Rio 40 Graus - Se até a música sobre essa temperatura é ruim, imagine o resto

Postado em 21 de jan de 2011 / Por Marcus Vinicius

Basta um feriado, um dia de calor, um monte de gente na praia e a oportunidade de fazer um passeio pela Orla, que estereótipos, mazelas e pragas urbanas aparecem para mostrar que os brasileiros ergueram algo que pode até ser muito próximo de uma civilização, mas não é.

Sei que a princípio uma afirmação assim pode chocar e parecer exagerada, afinal, não vivemos naqueles países da África onde pessoas moram em casas que mais parecem tocas construídas por guaxinins ou esquilos, onde doenças se propagam no vento e a fome e a indigência são quase políticas governamentais, mas como a própria constatação inicial já deixa claro, não somos africanos, então isso não é desculpa.

O show de horrores começou nas imediações do calçadão, onde flanelinhas se ameaçavam com uma barra de ferro pelo direito de achacar motoristas. Lindo, né? Mas não tão lindo quando a tatuagem com o símbolo da Porshe na bunda de uma garota de programa, que era alisada nervosamente por um gringo em plena luz do dia, talvez constrangendo os transeuntes mais chegados ao pudor, se é que ainda é permitido se constranger com alguma coisa nessa "era da tolerância".

Só quem não parecia nem um pouco constrangida era a fila de mijões que se formava no muro da finada discoteca Help (futuro Museu da Imagem de do Som), que além de depósito de catadores de lata, virou dormitório de mendigos e banheiro a céu aberto.

Mas nenhuma festa é completa sem uma trilha sonora. E a Orla de Copacabana - este retrato fiel da tão comemorada "miscigenação" brasileira - tem música (ruim) para todos os gostos.

De um lado um botequim com pessoas transformando a calçada em churrascaria. Só faltava o fogo de chão, porque mesas, cadeiras e um carro aberto tocando um pagode horrível no último volume estavam ali compondo o ambiente.

Foto tirada de onde eu estava, adivinha se esse carro tocava música boa ou ruim

Mas isso é pra quem é mais "de raiz". Os mais aventureitos poderiam acompanhar a performance de dois grupos fantasiados de índios, com pintura de tribo amazônica, roupas de índio americano enfeitadas com fitinhas estilo aquelas do Bonfim e tocando músicas andinas. Mais miscigenado do que isso, só se tivesse cota para negros ou algum dos "indígenas" fosse gay.

A praia em si é um espetáculo à parte. Os sempre presentes turistas italianos, que interpretam o tempo inteiro o papel de turistas italianos, estavam lá, é claro. Eles e seus galanteios que, se fossem em português, com certeza seriam cantadas de pedreiro.

Mas tudo bem, eu devia estar de cabeça quente por causa do "delicioso" calor de verão, então resolvi dar um mergulho no mar, que até foi agradável depois que consegui desviar da montanha de lixo que se amontoava na parte mais rasa, pequenos monumentos à educação dos banhistas em forma de copos de plástico, latas de cerveja, garrafas e até fraldas.

Pensei comigo mesmo "ah, é esse trecho que está ruim" e resolvi caminhar um pouco mais, pra ver se a coisa ficaria melhor. Andei, andei, andei e para aliviar o calor paguei 3 reais por uma chuveirada num dos quiosques Orla.

Saindo de lá, me corrija se estiver sendo muito exigente, vi uma coisa meio estranha: equatorianos que vendiam souvenirs do...Equador. Em Copacabana.

Perto dali crianças se divertiam a valer na piscininha artificial de uma língua negra formada por águas que vinham sabe-se lá de onde. Entre coqueiros, redes de volei e grupos de pagode que se apresentavam nos quiosques, um cartão postal da cidade era representado ali na areia: a Baía de Guanabara.

Pensei em continuar passeando, mas uma briga de bêbados por motivo desconhecido e uma discussão de namorados motivada por ciúme - com direito à menina dizendo pro namorado que se ele era ciumento "o pobrema era dele" - me sugeriram que talvez fosse a hora de voltar para o apartamento onde estava passando o dia, bem perto da praia.

