A balada do serial killer

Postado em 29 de abr de 2011 / Por Marcus Vinicius

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"

Quando Antoine de Saint Exupéry escreveu isso, não sei muito bem se ele tinha idéia do que iria acontecer depois. Sim, porque nossas frases deixam de ser nossas a partir do momento em que alguém as escuta e passa a repeti-las por aí, acrescentando a sua própria interpretação.

Parece uma platitude dizer isso, mas pensando bem, se o Caio Fernando Abreu, a Clarice Lispector, Vinícius de Moraes ou o Mário Quintana soubessem o que iriam fazer depois com eles na internet e nos estúdios de tatuagem, talvez até continuassem escrevendo, mas queimassem tudo antes que algum cretino por aí lesse.

E esse negócio de ser eternamente responsável por aquilo que cativamos funciona mais ou menos como dizer que é "pecado provocar desejo e depois negar", já que ambas as frases tiram de alguém o sagrado e voluntário direito de desistir.

Digamos, por exemplo, que o tal ato de cativar independa da vontade do outro. A garota está lanchando e conversando com uma amiga enquanto brinca de morder o canudinho de milk-shake. Confessemos: muitas bronhas por aí tiveram como personagem uma garota com um canudinho na boca.

Mas porque essa menina deveria ser "responsável" pelo onanista que está olhando para ela de longe, escondido atrás de uma pilastra da lanchonete e tirando fotos com o celular para ilustrar a diversão no banheiro mais tarde?

- Sabe o que é? Você vai ter que ir comigo num live action do Pequeno Príncipe no Sábado porque você me cativou e passou a ser eternamente responsável por isso.

Não tem o menor sentido.

Mas tudo bem, o exemplo pode ser exagerado, já que todo mundo pressupõe que a regra da "eterna responsabilidade" só vale se houver em algum momento vontade de ambos.

Ainda assim, porque você deveria estar eternamente preso a um compromisso moral, como se fosse uma espécie de pacto de sangue ou fio de bigode, só porque achou uma guria gostosinha, deu em cima dela, conseguiu sua atenção e, de repente, resolveu desistir de tudo porque percebeu que quando ela sorri faz uma expressão que te lembra um texugo?


Ninguém gosta de rejeição, isso é um fato. Não é que as pessoas não saibam ouvir um "não" como resposta, é que elas não gostam disso e nem querem aceitar esse fato, por isso surgem essas teorias mirabolantes, que de certa forma jogam a responsabilidade - a culpa mesmo - dessa eventual rejeição pra cima dos outros.

Você pode ser linda, inteligente, bem sucedida. Pode ser bonitão, musculoso, esportista. Você pode se achar a última gota de Coca-Cola na Disneylandia ou o mamilo direito da Megan Fox, mas não é por causa disso que alguém vai ter que achar o mesmo.

A pessoa pode até te achar legal, gente boa, hálito OK, mas não pro que você quer que ela te ache, entende? Você quer ser amigo, ela só te quer como colega. Você acha que ela é a sua cara-metade, ela só te acha gente boa (e meio cara de cu).

Se quando um não quer, dois não brigam, nesse caso tem quem acredite que quando um não quer, basta que o outro tente sem parar até que o outro queira também, só que não funciona assim, tudo tem limite.

Coragem e sabedoria mesmo é saber a hora de parar. Pra tentar a mesma coisa repetidamente basta que você tenha um id criado a leite com pêra e o super-ego preso numa gaiola. Em outras palavras, você vai ser só um chato sem limite, nada mais.

E muitas vezes é justamente isso que a repetição de frases assim contraria, porque já que o outro é "responsável pelo que cativa", bem, você não será responsável por nada que fizer.

Desde passar a noite na frente da portaria do prédio da sua ex-namorada, até invadir o computador da sua professora de espanhol, passando por sempre andar com um binóculo na mochila, viver "esbarrando" sem querer em alguém que mora do outro lado da cidade e nem por mandar um peixe embrulhado num jornal pro sujeitinho da academia que está dando em cima daquela loirinha que você anda de olho.

Só consigo lembrar daqueles filmes sobre fãs que sequestram algum famoso e prendem num porão, alimentando-o com pizzas passadas por baixo da porta e se considerando traídos porque o objeto do desejo não se mostra muito interessado por aquele tratamento VIP.

O que me leva a concluir que antes de se tornar responsável, tome muito cuidado com aquilo que você cativa, principalmente se for um serial killer.

3 Comentários:

Ale999 postou 29 de abril de 2011 12:13

lgal cara. curti.

LucianaArruda postou 30 de abril de 2011 06:40

oi! vim conhecer teus textos e gostei muito, desse em especial! lembrei que há algum tempo eu tbm escrevi algo parecido em meu blog - sobre essa frase. que bacana! se quiser espiar o link é esse: http://bit.ly/lcwAhR sucesso pra vc, voltarei mais vezes!
:)

Maysa postou 2 de maio de 2011 09:08

"É preciso que eu suporte duas ou três lagartas, se eu quiser conhecer as borboletas..." "Foi o tempo que dedicastes à tua rosa que fez tua rosa tão importante..." "A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar..." "Agente só conhece bem as coisas que cativou..."

Marcus,
se analisarmos bem o que Antoine disse, saberemos com certeza, que ele somente nos lembrou de não ficarmos na superficialidade e dedicarmos um pouco mais: tarefa dificílima para nós, seres humanos!
Bjs
Angela Vieira

 
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