Não ser chato é ser especial

Postado em 31 de jul de 2012 / Por Marcus Vinicius

Li numa revista que um professor nos Estados Unidos causou a maior sensação durante uma formatura no Ensino Médio. E não precisou acender um baseado durante o discurso, nem mostrar que estava nu debaixo da beca ou mostrar uma foto da Scarlett Johansson pelada num projetor gigante, a única coisa que ele precisou fazer foi dizer: vocês não são especiais.

Isso mesmo, "vocês não são especiais". Pode parecer bobagem, mas nesses dias de hoje falar isso para um bando de adolescentes é quase o mesmo que dizer "vocês são especiais", sei lá, para os passageiros enlatados em um ônibus de qualquer cidade grande do Brasil, ou seja, praticamente impossível de acreditar.

Nesses tempos de internet, com suas redes sociais, todo mundo só mostra o que quer (o que não difere muito do vizinho que vive de aparência, só que nesse caso é tudo em escala maior). Todo mundo chama todo mundo de bonito, inteligente, engraçado, interessante, sempre na esperança de ser chamado de tudo isso de volta. É a recíproca da conversa fiada tomando forma de obrigação social, quase como troca de presentes.

Como bem disse o tal professor em seu discurso, os adolescentes de hoje passam a vida ouvindo como são especiais, únicos, os melhores. Os pais (e talvez até o resto da sociedade) compensa a falta de tempo para prestar atenção no que eles dizem com elogios.

- Mãe, estou chateada, discuti com a Soninha...

- Minha filha, estou ocupada agora, mas tenho certeza que foi porque a Soninha morre de inveja da sua beleza, inteligência e charme.

- Mas, mãe, a gente porque eu joguei o gato dela na piscina...

- Ah filha, você teve um bom motivo e aposto que o gato também tem inveja de você.

- Mas o gato morreu.

- Ela compra outro, agora deixa eu ir pra academia.


Vivemos numa ditadura do pensamento positivo, da auto-estima, do bom humor, que termina criando pessoas incapazes de entender onde estão seus limites (a auto-ajuda dirá "não existem limites!", bom, tente imitar o Pica-Pau e descer as Cataratas do Niagara num barril pra conferir como é a vida fora de um desenho animado).

Não existe mais o "não posso", "não quero", "não sei" ou "tô puto pra cacete porque meu dia está uma merda". Atualmente tem gente que não sabe nem mais responder a um simples "tudo bem?" apenas com um "tudo", não, precisam dizer "tudo ÓTIMO!".

Ora, faça-me um favor! Tudo "ótimo" mesmo só pode estar talvez em um ou dois dias no ano. Três se você ganhar na loteria ou descobrir que vai dar uma volta ao mundo de primeira classe de graça, mas sempre? Tudo ótimo? Desculpe, não acredito.

Se você diz que uma festa está ruim, você é que não sabe ver o lado bom. Se você diz que está cansado, é desanimado. Se não gosta de alguma música, é crítico demais. Se está de saco cheio da sua rotina, é porque "não consegue ver a beleza de um metrô lotado, um almoço num restaurante a quilo lotado e uma planilha de Excel pelo resto do dia".

E talvez por isso todo mundo se sinta tão especial e ensine seus filhos a se sentir assim também.

Vamos esclarecer uma coisa: você é especial para um punhado de pessoas no mundo que pode ser contado nos dedos da mão. Para o resto você pode ser útil, comível, aproveitável, divertido ou simplesmente "OK". Essa é a verdade.

E ser "OK" é uma grande coisa, se você pensar que pode ser mala, cretino, canalha, calhorda, imbecil, idiota ou simplesmente chato. Porque na falta de beleza, meu amigo, esqueça seu objetivo de ser inteligente ou especial, tente apenas não ser chato.

Conhecer seus limites e saber que não é especial em tudo e para todos é bom. Você não abandona as coisas pela metade ao primeiro sinal de crítica, não se assusta com a quantidade de fracassos do jogo de perde-perde-perde-empata-perde-ganha-perde-perde-empata que é a vida e não se espanta quando descobrir que não é interessante para 90% das pessoas do mundo, porque, não se engane, você não é.

Por isso mesmo, antes de ser Miss Universo, de tentar ganhar um Nobel ou um Pulitzer, de aparecer no BBB ou num programa sobre gente bizarra no Multishow, antes de estrelar uma peça na Broadway ou de achar que é o novo Camões dos poemas de pé quebrado, lembre-se de uma coisa: tente não ser chato.

Não ser chato. Esse é o target.

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