Você é onde você nasce

Postado em 5 de jan de 2011 / Por Marcus Vinicius

Você nasce em um lugar e acaba ganhando de brinde praticamente todos os estereótipos que acompanham seus conterrâneos. Nem vou me deter muito falando do argentino catimbeiro, do americano metido a dono do mundo, do alemão nazista, do inglês com chapéu coco, do francês fedendo a queijo.

Deixo isso tudo para os viajantes de plantão, mesmo porque aqui no Brasil a gente tem um bocado de estereótipos que, sozinhos, já dão assunto suficiente.

Um carioca, por exemplo, tem duas opções: ou nasce com uma camisa listrada, um chapéu Panamá e batucando num pandeiro ou então com uma prancha de surf, um dragão tatuado no braço e a estranha tendência de responder qualquer pergunta, afirmação ou mesmo um simples "bom dia" com um "úhúúú!".

Não tem nada mais deslocado no mundo, nem um cérebro na casa do Big Brother , do que um carioca que não curta nem samba, carnaval,  praia ou calor.

Já um paulista que troque o programa de assistir pousos e decolagens de avião por um ensaio de escola de samba é praticamente um E.T. Paulista precisa ser meio estressado, apressado, fingir que gosta de trabalho (porque gostar mesmo...) e preferencialmente urbano.

Tenho pena de quem nasce em São Paulo com vocação pra preguiçoso. São Paulo não combina com uma rede na varanda e muito menos com chinelos de dedo, ainda que alguém deva fazer uso desses ítens por lá.

E, claro, não poderia esquecer dos mineiros. Todo mundo que conhece um, tem certeza de que ele vem de alguma cidade chamada Pirapora ou qualquer coisa "do Norte" ou "de Dentro". Pindamonhangaba do Norte, Nhambiquara do Norte, Jamburuzinho de Dentro.

Baseado no que pensam cariocas, paulistas e demais brasileiros, para se comunicar os mineiros necessitariam de um vocabulário curtíssimo, composto em sua maioria por interjeições como "uai", "sô", "êta ferro" e a onipresente "trem".

Acrescente a isso um chapéu de palha, um capim na boca e um queijo no bolso ou na mochila e temos aí o que se espera de todo mineiro.


Os demais etados brasileiros tem suas particularidades, mas elas se diluem no imaginário nacional, transformando qualquer lugar ao norte do Espírito Santo - que é uma espécie de Acre da região Sudeste - apenas em "Nordeste", com cactus, calangos, chapéu de couro estilo Lampião e chão rachado.

Conheço gente que quase desmaiou ao descobrir que João Pessoa tem tantos prédios quanto a Barra da Tijuca.

Exceção à Bahia, claro, que só tem gente vestida de branco com lenço na cabeça - vendendo acarajé ou fazendo barulho no Filhos de Gandi - e micaretas.

A região Norte é simplesmente "o mato". Para o resto dos brasileiros os poucos índios que habitam por lá passam o dia entre três atividades básicas: colher frutas, pescar e correr das onças.

O último grande reduto dos estereótipos é o Rio Grande do Sul. Mas aí é um caso esquizofrenia estereotipal. Porque se os gaúchos adoram reforçar os próprios mitos com suas cuias de chimarrão mesmo sob um sol de 40º, o resto do Brasil continua reforçando o mito de que lá é um depósito de mulheres gostosas e homens afrescalhados.

Claro que é um exageiro, afinal, Pelotas não é menos "fresca" do que Campinas ou a Farme de Amoedo, em Ipanema, mas qual seria a graça de não imaginar que todo gaúcho anda de bombacha, faz churrasco até em apartamento e usa uma calcinha fio dental escondida?

Brincadeiras à parte, o brasileiro já é um gigantesco estereótipo, deitado em berço esplêndido, afinal, quem mais teria Pelé, mulata e Carnaval para lhe fazer sombra?

12 Comentários:

@Arturk2knox postou 5 de janeiro de 2011 09:19

De fato, esse lance de nordeste/paraíba ser chão rachado, cacto, seca, acabou JP é MUITO linda.

Lucas postou 5 de janeiro de 2011 09:22

Não sou E.T., mas sou paulista e sambista rs.

Felipe Dias postou 5 de janeiro de 2011 09:25

ótimo texto, podia falar dos catarina né. ta certo que o pessoal do oeste daqui acha que é gaucho e os do litoral não são muito diferente dos cariocas

Eryck postou 5 de janeiro de 2011 09:29

Meu estado é tão esquecido.
Que nem estereótipo tem.
As pessoas só lembram de Soja e Gado quando falam de MT.

lustedile postou 5 de janeiro de 2011 09:35

moro num 'paraíso' tropical, com praias maravilhosas (Fortaleza), mas confesso que não gosto pq não curto praia nem calor. Mas enfim, o ponto é: o povo do Sul/Sudeste pensa que aqui morremos de fome e sede e estranham porque nao temos aquele sotaque dos baianos que aparece nas novelas da Globo como sendo de todos os nordestinos. Estereótipo nada! Pura falta de conhecimento do pais em que vivem!

