O Terceiro Momento

Postado em 1 de abr de 2010 / Por Marcus Vinicius

Em seu discurso de despedida do governo, a agora ex-ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, referiu-se ao presidente da república como "senhor" nada menos do que 28 vezes.

Nada demais, já que ele é seu "chefe", mas um pouco subserviente além da conta se formos pensar que trata-se da Criatura Eleitoral ungida por Lula para sucedê-lo na Presidência da República.

Ainda mais dentro do círculo íntimo de um governante que não é dado a protocolos como é o caso do cacique-mor do PT.

Mas este fato, que poderia passar desapercebido na montanha de descalabros que marca este final de governo petista, sinaliza para algo que pode muito bem ser verdade, que é o fato de um eventual governo Dilma ser apenas um período "entre-Lulas".

Nossas instituições, por mais maculadas, inertes e ineficientes que sejam, ainda tem força suficiente para evitar manobras chavistas, evitando assim a tentação de um terceiro mandato e, porque não, de um quarto, quinto, etc.

Mas vejam bem que eu disse ainda. Não sabemos até quando o Brasil ainda possuirá instituições que possam resguardar devidamente o processo democrático.

Mas porque terceiro momento? Porque ele seria o ponto culminante (ou pelo menos o momento de inflexão máxima) de um projeto bem maior que o PT parece estar ponto em prática. O primeiro momento foi a eleição de Lula e sua reeleição. É o "Lula I".

O PT precisou em 2002 divulgar a "Carta ao Povo Brasileiro", em que tranquilizava o eleitorado contra o maior medo deste: que o PT agisse como PT.

Duda Mendonça criou o personagem Lulinha Paz e Amor, que deixava de lado a barba desgrenhada, a fala cuspida e apresentava-se ao país mais como um projeto de estadista do que como um produto sindicalista.

Venceu. E teve como mérito manter as políticas econômicas que funcionavam e, questão de tempo, iriam ajudar o Brasil a crescer. Tanto não houve ousadia, que enquanto o mundo crescia a ritmos acelerados o Brasil patinava devido a uma criticada política de juros altos.

Houve o segundo mandato, conseguido na base do terrorismo privatista e apesar dos escândalos de corrupção que colheram quase toda a cúpula petista que havia chegado ao poder. Desde o publicitário criador do PT manso e vencedor até o seu "general", José Dirceu, todos foram estraçalhados pelas suas próprias atitudes.

Mas o líder ficou. Queimou um a um os seus acólitos e exerceu um segundo mandato com o tripé formado por uma base fisiológica, propaganda massiva e programas de transferência de renda. Atravessou a crise internacional muito bem e emergiu perante o mundo como "o cara".

Ajudou o Brasil a trazer a Copa do Mundo e a Olimpíada, exibindo índices de popularidade mais parecidos com as eleições que Saddam Hussein vencia no Iraque, quando concorria consigo mesmo.

Mas Lula tem um problema e o grande problema de Lula se chama PT. Um partido que foi domado para chegar ao poder, mas que nunca esqueceu o seu "instinto animal". Para um petista, primeiro existe o partido e depois exista a nação.

E se o problema de Lula é o PT, o problema do PT é a democracia, que segundo o próprio Lula "existe até demais" na Venezuela proto-ditatorial de Hugo Chávez.

Com esses índices de popularidade gigantescos e um partido faminto por mais e mais poder, Lula abandonou as incômodas amarras da moderação e voltou a agir como o líder sindical desafiador que não conseguia passar dos 30% de votos nas eleições, curiosamente o mesmo teto em que sua Criatura Eleitoral, Dilma Rousseff, bate com os chifres desde que se lançou.

Passou então a fazer propaganda desavergonhadamente, a fazer de tudo, ético ou não, para conseguir mandar na sucessão do seu "trono".

E caso consiga, virá mais radicalização. O MST já prometeu uma guerra no campo em favor de Dilma, os sindicatos não fazem a menor questão de esconder que farão de tudo para ajudar o PT, a base fisiológica mobilizará currais a seu favor e a partir daí, a ex-terrorista que não tem biografia alguma e nem legado com o qual se preocupar poderá "botar o bloco na rua" e dar a guinada tão desejada rumo ao chavismo.

