Gostosa! Me deixa dar uma buzinada?

Postado em 28 de set de 2010 / Por Marcus Vinicius

Tenho quase certeza de que quando inventaram a buzina de automóvel estavam pensando no que não presta. Incomodar a vizinhança de madrugada, fazer barulho em túnel, infernizar os motoristas à sua frente e mexer com as meninas que passam na rua. Só depois é que, para justificar, vieram com essa desculpa de "alerta" para os outros motoristas.

No caso das cantadas, talvez a buzina seja o menos pior para as mulheres, porque o que sai da boca de alguns é pior do que umas 300 buzinas soando juntas.

Não sei porque homem pensa que mulher se excita da mesma forma que ele, ou seja, com quase qualquer coisa. Tenho plena certeza de que é quase impossível conseguir um sorriso ou um número de telefone soltando um "te chupo toooooda" para alguém passando na calçada. Mas ainda assim, alguns insistem.

O estoque de grosserias e piadas sem graça parece não ter fim. "Se machucou? Porque você caiu do céu", "Você é a norinha que minha mãe sempre quis", ou então "Se verde já é assim gostosa, imagina madura" quando a moça está usando alguma roupa verde. Mas o que machuca os ouvidos mesmo são coisas como "isso tudo é seu ou pegou emprestado de alguém?", "te como com farinha" ou "bunda gosssssstossssaaaaa".

São as populares "cantadas de pedreiro", que curiosamente são feitas também por advogados, médicos, empresários, desempregados e quase todas as demais profissões. Já ouvi dizer que passar em frente a uma obra é o melhor indicador da necessidade ou não de uma dieta. Quanto mais cantadas a mulher levar, mais ela necessita partir pra alface e copo d'água.

Antigamente as cantadas não deviam ser tão pesadas e também a moça poderia pegar carona com o galanteador sem o risco de aparecer na capa de um tablóide no dia seguinte, seja morta ou como vítima de algum "caiu na net". Mas hoje em dia a chance é praticamente zero, sendo assim, acho que os homens só continuam fazendo para dar vazão a algum tipo de excitação contida.



É como se pensassem "ela é bonita, gostosa, está passando, indo embora e não vou poder fazer mais nada então vou dar uma barbarizada nela" e aí soltam um "tesuda, roupinha indecente, hein!".

Um dia até eu - que não gosto dessas coisas - fui uma vítima disso. Estava parado no trânsito em Ipanema e passava pela minha frente aquela que talvez seja a loirinha com o corpo mais bonito que eu tinha visto até aquele dia, com um micro-short, voltando da praia. Eu simplesmente precisava dizer alguma coisa, não dava pra ficar quieto. Naquela fração de segundo avaliei todas as opções, desde o "deliciosa" até o "mas que gatinha linda!", só que um carro da prefeitura, cheio de pedreiros real thing estava no meio do caminho.

Quando a mocinha passou pelo caminhão, o festival de impropérios variou do "pernilzinho" até o "chupo, como e arroto". Mas não pense em nada menos do que uma arquibancada de futebol inteira gritando coisas para alguém que passava.

Nada que eu dissesse poderia ser páreo para aquilo, seja no sentido de superar, seja no sentido de apagar a péssima impressão que a gatinha estava tendo do sexo masculino naquele momento. Mas ainda assim eu tinha que dizer algo. Na micro-fração de segundo que sobrou, a única coisa que eu consegui fazer foi abrir a janela e, enquanto os pedreiros continuavam o seu festival de brados dignos de um filme do Buttman, consegui apenas gritar um "é!".

"Gostosa, tesuda, deliciosa, maravilhosa, safada" e um "é!" solitário no meio disso tudo.

Pois é, os pedreiros acabaram me salvando de me comportar como um "pedreiro".

4 Comentários:

Vanessa Lopes postou 28 de setembro de 2010 11:39

Tem umas paradas que quando ouço, sinto uma vontade imensa de virar a mão na cara do cidadão. Acho bom vc pensar um pouco nisso na próxima vez que essa vontade lhe aparecer! Pq vc não sabe o quão louca a pessoa pode ser, ou o quão puta (no sentido ódio) ela pode estar.
Fica a dica!

Rosângela Monnerat postou 28 de setembro de 2010 12:10

A bem da verdade, nunca me importei com os deslizes dos ditos pedreiros.
Somos preparadas para a acolhida. Como diz Rubem Alves, o ouvido é feminino.
Mas não é possivel deixar de usar preservativo,ou algumas vezes, estimular o que seria o vaginismo auricular.
Quando a palavra é de baixo calão, se penetra, não chega a provocar gozo algum. Fica alí,pendente, feito masturbação de adolescente sem opção.
Cantada não é bem "isso" que se ouve dos ditos pedreiros.
"Aquilo" é grito de desespero de machista sem noção.
A mulher gosta de ser gostosa gostada pela beleza que se opõe aos impropérios.
Beleza que ondula na boca dos Vinícius, dos Chicos, de um "Zé" que não é qualquer; do homem cujo "falo" é poder de sedução.
Então, continue com seu "É". É expressivo.
Millor já levou muitos ao teatro com um "É",que se tornou uma peça inesquecível em humor e qualidade.
Bj!
Adorei sua construção.

Maria Fernanda Cortez postou 28 de setembro de 2010 13:06

Hahaha, adorei o texto! Só nós mulheres para aguentar essas coisas. Mas admito que a vontade de virar um tapa na cara, quando você ouve um: "te chupo toda" é maior do que tudo! Ahh sem esquecer daqueles doidos que passam ao seu lado e fazem emitem um som do tipo: NOSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSA! péssimo!

Beijos

mvsmotta postou 28 de setembro de 2010 14:07

Maria Fernanada,

Eu tinha uma amiga que sempre que diziam que ia
"chupar ela toda", ela respondia "vê se eu tenho cara de c*ralho pra você me chupar".

Tinha que ver a cara dos sujeitos...

Beijos

 
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