O seu "Show de Truman"

Postado em 14 de jan de 2011 / Por Marcus Vinicius

Quando Jim Carey estrelou o famoso filme "Show de Truman", a internet já existia, mas a explosão das redes sociais ainda estava longe de acontecer. Por isso, todo mundo achava um absurdo aquela realidade retratada, na qual um indivíduo era monitorado por câmeras, mantido num ambiente fabricado e observado por todo o mundo.

Óbvio que a realidade imita a ficção mas não é uma cópia fiel desta, e não seria diferente neste caso. Ninguém vive numa bolha, com atores no lugar da esposa e da família (se bem de que tem famílias por aí que mereciam um Oscar), num cenário totalmente artificial.

Mas nos aproximamos bem disso. Por onde vamos, existem câmeras tomando conta de tudo o que fazemos, a internet móvel conectou o mundo inteiro de uma forma como jamais aconteceu, a moderna tecnologia facilitou mais você ter um amigo em Tóquio do que no andar debaixo (ainda mais porque em Tóquio você não sente o desodorante vencido do cara e ele tem como te pedir dinheiro emprestado).

Quanto à invasão de privacidade mostrada no filme, bem, essa nós mesmos nos encarregamos de proporcionar.

É o maior barato comprar um computador novo, viajar para a Europa, trocar de carro, ir pro motel com a namorada, mas é realmente necessário que tudo isso não seja apenas contado, mas relatado nos mínimos detalhes via Twitter, Blogs e outras ferramentas?

O pior é alguém mandar uma mensagem assim "indo comer pizza no centro de Milão, um abraço para os que vão almoçar no quilo aí no Centro do Rio" e depois ainda dizer "só estava falando de uma pizza, não sei porque disseram que eu queria me mostrar...".


Ora, não sabe mesmo? Vamos combinar que uma das melhores partes do sucesso é poder esfregá-lo na cara dos outros, mas não sejamos fingidos a ponto de dizer que isso nem passa pela nossa cabeça. Passa sim.

Estou em Milão, consegui chegar aqui, vou comer uma prosaica pizza e vou esfregar isso na cara de todo mundo que vai pra um restaurante de balança na hora do almoço, antes de voltar pra ralação.

E isso vale para um carro zero, para o seu iPad, para as fotos da sua namorada gostosa que sabe-se lá porque resolveu te dar mole, para sua coleção de bonecos Playmobil, para sua nova Harley Davidson.

Quer esfregar isso na cara dos seus seguidores no Twitter e amigos do Orkut/Facebook? Faça.

Um dia é da caça, outro do caçador, mas não diga que não está fazendo isso, porque você deixa de ser alguém que está exercendo seu sagrado direito de tirar onda com a cara dos outros e passa a ser apenas um babaca encharcado de falsa humildade.

Até as furadas e situações onde a pessoa literalmente toma no rabo são, de alguma forma, transformadas em experiências de sutil glamour.

Não adianta, na internet todo mundo enfeita. É igual levar um tombo na frente dos outros. Você levanta dali dizendo que nem doeu, que está tudo bem, até brinca com a situação e depois se tranca no banheiro, xinga, fala todos os "ais" que não falou na hora e finalmente pode perder a pose.

Tem quem adore compartilhar minimalismos da sua vida e transforme até o ato de tomar um cafezinho numa crônica da vida diária. É a tal "metafísica do cotidiano" de Drummond reduzida, tal qual um molho, a 140 caracteres e diminuída com muito miguxês.

Confesso que já fui assim - mas só em parte, porque nem tenho tanta coisa pra tirar onda - mas resolvi parar, porque de gente tomando conta da minha vida já bastam os porteiros do meu prédio.

5 Comentários:

Tuka Siqueira postou 14 de janeiro de 2011 08:41

Hoje mesmo comentava sobre isso, de como os tempos mudaram e a nossa privacidade foi pras cucuias, muito com a nossa própria ajuda. Tenho orkut desde os tempos que ainda era só em inglês e ainda precisava de convite pra entrar, depois disso FB, twitter, blog e tudo o que tenho direito. Mas confesso que ainda não me sinto muito à vontade com essa parafernália toda.

Abraços

Lucas de Matos postou 14 de janeiro de 2011 09:17

Realmente... as pessoas perderam o senso do que é privacidade e do que realmente interressa, para os outros, na vida dela!
Ótimos posts!!

Isabel postou 14 de janeiro de 2011 12:05

Sempre valorizei minha privacidade, e sei como isso é raro nos dias atuais. Também acho engraçado as pessoas que entram em tudo quando é rede social que inventam. Volta e meia recebo convite para redes como Baddo, etc. As pessoas parecem tão cheias de amigos ali, mas muitas vezes não têm nenhum contato mais íntimo com qualquer um deles (aquele tipo de amigo que vc telefona, frequenta a casa...).

Maisa postou 14 de janeiro de 2011 12:46

Eh Marcus...
Todo mundo quer ser ou parecer "cool"...

Seeya

Gustavo Ca postou 17 de janeiro de 2011 10:11

Eu me pergunto se as pessoas lêem seus próprios Twitters pra terem noção do que estão postando. Suas ressacas, dores de cabeça, perdas de ônibus e outras coisas tão interessantes. Aquele foursquare é o cúmulo. E divulgar tudo o que fazem.. Penso que quanto mais vc fica preocupado em registrar e divulgar a coisa, menos vc aproveita a coisa.

 
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