Dia desse telefonei p/Curitiba e o cara me perguntou com aquele sotaque deles: Como está o tempo aí no Rio? E eu: sou de Fortaleza. Ele: Mas como vc fala igual a carioca?: E eu: não falo como carioca, aqui falamos assim, fortalezense não tem sotaque de baiano.(em tempo: nada tenho contra o povo da Bahia)
A verdade é: Fortaleza é uma cidade lindona,cheia de prédios, praias, com toda estrutura, a quinta do País. Não vivemos numa provincia nem somos provincianos mas vão sempre continuar achando que comemos calangos e bebemos aguas armazenada nos cactus.Povo nao estuda, não lê e não viaja. Triste!

***Meu pai era gaúcho,macho, fez 8 filhos lindos...rsrsrs

Gustavo Ca postou 5 de janeiro de 2011 09:49

Esse foi um dos posts mais interessantes ultimamente. Poxa, esses estereótipos mostram como a gente não conhece o próprio país.. que nessa questão cultural é praticamente vários países dentro de um só.
E mais deslocado que brasileiro que não gosta de calor nem carnaval nem futebol? Mais alguém aí?

Luluzinha (Ludmila) postou 5 de janeiro de 2011 10:08

Sou de Sergipe,tudo bem que é o menor estado do país,mas todo mundo diz que fica na região norte,ja ouvi até que Sergipe é uma cidade,até os repórteres as vezes dão uma escorregada na hora de falar do meu estado... pequeno notável rsrs, o texto está muito bom!

Isabel postou 5 de janeiro de 2011 10:35

A imagem de mineiro com capim na boca é hilária, rsss. É claro que mesmo não conhecendo bem todos os estados do país, sabemos que cada um tem suas características, e estes estereótipos na maioria das vezes não passam de brincadeira (outras vezes é ignorância mesmo, rss). É interessante ler sobre as pessoas falarem de seus próprios estados e o que as incomodam com a visão das pessoas de fora.
Lustedile: espero que Fortaleza seja mesmo muito bonita, pois não conheço e terei a honra de passar meu carnaval aí!
Bjs

Tuka Siqueira postou 5 de janeiro de 2011 14:32

Entendo que estereotipar é julgar que todas as pessoas são iguais só porque nasceram num mesmo lugar, mas os estereótipos tem sua razão de ser. Posso falar de nós gaúchos e digo que a única coisa quente que bebo no verão é o meu chimarrão, mesmo sob um sol de 40º. Praticamente todo o gaúcho que conheço faz seu churrasco até mesmo em apartamentos, qua aqui no sul já tem churrasqueiras instaladas "de fábrica" nas sacadas. Mas posso dizer que eese papo de que gaúcho é fresco é intriga da oposição, coisa de quem tem ciúmes da virilidade dos nossos homens. É claro que toda regra tem sua excessão, assim como você, carioca, não gosta de samba nem carnaval, tem gaúcho que não curte nem churrasco, nem chimarrão e nem mulher.
Mas o que mais me incomoda nessa questão, é ator carioca, paulista ou pior ainda, baiano, imitando sotaque gaúcho. Fica horrível, forçado, feio. E certas expressões usadas na tv como corriqueiras, são na verdade características de uma regionalidade ainda menor, pois quem mora na capital não fala igual quem mora no interior e assim por diante.

Abraços

Maysa postou 6 de janeiro de 2011 16:03

Eu sou da terra do uai(interjeição de espanto), né (contração do não com verbo ser na terceira pessoa)- falado em todo o país, diga-se de passagem, e do sô (que também consta do dicionário significando senhor). Não sou de falar trem, mas coisa falo toda hora e meus filhos sabem de cor onde e o que a coisa é rsrsrs.
Mas quero deixar claro que:
NÃO SOU DA TERRA DO TU VAI, A GENTE VAMO E EU CAÍ EM SI KKKKKK
EU CAÍ EM DÓ.Litoral de SP-Santos
Nasci e morei 54 anos em BH; lá não tinha chapéu de palha, pito na boca, nem trem.Mas morando no interior é isso mesmo.
Excelente artigo!
bjs Angela

Róbinson postou 7 de janeiro de 2011 03:52

Como gaúcho, não sei como surgiu essa falsa fama de que todo gaúcho é fresco. Talvez por inveja de nossas tradições e cultura. Até porque, quando um gaúcho visita outro estado, é bem requisitado pelas mulheres.
Até desconfio porque deste estereótipo ter surgido: o povo brasileiro, com algumas exceções, é um povo muito mal-educado.

amanda_maiaa postou 11 de janeiro de 2011 10:17

Creio que ninguém chega ao meu patamar.
Moro no Acre,e ele só é lembrado por
piadinhas toscas do tipo :
O Acriano tira leite do pau,
O Acre nao existe,
Tá na hora de devolverem o dinheiro
que o Brasil pagou a Bolivia pelo Acre,
Que a nossa economia é sustentada
através do cultivo da folha que faz o daime,
Etc,etc,etc.
Fato é que aqui ng se lastima pela falta de prédios,pelo excesso de poluição das grandes capitais,
e muito menos pela violência,que é algo ''lindo'' de se ver nos noticiários.
Se nós somos onde nós nascemos.
O Acriano então,é anônimo.E pretende viver na obscuridade por um bom tempo..hauh !
*Falo por mim,e pela maioria !
Ótimo texto !

 
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