convivência, são filhos por compartilharem sua infância conosco, seus sonhos.

São, sim, nossos amigos. E como alguém pode ser considerado especial só porque ama amigos que viram filhos, mas que não deixam de ser amigos?

Especiais são eles. Para nós.

12 Comentários:

Tuka Siqueira postou 29 de maio de 2011 21:29

Seja bem vindo ao mundo dos que amam sem explicação, dos que amam alguém que não lhe dá muito em troca, exceto uns sorrisos doces, uns abraços totalmente espontâneos e desinteressados e alguns beijos com a boca melecada de algo que é melhor nem querer saber o que. Filhos que se tornam amigos, ou amigos que se tornam filhos...quem se importa? São seres amados e ponto.

Abraços

Marcelo Jr. postou 29 de maio de 2011 22:07

Tá mais que provado que o amor é construido independende de herança genética, apenas com vinculo social, algo como nosso cérebro entende que a importancia daquela pessoa esta fora do DNA. Isso é incrível e uma das mais fascinantes demostrações da nossa mente,é o "cuidar" da nossa espécie. Belo post !

Isabel postou 30 de maio de 2011 08:22

Puxa, que surpresa esse texto (e essa linda foto, que me lembro perfeitamente o momento em que foi tirada). E lembro também do dia em que minha mãe perguntou pra Laura quem era o seu melhor amigo. E qual foi a surpresa dela ao ouvir não o nome de um coleguinha do colégio, e sim "o Marcus", rss.
Muitos beijos...

jujureis_ postou 30 de maio de 2011 09:14

Lindo texto... SEM MAIS.

**Wendy** postou 30 de maio de 2011 10:27

Fico ternamente emocionada com pessoas que "adotam" a vida de seus respectivos namorados com todos os sabores e dessabores que isso implica.

Tbm vivo uma vida assim: tenho um namorado que ama meu filho e que tbm tem filho.

Essa modernidade que poderia assustar e constrói vidas novas.

Obrigada pelo texto.

mvsmotta postou 30 de maio de 2011 11:05

iGOR BdA deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Filhos que são amigos, amigos que são filhos": 

É o famoso ofício de "TAPA BURACO". Obrigado, mas rejeito-o respeitosamente. 


Caro Igor,

Acho que você precisa urgentemente rever conceitos e pontos de vista.

Como pode haver "buraco" para "tapar" onde só existe amor de sobra?

Torço para que o buraco esteja apenas nessa sua forma de pensar, já que assim, diferente do cérebro, ainda existirá esperança pra você.

Um abraço,

Marcus 

Ninon postou 30 de maio de 2011 11:51

Sempre achei essa uma situação no mínimo complicada, mas assumo que depois do seu texto, vou rever meus conceitos, inclusive sobre você, meu amigo que pra ser sincera, já estava te achando um "mal-amado", depois de tantos post (senão a maioria) na base da reclamação. Na verdade, quando iniciei a leitura deste, era exatamente o que eu NÃO esperava!!! Fiquei realmente feliz com ele!!!

E como disse minha amiga Tuka, bem vindo aos que amam sem explicação!!!

Linda a menina da foto!!

Adriana Lima postou 30 de maio de 2011 12:05

Faz um tempo que não comento seus posts, mas esse texto merece um grande obrigada de minha parte. Sou uma mãe separada que sempre ouviu somente os aspectos negativos de se tentar um novo relacionamento, e o ponto de vista que você mostra em seu texto é muito bonito. Belo post!

@lucabral87 postou 30 de maio de 2011 14:30

Lindo texto! É deste tipo de amor que precisamos.
Um amor sincero, incondicional, sem limites! Apenas os nobres viverão este tipo de amor.
Admiro a todos que compartilham deste pensamento, pois ele é para poucos. E sou feliz por testemunhar um destes.

Lucianna

Marise postou 1 de junho de 2011 07:18

Que texto lindo!Estou chorando que nem uma boba, pois acompanhei de perto este amor construído, que de certa forma veio para mim também, na forma de uma netinha "emprestada".
No começo de tudo eu disse: você nunca será o pai genético desta menininha, mas poderá ser o amigo escolhido. Poderá ter o amor construído. Não errei!
Amo vocês! Incondicionalmente!
beijos

Vanessa C. postou 1 de junho de 2011 21:16

Olá, Marcus.
Não posso deixar de manifestar minha surpresa ao ler esse post. É a primeira vez que não vi ironia ou deboche ( por favor, não se ofenda) em suas palavras. Antes mesmo que eu terminasse de ler pensei: - Está amando. Acho que de certo modo acertei. Sobre o que você escreveu concordei em vários aspectos. Eu não tenho filhos, mas imagino o quanto a vida é difícil para uma criança, filha de pais separados. Ela não tem culpa alguma. Ela simplesmente veio ao mundo como todos nós, para amar e ser amada. Infelizmente o egoísmo é muito grande no nosso mundo, o que não deixa as pessoas tirarem seus olhos do próprio umbigo. E neste sentido acho que independe se a mulher tem filhos ou não. Não acho que a mulher que já tem filhos é menos egoísta justamente porque é mãe.Já notei que as pessoas criam um tabu com mães. É como se as mulheres se tornassem melhores porque viraram mães. Até hoje nunca vi ninguém mudar( melhorar) um milímetro porque se tornou mãe. Olha que falo de pessoas bem próximas que continuam a mesmíssima coisa. Mas tudo bem Marcus, acho que entendi onde você queria chegar.O sentimento que você expressou é maravilhoso.Eu amo os filhos dos meus amigos, ainda que não tenha tanto contato e por isso o entendo. Só cuidado com esteriótipos que costumam fazer com mulher que não é mãe. Beijos

mvsmotta postou 1 de junho de 2011 22:48

Dona Marise,

Só Deus sabe como o meu amor por você é incondicional.

Beijos!

 
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