Che Guevara da Radio Shack

Postado em 28 de abr de 2011 / Por Marcus Vinicius

A última causa dos revolucionários do monitor LCD é a briga por um "preço justo" das coisas.

O manifesto do tal movimento diz que "se a geração Coca-Cola esperava uma oportunidade para começar a se unir, ela chegou agora". Eles talvez esqueçam que estão um pouco atrasados, pois o que o Renato Russo chamava de Geração Coca-Cola viveu lá pelos anos 80 e hoje é composta por senhores de meia idade.

Mas até aí tudo bem, quem nunca quis fazer parte dos Anos Dourados, dos Anos Rebeldes ou dos Anos 80?

O que importa é o objetivo da ação, e o foco do movimento pelo "preço justo" são os impostos leoninos que o governo cobra (verdade), os serviços de nível paquistanês que oferece (outra verdade), o gigantesco grau de corrupção do país (mais uma verdade), os salários baixos do brasileiro (e tome verdades) e os preços exorbitantes do iPad (pera aí, como é que é?).

Sim, o preço do iPad, iPhone, iPod, etc, etc. Antes que você me pergunte, não, não acho que isso seja patrocinado pela Apple, mas vamos em frente.

O escolhido para ser "garoto-propaganda" da iniciativa foi o vlogueiro Felipe Neto, que é uma espécie de babaca de estimação da turma do Twitter. Se você der uma pesquisada será fácil descobrir quem é a figura, mas se quiser um resumo aí vai: ele é mais ou menos como aquele garoto do seu prédio-escola-academia que acha que sabe mais do que realmente sabe e que tem como grande talento um penteado diferente e saber falar "Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose" arrotando.

Só que ao invés de arrotar no playground ele fez isso na internet, uma agência caça-talentos (tipo essas que fazem vestibular pra Big Brother) o caçou, ele teve milhões de visitas no YouTube falando mal do Restart, do Fiuk, da saga Crepúsculo, de modinhas e finalmente conseguiu um programa numa TV a cabo onde aparece vestido de frango.

Mas deixando de lado minha simpatia pelo Felipe Neto, eu acho que os impostos no Brasil são realmente enormes, que a corrupção é insuportável, que os serviços públicos são dignos de um navio negreiro (posso dizer isso sem me chamarem de racista?), que os salários são uma vergonha e que o preço de tudo é exorbitantemente alto.

Basta ver que os de bens de consumo e alimentos quase no mundo inteiro são mais baratos do que no Brasil, com exceção do Guaraná Jesus, da jaboticaba e do berimbau. Um automóvel que nos EUA custa 27 mil reais aqui sai por 62 mil. Tudo por conta de impostos. Cobrados por esse poder público que nós temos.

Ora, se eu mesmo concordo com isso tudo porque então estou ensaiando uma crítica ao movimento? Só porque tenho inveja do sucesso e do par de óculos escuros do Felipe Neto? Porque desejo o lugar dele? Ou porque adoraria ter meu belo rosto estampado em pontos de ônibus anunciando cursinhos de inglês?


Bem, daqui do meu grotão da internet, falando pra meia dúzia de três ou quatro, isso é irrelevante, pra usar a palavra que a meritocracia internética adora. O que eu digo pouco importa para alguém além de mim mesmo e mais um ou outro que me acompanhe. Por isso, sério, esqueça essa suposição.

Mas o que seria então? Teria me convertido num esquerdista de boutique, desses que usam camiseta da Cavalera com a foice e o martelo e quero criticar as ambições pequeno-burguesas de quem deseja possuir um tablet ao invés de se preocupar com o preço da chã de dentro?

Não. Acho que cinema, DVD, aparelhos eletrônicos e toda a futilidade do mundo é muito mais salutar do que comer feijão com farinha e ir pra fila do posto de saúde curar a barriga d'água dos filhos. Sou capitalista, liberal, consumista assumido (pena que minha conta bancária não me acompanhe nessa) e acho que a burguesia fede, mas usa perfume francês e fica tudo certo.

A melhor coisa que poderia acontecer ao "povão" seria deixar de ser povão. Por isso, sim, iPads para todos!

Só que (eu não ia escrever isso tudo só pra concordar no final, né?) já existem iniciativas no sentido de cobrar uma diminuição da carga tributária por aí.

Tem o Impostômetro (até citado no manifesto do Preço Justo) , o Dia sem Imposto e até mesmo essa turma mais "nerd" já faz algo parecido, que é o Jogo Justo. Enfim, o que não falta é gente falando do assunto.

Porque então não se unir a algo que já existe, não engrossar fileiras do que já está em campo? Simples: promoção.

Até mesmo um observador desatento vai perceber que o site do Preço Justo está hospedado num portal maior, o Brasil 247, que lançou uma revista para...iPad! Você sabia o que era o Brasil 247 até agora? Nem eu. Descobri por causa do Preço Justo. Faça as contas.

Para o Felipe Neto também não foi nada mal, pois ele andava meio sem assunto, afinal de contas iria falar mal do que agora para gerar buzz? Das ararinhas do Rio? E é claro que é muito melhor para a imagem estar associado à luta contra os impostos do que à alergia que o Robert Pattinson, ídolo das adolescentes que adoram aquele vampiro fashion week do Crepúsculo, tem das partes íntimas femininas.

Revolucionário de internet quer é usar uma tag no Twitter, colocar uma mensagem na foto do perfil e ir fazer suas compras na Apple Store em paz. Ninguém está muito interessado em fazer nada de verdade, o que vale é a falação que isso origina.

Portanto, nada contra uma luta por menos impostos no Brasil, mas tudo contra essa discussão séria virar objeto de promoção de A, B ou C. Que os Che Guevaras da Radio Shack queiram entrar na conversa é muito bom, é excelente, mas que tal fazerem isso seriamente? Essa é uma causa justa, não precisa de ninguém pendurado nela só querendo aparecer.

Tag no Twitter, petição online e um media whore como garoto propaganda, bem, isso é que não faz o menor sentido.

5 Comentários:

Jordana Oliveira postou 27 de abril de 2011 21:39

Bah, gosto do Felipe Neto. Mas, de maneira inteligente, tu me mostrasse um outro lado da história. Valeu mesmo

Luiz Fernando postou 28 de abril de 2011 13:02

Não adianta nada querer brigar por impostos menores se, entra eleição e sai eleição, são eleitos sempre os mesmos safados, que nunca mostraram um pingo de comprometimento com um ajuste fiscal.

Mudança de verdade é muito mais do que essa molecada quer, mas dá muito trabalho e não dá desconto na loja.

Biblioteca Anísio Teixeira postou 28 de abril de 2011 13:28

haha
Verdade Pura!

Amanda postou 30 de abril de 2011 19:01

Um amigo me chamou a atenção pro seguinte fato: essa Brasil 247 tem uma coluna do Delúbio Soares. No mínimo, curioso e contraditório.

mvsmotta postou 30 de abril de 2011 19:03

Amanda,

Essa passou batida até por mim, pra você ver como o negócio está longe de ser uma "revolução espontânea".

Bjs

Marcus

 
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