A força(da) felicidade

Postado em 22 de ago de 2009 / Por Marcus Vinicius

Tentei fazer uma brincadeira com o título desse post, unindo "a força da felicidade" com a "felicidade forçada", não sei se fui bem sucedido (dizem alguns que, se tive que explicar, é porque não ficou bom), mas em todo caso o título aqui é o menos importante, já que o assunto é bastante interessante.

Quem navega a um tempinho pelas ondas cheias de pneus, garrafas pet e ressacas da Internet-Brasil(nem falarei das outras, se são iguais ou não porque sinceramente pouco me interessa) conhece aquele fenômeno que já virou até frase de efeito: no Orkut todo mundo é feliz, no MSN todo mundo está ocupado, no Twitter todo mundo é intelectual e espirituoso.

Isso nos tempos da vovó e até nos de hoje é a popularmente conhecida "fachada".

O cara foi pra Búzios, aliás, pra perto de Búzios, num condomínio no meio de uma estrada de terra e de uns 20 terrenos baldios, pegou chuva o feriado inteiro, ficou puto, mas coloca no seu MSN pelo celular (se pegar sinal no local, é claro): "Curtindo todas em Búzios".

Quando retorna vai correndo pro Orkut e posta uma foto sua comendo pastel numa barraca de praia debaixo de chuva com um sorriso forçado e a legenda "Tempinho nublado delicioso pra curtir", coisas assim. Um pinto molhado, numa cidade que teoricamente visitamos para ver sol e calor, feliz da vida com um guarda-chuvas e um pastel.

Isso é mais comum do que podemos imaginar.

Eu mesmo já me peguei fazendo auto-flagelação, culpando-me porque não conseguia ver tanta graça assim num picolé na padaria, enquanto para certos twitteiros, orkuteiros ou blogueiros isso representava um evento equiparável a uma visita à "Fantástica Fábrica" de Willy Wonka.

Tenho mania de dizer que brasileiro tem complexo de área VIP. Consegue transformar tudo em evento e, ato contínuo, consegue inventar mesmo num churrasco na laje um "local reservado para os mais importantes", é o tal cercadinho VIP.

Sei que a felicidade forçada e o complexo de área vip tem uma correlação que pode não ser muito "forte" argumentativamente, mas corroboram com a tese de que muito do que fazemos, é pra "inglês ver".

Se te perguntam "E aí? Como vai?" e você responde "Não ando muito legal não", pronto! Fulaninho é baixo astral, tem energia negativa, atrai maus fluídos, manda ele pro descarrego!

Notem, não estou falando daquele típico chato que você pergunta "Como vai?" e ao invés de responder "bem" ou "mal", até com a opção do "mais ou menos", o indivíduo pega a deixa e conta, não.

Estou falando simplesmente de não ser obrigado a responder algo como "maravilhosamente bem!" a uma pergunta assim quando, por exemplo, você está com diarréia, brigou com a namorada, levou uma multa no trânsito e alguém superou aquela sua oferta de 1 real pelo iPod touch no Mercado Livre, sob pena de ficar conhecido como o Urubulino do bairro.

O brasileiro tem a fama de ser um povo "feliz apesar dos problemas", idéia que eu não compro. o brasileiro é muito bom na arte da digressão. Ele esquece ou finge que esquece os problemas, não os supera.

Daí o cara sai de um trabalho que o paga mal na sexta-feira, pra ir embarcar numa Kombi ou trem lotado, rumo à sua rua sem calçamento, sem recolhimento de lixo, sem quase nada, mas vai pro churrasquinho beber uma lata de cerveja quente e batucar na mesa, "feliz".

Amigos, podem me chamar de radical, mas não compro essa idéia. Ou seríamos hienas ou então somos mestres na arte do "deixa pra lá".

Tudo bem, dei um exemplo extremo, comecei falando de Twitter, MSN e terminei num trem da Central. Mas um exemplo assim, mais "vivo" faz a gente visualizar melhor a coisa.

O equivalente ao cara do churrasquinho com cerveja quente aí de cima é o sujeito de búzios, ou aquela garota que parcelou uma viagem na CVC em 24 vezes, gasta o salário inteiro em bebidas e boates, vivendo dura e p*! da vida por isso, mas aparece na internet pros "amigos" como se fosse a Lolita Pille tropical.

É trabalhar de vendedor em loja de roupas e fazer um cartão dizendo que é "consultor corporativo de moda e vestuário".

Nada demais em se vender mais bem na fita, mas putz, tente não exagerar...

Foi pra um batizado chato pra c*, com sua família que não se dá uns com os outros e ainda por cima teve que encarar uma coxinha de galinha fria e tubaína quente? Nada! Estava em um "evento familiar, com meus primos que não via a muito tempo, comendo e bebendo muito".

Trabalha num lugar que te paga mal e o patrão vive pegando no seu pé? Coisa nenhuma! Você atua em uma empresa com um "salário de expansão potencial projetada e um superior hierárquico que conhece seu talento e por isso exige muito de você".

