O ser e o parecer

Postado em 15 de abr de 2010 / Por Marcus Vinicius

Outro dia estava rodando blogs e perfis do Twitter em busca de assunto, em busca de inspiração. Tem gente que consegue nos dar esse empurrãozinho na criatividade, só com um rostinho bonito na foto ou com alguma frase espirituosa bem colocada.

Mas é raro. É raro porque talento para a escrita é tão difícil de se encontrar quanto para pintar ou compor músicas. A diferença é que, salvo esses semi-analfabetos miguxos, é bem mais fácil simular ou encenar qualidade escrevendo do que pintando ou tocando.

Me entregue um pincel e eu te apresentarei duas horas depois uma casinha daquelas com telhado em "V" invertido mais tosca do que a de uma criança de 7 ou 8 anos. Me empreste um violão e mostrarei todo meu virtuosismo no "Samba de uma nota só".

Entregue uma caneta, lapiseira ou teclado na mão de um embusteiro e em meia hora ele já terá leitores.

E chega a ser incrível a atração que personalidades "densas" exercem sobre um grande contingente de pessoas. Existem mais candidatos a Bukowski do que a Jorginho Guinle por aí, ainda que todos prefiram, se puderem, levar a vida do segundo ao invés do primeiro.

Minha biografia do Twitter traz a palavra "ácido" para me definir. Mas em minha defesa declaro que foi uma grande amiga que a escreveu. Só a utilizo ali porque foi alguém que convive comigo que achou por bem usar a expressão para definir um dos traços da minha personalidade. Aceito de bom grado e sem falsa modéstia, já que ela também me define com termos tão desiguais como "criativo", "primoroso", "mentiroso" e "grotesco".

Mas sinto vontade de rir de gente que se auto-define como "ácido" ou "denso" e fazem de tudo para que os outros os vejam assim o tempo todo. Foto com a mão no queixo ou olhar perdido no horizonte completam a "instalação".

Vão dizer que estou estereotipando, mas - ora bolas! - quem se estereotipa são eles.

É incrível como tudo se parece no limite da monotonia. Os piadistas são todos iguais, os densos não encontram felicidade se não houver fumaça e epifânias até sobre uma xícara de café, as "mulherzinhas" com seu despojamento milimetricamente calculado e fotos provocantes proferem suas lamentações de menina sortuda, "eles só querem me comer...", como se não devessem agradecer por ter alguém que queira. Existe quem não tenha nem isso.

Tem uns que se você acompanhar no dia a dia vai achar que faz vestibular para integrante do Pânico, que bebe mais do que o Nicolas Cage em "Despedida em Las Vegas", transa mais do que Rocco Siffredi e sofre mais do que mulher do Netinho de Paula.

Todo mundo esquece, é claro, a grande diferença que existe entre sarcasmo e falta de educação, entre acidez e pentelhação, entre ser denso e ser mala. Aceito que todos até certo ponto vivem um personagem na internet. O problema começa quando você já não sabe mais se está sendo autêntico ou se está apenas representando.

No fim encontramos páginas e mais páginas, frases e mais frases, de pessoas que falam muito, muito, muito. Mas quase todos curiosamente iguais. Eu particularmente adoraria saber o que toda essa gente que tanto fala tem pra realmente pra dizer e não esses personagens que, se encantam nas primeiras linhas, enfastiam depois de uns 4 ou 5 parágrafos.

Se Jerry Seinfeld já não tivesse inventado e executado tão bem o discurso sobre o nada, diria que eles estariam na fase empírica de um estilo que ainda seria aprimorado pelo comediante americano. Mas como não existe "evolução inversa", eles chegaram tarde.

A maioria, mas antes deixe-me ajoelhar aqui e pedir perdão compenetrado às exceções que existem e são muitas, fica só na pose.

Todo mundo quer parecer vivido, sofrido, cansado de guerra. Irônico, cético, cínico com tudo que se passa ao redor. Mas no final das contas prefere mesmo uma praia paradisíaca, uma sombra fresca e uma marguerita com guarda-chuvinha e tudo. Não conheço uma pessoa que respire e não deseje de verdade ser admirada, amada e ser o centro das atenções de vez em quando. Mas isso é possível sendo original, ainda que seja mais difícil.

E nunca é demais lembrar: cigarro, café e pose só garantem bafo e antipatia. Pra ser inteligente é preciso também pensar.

8 Comentários:

Alexandre Core postou 15 de abril de 2010 08:41

Excelente post, como sempre.

