Opa! O Fusca é meu!

Postado em 2 de set de 2010 / Por Marcus Vinicius

Uma das características mais admiradas nos outros atualmente é o despojamento. Como qualquer termo que virou clichê, ser "despojado" pode ter uns 200 significados e ao mesmo tempo não querer dizer nada.

Virou desculpa para aquele sujeito que passa a semana inteira usando a mesma cueca, uma blusa com duas manchas amarelas nos suvacos e que escova os dentes dia sim, dia não. Eu - e 90% das pessoas - diríamos que ele é porco mesmo, mas tem quem ache que ele é despojado.

O mesmo vale para quem não tem ambição alguma no emprego, para os que não tem emprego e para os que acham que emprego é pedir dinheiro emprestado para a mãe e para os amigos, ou mesmo para definir pessoas que se vestem casualmente e que encaram as coisas da vida de forma mais "cool".

Mas pode ser um sinal de generosidade, como aquele bilionário que doa 90% da sua fortuna para a caridade (esqueça que os 10% restantes compariam os rins, pulmões, fígado, baço, coração e cérebro seus, da sua família e de todas pessoas que você já tenha dito um "oi" em toda a sua vida no mercado de órgãos).

Vale para quem corta cabelo e faz a barba uma vez por ano, para quem coleciona apenas dois pares de meias ou para aquele seu amigo que tem um Fusca 76, todo enferrujado, com uma cadeira de praia no lugar do banco do carona e que sempre precisa ser empurrado para dar a partida no motor. Como eu disse acima, despojado pode ser tudo.

Despojamento também pode ser aquilo que os outros tem pelo que não é deles. Já explico.

Você está em casa dormindo num sábado de manhã. Seus amigos chegam fazendo a maior gritaria, abrem sua geladeira e começam a beber todas aquelas 20 latinhas de Guinness que você comprou pensando em beber uma por dia. Você não quer reclamar, afinal, não quer passar por egoísta, muquirana, creonte. Começa a se arrumar para ir na praia (que você nem quer) e um deles entra no banheiro para urinar a sua Guinness e batiza o espaço compreendido entre a porta do banheiro até a entrada do box, mas você também não reclama, afinal, o que são 50 reais de faxineira toda semana?


Aí vocês saem do seu apartamento, cheio de latinhas de cerveja jogadas por todos os cantos e guimbas de cigarro, e vão tomar um café na padaria da esquina antes da aventura praiana, afinal, a ordem natural das refeições saudáveis é cerveja-café-cerveja. Todo mundo pede aquele glorioso pão na chapa com um café com leite e aí seus amigos lembram que só estão com o cartão de débito.

Solícito, você paga tudo sob promessas de "sacar e te devolver logo em seguida". Pensam em ir de ônibus, mas não tem nenhum que leve até a Praia Brava Bravíssima, que seu amigo indicou e disse que era uma maravilha.

Passam no caixa eletrônico, todos notam que ainda não receberam o salário e estão com o dinheiro contado, você se conforma com o calote da padaria e finalmente tomam um taxi, que avisa logo de cara que só vai até o final da estrada de asfalto e o resto terão que ir a pé. Nesse momento, já com o carro andando, ar-condicionado desligado, morrendo de calor, ouvindo um pagode na rádio AM do taxista, você pensa que talvez teria sido melhor ficar em casa vendo um amistoso entre o Araxá e o Ibitipoca na TV, mas tudo bem, você não é mau colega e não liga de pagar um rateio no táxi que te deixará no meio do caminho para passar um dia legal com seus amigos na praia.

Um pouco depois, já caminhando por uma estrada de terra, debaixo de sol e suando que nem um porco (porque dizem "suando que nem um porco", aliás? Já viu porco suar?) você definitivamente conclui que é melhor ser mau colega do que passar por aquilo tudo, até que após meia hora de caminhada vocês chegam num pedaço de uns 200 metros de praia entupido de gente, churrasqueiras, câmaras de ar na água e...carros!

"Pera aí, você não disse que era uma praia deserta que não dava pra chegar de carro?"

"Não, eu disse que era uma praia que ficava longe, depois de uma estrada de terra"

"E porque então você não tirou aquele Fusca da garagem e a gente veio nele, ao invés de andar no sol que nem um monte de cornos?"

"Você acha que eu ia colocar o meu Fusca nessa estrada esburacada?".

Moral da história: ser despojado é sempre muito mais legal se for com as coisas dos outros.

3 Comentários:

Victor de Araújo postou 2 de setembro de 2010 10:38

Pois é... peguei muitas dessas roubadas... triste pagar umas Heineken pro amigo que, quando, por uma graça divina, te paga UMA... é Kaiser e estupidamente quente!! Seria trágico se não fosse mais trágico...

Anônimo postou 2 de setembro de 2010 10:40

Ser despojado nessa é pura robada.

postou 2 de setembro de 2010 10:55

texto fantástico!

 
Template Contra a Correnteza ® - Design por Vitor Leite Camilo