Casados, mas cada um na sua casa

Postado em 30 de mar de 2010 / Por Marcus Vinicius

Faz um tempinho eu li uma reportagem contando que o diretor de cinema Tim Burton e sua esposa, Helena Bonham Carter, embora casadíssimos moram em casas separadas.

Bem, na verdade não tão separadas assim, eles compraram três casas e as interligaram, uma para cada um e uma terceira para os filhos, que moram com uma babá. Eles se referem à tal divisão como "territórios separados".

Segundo declarou Helena, "Eu falo, ele ronca. Além disso, meu marido sofre de insônia, por isso tem ver TV até dormir, ao passo que eu preciso de silêncio". Além do que, eles contam, as casas tem decorações bem diferentes, cada uma ao estilo do seu "dono".

Estranho, né? Nem tanto.

Na minha opinião o maior problema disso aí é o financeiro. Duas casas, dois condomínios, dois IPTUs, conta de luz, água, telefone, etc. Mas isso é um problema para pobres mortais, não para o Tim Burton, apesar de saber que o conceito "casados, mas cada um na sua" não está restrito a ricos e excêntricos. Pobres, malucos e torcedores do Botafogo também podem querer isso perfeitamente.

E tirando esses obstáculos pecuniários, só vejo alegria nessa solução.

Primeiro porque para dormir junto e fazer sexo ninguém precisa morar na mesma casa, dorme quando quer, transam quando ambos querem. Filhos? Aposto que adorariam a idéia de uma TV em cada sala. Depois porque assim como falou a esposa do Tim Burton, as pessoas tem hábitos e gostos diferentes e isso não precisa necessariamente mudar só porque casaram.

Um dorme tarde demais, o outro acorda com as galinhas. Um gosta de paredes escuras, o outro de cores berrantes. Um ouve som alto demais, o outro prefere música ambiente de consultório dentário. Se o dinheiro permitir, porque não morar, por exemplo, em apartamentos geminados?

Coloca-se uma daquelas portas duplas que encontramos em quartos de hotel, cada um abre ou fecha a sua e pronto.

Porque todo mundo tem seus dias de mau humor, de TPM, de Galvão Bueno e o outro não precisa ficar esbarrando na nossa chatice o tempo todo dentro de casa. Quando estão na boa, um convida o outro pra jantar, pra ver DVD na sua "casa". Quando estão de xarope, fica cada um na sua e com a porta fechada.

Se pensarmos bem, é uma evolução dos "dois banheiros", que já era uma evolução das "duas pias".

Cada um tem seu ritmo, seu jeito e nem por isso ama menos o outro, pelo contrário, desse jeito o amor pode até crescer, já que saudade é um bom elemento nisso tudo.

Eu ia adorar não precisar esconder minha coleção de cachimbos, continuar a ter móveis que mais parecem do meu avô e escutar Kiss no último volume. Ela, bem, poderia fazer até reuniões da Amway em casa se quisesse, porque não me incomodaria em nada.

Quase todo casado reclama bastante da tal "convivência". O que seria isso? Bem, "convivência" é aturar toalha molhada em cima da cama, calcinha pendurada na torneira, aquela fruteira horrorosa que alguma tia deu de presente no casamento, o Jornal Nacional e a novela das 8. Convivência é esbarrar no mesmo corredor 2, 3 vezes por dia. Todo dia.

Morando em casas separadas porém no mesmo andar, uma ao lado da outra ou uma em cima da outra, você tem dois corredores, duas TVs, dois quartos, duas toalhas molhadas, só não é de bom tom duas cuecas ou calcinhas, porque aí já vira relação aberta e isso é papo para outro dia.

Desse jeito, a gente se esbarra quando quer, mais ou menos como acontece num namoro, e não dizem também que o maior segredo dos casamentos longevos é "tratarem-se como eternos namorados"? Pois é, esta seria uma bela mãozinha.

12 Comentários:

Maria Amora postou 30 de março de 2010 10:56

Roberto e Rita Lee moram em apto separados, um em cima do outro. Conversavam horas pelo telefone...
A idéia é ótima, mas cá prá nós, acho que só depois de um tempo juntinhos é que dá para se separar geograficamente.
Na verdade, tive 2 casamentos grudados, um de 8, outro de 25 anos e não aprendí nada sobre isso. Bom mesmo é ser completamente livre, sem casamento algum. Mas como saber disso se não experimentarmos as grades?

Denise postou 30 de março de 2010 11:06

Eu sempre pensei assim! Principalmente porque sou uma individualista de carteirinha. Talvez por ser filha única e sempre ter tudo meu. Meu quarto, meu som, meu computador, meu guarda-roupas, e até mesmo meu banheiro. E sinceramente, assumo: não sei se conseguiria dividir tudo com alguém todos os dias. (provavelmente não.) Adoro ficar sozinha em vez em quando, e preciso disso.
Também acho que um relacionamento em casas separadas é mais interessante pelo fato de vc não ser obrigado a conviver com os defeitos daquela pessoa (e vice-versa claro). Não adianta. No começo de namoro tudo é lindo, mas aos poucos os defeitos vem, e o que é algo sem importância pra mim, pode ser um porre pra ele por ex. E viva as duas casas.. :P