Vive caindo na porrada com o namorado(a), passam o final de semana enfurnados em casa discutindo relação e usando o tempo que sobra em DVD (deita, vira e dorme)? Vai falar isso pra "galera" do Twitter e do MSN? Lógico que não! Vocês tem uma relação "intensa" e passaram o final de semana inteiro juntinhos em casa, curtindo um papo e assistindo DVD (aí sim, o Digital Video Disc).

Poderia citar um monte de exemplos aqui, mas não vejo necessidade, com certeza você que me lê conhece vários deles.

Resolvi falar sobre esse assunto porque ele rende muitas gargalhadas e "teoridas de botequim". Inclusive eu e um dos meus melhores amigos sempre conversamos bastante sobre essa "ditadura da felicidade" que te obriga a ser feliz mesmo sem que você esteja particularmente radiante naquele momento.

Eu e ele combinamos de nunca faltarmos com a verdade nessas horas e de um jamais se chocar um com o outro por isso. É engraçado depois que a gente acostuma quando perguntamos pra um amigo "E ai?" e ele solta um libertador "O dia hoje está uma belíssima bosta!".

Entendam que não defendo aqui a necessidade de vivermos tristes, insatisfeitos, nada disso, apenas o direito de, quando assim o estivermos, não precisarmos usar pancake até nas conversas.

Está irado com o chefe? Pau da vida com seu salário? Brigou com o namorado? Levou um chifre? Viajou e achou que fosse um girino na volta de tanta chuva que pegou? Tá com medo da gripe suína?Seu Blackberry caiu, despedaçou, virou a Amy Winehouse e você vai ter que comprar um novo?

Relaxe, tudo passa, mas experimente não esconder que você está meio "chateado (a)" com isso.

Afinal, ninguém pode ser feliz o tempo todo sem ser falso, área VIP de quintal geralmente é um canil, quando for viajar e quiser colocar fotos no Orkut o Ceará tem seguro contra chuva e finalmente, todo mundo se ferra, lembre-se: Hugh Grant, Madonna, e outros famosos e glamourosos tem seus momentos de mico e derrota e que, de perto, ninguém é normal.

13 Comentários:

pedrinha postou 22 de agosto de 2009 09:49

Verdade Marcos... a gente acaba andando no automático e dizendo o que não é verdade. Salvo qdo é um amigo/colega/conhecido mala que vem perguntar se está tudo bem e vc não quer dar abertura pra a conversa se alongar, vale sim um "está tudo ótimo", se reclamar fodeu.. ele vai agarrar no seu anjo da gaurda e não soltar até te converter ou salvar..haha!

Mas as tosqueiras no Orkut .. aff, acho que só crescem junto com o tamanho do ego dessas pessoas que sofrem com uma terrível baixa auto- estima (se escreve assim ou não?).

O segredo talvez seja a dose que damos a tudo que fazemos, falamos, pensamos... bjs

Tentei postar com minha ID, mas aqui não rola a atual, só as antigas. Sorry.

Dani Rodrigues postou 22 de agosto de 2009 09:53

Perfeitoooo... sou quase sua fã (rs). Se as pessoas ocupassem seu tempo vivendo a realidade, ao invés de representar a vida que os filmes e novelas "ditam", com certeza sobraria mais tempo para ser feliz de verdade e teríam mais problemas reais do que imaginários.

Fern. postou 22 de agosto de 2009 10:04

Acho uma completa loucura essa obrigação que se impõe de que sejamos felizes o empo todo.Isso ainda dá base pra comportamentos que acho nada saudáveis, como esse conformismo perante certas coisas cotidianas que nos atrapalham e acabam atravancando caminho pra coisas que poderiam nos deixar mais felizes de verdade.
Quem não é capaz de perceber e admitir um problema, nunca será capaz de elaborar uma solução.
E a soma do conformismo, dessa felicidade absoluta e eterna, que se atinge por consumismo e despropósito e a preguiça mental tem causado tanto estrago que nem sei...
Deu uma puta volta, mas valeu a pena,xuxu!

Beijos!

P.S.: Nem te perguntei, vc foi a FLIP o não?

Noa postou 22 de agosto de 2009 10:47

Engraçado...eu já percebi isso há muito tempo e nunca entendi por que a necessidade tão grande das pessoas de mascararem tanto a realidade. Imagina o tempo q elas perdem com isso? O q acontece no fundo é que existe uma maior precupação com o q os outros vão pensar do acontecimento do que com o próprio acontecimento. Concluindo: a maioria das pessoas vive a vida em função dos outros e não delas mesmas. Acredito q isso seja um comportamento tipicamente latino mas posso estar enganada. Não sei. Só sei q isso tudo é real e uma total perda de tempo.
Continue a escrever honey baby. Beiju

infinitopositivo postou 22 de agosto de 2009 10:52

Motta, foi perfeito o mote que utilizou: "ditadura da felicidade". Quero crer que isto é uma herança cultural, cuja origem - para as gerações atuais - foram os anos 60 no Brasil. Somado a este conceito é de se considerar o papel das mídias dentro de cenário capitalista e excessivamente competitivo. O endeusamento de celebridades e celebridades de meia tijela, os costumes que se instalaram como resultantes de outras forças, a exemplo da moda, da intensidade social quase que obrigatória, construíram o tal "cercadinho VIP" que você também abordou com integral acerto.

