Exageros de Gourmet

Postado em 10 de ago de 2010 / Por Marcus Vinicius

Pouca gente escapa da festinhas de empresa no final do ano, e como não sou um desses privilegiados, tive que cumprir a minha cota duas ou três. Quem já foi sabe como é: ou acontece numa churrascaria e termina com as pessoas bebendo além da conta e cometendo indiscrições e inconfidências das quais se arrependerão no dia seguinte, ou então se dá numa boate, estilo happy hour, com salgadinhos que serão o lucro da farmácia que venderá quilos de sal de fruta para a azia certa do dia seguinte.

Só que uma vez fui numa diferente, nem melhor e nem pior, mas realizada numa dessas casas moderninhas com menus estilosos. O que aconteceu foi que ao invés das coxinhas, bolinhas de queijo e pastéis feitos com a carne assada que sobrou do almoço, eles serviram chutney de acaí, graviola e cupuaçu, canapés de banana com siri (por mais bizarro que isso possa parecer, foi o que consegui identificar), pãezinhos ciabatta miniatura com geléia de pimenta, entre outros acepipes. Não vou dizer que os salgadinhos seriam melhores, mas estaria mentindo se não dissesse que achei esse cardápio, no mínimo, estranho

E isso me fez pensar sobre os exageros que certos restaurantes cometem quando querem ousar demais, porque uma coisa é você pegar ingredientes do dia a dia e "enfeitar" cada um deles, dar um toque regional, especial, e apresentar sabores diferentes ao seu cliente.

Talvez por isso eu nunca vá esquecer de uma rabada já recheada com o agrião - imagine o trabalho que não deve ter dado desossar aquilo tudo e rechear depois - que chegou a vencer um concurso de gastronomia. E quem já foi ao Ateliê Culinário com certeza pôde descobrir que um caldinho de feijão, um cachorro quente e um bolo de laranja podem assumir conotações totalmente diferentes e novas com capricho e inovação.

Já provei pratos inovadores que eram deliciosos. Como um risoto ao brie, com presunto parma e rúcula. Não tem nada mais prosaico do que um risoto, no entanto pequenos toques o transformam em algo sem igual. E isso vale para tudo, desde berinjelas ao mel até uma simples mousse de chocolate meio amargo com umas folhinhas de hortelã e amêndoas por cima.

Mas outra coisa bem diferente é você praticamente chocar seu cliente. Não sou expert em haute cuisine, logo as opiniões que emito são de um mero curioso, ou mais precisamente do sujeito que entra num estabelecimento com fome e quer comer bem, então creio que posso dizer que um "quibe de camarão com nozes" é muito, muito estranho. Podem me chamar de ignorante, mas batizar algo de "quibe", seja lá o que for, não transforma aquilo automaticamente num quibe. É preciso algo que remeta, ainda que de longe, ao sabor de um quibe.

E isso vale para tudo, na minha opinião, claro.

Alem disso esses restaurantes honram a fama de serem lugares para provar comida, ou seja, nem pense em sair de muitos deles com a barriga cheia, não é esse o objetivo. O objetivo é entrar lá com o bolso cheio, porque os preços geralmente valem uma compra quinzenal. Já saí de um restaurante francês onde comi o que seria um steak au poivre vert, direto para uma pizzaria e com a sensação de ter comido meio churrasquinho de gato.

O que é uma experiência bem diferente do tal menu degustação , que vai sendo servido aos poucos, em pequenas porções, e no final você tem a sensação de que comeu um bezerro.

Mas no final das contas, o que importa é o prazer de se estar à mesa, com bons amigos e uma conversa agradável. Sou de família portuguesa e apesar de saber que isso muda nossa percepção em relação à quantidade de comida, já que lusitanos gostam de muita, também me fez associar as refeições a diversão, reunião, confraternização e, claro, boa comida. Exageros de gourmet à parte, esse é certamente um dos maiores prazeres da vida.

Por isso costumo dizer que um bom chocolate para ser melhor do que sexo, só depende da qualidade do sexo, e não do chocolate.

1 Comentário:

Isabel postou 11 de agosto de 2010 07:49

Realmente, banana com siri é bizarro (lembre-se que era banana da terra, ainda por cima, rss).
Beijos

 
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