Passei o resto da tarde telefonando para a Polícia Militar e para a Guarda Municipal, reclamando dos mijões, da churrascaria na calçada, da música alta e até da possibilidade de um enfrentamento com barras de ferro em plena luz do dia, mas, ao que parece, as forças de segurança e "ordem" do Rio de Janeiro estavam ocupadas verificando se todo mundo pagou o IPVA.

Ninguém apareceu, só uma coisa surgiu: a certeza de que qualquer civilização é praticamente inviável acima de 40º de temperatura.

7 Comentários:

Tatto postou 21 de janeiro de 2011 07:28

Não é necessário o acréscimo de mais nenhuma linha neste POST...
Aliás percebemos que o "pobrema" é sempre nosso mesmo. (rss)

Parabéns... Mostrou o que as pessoas, por hipocrisia ou sei-lá-o-que procuram ignorar (lixo na praia, bebados, falta de higiene e educação, dentre outras "pérolas sociais").

Ah!!! E as autoridades apareceram? ou ainda estão conferindo o dinheiro que nos tomam?!

Susy postou 21 de janeiro de 2011 07:52

Nossa texto com todos os olhares possiveis dessa selva que achamos que é civilizada.


uma coisa é certa Macus voce é muito corajoso Rs, de enfrentar um calor desértico daqueles e com todos esses obstaculos por um banho de mar.

beijos

mvsmotta postou 21 de janeiro de 2011 08:21

Tatto,

Apareceram nada, não tinha nenhum motorista com IPVA atrasado ali pra eles tomarem cinquentinha.

Abraços

Luciana Magno postou 21 de janeiro de 2011 08:30

Realmente impressionante a sua capacidade em nos transportar (nós, os leitores) para a situação vivenciada.
Tive a fiel sensação de poder ver , por meio de seus olhos, todas as mazelas e fatos pitorescos de Copacabana, nos causticantes dias de verão.
Parece até engraçado, mas como determinadas situações nos tiram do sério. Endosso sua atitude: se eu estivesse "aproveitando" deste cenário, certamente, também estaria ajudando-o a congestionar as linhas telefônicas da Polícia Militar e da Guarda Municipal; engorssando o coro de reclamações a respeito dos "mijões, da churrascaria na calçada, da música alta e até da possibilidade de um enfrentamento com barras de ferro em plena luz do dia" (como você mesmo se referiu).
Finalizando, concordo em número, gênero e grau: "qualquer civilização é praticamente inviável acima de 40 graus de temperatura".

Maysa postou 21 de janeiro de 2011 09:47

Marcus Vinicius, nome do grande Poetinha, que era cheio de delicadezas, e eu o amo até hoje...
Passei a amar a grande sensibilidade, `sem suavidade, mas com bravura indômita.
Admiro a sua audácia, porque sou assim também, sempre exercendo a cidadania, mesmo sem civilização.
Vi tudo e senti também, como se estivesse lá...
Não desista nunca e continue da sua maneira peculiar, que tem tudo de civilizado.
Parabéns e bravíssimo!
Bj
Angela (meu filho Vinicius tem 28 anos)

Carla postou 21 de janeiro de 2011 10:46

Fui frequentadora das matinês da Help, no tempo que se dançava Alive and Kicking com Simple Minds, caralho me entreguei, rs.

Eu imagino sua angústia a procura de um banho de mar em uma Copacabana que mais parece o piscinão de Ramos.

Atenção ! Paguem seus IPVAs é melhor sustentar os políticos engravatados do que ser achacado pelo guardinha morto de fome (muita humilhação), hahaha.

bjs Marcus

Ramon postou 22 de janeiro de 2011 02:56

Essa é a verdade, não fui ao Rio, mas fui em Balneário Camboriu-SC, e duas coisas marcaram, uma lata de cerveja que pisei em pleno mar, e o som ensurdecedor de centenas de carros, com música de péssimo gosto por sinal (isso tem em tudo lugar, principalmente aqui no interior de Goiás).

 
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