Argentina, Brasil

Postado em 13 de out de 2009 / Por Marcus Vinicius

Lembro muito bem a Copa de 1986, no México.

Assisti a mais um vexame do Brasil, consegui mais uma frustração na minha galeria de frustrações como amante do futebol (se bem de que 82 foi pior, muito pior) e tive que engolir o Maradona destruindo tudo em campo e dando o título para a Argentina.

Quatro anos mais tarde assisti o mesmo Maradona comandar a Argentina e implodir aquela seleção brasileira vagabunda do Lazaroni, tornando definitivamente o time hermano meu inimigo público futbolístico número 1.

No final das contas Argentina terminou vice-campeã e recordo que torci para que a Alemanha nos vingasse e metesse uma surra nos hermanos.

Só que depois da derrota deles ser consumada e de assistir a uma triunfal chegada da seleção argentina em Buenos Aires logo após a decisão, confesso que senti uma empatia enorme por eles a ponto de comprar uma camisa da seleção alvi-celeste pra mim.

Foi nesse ponto que começou a inflexão positiva porteña para mim.

Argentinos são sofridos, não porque o sejam naturalmente, mas porque gostam da coisa sofrida, suada, carregada de significado. Eles são mais frios que os brasileiros, porém tão quilomberos quanto, só que cada um ao seu modo.

Eles, protestam, quebram tudo, fazem o diabo pelos seus direitos. Nosso quilombo é outro. O brasileiro festeja.

Festeja sua pobreza, seus problemas, suas deficiências, passa a vida de uma festa a outra, meio que "esquecendo" a maioria das coisas que lhe aflige.

Somos tão próximos e tão diferentes e temos a nos separar ainda mais, nessa fronteira imaginária bem mais distante do que a real, este rio caudaloso e violento que é o futebol.

Só que por incrível que pareça, para eles a questão parece bem menos incomoda do que para nós, insuflados por idiotas na mídia e nas narrações de TV que transformam "catimba" futbolística em quase uma deficiência moral de um povo.

Passei férias em Cabo Frio e Búzios quase a minha adolescência inteira e a maior recordação que tenho é de argentinos sendo destratados. "Sujos", "abusados", isso e aquilo.

Daí, qual não foi minha surpresa ao chegar pela primeira vez em Buenos Aires e saber que eles simplesmente adoram brasileiros.

Sério, não é figura de linguagem e nem exagero estilístico, eles nos adoram!

Óbvio que tem as brincadeiras sobre futebol, mas a forma com que eles me tratavam lá me causava vergonha pela forma com que eles são tratados aqui, na maioria das vezes.

Por isso mesmo eu acho que os brasileiros deveriam ouvir menos o Galvão Bueno e concentrar-se mais nas qualidades e belezas que nossos hermanos tem para oferecer, porque acreditem, são muitas.

10 Comentários:

Solange Baumer dos Reis postou 13 de outubro de 2009 09:27

Na verdade acabam sendo um povo de "maria vai com as outras".
O que as pessoas ainda não entenderam é que nem sempre a maioria está do lado certo!
Quando cada um começar a pensar por sí só e não porque o fulano também acha,talvez consigamos dar valor a algo a mais além desse falso patriotismo disseminado pelos narradores "que se acham"de plantão.

Hilton Neves postou 13 de outubro de 2009 12:03

A Copa '86 me fez ser apaixonado pela Seleção Argentina. Indizível o que vi Don Diego jogar.
Qd se fala em politização a terra deles dá um banho na nossa. E acho tbem o unif. arg. 493 vzs mais belo que o da Selenike.

Mais pessoas deviam ler seu post.
Ele contribui pra geral refletir sobre quão forçada é a barra pelas equipes de narração. Há um risco dessa ex-rivalidade sadia ser levada a outras áreas.

Lucas Goulart Ferreira postou 13 de outubro de 2009 13:31

Parabéns, uma belíssimo post, pensei que jamais haveria alguém brasileiro que reconhecesse a humanidade do povo argentino. Sou brasileiro, mas nasci na fronteira com o Uruguai, logo tive muito contato com a língua e costumes castelhanos. Assim que vi a seleção da Argentina jogando pela primeira vez, me apaixonei pela garra, raça e vontade de vencer cada partida como se fosse a final do campeonato. Muitos amigos zoam, tiram sarro, mas tenho muito orgulho de ser um torcedor fiel da Argentina, não por causa das vitórias ou triunfos, mas sim, por apenas ser o time da seleção da Argentina. O que você disse sobre as recepções calorosas a seleção, estive presente quando a Argentina chegou em Buenos Aires em 2002, Gabriel Batistuta estava se aposentando dos gramados e quando perguntado sobre provável arrependimento disse: "Essa é a melhor torcida do mundo, após cada vitória, após cada derrota a recepção é a mesma. Me aposento dos gramados com a certeza da missão cumprida."

DIMORAES postou 13 de outubro de 2009 13:40

Acho que rivalidade só deve ser mantida no esporte, maltratar turista qualquer que seja é crime, deveria ter uma punição grave, pra isso, turistas trazem grana e mantém o emprego de muitas pessoas.
VIVA O TURISMO, RECEBA BEM O TURISTA.

Ricardo postou 13 de outubro de 2009 19:36

Concordo plenamente. Os argentinos adoram os brasileiros! A rivalidade real só está nos gramados.

Wagner Bordin postou 13 de outubro de 2009 19:52

Parabéns.
Sou Wagner Bordin, jornalista, editor di Site Futebol Portenho. Já estive em Buenos Aires algumas vezes e concordo com exatemente tudo.
Parabéns.

Marise postou 14 de outubro de 2009 03:51

Adoro a Argentina!
Adoro los hermanos, pela caracteristica que você citou: lutam pelos seus direitos, gritam, vão às ruas, fazem panelaço e tiram maus caráter do pode!
Além do mais torço pelo Boca Juniors !
Muito bom!

naosenhor postou 14 de outubro de 2009 13:25

Se essa antipatia por argentino for levada pra fora do âmbito da rivalidade esportiva, vira uma discriminação injustificável.

Isabel postou 21 de outubro de 2009 09:39

Essa rivalidade é uma bobagem. A Argentina tem muitas coisas boas, como alfajor, a Mafalda e os argentinos! :)

Hermanos & Brazucas postou 3 de março de 2010 07:11

Cara, que texto!

Vou usá-lo em meu blog, citando a fonte, claro.

Meu endereço é: http://www.hermanosebrazucas.blogspot.com/

Quando puder, passa lá!

um abraço e parabéns!

 
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