Argentina, tango, Freud e a verdade

Postado em 14 de ago de 2012 / Por Marcus Vinicius

A Argentina é o país com o maior número de psicanalistas por habitante do mundo. Não sei bem o que isso quer dizer sobre o país do tango (talvez ser o país do tango diga muito), mas achei uma boa frase para começar um texto.

Dizem por aí que tem coisa que só Freud explica, o que além de ser verdade, ainda me ajuda a encaixar aqui a frase inicial sobre psicanalistas argentinos que é uma beleza.

E uma dessas coisas que só Freud explica é a obsessão que as pessoas desenvolveram ao longo dos séculos pelo conceito de "verdade". Veja, não estou falando de mentir sobre tudo o tempo todo, ou então de falar mentiras cabeludas, mas sobre a fixação que certas pessoas têm por dizer coisas desagradáveis só porque acham que têm obrigação de falar qualquer sentença que venha na cabeça.

Você pode dizer que um amigo seu está "acima do peso" se ele te perguntar, mas chegar do nada e mandar, aos berros, no meio da rua algo como "nooooossaaaaaa como você tá gorrrrrrrrrrrrrdo!" é escroto, ainda que o sujeito esteja pesando 100 quilos.

Falar, por exemplo, que o trabalho do outro está "uma merda", a menos que você seja o chefe e esteja pagando, é algo dito para fazer muito mais bem ao seu ego do que ao seu amigo que teoricamente "precisa saber da verdade". E é nesse ponto que Freud entra: eu vejo um tremendo egoísmo na verdade.

Falo isso porque outro dia estava pensando nessas pessoas que sentam com o marido (ou esposa) e resolvem colocar tudo em "pratos limpos" (taí outra expressão que nunca entendi, já que sempre que falam isso vai rolar mesmo é roupa suja).


O casal vive bem (de mentira), em paz (de mentira) e em certa harmonia apesar do monte de problemas que a rotina traz (isso é verdade). Tudo dentro daquele equilíbrio que só a convivência e a intimidade podem trazer.

De repente, um dos dois resolve que precisa "tirar aquele peso das costas" (e transferir para as costas da outra pessoa), "falar a verdade doa a quem doer" (melhor que doa no outro), enfim, todas essas frases que geralmente acompanham alguma grande revelação.

Aí começam aqueles diálogos rodrigueanos:

- Precisamos conversar...

- Dá pra esperar acabar o jogo?

- Não, tem que ser agora.

- Mas o que seria tão urgente que não pode esperar o Brasil cobrar o último pênalti na final da Copa do Mundo?

- É que te traí.

- Beleza, se o Ganso fizer esse pênalti eu te perdôo por ter saído por aí aforando ele com outra pessoa.

- Esse trocadilho foi uma merda.

- Eu sei, mas me deixa só ver esse pênalti?

- O Matias não é seu filho.

- É filho de quem? do Ganso?

- Tô falando sério.

- Mas eu pensei que a gente vivesse bem.

- É, mas eu te traio há uns 10 anos e não aguento mais essa pressão na minha cabeça, não aguento mais viver numa mentira, prefiro falar logo toda a verdade, acho que vai ser melhor pra nós dois.

- Se vai ser melhor porque eu estou me sentindo pior do que há uns 5 minutos?

- Bom, eu precisava dizer a verdade, estou aliviada.

- Que bom que foi legal pra você, porque eu preferiria que não saber de nada disso.

- E viver uma mentira?

- Putaquepariu,

- O que foi?

- Ele perdeu o pênalti!

- E você levou bola nas costas.

- Esse trocadilho foi pior.

- Eu sei.

Numa situação dessas, o que menos interessa é a verdade. A pessoa quer é se sentir bem e jogar o o problema pra cima do outro, "toma aí que é teu". E isso, talvez, só Freud explique.

Por essas e outras é que eu digo: a verdade pode ser um tremendo gol contra.

E sim, esse trocadilho também foi bem ruim.

3 Comentários:

Brunna Paese postou 14 de agosto de 2012 13:06

Excelente texto, mas vejo que o problema não está em dizer a verdade, mas viver uma mentira. Se tudo sai bem e certo, ela não vai causar constragimento ou virar um peso. Certo?

mvsmotta postou 14 de agosto de 2012 13:12

Pode ser, mas...se a verdade dói, fique tranquilo em mentir pra mim. :P

Hehehe.

Abraços!

Willians postou 26 de agosto de 2012 14:18

Esse é um dos meus maiores problemas. Adoro falar a verdade, mesmo que seja, admito, só pra machucar as pessoas. Tenho um certo prazer em magoar as pessoas com a verdade. Não sei se isso é recalque, só sei que tenho esse prazer e não tenho vontade de mudar.

 
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