Faço coro: não doe nada para as ONGs

Postado em 31 de mar de 2010 / Por Marcus Vinicius

Calma! Não comece a me tratar como se eu fosse um vendedor da Sinaf querendo te passar um plano funerário na sua festa de aniversário. Sei que existem algumas - poucas - ONGs que são sérias e que dependem de ajuda para fazer seus trabalhos, mas não sejamos inocentes em acreditar que todas são, porque senão vou te oferecer um excelente negócio com um herdeiro nigeriano.

Lendo um excelente artigo do professor Demétrio Magnoli, no qual ele jogava uma luz sobre a real situação da miséria no Haiti e exortava quem lesse para que não doasse dinheiro àquele país, porque este numerário fatalmente cairia no buraco negro das ONGs, eu percebi como essas entidades muitas vezes obscuras alimentam-se da pobreza global para existir.

Não é uma afirmação insensível essa, apesar de parecer assim de primeira. Podemos dizer que as ONGs só existem porque existe pobreza, mas será mesmo que essas entidades, algumas milionárias, querem mesmo erradicar o que lhes dá sustento?

Destaco um trecho do artigo do professor Demétrio sobre o Haiti que me parece primordial para o entendimento do problema que são as ONGs:

"O dinheiro arrecadado não chegará nunca às pessoas que perderam o quase nada que tinham. Será desviado para financiar os intermediários entre o mundo e o devastado país caribenho: as ONGs internacionais, às vezes associadas à diminuta, cleptocrática elite haitiana. Já era assim antes do terremoto (...) o Haiti é um protetorado da ONU governado pelas ONGs. Obviamente, existem ONGs bem-intencionadas, mas não é esse o ponto (...) as pessoas não têm direitos, a não ser o de aguardar na fila até que o funcionário de uma ONG lhes estendam um prato de comida. É assim há anos, bem antes do terremoto."

Será que, de posse dessas informações, sustentar ONGs e apoiá-las é uma idéia tão boa assim? Você que me lê, gostaria de uma vida assim para sua família?

Para vocês terem uma noção, até o Viva Rio (!!!) está no Haiti, como se já não houvessem pobres suficientes para eles aqui no Brasil.

Isso aliás lembrou bem uma história que ouvi de uma pessoa que trabalha no serviço público junto às populações que beiram o lumpesinato, se já não estão nele totalmente. Ela contou que precisava por vezes apartar as brigas de ongueiros, dizendo para eles que "tem pobre pra todo mundo".

Numa excelente abordagem do assunto, o filme "Quanto vale ou é por quilo?", do diretor Sérgio Bianchi, mostra sem muitos rodeios o absurdo que é a falência das instituições nacionais no Brasil e a sua paulatina substituição pelo assim chamado "Terceiro Setor".

Assim como no Haiti, somente a ausência de um estado possibilita o caldo de cultura para que essas entidades atuem. Assim como no Haiti, imensas populações no Brasil dependem dessas ONGs para comer, estudar, vestir, receber tratamento médico e, claro, essas mesmas ONGs recebem muito dinheiro de doadores privados e públicos para substituir o estado em suas obrigações.

É uma imensa engrenagem de marketing, logística, solidariedade subvencionada.

Aí me pergunto: é realmente uma coisa boa? Ou isso é um imenso mercado que movimenta milhões ao redor do planeta e que mais se assemelha a uma máfia? Só que ao invés de traficar escravos, drogas ou explorar a prostituição, esta é a máfia da pobreza.

São empresários, profissionais enjeitados pelo mercado e pelo serviço público e aproveitadores que, repito, se não perfazem a totalidade dos "ongueiros", pelo menos constituem uma grande porção destes.

Toda essa gente sustentada como nababos a partir das doações que a miséria e a ausência do estado proporcionam, teria qual interesse em promover a erradicação da miséria e o retorno do estado?

É por isso que faço coro, mais uma vez, ao professor Demétrio e digo: eu não dou dinheiro para ONGs (e se faço, procuro conhece-la bem mais do que sua propaganda conta) e espero que, uma vez sabendo disso tudo, todas as pessoas pensem bem antes de fazê-lo também.

5 Comentários:

rafaelrossignol postou 31 de março de 2010 09:59

Lendo seu post chego a conclusão (por ter prestado serviço para alguns sindicatos da capital de são paulo) de que as ONGs são os sindicatos dos miseráveis.
Com a diferença que os trabalhadores é que financiam tanto os sindicatos quanto as ONGs.
Porém ambos, sindicatos e ONGs superfaturam dinheiro e tomam medidas paleativas para desviar a atenção do verdadeiro objetivo do dinheiro.

aproveito aqui sua revolta para deixar um link pra minha
http://paramudarobrasil.wordpress.com para quem gosta de discutir soluções para o nosso pais ou pelo menos entender melhor como ele funciona.

rafaelrossignol postou 31 de março de 2010 10:00

Só pra deixar claro, assim como existem ONGs sérias também existem sindicatos sérios (mas acredito que num número menor que as ONGs)

PCAngelo postou 31 de março de 2010 10:32

Boa tarde,
Já trabalhei em ONG e sim, existem ONGs sérias assim como existem os pilantras... Tem que pesquisar mesmo.

Quanto ao lance de ser dever do estado garantir tudo ao povo, eu concordo, a questão é existem um gap enorme entre ser dever(escrito) e o que acontece na pratica. Precisamos de ferramentas para cobrar nossos representantes... pq da forma que está estruturado hoje, está complicado!!
Parabéns pelo blog.
Abraços
@pauloangelo

Roguim postou 31 de março de 2010 13:47

De fato existem ONgs sérias como por exemplo os médicos Sem fronteira, mas a grande maioria não passa de salafrários que dizem ajudar mas só atrapalham e desviam o dinheiro das doações para eles mesmos ou grupos de interesses.

Fabiana Moreira postou 31 de março de 2010 13:59

Não dá para colocar todos em um mesmo saco e não avaliar. Gostei do começo do teu texto que já deixo explícito como você vai abordar.

Trabalho há 4 anos em uma ONG presente em 123 países, que beneficiou mais de 2 milhões de jovens só no Brasil. Temos parceiros e voluntários valiosos que acreditam na ação pois acompanham o resultado tanto do capital humano, financeiro ou material doado.

Acredite que não há participação nos lucros para quem trabalha, mas satisfação nos resultados (que normalmente ultrapassam as projeções) graças àqueles que conhecem e acreditam conosco. Normalmente o salário do terceiro setor é inferior ao do mercado, leia-se de mesma formação, a cobrança, ritmo e responsabilidade que temos surpreende a executivos de multinacionais parceiras,

Faço uma ressalva. Acredito que as ONGs , em sua maioiria, nasceram da necessidade que a sociedade tem que não é sanada nem pelo 1º nem pelo 2º setor.

Sempre, em qualquer instituição, vale conhecer, investigar, analisar. Aqui estamos sempre com as portas abertas. Com todas as demosntrações exigidas, e auditorias competentes em dia.

É importante sim avaliar antes.
Mas, acho que mais importante é não deixar de acreditar. O Haiti não é aqui... hoje, e amanhã?

Corrupção envergonha em qualquer instância, e como o terceiro setor também é feito por pessoas, não há como fugir dessa doença que contamina a sociedade e não apenas uma area dela.

Um forte abraço e parabéns pelo blog!
@fabsrp

 
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