Tudo tem seu preço

Postado em 11 de ago de 2010 / Por Marcus Vinicius

Havia uma boate perto do lugar em que morava, sempre aberta, luz acesa na rua escura, totalmente convidativa. O bar onde estava já ia fechar mesmo e além do mais eu já não aguentava mais nenhuma dose daquele gin (bom pra rima e ruim pro rim, como dizem por aí).

Resolvi entrar. Dois caras na fila me cumprimentam. Será que essa porra é festa gay? Um deles pergunta "e aí? curte o tema da festa?". Porra, só pode ser gay. "Tema? É festa a fantasia?","Não! É uma festa fetixista".

"Desde que ninguém queira me bater com nada e nem enfiar nada em lugar nenhum, pode ser que eu goste sim". Todos gargalharam. Eles também eram iniciantes. Um, simpatizante e o outro apenas companhia.

Entramos e uma mulher (feia) toda vestida de couro nos recebe, pagamos e subimos uma escadinha que termina num bar. Depois mais uma escada apertada levaria a uma pista de dança onde a música alta e quase incompreensível tocava enquanto moças seminuas caminhavam sobre corpos deitados no chão. Numa espécie de palco improvisado, um sujeito gordo leva uma surra de chicote. Fico sem saber quem sofre mais, se a vítima ou o algoz com a visão tão próxima daquelas costas cheias de pêlo e banha.

Resolvo sair dali antes que aquelas cenas ficassem gravadas na minha retina para sempre. Vou para o bar, peço suco de pessego - já não aguento mais nem um mililitro de álcool - e eis que surge a japinha.

Baixinha, bunduda - incrível, pensei: japa bunduda - tatuagem enorme no braço, franjinha. Putz, meu número. Me olha, sorri e se aproxima.

Se apresenta (juro que esqueci o nome, obra do whisky e não da minha discrição) e ficamos ali conversando alguns minutos. Ela veio do Paraná só para aquela festa (quem diria, pessoas viajavam por causa daquilo) e estava num hotel ali perto. Tinha todo o dia seguinte livre antes de voltar para Curitiba e até gostaria de conhecer as maravilhas da cidade maravilhosa caso alguém se dispusesse a acompanhá-la.

Me convida para conversar num sofá ali perto e dois minutos depois disso aparecem três caras e perguntam para ela "pode?" e ela responde automaticamente "só dos joelhos pra baixo". Devo ter virado um ponto de interrogação gigante, porque nem precisei perguntar para ela explicar que eles queriam beijar os pés dela. Não os culpo, eram pezinhos lindos mesmo (e tatuados), mas e o resto?

Foi o que perguntei e ela rindo respondeu: bem, o resto é seu. Beijei, apertei, brinquei, explorei e só não tentei fazer mais ali mesmo porque não queria levar uma coça de um dos seguranças que, com certeza, seriam menos caridosos ainda do que a mulher que surrava o gordo no palco.

Ficamos ali naquela sociedade feliz. Eles com os pés - só até os joelhos - e eu com língua, peitos, pernas e tudo mais. Confesso que gostei desse Tratado de Tordesilhas.

Três, quatro, cinco, manhã. A festa acabando e eu ali fazendo a japinha de picolé, até que uma amiga dela com cabelinho channel e jeito da Valentina do Crepax a chama para ir embora.

Trocamos telefones e fica combinado um passeio no dia seguinte, quando ela conheceria o Pão de Açúcar, as praias da Barra e com sorte eu conheceria mais algumas partes da anatomia dela.

Telefono umas 2 da tarde, ela atende com aquele sotaque de paulista cruzado com gaúcho e me pergunta onde estou. "Copacabana e você", "estou no hotel, vamos sair mesmo?", "claro, se você quiser vamos sim, eu quero", "bem, tudo bem eu quero, só que...", "só que o que?", "preciso pagar umas contas em casa e só poderemos sair se você me der 200 reais".

Silêncio. Eu pensando: resolveu me cobrar agora? Quer dizer, amasso é de graça, mas o resto tem preço tabelado?

"Sabe o que é fulana, eu estava pensando a mesma coisa e ia te pedir só cinquentinha pra gasolina antes de você dizer isso e como eu preciso de menos que você, será que rola da gente sair e ninguém cobrar nada de ninguém? Ou então a gente arruma algum trouxa pra tomar um dinheiro e dividimos a grana, que tal?".

Tututututu. Caiu ou ela bateu na minha cara? Oh, dúvida cruel.

Guardei o celular e fui cuidar da vida, afinal, ainda que tudo tenha seu preço, eu tenho como política jamais pagar por algo que eu possa conseguir de graça.

4 Comentários:

Fabiano R Battaglin postou 11 de agosto de 2010 10:02

Lição para ser aprendida: desconfiar de orientais com uma bela bunda (ponto fraco óbvio de nós homens)

Heaven, I´m in Heaven! postou 11 de agosto de 2010 11:01

Isso que dá querer se aventurar pelo que é muito "diferente"...quebrou a cara!

mvsmotta postou 11 de agosto de 2010 11:03

Nem tanto, os amassos foram free.

Kilson postou 11 de agosto de 2010 13:34

Nota 10! rsrsrsrs
Comungo da sua filosofia...
NUNCA PAGAR POR AQUILO QUE SE PODE TER DE GRAÇA!
Mas o que se dizer de um casamento? É de graça ou tem um preço ainda mais elevado?
Excelente texto!

 
Template Contra a Correnteza ® - Design por Vitor Leite Camilo