As bases já estão plantadas com projetos de controle da imprensa, "Comissões da Verdade", poder cada vez maior para ONGs e "movimentos sociais" e tudo isso sustentado pelo oásis-econômico representado pelo petróleo que supostamente jorrará do pré-sal e fornecerá dinheiro para o governo dar Bolsa-Salário para a população inteira.

Este será o segundo momento.

A substituição total do Estado pelo Partido e seus chicaneiros. Conflitos, embates e a velha fórmula de jogar cidadão contra cidadão será aplicada ainda mais e tudo isso preparará o terreno para o terceiro momento que é a volta triunfal do "líder", do "cara" ao poder, com força de um quase-rei. É o "Lula II".

Nesse momento, as instituições é que já estarão domadas, o Partido estará mais forte do que nunca e nada, nada se colocará entre as reeleições sucessivas, o aparelhamento total do governo e o expurgo de tudo o que lhe fizer oposição.

Isso tudo, claro, é apenas uma teoria. Mas conhecendo os líderes petistas, o ideário do partido e a disposição de sua "militância" organizada, não sei se é tão mirabolante assim.

E você que me lê, colocaria sua mão no fogo por eles? Eu não.

8 Comentários:

Bluesette postou 31 de março de 2010 21:57

Belo texto, mas elles, não passarão!

Silvia postou 31 de março de 2010 22:10

O passado... A história da gerrilheira Dilma todos já conhecem... Praticamente todas as revistas já publicaram... Todos sabem, todos comentam... Mas na hora votam. Em que pese minha torcida para que não se concretize o horizonte que vislumbro, Dilma estando no poder jogará ao alto toda a subserviência e mansidão aparentes e mostrará SUA VERDADE, que, na minha opinião, está muito além do que qualquer um de nós pode imaginar... Ela é orgulhosa e autoritária demais pra dobrar os joelhos de quem quer que seja... Não tenho bola de cristal, mas ocorrerá um abalo sísmico se ela ganhar. Falo não só pelo governo, mas no grande embate que se avizinha por trás de tudo... Quando o Grande Senhor e Manipulador de todos os pelegos exigir sua paga, ou melhor, o poder! E veremos então o duelo "DxD"*

* Dilma Roussef X José Dirceu

E sem grandes esperanças, pois temos um povo manipulado e cego pela venda da ignorância... Portanto, meu caro, "alia jacta est".
E vale o adágio: "À cada povo o governo que merece!"

Excelente teu artigo!
Silvia Schiefler

João Lacerda postou 1 de abril de 2010 09:12

Lula o petistas a parte, qual governante não tem esse "projeto de poder"?

Ou o Fernando Henrique abriu mão de fazer seu sucessor?

Talvez Lula só esteja usando seu poder e popularidade para fazer o que todos almejam, mas que nenhum teve competência para fazer até hoje.

Tudo dentro do processo democrático, que por hora segue escrachado (com pré-campanha aberta), mas respeitado.

mvsmotta postou 1 de abril de 2010 09:27

Disse muito bem, "por hora".

Abs

Kilber Aurelio postou 1 de abril de 2010 09:44

O PT joga ,sempre jogou e sempre jogara sujo , exemplo disso é aqui em São Paulo onde eles não tem chances de tomar o governo do estado do PSDB... Curiosamente 5 onibus da mesma linha quebrados e nem tão calor estava para se colocar a culpa no super aquecimento dos motores etc , fora isso obras atrasadas como as do metro que são projetos chaves para a campanha eleitoral do partido .Não estou dizendo que o PT tenha de fato culpa nisso mas não me assustaria se eles tivessem se envolvido nas empreiteiras e empresas de transporte para gerar um caos antes das eleições para virar a mesa do jogo ... não seria a primeira nem a ultima vez que fariam isso .

Pablo postou 1 de abril de 2010 09:45

Ótimo texto!
Parabéns.