Quer formar uma dupla punk-rock-sertaneja? Ácido e Azedo?

No meu caso também é uma alcunha dada pela família. Minha mãe chegou a afirmar certa vez:

- Nossa filho, você está tão in-su-por-tá-vel!

- Brigadu mããããe!

Detalhe: Devido a minha fantástica modéstia, não costumo comentar, mas eu também transo mais do que o Rocco. Mas também minto dilmais.

Abrs,
@Filonescio

Airton Krauniski postou 15 de abril de 2010 08:48

A preguiça mental e as facilidades digitais combinadas geram o surgimento dessa orla de bit-nicks cibernéticos que vemos proliferar a cada dia nas redes sociais digitais. Mas o que pode ser daninho sob um ponto de vista é alentador quando mudamos a ótica para aquilo que Goethe nos revela "o direito de expressão é o princípio e o fim de toda a arte".
E vou além, cito Voltaire: "posso não concordar com nenhuma palavra do que está dizendo mas devendo o seu direito de dizê-las até a morte".
Numa análise pseudo freudiana já me peguei puto da vida com alguém que conseguiu sem 1/10 do meu esforço resultados muito melhores em matéria de aceitação do que eu. Hoje não me preocupo mais em ser aceito. Me preocupo em ser feliz.

Suely postou 15 de abril de 2010 08:50

Você hoje está realmente ácido... mas não disse nenhuma inverdade, nenhuma asneira e nem foi grosseiro.
É isso que mais admiro em você. Expressa a sua verdade sem cair na baixaria nem resvalar na falta de educação.
E, de brinde, alguns comentários são hilários. Como o Alexandre Core, hoje...

Kilber Aurelio postou 15 de abril de 2010 08:52

ótimo assunto. A internet liberta nas pessoas as vezes personalidades que na vida real são escondidas mas se voce pararmos para refletir veremos que a vida real não esta tão diferente da internet,não sei se por influencia da mesma mas nas rodas de conversa sempre nos deparamos com aspiranntes a humoristas ,tarados que só pensam e só dizem fazer sexo o tempo todo e pessoas reclamando da vida o tempo todo .O numero de pessoas com problemas é imenso e parece que essas pessoas esquecem do desafio que é viver e se talvez tivessem a vida perfeita reclamariam de tédio. Reclamar é normal do ser humano que é descontente com tudo e esta sempre desejando mais e mais . Não sei aonde eu me encaixaria dentro desses perfis citados por voce afinal se auto avaliar é uma coisa dificil pois com certeza alguma vez na vida ja twitamos ou escrevemos algo pessoal em nossos espaços na rede mas apesar disso procuro evitar que as reclamações se tornem o centro de minha vida .
Quanto a querer saber o que essas pessoas que se escondem através de fotos insinuantes ou algo do genero creio que elas não tem muito a mostrar alem do que ja disponibilizam . Esta cada dia mais dificil pessoas que pensem no mundo , a maioria age por impulso ou por modismo.

Tuka postou 15 de abril de 2010 12:18

É verdade que a internet favorece a preguiça mental. Eu mesma costumava escrever com grande frequência textos realmente interessantes, agora não consigor dizer nada que se aproveite em míseros 140 caracteres. É mais fácil dar um RT numa mensagem interessante do que pensar em algo interessante pra dizer...

Leo João postou 15 de abril de 2010 13:09

Texto excepcional. Generalizou um bocado, mas isso foi até necessário.

Parabéns pelos escritos. Tenho acompanhado sempre!

Abração,

Leo João

Tatiana P. postou 15 de abril de 2010 13:41

Para conseguir admiração, amor e atenção, as pessoas muitas vezes preferem seguir fórmulas prontas, que aparentemente funcionaram para outras pessoas, na esperança de conseguir isso de forma rápida, e aparentemente sem esforço. Como você mesmo disse, também acho possível atingir tais objetivos sendo original, mas como é mais dificil, pode dar uma certa preguiça. Mais fácil criar um personagem, baseado em outro personagem, e enganar principalmente a si mesmo.

Aline Fernanda postou 15 de abril de 2010 16:01

"...cigarro, café e pose só garantem bafo e antipatia."

Ótima esta. Melhor ainda o "perdão compenetrado" às muitas exceções.
Pessoas "densas" demais são tão "pesadas" que acabam virando um saco carregá-las.

Legal o post, mas como sou muitíssimo preguiçosa, generalizarei dizendo que gostei deste post como de outros que li antes aqui. Estão ótimos.
=D

 
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