Tudo o que você queria ser

Postado em 26 de jul de 2012 / Por Marcus Vinicius

O cinema certamente é uma das maiores diversões do mundo, ajuda a fugir da realidade, relaxa, distrai e, principalmente, é uma excelente solução para sair na companhia de um chato, já que você passa duas horas com ele, mas sem os assuntos dele.

Só que o cinema também traz problemas, como carteirinhas de estudante falsificadas, grupos de adolescentes de férias aos berros e aquela sensação que às vezes dá de que você será capaz de reproduzir na sua vida o que acabou de ver na tela.

Podem me chamar de machista (apesar de que não sou, ainda mais porque quero distância de qualquer coisa que envolva a palavra "macho"), mas as mulheres são mais susceptíveis a achar que poderão viver algum romance ou comédia romântica nas suas vidas do que homens a pensar que realmente um dia se tornarão o Rambo.

Por isso mesmo é tão fácil encontrar uma querendo fazer tipo. Como bancar aquela durona que conserta carro, pinta cerca, troca encanamento, não precisa de homem pra nada, joga bola, arrota, fala palavrão, igual aquelas mocinhas dos filmes do Vin Diesel. O problema é que nos filmes quando tiram o macacão cheio de graxa, elas são geralmente beldades dignas da capa da Vogue, e na vida real, bem, ela é você.

Não troca nem uma lâmpada, vive com saudade daquele ex-namorado que você terminou e depois se arrependeu e tem mais nojinho de graxa e lama do que um dos pôneis malditos.

Outro tipo que faz o maior sucesso é a excêntrica. Aquela nerd de óculos de aro grosso, que sabe tudo de programação ou então uma maluquinha que pinta quadros impressionistas em bisnagas de pão (estilo aqueles filmes de início de carreira do Leonardo DiCaprio ou alguma das personagens de "Garota Interrompida").

É sensível, diferente, meio feinha, cheia de trejeitos e tremiliques e que acredita na possibilidade real de um apocalipse zumbi ou invasão alienígena. Ela e só ela consegue ver alguma beleza naquele esquisito que filma formigas no pátio do colégio ou da faculdade.

Um magrelo estranho com cartola do Mágico de Oz, calça listrada de pijama e aparência de Jack Skellington.


Os dois se conhecem e iniciam um daqueles romances onde sobem em árvores para declarar amor a um grilo, bebem Grapette com dois canudos na mesma garrafa e escrevem poesias com carvão numa estátua de elefante na praça da pequena cidade onde moram.

Quando se revelam (ou sejam, tiram a roupa), ela é linda e gostosa, ele é lindo e gostoso e os dois são felizes para sempre mesmo com suas famílias sabe-se lá porque não aceitando aquele amor, já que não existe outra forma de um daqueles dois esquisitos desencalharem.

Bem, na realidade tanto você quando ele seriam apenas os góticos estranhos do colégio, já teriam caído na friendzone faz tempo e passariam os sábados jogando Playstation e comendo Cheetos.

O último tipo é um híbrido de dois muito parecidos: a malvada que fica boazinha e a boazinha idiota que fica esperta e vira uma destruidora de corações. Tanto um, quanto outro tão impossíveis de acontecer na vida real quanto seu namorado realmente descobrir que é o Rambo.

Uma é má, daquelas más de história infantil. Pisa na cabeça dos colegas de trabalho, trai o marido, ignora sinais vermelhos, sonega impostos, maltrata a secretária e tem um santuário dedicado ao Darth Vader escondido no armário.

De repente, seja por alguma epifania durante a visão de criancinhas brincando no parque, por alguma coisa que alguém diga e toque fundo naquele coração de pedra ou por medo de ir pra cadeia mesmo, a megera vira o Ghandi, promove a secretária e passa até a doar dinheiro para caridade.

O que acontece na vida real é que, se você for a secretária que acredita que conversões cinematográficas acontecem na vida real, é melhor não esquecer de buscar a roupa na lavanderia, senão vai levar 20 chibatadas no final do expediente e nem aquele cartãozinho do Smilingüido que você deixou na mesa dela de manhã vai te salvar.

Agora, se você for uma bobalhona achando que vai entrar para academia, tomar um banho de loja, ter lições de "como enlouquecer um homem só com o olhar e uma mordidinha nos lábios" e assim pisar naquele cara que sempre te ignorou e te tratou como se fosse um boneco do Ronald Mc Donald, esqueça.

É provável que você desista da academia depois de suas semanas, se afunde em dívidas no cartão, só compre roupas que depois não vai usar e que pensem que você está tendo um ataque epilético já que sua idéia de olhar sensual é piscar somente um olho enquanto enrola a língua tentando lamber os lábios e morder ao mesmo tempo.

E ainda que você consiga se tornar linda, gostosa, charmosa e vire pro sujeito e diga:

- Viu? Estou sensacional e você que me desprezou a vida toda? Como está?

Está arriscado ouvir como resposta:

- Eu ganhei na loteria e estou milionário.

É justamente por essas e outras que geralmente os filmes trazem aquele aviso no final: não tente fazer isso em casa.

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