Le postou 1 de abril de 2010 10:20

Boa tarde,sigo vc no twitter(tens excelentes frases, vc diz que filosofa o dia todo e eu adoro, continue)! Também leio seu Blog há um tempo e gostaria de comentar algo. Admito que não sigo veementemente a sua linha de raciocínio, mas concordo com algumas coisas que vc escreve e acho isso ótimo, afinal, opiniões contrárias enriquecem e formam cidadãos menos alienados! Lendo os seus posts durante essas semanas percebi algumas coisas que me incomodam, e como vc nos pede no sub-título de seu blog: "esta é minha verdade, DIGA-ME A SUA", gostaria de expor minha opinião ok? Acho sua fascinação com ideais neoliberais passível de entendimento uma vez que vc diz em seu 'quem sou eu' que adora o capitalismo selvagem dos EUA... qto a isso...vamos abrir os olhos e perceber que eles PREGAM neoliberalismo aos países, principalmente aos pobres, porém, NA PRÁTICA, executam com maestria uma política gigantista de Estado atuante e inquestionável (vide última crise e subsídios agrícolas constantes). Pq pregam? Simplesmente pq assim como as ONG's - que de acordo com Magnoli e apoiado por vc - eles também dependem da pobreza alheia para enriquecer, pura conveniência! Enfim, este é o sistema em que estamos inseridos, então que aprendamos a (sobre)conviver no mesmo ! Outro ponto: o partidarismo explícito das discussões. As coligações constantes e a própria mudança de ideais de Lula diante do PT qdo assumiu o governo nos mostra que hj o partidarismo é uma pura formalidade não exequivel! Se concentrar em brigas de partidos é perda de tempo uma vez que aquele que vc defende hj amanhã estará de mãos dadas com o inimigo no qual jogou pedras(sabemos que isso é fato na política)! Outro ponto, referente a este último post no qual comento : A Democracia ! Sinceramente, como dizia José Saramago, a democracia hj apenas se resume ao voto, e NADA MAIS, uma vez eleitos, as decisões são tomadas e nós assistimos, criticando ou aplaudindo ! Não vamos achar que um líder político consulta o povo em toda grande decisão de interesse direto para a nação. Os líderes dos grandes organismos internacionais (estes sim realmente comandam o nosso destino)não foram escolhidos nem por mim nem por vc! Democracia mais pífia essa não é? Em suma, não tenho ao certo meu candidato escolhido mas acho que as críticas à Dilma estão muito fundadas numa época de PT radical (como o PSTU de hj)! Também nunca levantei bandeira de partido, portanto não estou defendendo o PT, apenas dizendo que a observação nos leva a crer que este partido radical de anos atrás já fechou as portas há muito tempo!Gostaria enfim de lhe dar os parabéns pela excelente forma de escrever (faz juz ao seu título de publicitário)! Seus textos são envolventes e realmente têm tudo pra convencer aqueles que estão procurando uma orientação! Te acho de uma inteligência excepcional, sério! Apenas discordei de algumas coisas e resolvi expor meu ponto de vista :D ! Abraços e continue postando sempre ... é muito bom ler seres pensantes pela web ! Grato

mvsmotta postou 1 de abril de 2010 10:53

Le,

Não sou favorável ao neo-liberalismo selvagem pregado pelo FMI e por gurus americanos para os OUTROS e não para eles.

Sou a favor da economia de mercado, de subsídios sim, mas para quem produz e claramente está em desvantagem em relação à concorrência estrangeira desleal (exemplo: China) e sou a favor do estado amparar cidadãos que já não tem mais condições de sair da miséria sozinhos, mas desde que haja contra-partidas, como a educação dos filhos, por exemplo.

Não sou a favor de um estado inchado, grande, interventor, verdadeiro cabide de empregos e que se vê como único motor da economia de um país.

Sou a favor de oferecer oportunidades iguais e que o mérito defina quem será o 1º, o 2º e assim por diante.

E sei que políticos fazem alianças espúrias, que unem-se ao maior inimigo em nome de poder, mas nesse momento, nessa atual encruzilhada da história brasileira, nós temos dois caminhos: a manutenção da alternância de poder que é um dos pilares básicos de qualquer democracia ou a perpetuação de um grupo de ex-terroristas de esquerda e pelegos de sindicato que flertam com as maiores ditaduras do mundo como a cubana, a iraniana e a proto-ditadura venezuelana.

Neste momento, algo maior do que a nossa opinião sobre políticos e partidos está em jogo, que é o nosso direito de ter opinião.

Por isso meu alerta.

Um abraço!

Marcus

 
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