Diana postou 30 de março de 2010 11:07

Declaradamente Botafoguense, pobre e nada normal, não podia me omitir frente à tema tão instigante. A defesa pelos "casados, mas cada um na sua casa" foi brilhante, reconheço, mas não podemos esquecer da velha necessidade que temos de partilhar todos os nossos preciosos predicados e pensamentos com o "ser amado", mesmo que nesse pacote entrem coisas desagradáveis como roncos e TPM...Só assim podemos realmente conjugar o verbo "AMAMOS". É na convivência diária - e até indesejada de algumas vezes.- que crescemos como pessoas, pois aprendemos a respeitar o espaço do outro, mesmo quando também estamos precisando desse pedacinho de espaço para respirar e dá bons gritos. Aceitar imperfeições e saber-se aceito apesar delas é um grande passo rumo à sabedoria da vida.
"Que seja eterno..." já disseram. E vale lembrar que boa parte dos "casados e na mesma casa" já vivem espiritualmente separados desde sempre.
Aproveito para me declarar fã -recente- desse espaço.
Diana.

Ana Maria postou 30 de março de 2010 11:57

Hoje achei que vc optou pelo caminho mais fácil... Juntos mas separados é a saída para quem não sabe conviver. Estar junto requer convivência com as diferenças e com as "chatices" sim, sem isso, não tem sentido constituir família... que namorem eternamente! E você passou um pco superficialmente sobre os filhos que moram com a babá!!! se os pais que tiveram um modelo diferente já não suportam suas diferenças, pense nos flhos que nunca vão experimentar conviver com o diferente. Se for possível estar com quem queremos apenas qdo queremos, ou qdo eles são simpáticos, românticos, bacanas, o que fazer com quem temos que conviver sem querer? escritórios separados, linhas de produção separadas... aiaiai... num mundo tão já separado...

Ana Maria postou 30 de março de 2010 11:59

Há! Claro, espero que vc não goste só de quem concorda...rsrsrsrs

jacqueline postou 30 de março de 2010 14:10

Eu concordo em parte..acho que a partir do momento que vc escolhe uma pessoa ,não é pra dividir ,e sim compartilhar.Nos momentos mais estressantes é que um precisa do outro,na hora que estou de tpm ,é que eu mais quero carinho..Acho que quem quer um espaço só pra sí,deve ficar namorando mesmo.A convivência é sempre difícil,seja com o marido,com a mãe,irmãos..por isso um eterno aprendizado,onde se vive experiências desgastantes, as mesmas q nos fazem crescer como pessoas.Eu concordo que os dois lados tem que praticar o exercício do respeito.Acho que tem que haver um acordo entre o que eu gosto e o que o outro gosta..Aquela velha história do.. "meu direito começa,onde termina o seu"..e quanto ao ronco do marido..nada que uma bucha de algodão não resolva..eu que o diga!

Guto Senra postou 30 de março de 2010 17:55

Um casal vive junto sob o mesmo teto, qualquer outra coisa fora isso é pura enganação.

@silvanark postou 30 de março de 2010 17:56

Gostei do post. Mais: sou adepta da idéia. Vc parece ter lido alguns dos meus pensamentos. Digo sempre que dois banheiros, então, é essencial para um bom (e duradouro) relacionamento. Não posso deixar de observar que, mesmo ao dizer verdades óbvias, vc nunca é óbvio. Seus posts me divertem... para dizer o mínimo. Beijo.

Luana Bernardes postou 2 de abril de 2010 06:41

Encontrei o meu ideal de vida! Só falta encontrar um marido que tope esse estilo alternativo de relação.
Parabéns pelo texto! :)

Jubarulho postou 15 de abril de 2010 14:02

Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar... Acho que não devemos enquandrar ninguém. Cada um vive o que é melhor pra si. Viver junto nos faz aprender a respeitar o espaço do outro? Sim. Educação vinda de berço tb, não precisa casar pra aprender isso.
Aliás, não precisa morar junto pra amar. O amor não tem limite, pode ser junto, separado, sexo diferente, mesmo sexo, mesma idade, mais velho, mais novo...
Eu quero casar e morar junto, apesar de tb ser filha única, mas, se eu mudar de ideia, mudo de casa tb, sem problemas!

A única coisa que um casal precisa para viver bem é sintonia, se ambos estão felizes do jeito que vivem, seja como for, tá valendo!

Anônimo postou 18 de abril de 2010 20:21

Na realidade isso é uma coisa bem normal. E lógico tudo isso depende do casal. Eu mesma tenho um relacionamento que pouca gente aprovaria ou entenderia,quando vizinhos de apartamento nos viamos 3 vezes por semana. Hoje passamos praticamente em nossas outras duas casas, os hospitais.Quando casados, ambos já sabemos nossas rotinas e que mesmo que morassemos no mesmo espaço fisico, teriamos uma casa pra cada um pois os horários não batem. De qualquer forma, com duas casas ou não, é importante o respeito e a individualidade.

@luabr postou 30 de maio de 2012 08:44

Faz sentido e é conveniente.
Mas a convivência diária com o outro ajuda-nos a aprender e praticar a tolerância, a paciência e a coletividade. Afinal, ninguém vive completamente só.

 
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