Eu fui, todo mundo não foi

Postado em 2 de ago de 2012 / Por Marcus Vinicius

Nem tudo o que dizemos é o que queremos dizer. O melhor exemplo disso é quando chamamos alguém de "filho da puta".

Ora, nesse momento você pode ter a intenção de dizer qualquer coisa. Que o sujeito é um cretino, um canalha, um calhorda, um caloteiro e para não ficar só em adjetivos iniciados pela letra "c", vacilão, sacripanta, ordinário, imagine qualquer coisa, e quase tudo vai caber no "filho da puta".

Só o que não cabe é um insulto à progenitora do indivíduo em questão. Jamais queremos falar algo sobre a mãe do cara e isso é um fato tão certo quanto o dele provavelmente ser mesmo um filho da puta. Seja xingando o juiz no estádio, lendo notícias do Congresso, nunca uma senhorinha fazendo crochê ou bolo de chocolate é a ofendida, mas sempre o filho dela.

Mas essa não é a única coisa que falamos sem pensar bem no significado (ou com outra intenção bem diferente do que o significado possui). Não estou falando de figuras de linguagem mais explícitas tipo "fica frio" ou "não esquenta", mas de frases que, levadas ao pé da letra, nos fazem parecer meio malucos.

Duas delas que sempre me deixam com vontade de rir são "todo mundo vai" e "não tem ninguém aqui".

Quando ouço alguém dizer "todo mundo vai", é impossível não pensar "vai o cara, o único amigo dele, um estranho que não tinha o que fazer e viu o evento no Facebook e o resto das pessoas da rua que nem sabem quem ele é".

Porque o "todo mundo", ainda que não queira dizer  "todas as pessoas do mundo", não consegue nem mesmo chegar perto de todas as pessoas que você conhece.

Digo isso não em tom de reclamação, mas até de alívio, porque já se imaginou junto com o pessoal da república da sua faculdade, do seu ensaio do coral na Igreja, da sua antiga turma de escoteiros, a galera do surf, suas tias, suas avós, aquele sujeito que te zuava no colégio, o jornaleiro, o seu barbeiro, a depiladora que faz sua sobrancelha sem ninguém saber e mais todas as pessoas do seu mundo reunidas num só lugar, numa festa?

Só a imagem de um skatista com a cueca aparecendo chamando sua tia pra dançar ao som do coral já serve para desestimular qualquer simpatia pela experiência. Não tem como e nem por que "todo mundo" ir num lugar. Pro seu bem.

O outro termo engraçado é o "não tem ninguém aqui".


Digamos que você saia numa sexta-feira e vá para um bar. Você chega lá e não encontra nenhum conhecido, mas pelo menos um garçom vai estar ali, o que já elimina o "ninguém". Mas OK, sabemos que quando a gente diz isso queremos dizer "não tem ninguém que eu conheça aqui", só que ainda assim (e apesar da conotação que sempre damos) isso não é de todo ruim.

Se não tem "ninguém conhecido" no lugar, pelo menos o seu chefe não está ali. Nem a sua sogra. Nem aquele sujeito que te zuava no colégio. Não ter ninguém conhecido ali elimina seu vizinho chato, o zelador do seu prédio que vive reclamando do lixo que jogam fora da lixeira, aquele coroa que vai no seu barbeiro sempre que você está lá e assobia "Voa Canarinho Voa" e músicas do Molejo durante todo o processo em que faz barba, cabelo e bigode.

Não ter ninguém ali elimina o pessoal que só fala de novela o tempo todo. Elimina também gente que só fala de política o tempo todo, ou de futebol, ou papos cabeça, enfim, elimina todos os chatos que você conhece.

Além disso, esse fato faz com que todas as pessoas que estão ali sejam, pelo menos teoricamente, novas. Não tem ex-namorada, ex-amigo e nem aquele seu velho amigo skatista e ex-maconheiro que agora virou cantor de sertanejo universitário e vive te convidando pra participar de uma roda de violão com os sucessos de Chitãozinho e Xororó em ritmo de axé.

Só quem te enche o saco e pode estar ali é aquela operadora de telemarketing que liga todo sábado de manhã com uma incrível oferta do cartão Visa.

Mas aí não tem problema, porque você não vai conseguir reconhecê-la já que nunca viu sua cara e, de mais a mais, não tem ninguém ali mesmo, você está sozinho, vai que ela é gatinha...

1 Comentário:

Anônimo postou 3 de agosto de 2012 14:00

Vai que ela é gatinha e não use os gerundismos pessoalmente, só pelo telefone...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

 
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