O Dia Mundial sem Carro

Postado em 22 de set de 2009 / Por Marcus Vinicius

O assunto nos jornais, blogs e Twitter hoje é o tal Dia Mundial Sem Carro. Se bem entendi, esta é uma iniciativa que visa conscientizar as pessoas para a necessidade de utilizar transportes alternativos e para a urgência da redução da poluição do ar.

O primeiro sinal de malice nisso é a tal palavrinha "conscientizar". Isso geralmente denota que alguém tentará convencer outro alguém que o que está bem diante dos seus olhos na verdade "não é bem assim".

Por exemplo: as ONGs de direitos humanos tentam nos convencer que um facínora que assassinou a facadas uma família inteira para roubar um faqueiro, na verdade é uma "pobre criança indefesa que não teve a devida atenção da sociedade".

Da mesma forma é a tal satanização dos automóveis e seus proprietários. No Brasil a gente tende a culpar o alvo mais fácil e buscar a solução menos complicada.

Me digam se esta cena não é corriqueira em qualquer grande cidade: 18:00 horas, um engarrafamento infernal, todos de janelas fechadas com medo dos assaltos, sinal (semáforo) abrindo e fechando sem que os carros consigam andar, vários ônibus lotados, com pessoas ali dentro morrendo de calor, cansaço e todas espremidas tal qual sardinhas em lata, um guarda de trânsito soprando seu apito enlouquecidamente e multando qualquer coisa que se mova diferente do que ele ache adequado.

Soa familiar tal descrição?

Agora me responda: quem, em sã consciência, preferiria viver isso a utilizar um veículo leve sobre trilhos, bonde, trem ou ainda um metrô que fosse refrigerado, pontual, espaçoso e com intervalos decentes entre as composições e levasse qualquer um até próximo de sua casa, fosse aonde fosse, em um trajeto contínuo?

Não conheço ninguém que também não curta algumas chicotadas e pingos de vela que preferiria o engarrafamento à cena que descrevi acima.

Só que nas cidades brasileiras a coisa não funciona assim. Quem mora longe não tem como chegar em casa sem utilizar transportes de qualidade medíocre ou automóvel, esse é o fato.

O metrô do Rio de Janeiro por exemplo avança à medida de uma nova estação a cada quatro anos. Nesse passo, quando meus netos tiverem a minha idade o metrô da tal Linha 4 chegará até Jacarepaguá.

As estações que já existem não tem acessibilidade decente. Uma pessoa com problema nos joelhos terá que subir vários lances de escada em diversas estações. Seu funcionamento não vai até altas horas como deveria e as composições vivem entupidas, com pessoas se acotovelando ali dentro.

Quem pega um trem do metrô na Linha 2 (Zona Norte e Baixada), sabe bem o zoológico que aquilo vira depois das 5 da tarde.

E o metrô é o que de melhor o transporte coletivo da cidade oferece.

Os trens são dignos da India ou Paquistão, os ônibus são vergonhosos, sucateados. Nem vou falar do tal "transporte alternativo", essas famigeradas kombis e vans que não oferecem segurança, não respeitam leis ou as menores regras de civilidade, pioram ainda mais o trânsito e são, em sua maioria, dominadas por milícias e marginais.

Numa cidade em que faz mais de 30 graus quase todo dia, ar-condicionado ainda é considerado luxo.

Isso e o caos no trânsito que ocorre devido a transporte ilegal e sistema de sinais (semáforos) e organização viária totalmente obsoletos, daí quem pega um ônibus num trajeto que demoraria 40 minutos normalmente, leva mais de 2 horas para chegar ao seu destino.

Num cenário destes, como culpar quem mora longe do centro e use automóvel?

Ficará engarrafado, mas pelo menos estará confortavelmente acomodado numa poltrona, com som ambiente e ar-condicionado. Mas acredite: a maioria esmagadora destas pessoas preferiria outra opção.

Mas qual? Bicicleta? Pra quem precisa percorrer um trajeto de até uns 5km eu até admito, mas mais do que isso? Como? Quem tentar, se conseguir completar a aventura sem que um ônibus, van, kombi ou mesmo carro passe em cima ou sem ser assaltado pela bandidagem que domina as ruas, chegará no trabalho empapado de suor, imundo.

Não é realista.

Assim como não é realista nas condições atuais de transporte coletivo no Brasil, exigir ou mesmo pedir que as pessoas deixem seus carros na garagem. Óbvio que para o poder público é bem mais fácil colocar a culpa nos donos de automóveis.

