Tira os pés do sofá, e se fosse na Olimpíada?

Postado em 7 de jan de 2011 / Por Marcus Vinicius

Um dos meus tios morava com a minha avó - relevem esse fato - e sempre dizia que deveríamos visitá-los mais, porque ao invés de pão com manteiga, o lanche teria queijo, presunto e com sorte até uma geléia.

Sabe como é, visita precisa ser bem tratada.

Quem nunca saiu correndo pela casa, recolhendo roupas, sacolas, copos, pratos e tudo quanto é coisa que estava espalhada, espanando móveis com a mão, rearrumando almofadas, só porque o interfone tocou anunciando a chegada de alguém que você não esperava?

Isso é normal se você está aproveitando um final de semana de ócio e aquele primo pentelho aparece de repente com a esposa e a sogra, mas não é muito saudável caso você viva rodeado de lixo, comendo miojo e resolva dar uma faxina na casa e se alimentar com algo que tenha menos sódio e corantes só porque alguém resolve te visitar.

Falei tanto para chegar no assunto principal: o Rio de Janeiro, é claro.

A indagação "e se fosse na Olimpíada?" passou a fazer parte do vocabulário da maioria dos cariocas.

Se falta luz, água, o trânsito complica mais ainda, a coleta de lixo é irregular, se tem entulho na calçada, esgoto a céu aberto, arrastão nas praias, camelôs invadindo as calçadas, enchente, vazamento de gás, se o metrô continua atrasando, se o preço do pãozinho aumenta, tudo isso é acompanhado pelas tradicionais reclamações e mais a dúvida cruel: e se isso acontecesse na Olimpíada?

Como se tais problemas não fossem inaceitáveis com ou sem um evento mundial, com ou sem a vinda de turistas, com ou sem os "olhos do mundo" voltados para a cidade.

Durante o Panamericano de 2007, a cidade resolveu seus problemas como o sujeito que estava em casa e o primo chegou de repente. Havia um rio fedorento perto da Vila do Pan? Colocaram essência na água. Sério, isso é true story.

O trânsito da cidade é caótico? Deram férias nas escolas do município, ponto facultativo para os funcionários públicos, pintaram umas faixas seletivas por onde as delegações iriam passar e pronto, o problema foi "resolvido".


Por 15 dias, é claro.

A Olimpíada de 2016, ainda que gere algumas obras de maior porte, continua passando a impressão de que o Rio de Janeiro é muito mais pra "inglês ver" do que para "carioca ver".

Já que um sistema de transportes menos medíocre, águas e ar menos poluídos, uma cidade mais limpa e organizada e sensação de segurança, deveria, pelo menos em tese, ser algo feito para todos, turistas e moradores, mas muito mais para os moradores, o que não parece ser o caso.

Não sei você, mas eu não consigo imaginar o governo de certos países mais desenvolvidos - olha o complexo de vira-lata aí - pensando assim: tudo bem, vamos sediar um evento mundial, acho que é hora de remover esses lixões da cidade, cuidar do exército de mendigos e meninos de rua que vivem em nossas calçadas, tapar buracos no asfalto e aproveitar para melhorar a merenda escolar.

É como uma pessoa que só escova os dentes quando vai beijar alguém. Deu nojinho, né?

Pois saiba que sem as Olimpíadas, provavelmente o Rio de Janeiro continuaria com a sala desarrumada, alguma cueca pendurada no ventilador, poeira em cima dos móveis e o pior, tártaro e placa bacteriana pra não botar inveja em nenhum anúncio de creme dental.

3 Comentários:

Ingrid postou 7 de janeiro de 2011 10:36

Foi exatamento o que eu pensei, quando começaram essas pacificações nas favelas. A violência sempre existiu no Rio, tudo isso que eles fizeram, essa mobilização toda já poderia ter sido feito bem antes, só que antes o Brasil não ia sediar uma Copa é uma Olimpíada, né ? Os politícos brasileiros estão cagando para o crescimento do Brasil, só querem saber de "ganhar" o deles.

Carla postou 7 de janeiro de 2011 11:38

Sim, sim, tudo exatamente assim ...
Mas te digo uma coisa, turista acha exotico e belo, a favela, o lixão, criança de rua, coisinhas que aqui tem sobrando e que se torna pitoresco aos olhos dos estrangeiros super super limpos organizados e ordenados.
Mas e a vergonha de mostrar a casa assim ?? Então ...tudo de baixo do tapete
beijos

Maysa postou 10 de janeiro de 2011 14:09

Nós, brasileiros, não somos patriotas e o pior: nao somos tratados como cidadãos. Não lutamos pelos nossos direitos e nem deveres. Estou generalizando? Se estou é em 99% dos casos.
Que conserte o país de verdade e nem se cogite falar em Olimpíadas aqui.
Fui mais drástica que você.
Beijos Angela

 
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