De tudo resultou um indivíduo manipulado até na sua forma de pensar. E pensando, assim ele age. culmina por se transformar em algo tosco, onde o que menos interessa é a verdadeira identidade. O pior é que isto se transfere ao caráter.

Não é preciso dizer que este estado de coisas também se transfere para o sentimento e a ação política.

Belo post. Tenho-o no Twitter e fiquei fã do blog. Aguarde referências e link no meu.

Abraço.

Edilane Gonçalves Godinho postou 22 de agosto de 2009 11:13

ADOREI o seu post!! Irei voltar aqui mais vezes!!!

Isabelle postou 22 de agosto de 2009 11:30

Olha, esse texto tá muito bom, mas no final vc matou a pau: "Ninguem consegue ser feliz o tempo todo sem ser falso" ou pelo menos, sem soar falso né? Pq tem gente q se engana mesmo e acredita no teatrinho que representa o tempo todo.
Eu nao consigo ver essas pessoas "felizes demais" sem achar q é exagero.
A proposito, outra coisa q me "incomoda" (ou me chama a atenção de forma negativa) são essas pessoas "ocupadas" o dia todo no MSN... se tá ocupado, ta fazendo o que no MSN (a nao ser q a pessoa trabalhe pelo MSN, o q qse nunca é o caso)?
Enfim, adorei o texto e parabéns pelo novo blog, tá ótimo!

D postou 22 de agosto de 2009 12:24

AUHAUHAUAH de fato, falsidade se tornou uma virtude, e deixou de ser um defeito. Não precisamos ser sinceros, estando com bom status no msn e orkut, e colocando "feliz" no buddy poke.

tarciso postou 22 de agosto de 2009 13:37

Sou do tipo que prefere expressar otimismo quando este se justifica e quando não tenho motivos para tanto prefiro também manter reservada a minha eventual amargura. Entretanto quem debocha de tudo e se expressa azedamente tem lá a sua dose de sucesso. Só isso justifica a publicidade ao próprio mal humor. Costuma dar Ibope.

karine postou 22 de agosto de 2009 15:33

Aquela velha história de passar uma bela e feliz imagem! ser o que os outros esperam de nós e não decepcionar.Adorei a maneira que você abordou o assunto quase morri de rir!e virei fã do seu blog.

Eduardo P.L postou 23 de agosto de 2009 04:42

Motta,

você e sua tese estão completamente contra a correnteza.
Falar que essa é uma característica do povo brasileiro, é desconhecer seus maiores valores, que residem, exatamente nisso! Os que comentaram favoravelmente dão provas do que penso. Só uma minúscula minoria de brasileiros curte auto-flagelo. Graças a deus! Já imaginou um POVO inteiro nesse baixo-astral, nessa lamuria e mau humor? Ser otimista e ver sempre as coisas pelo seu melhor lado e ângulo é uma bendita virtude!
Mas hoje é Domingo, e não vamos entrar nesse papo baixo-astral! Vamos à praia para poder contar depois TUDO de bom que aconteceu! O que não correu tão bem, fica pra gente, que ninguém tem nada com isso! E vamos remar à favor da "correnteza"! É muito mais leve!

Selena Sartorelo postou 24 de agosto de 2009 10:56

Olá Motta!

Li o texto do Ery então por isso cheguei aqui. Mas pelo visto escrevi lá o que não escreverei aqui.
Você faz uma leitura real sim sobre essa falsa ilusão de ser feliz.
A falsa ilusão a que me refiro está um pouco além do que mencionou. Já vi muitas pessoas que se dizem infelizes tão equivocadas quanto as que se pintam felizes.
Um assunto realmente interessante de se escrever e o melhor que é podemos ter cada um a sua compreensao sobre ele.

De qualquer maneira prefiro ser positiva mesmo quando não estou, isso não cega meus sentidos apenas me mantem atenta e saudável.

beijos

carol postou 21 de dezembro de 2010 17:03

eu tenho fama de reclamona entre meus amigos, mas fazer oq se minha vida é assim? e nem reclamo de bobagem, não, me contento com mto pouco.

mas se eu fico sabendo q fui reprovada, perco o onibus e mais um monte de coisas ruins no mesmo dia/semana, é claro q vou reclamar

daí eu fico pensando se eu ia aguentar um monte de gente "baixo atral" ao meu redor? acho q nao, nao sei... tudo depende de como vc encara sua infelicidade

eu costumo dizer q sou triste/insatisfeita, mas não demonstro... por mais q eu reclame, eu faço de um jeito minimamente engraçado, tipo debochando do meu proprio azar, e mtas vezes me divirto mto fazendo isso... se eu fosse realmente trancar a cara, nem eu aguentaria minha vida

 
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