São eles que sofrem um assalto anual na forma do IPVA, que são bi-tributados quando passam em praças de pedágio, que sofrem o assédio da indústria da multa, dos flanelinhas, do escambau e ainda assim, na visão do governo e dos malas "ambientalistas", eles são os vilões.

Não são.

São vítimas de um sistema de transportes caótico, obsoleto, desumano, assim como cada um de nós.

É aí que está o problema e também é aí onde mora a solução.

8 Comentários:

Isabel postou 22 de setembro de 2009 10:35

Eu, como não tenho carro nem sei dirigir, conheço o lado do pedestre, que tem que aturar motoristas mal educados que ultrapassam sinais, param na calçada e obstruem rampas de deficiente. O caos que vivemos não justifica esse tipo de postura. Mas entendo e concordo com o que vc disse sobre o lado dos motoristas. Mas é esse o governo que nós temos: sempre tirando a responsabilidade de si e jogando pra nós...

Neu postou 22 de setembro de 2009 11:35

"Não é realista"
Perfeito!

Babi. postou 22 de setembro de 2009 11:41

Eu acho que a idéia não é convencer ninguém que more longe do trabalho a deixar seu carro e se degladiar nos transportes públicos, mas sim usar o seu carro de uma forma mais responsável e coerente com a nossa realidade ambiental.
O trânsito está abarrotado de carros que só levam o próprio motorista e de gente viciada em carro pra ir até o cineminha ali na esquina. Essa é uma realidade que pode ser mudada, não?
A campanha está vinculada a petições para melhoria do transporte coletivo. Agora se algum dia eles farão a parte deles eu não sei, euquanto isso eu faço a minha.
Bjs.

Denise postou 22 de setembro de 2009 12:51

Eu vejo isso por dois lados. O primeiro e óbvio. Ninguém vai trocar seu carro por transporte coletivo, se não for oferecido algo no mínimo decente. E aqui em São Paulo ainda pra piorar, o digníssimo prefeito resolveu limitar o alcance dos fretados, que ainda era uma tentativa de por menos carro nas ruas, fazendo com que muita gente obviamente parasse de ir trabalhar de fretado e passassem a ir de carro.
Mas por outro lado existe gente que é tão dependente de carro, que até pra ir na padaria a 10 minutos a pé de casa vai de carro.. Aí também já é demais não é mesmo? hehehe

Mila postou 22 de setembro de 2009 17:03

Esse povo é muito louco mesmo. Aqui em Belo Horizonte nem se for perto dá pra ir de bicicleta, a cidade inteira é morro! Tem alguns que mal carro sobe! Da minha casa a facu de carro são 10min de ônibus são 40min. Preciso falar mais alguma coisa?! Sem contar que pra mulher ficar andando pra cima e pra baixo de ônibus e derivados, dependendo do horário, é quase certeza de que alguma coisa ruim vai acontecer.

Pri Piffer postou 22 de setembro de 2009 21:14

Concordo com tudo que você escreveu! Acho ótimo que as pessoas tenham um olhar crítico ao que é imposto pelas autoridades... precisamos realmente questionar! Mas acho que você poderia ver também por um outro ângulo... A maioria das pessoas que trabalha comigo mora em Botafogo a uns 5 km do Rio Sul e todas vão de carro, as vezes perdem mais tempo procurando uma vaga do que indo pro trabalho! As pessoas se acomodam e as vezes até complicam, não seria mais simples ir de ônibus? Eu fui meses de carro, até ser roubada e hoje uso o ônibus do condomínio... Quantas pessoas moram no meu prédio, trabalham no centro da cidade e poderiam ir muito mais confortáveis no ônibus do condomínio, sem ter que enfrentar o stress do trânsito, tão seguras e mais confortáveis que nos seus próprios carros, mas, em geral, vão de carro por costume! Se o "dia mundial sem carro" tiver mudado a cabeça de alguém ou no mínimo lembrado as pessoas que temos que ter um pouco mais de cuidado com o meio ambiente, não necessariamente deixando o carro em casa, mas com outras pequenas atitudes do dia-a-dia, já vai ter valido a pena o alerta, você não acha?

naosenhor postou 23 de setembro de 2009 09:42

Sem transporte coletivo de qualidade não dá. Aqui em casa mandamos pra bem longe o Dia Mundial sem Carro.

É comom querer trocar o carro a gasolina por um elétrico, que custa os olhos da cara, tem manutenção praticamente impossível e a autonomia de um carrinho à pilha...

Jaques Wolbeck postou 10 de novembro de 2009 14:50

nossa hoje fiz uma prova , prova brasil vi essse texto que tinha na prova e vim ver gostei adorei mesmo *-* então vou seguir o blog, mas na net porque de bike não dá kkkkk....

 
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